sexta-feira, 3 de junho de 2011

O estranho e belo em Judith Berkson

Judith Berkson pelas lentes de Luca D’Agostino
Estranho mesmo é como Judith interpreta All of You, de Cole Porter; não menos estranho é outro standard – They Can’t Take That Away from Me, dos irmãos Gershwin. Judith, com densa franja que se interrompe abrupta e ortogonalmente a um centímetro da linha bem delineada das sombrancelhas, lembra outra “J” – Juliette Lewis –, olhando-se as cinco fotos do encarte de Oylam, lançado em 2010, pela alemã ECM Records.

Os ouvidos acostumados a escutar clássicos de Porter, Gershwin, Rodgers & Hart & Cia. aceitam aliterações e variações sobre temas tão repetidos por milhares de intérpretes, mas essa de Berkson é estranha, muito estranha. Aliás, o álbum foge de qualquer lugar comum. Em sua originalidade, pode-se especular se ser original implica qualidade; não necessariamente, suponho. Berkson, no entanto, chamou atenção de Manfred Eicher. É mais uma cantora “estranha” que o alemão produz, além de Susanne Abbuehl, Meredith Monk, a alemã de origem iraniana Cymin Samawatie, Karin Krog e Sidsel Endresen. Dessas, Krog deve ser a mais conhecida.

Bela capa a de Oylam
É, meus ouvidos não se acostumaram à forma que interpreta standards, se bem que tenham achado seu All of You (Cole Porter) bem interessante. Não faço exatamente o tipo conservador, contra as “diferenças”. Faço distinções do “diferente” e não me furto a ouvi-los. Ser diferente é uma forma de se destacar, naturalmente. Um sujeito com as barbas pintadas de verde chama a atenção, não? É um pouco o caso de Berkson. Não é uma grande tecladista, mas varia entre o piano e o órgão Hammond, passando pelo Wurlitzer e o Fender Rhodes, tentando criar sons especiais. Não é uma vocalista no sentido em que eram Sarah Vaughan e Carmen McRae. Como seus dotes não são tão especiais, busca uma outra qualidade. Berkson tem uma tendência – que não é nem um pouco original – de compor os vocais e acompanhá-la nos teclados com a mesma linha melódica.

Bom, parece que Judith Berkson não tem nada a apresentar. Não é isso exatamente. Está certo que Manfred Eicher deve ter visto mais qualidades do que eu vi nessa performer. Nesse caminho de ser diferente, no entanto, às vezes, surpreende, e bem. Seu Der Leiermann, de Schubert (leia e ouça este lied em http://bit.ly/mAuoiX), em que se acompanha no piano elétrico não compromete a reputação de Franz Schubert. Ouça Ahavas Oylam. Que beleza!


A versão do disco é muito melhor do que a disponível no youtbe. Mas, por curiosidade, veja.





quarta-feira, 1 de junho de 2011

Quem resiste à Carla Bruni?

Carla Bruni por Karl Lagerfeld
A ligação com a música de Carla Bruni vem de longe. Conta-se que namorou Eric Clapton e Mick Jagger. É um background para ninguém botar defeito. Apesar de alguns clamores em contrário, não há como negar certo charme da primeira dama da França cantando. A voz suave que entoa versos em francês, inglês e italiano é irresistível se nos despojarmos de certos preconceitos contra modelos cantoras. Ou devemos concordar com as diatribes verbais de Ed Motta quanto a beleza x talento. Pelo Facebook desancou a bela Paula Toller e disse que, para fazer sucesso, a beleza é fundamental, caso contrário, tem que ser uma Sarah Vaughan.

É evidente que Carla Bruni, desde o início da carreira como cantora, foi “vendida” como um produto. Seu disco de estreia é muito benfeito e foi planejado para explorar seu lado conhecido, ou seja, o de top model. E veja, contemporânea de Claudia Schiffer, Naomi Campbell e Kate Moss. Quelqu’un m’a dit (2002) é bem-cuidado sob todos os aspectos. Não é um CD qualquer. No encarte de capa dura, temos várias imagens de Bruni posando só ou com um solitário violão. E ela não é simplesmente intérprete: compôs a maioria das músicas, não apenas como letrista. Está certo que influiram no resultado a produção e arranjos do músico Louis Bertignac. Há um DVD de bônus com vídeos dirigidos pelo cineasta Louis Carax. Não é para qualquer uma ter o autor de Mauvais Sang ao lado.

Como se não bastasse, em No Promises, lançado em 2007, tem como parceiros W.H. Auden, Emily Dickinson, William Butler Yeats e Dorothy Parker. Nenhum deles está vivo para reclamar. Seria um bom exercício de adivinhação se teriam ficado felizes ou não. Novamente, o CD tem uma produção impecável graficamente. As páginas brancas são maculadas por desenhos a traço com motivos florais, e a tipografia de traços finos: é um primor de bom gosto. As imagens internas também são belíssimas: sobre a mesa, como uma natureza-morta, repousa um vaso com rosas. O lado frívolo, digamos, é a capa com Carla Bruni, vestida apenas com uma camisola, absorta na leitura de um livro seguro por uma das mãos e apoiado sobre suas pernas nuas. Musicalmente, o disco é bem mais fraco do que o primeiro; e soa um pouco pretensioso musicar escritores tão consagrados.

Lançou depois, se não me engano mais um disco, mas meu interesse bastou pelas duas amostras. Bom, mas ela não é uma Carla qualquer. Mais do que isso: virou mulher do presidente Sarkozy. Ela pode, como diriam alguns. E agora vai ser mãe.

Obs: a imagem de Carla Bruni foi publicada na revista Black + White (nº 32. Australia, agosto de 1998)

Bruni em ação.

terça-feira, 31 de maio de 2011

A morte precoce de Gil Scott-Heron

O título I’m New Here é ótimo. Serve como comentário de um grande intérprete que andou desaparecido e esquecido por muitos anos. “Desaparecido” por ter sido, em 2001, condenado a três anos de prisão por posse de cocaína. Foi solto em 2002, mas em 2006 foi novamente condenado de dois a quatro anos a serem cumpridos na New York State Prison por ter fugido do Centro de Reabilitação de Drogados.

Gil Scott-Heron continua fumando
Parece barra-pesada, não? Esse destino, no entanto, não foi exclusividade de Gil. Vários músicos passaram alguns anos no xilindró pelas mesmas razões: Joe Pass, Art Pepper, Hampton Hawes, dentre outros (todos músicos de jazz). Notícias sobre os descaminhos de músicos atuais como Amy Winehouse, Britney Spears e Pete Doherty, do Libertines, estampam os jornais e sites. Há uma conexão da droga com a música que é atávica. A arte, por si, é subversiva, e andar “fora da linha” faz parte.

Não são poucos os que se recuperaram e puderam continuar a contribuir para a arte da música. Joe Pass, Hawes e Art Pepper, depois de saírem da cadeia, levaram suas carreiras adiante. No rock, Eric Clapton é o exemplo melhor de que, “limpos”, não perderam a veia criativa. Alguns, mesmo continuando a tocar, tornaram-se “farrapos humanos”, apesar de alguns lampejos esporádicos de criatividade, como o trumpetista Chet Baker. Outros foram ceifados por acidentes de percurso e morreram relativamente jovens, caso de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Charlie Parker.

Aparentemente, Scott-Heron continua tão bom quanto antes. Seu recente I’m New Here é um petardo. Curto e grosso: em trinta e poucos minutos – essa é a duração do disco – mostra serviço. Além do título irônico do CD, aparece fumando um cigarro na capa. Isso que é atitude! Num universo tão politicamente correto, é incorreto ser visto fumando. Gil continua a desafiar o establishment. Ser usuário de drogas é um desafio ao establishment na medida em que é proibido por lei o seu consumo. Por isso, esteve preso. Mas, vejam, eu fumo, e ninguém tem nada a ver com isso. O poeta e músico, ao engajar-se na luta pelos direitos dos afro-descendentes, nos anos 1960, por justiça, desafiava um poder estabelecido.

Esse conceito do que é politicamente correto é uma coisa um tanto nebulosa. Não se deve chamar o negro de negro ou crioulo, não é correto vestir-se com peles de animais em extinção, mas ser desleal com seus pares, desrespeito pelo próximo e sociopatia não estão entre os comportamentos “incorretos”. Quando acontece uma catástrofe como a das mortes causadas pelas chuvas na região serrana do Rio, entre o fim do ano e início de 2011, acontece uma corrente de solidariedade com doações e corações sensibilizados pela desgraça alheia ou pelo cão que fica sem dono, e com isso, É um modo bem particular de sentir-se em paz fazendo o bem ao próximo que está bem distante. Ao próximo que está perto, vale xingá-lo, maltratá-lo etc. Por essas e outras, é bem discutível estabelecer o que é certo e o que é errado. Basta lembrar que Hitler tinha pendores artísticos – pintava –, gostava de animais e era vegetariano. Havia uma boa dose de correção política nessas ações.

Ouça I’ll Take Care of You, composição original de Brook Benton. Lindíssima.




Ouça I’m New Here.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A voz de Schubert no violoncelo

Maisky em ação
Alguns instrumentos aproximam-se muito da voz humana. O violoncelo é um. Um dos virtuoses atuais desse instrumento, Mischa Maisky, gravou um álbum genial, até por sua originalidade, substituindo a voz humana pelo cello, mantendo o piano de alguns lieder de Franz Schubert.

Mischa Maisky nasceu em Riga, Letônia à época em que esse país fazia parte da União Soviética. Teve aulas com Mstislav Rostropovich e, de origem judaica, em razão de problemas políticos ficou preso num campo de trabalhos forçados por dezoito meses. Solto, emigrou para Israel, trocou de nacionalidade, e assim pôde despontar para o mundo ocidental como um dos maiores solistas da atualidade junto de Yo-Yo Ma, Lynn Harrell e Antonio Meneses. Gravou sempre pela Deutsche Grammophon, ainda hoje, o maior selo de música erudita.

Não conhecia o disco Songs Without Words, gravado em 1996, acompanhado da pianista Daria Horova. Esse título é o mesmo de uma peça de Felix Mendelssohn. Minha curiosidade veio daí. Por saber que Schubert nunca tinha composto alguma peça com o mesmo nome e por ser um dos meus compositores preferidos, especialmente pelas canções (lieder), peças de piano e música de câmera, nessa ordem.

A música que abre o CD é a Sonata para arpeggione e piano em lá menor, D 821. O restante são das “canções sem palavras”. O conceito é simples: mantêm-se as linhas do piano e substitui-se a voz pelo violoncelo. O resultado é surpreendentemente belo.

Disponibilizo para audição – e se você quiser, pode fazer o download clicando em “share” da barra do divshare – Der Leiermann D 911 nº. 11, o último lied do ciclo Winterreise. Para comparação, disponibilizo também o clássico registro de Dietrich Fischer-Dieskau com o pianista Gerald Moor (Deutsche Grammophon, 1972).

Der Leiermann na voz do barítono Fischer-Dieskau.


Com o cello de Maisky fazendo a “voz” (mesmo lied).