quinta-feira, 19 de julho de 2012

“E lucevan le stelle”. Puccini é pop

A ópera tem adoradores fanáticos e um mundo que não gosta e até chega a odiar o gênero. Acontece até com gente que gosta (e conhece bem) música erudita. Ocorre uma coisa semelhante em relação aos musicais de teatro e de cinema. Mas, despindo-se de certo preconceito quanto à “arquitetura” da ópera, não há como deixar de se reconhecer a riqueza da música contida nela. O grande songbook americano vem dos musicais: Cole Porter, Stephen Sondheim, George and Ira Gershwin, Richard Rodgers & Oscar Hammerstein (e Lorenz Hart, também), e muitos outros. Até a patuleia (como assim designava, com certa ironia e um tico de maldade e preconceito, o chamado povão, meu amigo Conde) comprou o disco (Three Tenors in Concert, 1990), com Jose Carreras, Placido Domingo e Luciano Pavarotti. Foi uma tremenda jogada de marketing da Decca. Funcionou, além da grana que cada qual dos envolvidos embolsou, como uma forma de proporcionar biscoitos finos à massa. Pensando bem, nem tudo era biscoito fino, mas vamos fazer de conta.

Sentimentos poderosos como o amor e seu oposto, o ódio, e uma variante desses dois elementos – o ciúme –, fazem parte do enredo de Tosca, uma das óperas mais conhecidas de Giacomo Puccini. Ah, e o poder personificado no mal. Você conhece esse enredo, não? Pensando bem, faz parte da vida cotidiana. Nas óperas, na literatura e em alguns casos da vida real, esses elementos se apresentam potencializados; essa é a diferença. Quem sabe, críticas em relação a determinado esquematismo dos “librettos” ou aos roteiros dos musicais, sejam injustos: se na ficção alguma coisa parece exagerada, pensando bem, a realidade é mais tudo e mais alguma coisa em sua crueza; a mulher traída mutila seu par, o traficante deixa expostas cabeças cortadas de suas vítimas para servirem de exemplo, o vizinho estupra e mata o amigo em guerras.

Puccini, autor de Tosca
Scarpia é o “bandido” da história. Mario Cavaradossi está fazendo uma pintura de Maria Madalena em uma igreja. Logo no início do primeiro ato, surge Angelotti, que fugiu da prisão. O pintor ajuda-o. Floria Tosca é uma célebre cantora e amante de Cavaradossi. Ele é surpreendido com a aparição de Tosca, e ela, acreditando por ter ouvido vozes, desconfia que pode ser outra amante. Mario tenta acalmá-la com um beijo, mas Tosca, lhe diz que não pode beijá-lo sem antes rezar e ofertar flores à Madonna (não é a famosa cantora americana, por favor). Tosca havia ido até Cavaradossi para lhe dizer que a esperasse após sua apresentação para depois irem à villa do pintor. Já desconfiada da forma com que ele quer se ver livre dela, por causa de Angelotti, faz uma cena de ciúmes ao perceber alguma semelhança nas feições da imagem que Mario está pintando à da marquesa Avanti. Os olhos de Tosca são negros, e os da pintura, azuis. Logo depois, aparece Scarpia, à procura do fugitivo.

Bom, não vou contar a história toda. Mais uma coisa só: Scarpia ordena que seus guardas de irem à villa de Cavaradossi em busca de Angelotti. Não o encontra, mas prendem o pintor. Tosca implora pela vida do amado a Scarpia. Que ele peça: ela fará. Agora, imagine o que Scarpia quer?

É, estou me alongando demais e já nem sei se estou contando direito a trama. Bem, resumo da ópera: o fim é trágico, muito trágico.

Cavaradossi está na prisão e o carcereiro lhe diz: “Tens uma hora.” Pede-lhe autorização para escrever uma carta. Começa a escrever e se perde em lembranças de sua amada Tosca. É nessa hora em que canta uma das mais belas árias do repertório operístico: “E lucevan le stelle…”. “E reluziam as estrelas/ e perfumava a terra./ […]/ Entrava ela, perfumada/ me caía entre os braços./ Oh, doces beijos, oh lânguidas carícias”. Nos versos finais – “E non ho amato mai tanto la vita/ Tanto la vita” – o canto de Cavaradossi é emoção e catarse. Na montagem do Metropolitan Opera, Placido Domingo é aplaudido em cena aberta; se bem que o público dessa casa costuma aplaudir qualquer coisa.

Puccini é pop
Não é nenhuma novidade peças da música clássica serem executadas no repertório popular. Há peças manjadíssimas como Ode à Alegria (do último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven), Ária da Suíte em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach. “Invadiu” não apenas o pop ou o rock, como nas investidas de bandas do rock progressivo como Emerson, Lake & Palmer, mas o jazz também, com músicos classudos como John Lewis, Branford Marsalis e muitos outros. As óperas têm servido de bom caldo a ótimas interpretações. E, como estou falando de “E lucevan le stelle…” ouça algumas.

As interpretações
O saxofone é um instrumento perfeito para emular vozes nas transcrições de árias operísticas. Um bom exemplo é essa versão de Grover Washington, Jr., que apesar de ter, durante muito tempo, optado por fazer um tipo de música mais comercial (tipo Kenny G, antes deste), foi excelente instrumentista. Aqui, é acompanhado pelo baixista Ron Carter e peka Orquestra de St. Luke’s, conduzida por Robert Freedman. Está no álbum Aria (Sony, 2000)


Outra ótima interpretação é a de Danilo Rea ao piano e Flavio Boltro no trumpete no disco Opera (ACT, 2011).


Uma terceira: a do também italiano, Stefano Bollani, em Volare (Venus, 2002).  

 


Assista à performance de Placido Domingo, no Metropolitan.



Nem tão bom ator quanto Domingo, Luciano Pavarotti tinha uma voz deslumbrante.


terça-feira, 17 de julho de 2012

Adele e o inverno paulista

Bela Adele

De vez em quando, acontecem fenômenos como o de Adele. Com apenas dois discos de estúdio, lançados em correspondência com sua idade – 19 e 21 – a inglesa conquistou milhões de ouvintes. Um pouco fora dos padrões (se bem que esses padrões estão mudando celeremente) das cantoras de sucesso, em termos estéticos. Em vídeos da época em que começou a aparecer, era um menina cheinha usando roupas largas, penteado com uma franja mal-cortada e cabelos presos atrás. Quando 21 saiu (leia http://bit.ly/SCc0mJ), percebe-se uma “produção” no visual, mas o corpinho, apesar de alguns quilos a menos, continua roliço. Se, em 19, estava ótima, aos 21 está melhor ainda, digo em relação à música. Quanto ao visual, é questão de gosto. A ditadura da magreza é perversa e Adele é um bom “consolo” para quem luta contra a balança.

Neste momento, em São Paulo faz 10 graus centígrados. Muito frio. Deitado ainda, no iPad leio que Mark Evans, pai que foi embora quando tinha três anos, apesar de desejar uma reaproximação com ela, afirma não crer muito na possibilidade, principalmente depois de ficar sabendo da fúria que a acometeu depois de saber que ele vendeu uma história para o The Sun. E nem era tão reveladora; apenas confirmava sua condição de pai ausente. Adele considerou um ultraje ele ter se vendido para um tabloide sensacionalista. Bem agora em que se publica que está grávida, vai ser difícil para o futuro avô, alcoólatra em recuperação, carregar o netinho no colo.

Faz algum tempo que não ponho Adele para cantar no iPod. Boa ideia. Ouço o seu ao vivo no The Royal Albert Hall. Logo que foi lançado, corri para comprá-lo em Blu-ray. O show é cheio de pompas, com orquestras e Adele maximaquiada, com um penteado que mais parece com aqueles dos anos 1960, cheio de laquê, bem ao estilo daquelas moças que aparecem em Hairspray (1988), filme ótimo de John Waters.

O show é uma combinação estranha de pompa e deboche. Adele não deixou de ser uma garota de subúrbio. É debochada, conta piadas, fala da própria vida com ironia e desdém, ri de si, refere-se às amigas de infância e adolescência que estão no teatro, chora de emoção, em suma, sente-se muito em casa. Fala tanto, que cansa e deixo de prestar atenção. Mas já saiu na imprensa que as piadas que conta não primam pelo bom gosto. Um exemplo: "Como você chama uma loira de cabeça para baixo? Uma morena com mau hálito". Foi contada em um show.

No CD, as longas falas de Adele foram suprimidas. Ótimo. Presta-se mais atenção na parte musical. Aí, percebe-se que seus produtores exageraram um pouco na pompa. Poderia ter sido em um teatro menos pomposo que o Royal Albert Hall. Mas Adele é uma boa companhia no frio com sua voz cálida, rouca na medida exata, meio-moleca, mas sofrimentos e alegrias não têm idade, principalmente, quando percebemos que podemos cair em armadilhas que acreditávamos não mais existir quando chegássemos à idade madura. O frio potencializa a melancolia e várias músicas que Adele canta sem as falas presentes do DVD e do Blu-ray parecem mais tristes.

Adele em 2008, em Late Show, de Jools Holand.


Adele canta Someone Like You, no Royal Albert Hall.




Rolling in the Deep.