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quinta-feira, 31 de maio de 2018

Standards. Standards

O significado do que é standard não está circunscrito aos velhos clássicos do cancioneiro americano compostos desde o início do século 20. Há porém um ciclo de ouro da música americana em que brilharam os nomes de Oscar Hammerstein II e Lorenz Hart, Johnny Mercer, Gus Kahn, Sammy Cahn, Harry Warren e muitos outros. Convencionou-se chamar de “standards” canções que se popularizaram-se por serem gravadas por muitos intérpretes diferentes. São aquelas que, usando um termo brasileiro, viraram “carne de vaca”, mas é bom frisar que, ao contrário do que nos leva a crer, são carnes de primeiríssima qualidade, ou melhor dito, o filé mignon da música.

Os standards fizeram parte do repertório de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Billie Holiday, Mel Tormé, Bing Crosby, Tony Bennett. E, por que não de cantores da atualidade, não apenas no universo do jazz. O inglês Seal é um dos mais recentes, comentado há algumas semanas nesse blog. Não será o último, com certeza.

Pops cantam standards
O problema é que álbuns de cantores pop gravando standards acontecem quando, aparentemente, esses intérpretes estão em um momento de refluxo criativo. Seal é um exemplo e, mais que ele Rod Stewart. O inglês, ex-coveiro que ganhou notoriedade por sua voz original, que segundo alguns, lá no começo da carreira, foi comparada a de uma taquara rachada, tempos depois de chegar ao sucesso popular, esgotado criativamente, gravou um “great american songbook”, em 2002, não parou mais de explorar o filão.

Mas antes dele, sem o mesmo problema, gravaram álbuns com standards que viraram um “standard dos standards”. É o caso do LP “Stardust”, de Willie Nelson, de 1979. Sem fugir do estilo que o consagrou, a country music, gravou, além da música título, outros clássicos como “Blue Skies”, “Georgia on My Mind”, All of Me”, “Moonlight in Vermont”, “Someone to Watch Over Me”, “Don’t Get Around Much Anymore”, dentre outros. Duke Ellington, George Gershwin, Irving Berlin, só filé.

Ouça a música título.




Ouça “Unchained Melody”.




 Cerca de dois anos depois, foi a vez de Carly Simon lançar “Torch” (Elektra, 1981). Quando nem era moda, a ex-mulher de James Taylor lançou um álbum repleto de temas dor-de-cotovelo, como “Body and Soul”, “Not a Day Goes By” e, dentro do espírito, “From the Heart”, de sua lavra, excepcional e emocionante. Como Stewart, gravou outros álbuns com standards, com muito mais competência, porém.

Ouça.




Veja Carly em “Hurt”, de Jimmie Crane e Al Jacobs. Desculpe a frivolidade, mas aquela boca da filha de Richard Simon, um dos donos da editora Simon & Schuster, me levava à pensamentos inconfessáveis.





Ferry, o rei
Desde quando passou a gravar álbuns sob seu nome, ainda membro da banda Roxy Music, Bryan Ferry revelava uma face retrô, voltado a grandes standards e clássicos do rhythm’n’blues dos anos 1950e 60. O título de seu primeiro solo, “These Foolish Things”, nome da famosa composição dos ingleses Jack Strachey e Eric Maschwitz, é um sinal desse seu olhar. Nos seguintes, gravou standards como“What a Wonderful World” e “You Go to My Head”.

O primeiro, mais focado no gênero, foi “As Time Goes By” (Virgin, 1999). Contém clássicos como “Easy Living”, “The Way You Look Tonight”, “Where or When”, “You Do Something to Me”, “September Song”, “Miss Otis Regrets”, dentre outras. Tanto na Roxy Music e em seus álbuns solo, mostra que é um músico diferenciado. Possui um conceito de som que o diferencia de quase tudo o que se conhece como música pop. Sua capacidade de inventar sonoridades únicas é o que faz de “Boys and Girls” e “Bête Noire”, álbuns imediatamente posteriores ao fim do Roxy Music, serem consagrados. Quando resolveu encarar o repertório dos standards não foi diferente. Suas concepções orquestrais não têm qualquer relação com os de um Nelson Riddle ou Billy May. É absolutamente original.

Ouça “Where or When”.




Em 2012, Ferry, sempre genial, lançou “The Jazz Age”. Ao contrário do que se imagina, não voltou aos standards. Original, como sempre, pegou treze de suas composições da época do Roxy Music e dos solos e “vestiu-os” com a sonoridade da era do jazz. Ideia genial.

Ouça “Avalon”.




Ouça “Do the Strand”.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Não fume na cama com kd lang

Aparentemente, lang não fuma
Uma das minhas canções favoritas é Don’t Smoke in Bed. Esse texto é antigo e foi publicado no blogue do Paulo Moreira Leite, quando era chefe da sucursal de Brasília da revista Época, portanto, há um bom tempo. Lembrei-me da música ao ver uma foto de Marilyn Monroe fumando na cama (veja a foto no fim do post). Fiz alguns acréscimos como, por exemplo, a de Nina Simone.


A cruzada de José Serra contra fumar em locais fechados, transformada em lei, junto com a possibilidade de multa e cadeia por dirigir alcoolizado resultou em grandes mudanças em São Paulo. Isso muda a paisagem, com pessoas andando nas ruas com cigarros na mão, braços para fora dos carros com aqueles tocos brancos fumegantes, pequenas aglomerações na frente de prédios comerciais. Sem tomar partido e saindo do real e entrando um pouco na fantasia, que belas imagens o cigarro nos deu no cinema! Cenas inesquecíveis de Humphrey Bogart com o cigarro pendurado no canto da boca, belas mulheres segurando-o sensualmente suas piteiras e aqueles desenhos sinuosos que as cinzas construiam de encontro com a luz e fundos escuros. Era um “chiaroscuro” muito diferente das que vemos nas pinturas renascentistas de um Caravaggio ou de um Rembrandt. A fumaça é o elemento de contraste, por excelência, dos filmes “noir” dos anos 1950.

A cantora kd lang não está no meu panteão de cantoras, certamente. No entanto é autora de versões definitivas de algumas músicas, principalmente daquelas que foram cantadas por outras: comparações são um bom parâmetro de avaliação. Na minha opinião, não existe melhor versão de Don’t Smoke in Bed, um clássico das “torch songs”, composta por Willard Robison. A dramaticidade com o que ela canta é do tamanho da dor que a letra passa. Na hora em que canta “don’t look for me / I’ll get a hand / Remember darling / Don’t smoke in bed”, arrepia. Cometo a imprudência de dizer que sua versão é melhor do que a de Nina Simone. A letra é um primor do abandono simbolizado pelo anel de casamento deixado e pela advertência: “não fume na cama” (reproduzo a letra no fim do texto). Outras conhecidas são cantadas por gente do calibre de Julie London, Peggy Lee, e das “modernas” Holly Cole, Patti Smith e Carly Simon, de quem falo mais adiante.

Simon, vestida para matar
Todas as canções de Drag referem-se ao cigarro. É uma espécie de “disco-conceito”, como é também o pioneiro álbum Only the Lonely, de Frank Sinatra. A capa é uma grande sacada: é kd, meio andrógina, vestida com um um costume masculino em pose de quem segura um cigarro, mas sem ele.

Outra versão que, se não é definitiva, está entre as melhores – e olhe que existem centenas ou até milhares de registros dela –, é a de So in Love, contida no dvd e cd Red, Hot + Blue, gravado em prol das pesquisas para a cura da Aids. Com algum esforço, ainda é possível encontrar o dvd, que tem vários clássicos da música americana dirigidos por gente como Wim Wenders, Percy Adlon, Jim Jarmusch e Neil Jordan e interpretados por David Byrne, Aztec Camera, Sinead O’Connor, Debbie Harry, Tom Waits, U2 e Annie Lennox. Não é pouco. Outro cd de lang, Hymns of the 49th Parallel, contém apenas canções de seus conterrâneos canadenses Neil Young, Leonard Cohen, Jane Siberry e Joni Mitchell. A Case of You, de Mitchell, Helpless, de Young e Hallelujah, de Cohen, valem uma atenciosa audição.

Quase tão bom quanto o registro de kd lang de Don’t Smoke… é o de Carly Simon. Nessa onda que se torna maçante, que é a de se gravar álbuns com clássicos americanos – Rod Stewart parece ter esquecido que é um cantor pop e, pensando na grana, gravou vários cds após o sucesso de sua primeira investida no gênero –, uma das primeiras cantoras do universo pop a embarcar nessa ideia foi ela. Torch, gravado em 1981 pela Warner Bros Records, possui preciosidades como I’ll Be Around (Alec Wilder), de 1942, o clássico ellingtoniano, I Got It Bad and That Ain’t Good, de 1941, I Get Along without You Very Well (Hoagy Carmichael), de 1939, Spring Is Here (Rodgers & Hart), de 1938, e Body and Soul (Heyman, Sour, Eyton e Green), de 1930, além de músicas da década de 1950 como Pretty Strange (Jon Hendricks e Randy Weston) e Not a Day Goes By (Stephen Sondheim), da década de 1980. Numa roupagem que pode assustar os mais empedernidos fãs de jazz, com arranjos de Mike Manieri, que toca marimba em algumas faixas e Warren Bernhardt no piano elétrico e sintetizadores, mesmo assim, agrada aos ouvidos de bom gosto. Tudo bem, tem o sax alto chatinho de David Sanborn, mas, em contrapartida, tem o do brilhante Phil Woods. Torch, como como nos induz o título, é um disco de dor de cotovelo e de corno, como as músicas rodrigueanas – refiro-me a Lupicínio e não ao grande dramaturgo Nelson Rodrigues. Bem nesse espírito, a composição da própria, From the Heart, é uma peça que merece estar no repertório desse gênero. Amigão, se você não se emocionar com essa música, corra para o seu psiquiatra, pois você está arriscado a estar sofrendo de palidez afetiva.

Além de Torch, não sei se por motivos comerciais ou emocionais, gravou mais um álbum com conceito semelhante: Film Noir, em 1997, pela Arista. Pelo título já dá para desconfiar. O clima do disco remete à fatal Gilda – “nunca houve uma mulher como Gilda” – a Lauren Bacall, a Humphrey Bogart e seu indefectível – já que o título se refere a ele – cigarro, à cara “feia” de Robert Mitchum surgindo das trevas e aos heróis amargurados e atormentados do cinema “noir”, estilo que dominou os anos pós-Segunda Guerra. No CD estão presentes a música tema do filme Laura, protagonizado pela inesquecível Gene Tierney e dirigido por Otto Preminger, o clássico alemão desse período, Lili Marlene e I’m a Fool to Want You, música símbolo de “dores de amores” e que se encaixa bem à fase em que Frank Sinatra viveu a perda de Ava Gardner; esta música está em Where Are You?, que com Only the Lonely, são daqueles discos para ouvir e sentar na sarjeta ou recostar-se no poste e chorar convulsivamente.

Para quem se interessar, transcrevo a letra de Don’t Smoke in Bed:

I left a note on his dresser
And my old wedding ring
With these few goodbye words
How can I sing
Goodbye old sleepy head
I’m packing you in like I said


Take care of everything
I’m leaving my wedding ring
Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed


Don’t look for me
I’ll get a hand
Remember darling
Don’t smoke in bed

Veja kd lang cantando Don’t Smoke in Bed, em 2001, no programa de Jools Holland. Preste atenção no piano. Muito bom.




Carly Simon canta Don’t Smoke in Bed




Ouça também a de Nina Simone, considerada por seus fervorosos fãs, a melhor. Eu discordo. kd lang é imbatível.




A inesquecível Marilyn na cama… fumando.