quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O pianista Cedar Walton morre aos 79 anos

Art Blakey e Cedar Walton, à direita
Foi amplamente noticiada a morte de George Duke, com 67 anos. Sobre outros músicos, nem tanto. De Rita Reys, de quem publiquei um post na semana passada, saiu uma notinha, daquelas para preencher espaço. Há poucos dias – 19 de agosto –, faleceu Cedar Walton. Enquanto escrevo (quarta, 21), fico sabendo que Marian McPartland acabou de falecer. Ela, junto com George Shearing, foram as maiores expressões no piano na Grã Bretanha. Tinha 95 anos. De 1979 a 2011 comandou o programa Piano Jazz na National Public Radio, nos EUA. Vários deles foram lançados em disco. São interessantes pelas entrevistas entremeadas com performances de McPartland e os convidados.

Não vi nenhuma nota nos jornais noticiando a morte de Walton. Com Duke foi diferente, quem sabe, por ser bem mais conhecido, o que não significa de maneira nenhuma, que tenha sido mais importante do que Rita e Walton. Mesmo os que nunca ouviram um disco de George Duke o conheciam. Na época em que tocou com Frank Zappa ou com o violinista elétrico Jean-Luc Ponty, saía muita coisa sobre o multitecladista na imprensa especializada. A praia dele era o que chamavam de “fusion”, algo entre o jazz e o pop. Produziu alguns discos da cantora Dianne Reeves, que é jazz, mas trabalhou também com Smokey Robinson, Lyle Lovett e Barry Manilow. O sujeito era eclético.

O negócio de Cedar Walton era jazz mesmo. Teve breve fase “moderninha”, que seja dito, coisa pela qual poucos conseguiram escapar, alvejados pela avalanche do rock. No fim dos anos 1950, foi pianista do Jazztet, de Art Farmer e Benny Golson. Nessa mesma época participou da gravação do antológico Giant Steps, de John Coltrane na música título e em Naima. Foram feitos muitos takes dos mesmos temas. Fizeram parte das sessões, além de Walton, Wynton Kelly e Tommy Flanagan. No LP lançado prevaleceram as músicas com a participação do último. Quando lançaram em formato de CD, incluíram os alternate takes que contaram com Kelly e Walton.

De 1961 a 1964 tocou no Art Blakey’s Jazz Messengers. Por ter tido aprendizado formal de música, tornou-se responsável pelos arranjos também. Como líder, lançou seu primeiro disco – Cedar! – pelo selo Prestige, em 1967. Gravou inúmeros álbuns por selos igualmente prestiados: Muse, Concorde Jazz, Red, Criss Cross e HighNote. Seu último disco foi The Bouncer, em 2011.

Deste CD, ouça a belíssima Lament.


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Veja Cedar Walton interpretando Satin Doll. Esta apresentação está no DVD 100 Gold Fingers, lançado no Japão. Atualmente, não está em catálogo. Os “100 dedos” correspondem às performances de dez pianistas diferentes. Conheço dois volumes apenas. Destacam-se pianistas como John Lewis, Hank Jones, Tommy Flanagan, Roger Kellaway e outros.




Bolivia é uma das composições mais conhecidas de Cedar Walton.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Marcos Valle comemora 50 anos de carreira

Marcos Valle faz 70 anos em setembro
Apesar da face gretada, Marcos Valle continua com pinta de garoto. Muito sol faz coisa. Conservou-se magro – isso ajuda – veste-se com roupas esportivas, e mantém longas madeixas louras, se tingidas ou não, pouco importa; ainda cultiva uma barbichinha que lhe faz ficar parecido com um maduro Buffalo Bill versão sueca. O sol na cabeça, ou no pensamento, deve tê-lo inspirado a compor uma das mais belas músicas do cancioneiro brasileiro: Samba de Verão.

Pois aquele rapaz que compôs Com Mais de Trinta (“Não confie em ninguém com mais de trinta anos/ Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros/ O professor tem mais de trinta conselhos/ Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta”) está prestes a completar 70 anos . Isso lembra When I’m Sixty-Four, de Lennon e McCartney. John está morto. Paul deve rir quando lembra-se de ter escrito que quando tivesse 64 poderia “ser útil consertando um interruptor” ou ver que estaria “perdendo os cabelos”. Bom, se não perdeu, deve tingi-los. Ninguém é perfeito.

Marcos Valle está associado à segunda leva da bossa nova. Em O Compositor e o Cantor Marcos Valle, seu segundo álbum, de 1965, gravou as primeiras músicas que se tornaram clássicos, como Preciso Aprender a Ser Só e Samba de Verão. Essa última foi a porta de entrada – ou o pretexto – no mercado americano. O organista Walter Wanderley alcançou o segundo lugar das paradas gravando-a. Lá foi Marcos tentar a sorte lá. Participou do grupo Brasil ’65, de Sergio Mendes e andou apresentando-se em palcos e em programas televisivos.

Voltou seis meses, ficou um pouco no Brasil e foi de novo. Com o prestígio lá em cima, gravou Brasilance! e depois, Samba ’68 pelo selo mais conhecido do jazz, a Verve. Podia ter ficado por lá, mas os tempos quentes não eram exclusidade de nossas terras. Ficou temeroso de ser convocado pelo exército e ir ao Vietnam. Novamente, aportou por aqui.

Como bom fruto de seu tempo, compôs músicas engajadas. A bossa nova que cantava la dolce vita carioca, suas paisagens, os barquinhos no mar, na sua segunda geração deu lugar a temas de cunho social, influenciados pela conjuntura política. As letras do parceiro e irmão Paulo Sérgio diziam que “A mão que toca um violão / Se for preciso faz a guerra / Mata o mundo, fere a terra / A voz que canta uma canção / Se for preciso canta um hino / Louva à morte”, em Viola Enluarada.

A ditadura militar ficou mais dura com o decreto do AI-5, o Ato Institucional nº 5. A esquerda também radicalizou. A onda sectarista tomou conta e quem se desviava um pouco dos dogmas marxistas era demonizado ou considerado de direita ou alienado, mais ou menos como agora: quem discorda da política do PT é da direita. Muito democraticamente, é proibido discordar. A direita, bom, a direita é a direita; nem é preciso falar.

Na onda e posterior ressaca do endurecimento da ditadura militar, músicos importantes saíram do Brasil. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram para Londres, Chico Buarque foi para a Itália e Geraldo Vandré, para o Chile e depois Alemanha e França. Marcos Valle ficou e, até para refrescar o cérebro, foi surfar. O pé no pop o levou a um caminho mais cosmopolita. O irmão Paulo deixou de fazer letras “engajadas”, mas não se alienou. Não deixou de ser crítico: o foco era o consumismo de um capitalismo eufórico por conta do tal “milagre brasileiro”. Fez muito sucesso, em 1969, Mustang Cor de Sangue. Falava de um carrão americano escarlate e de um Corcel cor de mel. O tal Corcel era um carrinho fabricado pela multinacional Ford.

Aqueles fãs de Viola Enluarada ou do clássico É Preciso Aprender a Ser Só não devem ter entendido nada, e muito menos a esquerda. Os mesmos que vaiaram Sabiá, de Chico Buarque e Antônio Carlos Jobim, pelo fato de deixado Pra Não Dizer Que Deixei de Falar das Flores, de Vandré, em segundo lugar em um dos festivais de música da TV Globo, foram os que não deixaram Caetano Veloso cantar É Proibido Proibir no Tuca, teatro da PUC-São Paulo. Agora, imagine um rapaz louro, bronzeado de praia, cara de garoto zona sul lançando uma música como Mustang Cor de Sangue. Os irmãos Valle deram banana a um nacionalismo anacrônico (até Bbd Dylan foi vaiado quando usou a guitarra elétrica pela primeira vez) e não caíram no conto do “fazer a hora” apregoado por Vandré.

A trajetória rumo ao pop, às experimentações eletrônicas, a uma música mais comercial, frente a uma mídia monolítica e ortodoxa, acabou por comprometer uma real avaliação da importância da obra de Marcos Valle. Consideram-se Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil como os maiores nomes da música brasileira. Mas, com personalidade, discordando-se ou não de sua linha, seguiu fazendo músicas para novelas e programas da rede Globo, para se tocar no rádio e ganhar dinheiro. Para ganhar mais um pouco, fez muitos jingles. Aí, entrou em crise. Voltou para os EUA. Gravou com Sarah Vaughan, trabalhou com Airto Moreira e colaborou com a banda americana Chicago.
 
No início de 1980, voltou e continuou a produzir bastante. Esses discos foram pouco divulgados pela grande imprensa, mas de lá até agora, gravou álbuns muito bons. Um deles, Live in Montreal (2003), foi com o guitarrista argentino radicado no Brasil, Victor Biglione. Os discos Escape (2001) e Jet-Samba (2005) demonstram que ele continua afiado. Alavancado pelos inúmeros eventos comemorativos às efemérides da bossa nova, tem participado de apresentações e gravações. Finalmente, Marcos Valle tem reconhecido seu enorme talento. Novas gerações de intérpretes que ainda usavam fraldas, como Diana Krall, ou nem tanto, como Patricia Barber, ou que nem tinha nascido, como Stacey Kent, gravaram Samba de Verão, um dos grandes clássicos mais gravados fora do Brasil.

Ouça Samba de Verão com seu autor em três versões diferentes: O Compositor e o Cantor (1965), Samba ’68 (1968), e Brasilence! (1966).


Ouça a mesma Samba de Verão com a pouco conhecida e boa intérprete Carol Welsman.

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Marcos Valle continua afiado. Ouça Adams Hotel, do CD Jet-Samba.  

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