Sentimentos poderosos como o amor e seu oposto, o ódio, e uma variante desses dois elementos – o ciúme –, fazem parte do enredo de Tosca, uma das óperas mais conhecidas de Giacomo Puccini. Ah, e o poder personificado no mal. Você conhece esse enredo, não? Pensando bem, faz parte da vida cotidiana. Nas óperas, na literatura e em alguns casos da vida real, esses elementos se apresentam potencializados; essa é a diferença. Quem sabe, críticas em relação a determinado esquematismo dos “librettos” ou aos roteiros dos musicais, sejam injustos: se na ficção alguma coisa parece exagerada, pensando bem, a realidade é mais tudo e mais alguma coisa em sua crueza; a mulher traída mutila seu par, o traficante deixa expostas cabeças cortadas de suas vítimas para servirem de exemplo, o vizinho estupra e mata o amigo em guerras.
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| Puccini, autor de Tosca |
Scarpia é o “bandido” da história. Mario Cavaradossi está fazendo uma pintura de Maria Madalena em uma igreja. Logo no início do primeiro ato, surge Angelotti, que fugiu da prisão. O pintor ajuda-o. Floria Tosca é uma célebre cantora e amante de Cavaradossi. Ele é surpreendido com a aparição de Tosca, e ela, acreditando por ter ouvido vozes, desconfia que pode ser outra amante. Mario tenta acalmá-la com um beijo, mas Tosca, lhe diz que não pode beijá-lo sem antes rezar e ofertar flores à Madonna (não é a famosa cantora americana, por favor). Tosca havia ido até Cavaradossi para lhe dizer que a esperasse após sua apresentação para depois irem à villa do pintor. Já desconfiada da forma com que ele quer se ver livre dela, por causa de Angelotti, faz uma cena de ciúmes ao perceber alguma semelhança nas feições da imagem que Mario está pintando à da marquesa Avanti. Os olhos de Tosca são negros, e os da pintura, azuis. Logo depois, aparece Scarpia, à procura do fugitivo.
Bom, não vou contar a história toda. Mais uma coisa só: Scarpia ordena que seus guardas de irem à villa de Cavaradossi em busca de Angelotti. Não o encontra, mas prendem o pintor. Tosca implora pela vida do amado a Scarpia. Que ele peça: ela fará. Agora, imagine o que Scarpia quer?
É, estou me alongando demais e já nem sei se estou contando direito a trama. Bem, resumo da ópera: o fim é trágico, muito trágico.
Cavaradossi está na prisão e o carcereiro lhe diz: “Tens uma hora.” Pede-lhe autorização para escrever uma carta. Começa a escrever e se perde em lembranças de sua amada Tosca. É nessa hora em que canta uma das mais belas árias do repertório operístico: “E lucevan le stelle…”. “E reluziam as estrelas/ e perfumava a terra./ […]/ Entrava ela, perfumada/ me caía entre os braços./ Oh, doces beijos, oh lânguidas carícias”. Nos versos finais – “E non ho amato mai tanto la vita/ Tanto la vita” – o canto de Cavaradossi é emoção e catarse. Na montagem do Metropolitan Opera, Placido Domingo é aplaudido em cena aberta; se bem que o público dessa casa costuma aplaudir qualquer coisa.
Puccini é pop
Não é nenhuma novidade peças da música clássica serem executadas no repertório popular. Há peças manjadíssimas como Ode à Alegria (do último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven), Ária da Suíte em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach. “Invadiu” não apenas o pop ou o rock, como nas investidas de bandas do rock progressivo como Emerson, Lake & Palmer, mas o jazz também, com músicos classudos como John Lewis, Branford Marsalis e muitos outros. As óperas têm servido de bom caldo a ótimas interpretações. E, como estou falando de “E lucevan le stelle…” ouça algumas.
As interpretações
O saxofone é um instrumento perfeito para emular vozes nas transcrições de árias operísticas. Um bom exemplo é essa versão de Grover Washington, Jr., que apesar de ter, durante muito tempo, optado por fazer um tipo de música mais comercial (tipo Kenny G, antes deste), foi excelente instrumentista. Aqui, é acompanhado pelo baixista Ron Carter e peka Orquestra de St. Luke’s, conduzida por Robert Freedman. Está no álbum Aria (Sony, 2000)
Outra ótima interpretação é a de Danilo Rea ao piano e Flavio Boltro no trumpete no disco Opera (ACT, 2011).
Uma terceira: a do também italiano, Stefano Bollani, em Volare (Venus, 2002).
Assista à performance de Placido Domingo, no Metropolitan.
Nem tão bom ator quanto Domingo, Luciano Pavarotti tinha uma voz deslumbrante.

