Mostrando postagens com marcador Soul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Soul. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Marvin Gaye: trinta anos esta noite

O jovem Marvin Gaye
Nem sempre é bom negócio casar com a irmã do chefe. Vale se for biliardário e o casamento for para a vida inteira. Tanto Berry Gordy, fundador da lendária Motown Records, como Anna, sua irmã, embrenharam-se no negócio da música e se deram bem. Marvin Gaye era um rapaz de 20 anos quando conheceu Anna. Casaram em 1963. Juntando o talento de Gaye, que nasceu Gay e acrescentou o “e”, provavelmente, para que não houvesse alguma confusão com sua heterossexualidade, e a veia empresarial de Berry e a irmã, deu que tornou-se um dos grandes nomes da Motown.

Marvin, filho de Marvin, Senior, um senhor que não era chegado muito ao batente, eventualmente trabalhando de carteiro, era pregador de uma igreja de nome pomposo: The House of God, the Holy Church of the Living God of the Truth, the House of Prayer for All People. A doutrina era uma mistura de judaísmo e fundamentalismo católico. Guardavam os sábados. Gaye dissera uma vez que tinha uma terrível convivência com o pai: “Eu o amava e o adorava. Mas tinha também ressentimento. Brigávamos com unhas e dentes. Além disso, nossa vida era estranha. Éramos os diferentes. Nossa ligação com a Igreja nos separou dos outros.”

Libertando-se do elo familiar, Marvin, que tocava bem piano, só que apenas de ouvido, enveredou pela música e, no começo, chegou a tocar bateria. Ansiava por ser um Frank Sinatra negro. E a vida o desviou desse desejo.

Na Motown, passou a emplacar músicas nas paradas, mas ficava à mercê das diretrizes de Berry Gordy. Mais independente do jugo do chefe, gravou um disco conceitual, hoje considerado um dos melhores de todos os tempos: What’s Going On? Nos dois anos subsequentes lançou Trouble Man e Let’s Get It On. A essa altura, tinha deixado crescer uma barba que lhe maculava o rosto bonitinho que o star system desejava dele e passou a andar de touca. Em What’s Going On era Marvin Gaye inteiro. Era um Marvin diferente, conflituoso; como David Ritz, autor das liner notes do box Marvin Gaye, The Master 1961–1984, escreve: “Após anos de sua morte, sua obra ainda é surpreendentemente fresca, viva, com os conflitos, os medos, a fé, a alegria, o pessimismo, a coragem, a decepção, a raiva, o ciúme, a generosidade – todos os elementos que atraem para o drama de seu romance doce-amargo com o mundo.”

Algo tinha mudado na cabeça de Gaye. Sabia da importância de Anna para a sua carreira, no entanto, casamentos acabam, principalmente quando se misturam negócios e a cama. Marvin era apaixonado por Anna e sabia-se com uma dívida enorme pelo sucesso conquistado. Here, My Dear, um de seus discos menos conhecidos, lançado em 1978, está relacionado à separação, tão relacionado que a ex-mulher o processou por conta dele. Se não é tão bom quanto What’s Going on?, assim mesmo, tem entre as faixas I Met a Little Girl, Anger, Is That Enough, Time to Get It Together e Sparrow, na minha opinião, a melhor.

Ouça.




Depois de Here, My Dear, Gaye estava abusando da cocaína e, quem diria, foi parar no Mauí, ilha próxima ao Havaí. Queria viver no paraíso, bem doidão. Tentou gravar um álbum “disco” (para quem é mais novo, era o ritmo quente, para dançar “y otras cositas más” nas chamadas discotecas). Enrolou-se com problemas fiscais na Grã-Bretanha. Resolveu tentar parar com as drogas. Assinou contrato para gravar na CBS, Sony Music, atualmente.

Quem esperava um Gaye decaído surpreendeu-se com a canção Sexual Healing, parte de Midnight Love (CBS, 1982). Não era mais o mesmo. A sexualidade enrustida em canções melosas, estilo“cantadas no ouvido” ou “mela-cuecas” da época da Motown estavam escancaradas. O clipe é fenomenal. Ganhou prêmios como o Grammy, vendeu muito e foi considerado o melhor cantor pot várias publicações. Gaye era um superstar. Seu problema com a cocaína voltara e estava à toda, speedy, saboreando a vida boa. Mas Marvin era um cara atormentado, no fundo, era o gênio que sabia mais que ninguém lidar – ou transmitir – com a dubiedade entre  a moral rigidamente religiosa e a sexualidade. Era resultado desse confronto interior. Mas essa vida boa foi interrompida com dois tiros. Chegou ao California Hospital Medical Center morto. Os tiros foram dados por Marin Gay, Sr., seu pai. E ironia do destino: morreu com arma que havia dado de presente ao pai em um Natal.

Veja o clipe de Sexual Healing.




Marvin Gaye era um gênio. Anteontem, 1º de abril, fazem 30 anos que morreu. Parece mentira.

O melhor de Marvin Gaye está em What’s Goin’ On? Ouça na íntegra.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Quando Aretha Franklin era princesa

A jovem Aretha
Antes de se tornar a rainha do soul, Aretha Franklin foi princesa. Tinha 18 anos e fora contratada pela Columbia. O repertório era uma mistura de standards consagrados pelo cancioneiro americano e canções que caberiam mais no gosto popular: um pouco parecido com o que Dinah Washington estava fazendo até antes de morrer, em 1963. Mas o caminho de Aretha seria sedimentado em repertório um pouco diverso, deixando de lado um lado mais jazz. Depois que passou a gravar pela Atlantic, explodiu, emplacando sucessos definitivos como Respect (que foi gravada por Otis Redding também), (You Make Me Feel Like) A Natural Woman e Chain of Fools.

Em anos formativos ainda, era uma princesa de voz única. Essa lembrança dessa, ainda mocinha, ressurgiu na bela interpretação de Try a Little Tenderness, que fora antes cantada por Frank Sinatra e tornou-se definitiva com Otis Redding (às vezes, penso que não deveria ser cantada por mais ninguém, muito menos por Michael Bublé).




quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Antes Amy Winehouse vem Janelle Monáe

Estilo é o que não falta à moça
Em 15 de janeiro realiza-se o Summer Soul Festival, em São Paulo. A atração principal é Amy Winehouse. Apresenta-se também em Florianópolis, Rio de Janeiro e no Recife. Abrem o show para a estrela sempre presente nos noticiários –menos por sua música, e mais por conta de excessos e  namorados problemáticos – Janelle Monáe e Mayer Hawthorne.

Onde ambos estiverem com a estrela maior, estará garantida satisfação em dobro, no mínimo; digo por Janelle Monáe (pronuncia-se Janél Mônei). Saiu, inclusive, em alguns veículos que Amy não gostou nem um pouco quando soube que Janelle abriria seus shows.

A capa do primeiro CD da americana, lançado no Brasil, por si, atrai a curiosidade do mais desavisado. Vestida com uma “coisa” na cabeça, que lembra o filme Metrópolis (clássico de 1927, direção de Fritz Lang), chama-se ArchAndroid. Abaixo de seu nome, na capa, está grafado Suites II and III (a Suite I é Metropolis, seu primeiro CD).

A abertura (Suite Overture II) é um arranjo orquestral grandioso, inspirado no 2º Concerto de Piano e Orquestra de Rachmaninoff, e precede uma música “funkeada” “serial” (Dance or Die, Faster, Locked Inside), que vai mudando de clima em seu decorrer. Monáe é classuda e usa um topete enorme que ascende em sua cabeça. Tem rosto de menina, é afinada e, pelo jeito, cercada de bons produtores. Sir Greendown, a quinta, é uma música climática, meio entorpecedora. Aí, esquenta com um vibrante Cold War e Tightrope, com uma batida que lembra Outkast (Big Boi participa dessa faixa e coproduz).

O subtítulo Suites II e III explicita o conceito do CD. É um disco que se inspira em figuras díspares como Tim Burton, Star Wars, bombas atômicas, saraivadas de socos de Muhammad Ali, Fantasia de Disney, Prince, Mary Poppins e James Brown. As músicas se sucedem sugerindo uma trilha sonora. A abertura (Suite III) da segunda parte do CD tem aquele clima dos musicais da Disney, e as músicas restantes são menos agitadas e reforçam a ideia de um cinema “mental”.

O show de Janelle Monáe é para conferir e, dependendo, pode eclipsar o talento incontestável de Amy Winehouse.

Ouça Come Alive (The War of The Roses), uma das melhores faixas.



Veja Janelle cantando Tightrope no programa de David Letterman:



Um encontro de feras.: Amy Winehouse e Paul Weller cantam o clássico I Heard It Through the Grapevine. A canção composta por Norman Whitfield e Barrett Strong foi gravada pela primeira vez por Smokey Robinson & The Miracles e, posteriormente, pelo Credence Clearwater Revival, mas tornou-se clássica na voz do eterno Marvin Gaye.



Amy canta Tears Dry on Their Own.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O disco solo do vocalista do Gnarls Barkley

Os óculos modelo “Lady Killer” estão à venda
em 
http://www.ceelogreen.com/us-store
Quando vi a capa, a primeira coisa que pensei foi: “Nossa, como o Al Green está diferente!” Engano. O CD era de Cee-Lo Green, vocalista do grupo Gnarls Barkley. Essa banda montada por DJ Danger Mouse e o vocalista ficou conhecida por ter atingido o primeiro lugar nas paradas inglesas com Crazy sem sequer ter sido lançado em CD. Disponível apenas em download pela internet, virou um fenômeno. O sucesso é justificado. Crazy é uma das músicas mais vibrantes – daquelas de sacudir os esqueletos esticados nas camas e sofás – e geniais surgidas na primeira década do século XXI; tanto ou mais que Hey Ya, do Outkast.

The Lady Killer, saiu em novembro de 2010. Está sendo lançado no Brasil. Como é época de festas de fim de ano, provavelmente, estará nas lojas apenas na segunda quinzena de janeiro. Desde já, é candidato a ser um dos melhores de 2011, pois, de 2010, já é, pelo menos fora do Brasil.

Veja e ouça duas que constam do CD.
Vídeo oficial de Fuck You:




No Ones Gonna Love You. O original é de Band of Horses.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O caminho difícil de Sharon Jones

Quando James Brown morreu, disseram 
que seu corpo tinha desaparecido do túmulo
Se dizem que este mundo é pequeno – e, realmente, são surpreendentes coincidências do destino –, imagine-se um encontro de James Brown preso por ter dado uma surra na sua mulher com a carcereira Sharon Jones. Brown está morto e, sabe-se lá se perdoado pelos pecados cometidos na terra, e Jones não trabalha mais na cadeia. Mas o encontro dos dois teria resultado num belo som.

Coisas do destino, minha nega
Jones nasceu em 1956 e quem a ouviu ou acaba de conhecê-la, achará estranho nunca ter ouvido falar dela antes, se é tão boa cantora. Como muitas pessoas pobres de ascendência negra, cresceu frequentando e cantando em corais de igrejas. E como tantas outras de sua idade, cresceu ouvindo músicas lançadas pelas gravadoras Stax e Motown, tendo como ídolos James Brown, Otis Redding e Sam Cooke.

Para não sair tanto do script, quis ser cantora. Além de cantar na igreja, fez backing vocals para diversos intérpretes. Mas quando imaginou que poderia gravar discos sob seu nome, ouviu coisas como “você é muito negra e gorda” ou “você não é bonita” etc.

O tempo foi passando e notou que aquilo de tornar-se cantora não era para ela. Foi pegar no pesado e, pelo seu porte físico, quem sabe, poderia trabalhar na polícia. Passou no teste e virou carcereira de uma penitenciária em Nova York (nascera na Geórgia, mas cedo mudara para essa cidade). Depois, ainda, trabalhou de segurança de carro-forte do tradicional Wells Fargo Bank.

Nem todos os Daps são negros
Gabriel Roth e Philip Lehman eram donos de um selo francês, a Pure Records. Em 1996, para o álbum que estavam gravando com o cantor soul Lee Fields, precisavam de três cantoras para os backing vocals. Uma delas era Sharon, que deixou os produtores impressionados com sua voz. Gravaram uma faixa apenas com ela intitulada Switchblade, que foi incluída em Soul Tequilla, disco da banda Soul Providers.

Sharon não caiu das nuvens. Tinha sido casada com um saxofonista componente do Soul Providers, que lembrou dela quando os produtores precisaram de vocalistas para os backings. Os donos da Pure resolveram montar uma nova gravadora nos EUA e chamaram-na de Desco. Dois membros da banda Mighty Imperials se juntaram ao Soul Providers e mudaram o nome para Dap-Kings, e a Desco  virou Daptones. Já como Sharon Jones & The Dap-Kings, gravaram dois álbuns, um em 2001 (Dap-Dippin’), e outro em 2005 (Naturally). Quando lançaram 100 Days, 100 Nights, em 2007, Sharon e a banda já eram muito prestigiadas por uma legião de fãs, bem como pela crítica especializada.

Não foi obra do acaso o som dos Dap-Kings chamar a atenção de Mick Ronson, produtor de Amy Winehouse. O som sessentista dessa banda não fazia feio comparado às que acompanharam Otis Redding, Wilson Pickett e outros reis do funk e do soul. Por obra do destino – ou das conjunções – Sharon Jones ficou conhecida, por tabela. Que eram os tais Dap-Kings. E assim cumpriu-se o destino de Jones, que quisera ser cantora e gravar um disco. Tardiamente, mas nunca é tarde. E quem a ouve, surpreende-se, pois parece que nasceu feita.

A primeira faixa do disco 2007, 100 Days, 100 Nights, é um aviso do que virá. A combinação dos sopros, trumpetes e saxes em riffs contagiantes e o sax-barítono fazendo o contraponto grave aos sons agudos é eletrizante. A voz vigorosa de Sharon tem personalidade e ela é a rainha. Até na pose da capa, com vestido dourado cintilante e sandálias idem, isso fica claro.

Com caras de homens maus, em costumes pretos e blusas vermelhas de gola olímpica, posam atrás de Sharon Jones que, mais uma vez, faz aquela pose de “eu posso”, altiva, queixo levantado, uma das pernas pouco a frente da outra, pouco mais gordinha do que no disco anterior, em I Learned The Hard Way. O título é perfeito para essa cantora que o destino e as circunstâncias revelaram. O disco é bom, mas não tão impactante como o anterior. Soa, às vezes déjà vu, lembrando ora Marvin Gaye; ora os Dap-Kings parecendo uma emulação da fabulosa banda que acompanhava Otis Redding. A música, no entanto, é uma realimentação do que já foi feito. As brancas Joss Stone e Amy Winehouse são exemplos. Mesmo assim, fazem boa música; que é o mais importante.

Ouça Money. Tem um pouco de Al Green, um pouco de Marvin Gaye. E daí? É da boa.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sharon Jones é para sorver aos poucos

Quem conhece Sharon Jones? Se você não a conhece, é explicável. Essa senhora de 54 anos trabalhou como carcereira e segurança de carro-forte antes de ficar conhecida como cantora. Mas vou falar dela em outro texto. Como aperitivo, ouça 100 Days, 100 Nights com Sharon e a excepcional The Dap-Kings. É do dsico com o mesmo nome, lançado em 2007. Depois lancou outro petardo: I Learned the Hard Way.