Mostrando postagens com marcador Larry Klein. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Larry Klein. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Madeleine Peyroux, Anthem e Brasil
Agora, no mês de setembro, Madeleine Peyroux estará mais uma vez no Brasil, dessa vez, apresentando seu último álbum “Anthem”, lançado no ano passado. Começa em Porto Alegre, passa por Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.
No início, ficou conhecida por ter uma voz muito parecida com a de Billie Holiday. Por esse fato, foi automaticamente associada ao gênero jazz, apesar de nunca ter sido de fato. É mais country-folk americana que qualquer coisa. Além da boa voz, talento, ficou bem conhecida pelas belas interpretações de algumas canções de Leonard Cohen.
Aliás, “Anthem” é de Cohen e um dos melhores números desse álbum. Ao contrário de “Secular Hymns”, o anterior, em que não há nenhuma de sua autoria, este é de uma maioria composta por ela, com David Baerwald, Brian MacLeod, Patrick Warren e Larry Klein, seus músicos. Este último toca contrabaixo é mais uma vez seu produtor. Klein comprovou a sua competência nesse mister em álbuns de Joni Mitchell, Luciana Souza, Herbie Hancock, Julie Fordham, Curtis Stigers, Norah Jones, Walter Becker, Till Brönner, Holly Cole, Tracy Chapman, Lizz Wright, Melody Gardot, dentre outros e outras.
Em relação à “Secular Hymns”, “Anthem” é um pouco inferior, na minha opinião. Mesmo assim, destaco algumas, além da música título, muito boa mesmo: “All My Heroes”, “Lullaby”, meio hipnótica, mas não exatamente uma canção de ninar,e “Liberté”, a partir de versos de Paul Éluard. Ela manda bem em francês e em inglês.
Ouça o disco via Spotify.
Caso você tenha dificuldade por esse compartilhamento, vá direto ao Spotify: https://open.spotify.com/album/3a6ln2VwpNL5Nve4QDyzRo?si=FdS3tGXqQuun6FmNdMgtxw
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Joni Mitchell, seus amores e a doença
![]() |
| Joni Mitchell quando jovem |
Joni sofre de uma misteriosa enfermidade conhecida como Síndrome de Morgellons. Discute-se se é uma doença física ou psicológica. Entretanto, pesquisas médicas associam-na ao uso de drogas. Ela cita uma excursão, a Rolling Thunder Revue, em 1975, com Bob Dylan e Joan Baez, em que consumiram muita cocaína. A única a não entrar na onda foi Baez.
Mas os problemas de saúde são bem anteriores e podem ter resultado em outros por consequência. Quando tinha dez anos, teve poliomielite, que a deixou paralisada. Em entrevista ao Daily Mirror, disse que alguns sintomas da pólio voltaram na época em que namorava o baterista e percussionista Don Alias que, muito ciumento, agrediu-a mais de uma vez. Na biografia recém lançada, “Reckless Daughter: A Portrait of Joni Mitchell”, de David Yaffe, conta também que, uma vez, acompanhou Alias a uma jam com Miles Davis. Sendo tão ciumento, não fez nada quando o trompetista pulou em cima dela, estranhamente. A sorte é que ele estava tão chapado de cocaína, que conseguiu escapar. No histórico de violências, teve outro namorado violento: John Guerin, por coincidência, também baterista.
Quando fazia a escola de arte, em Calgary, Canadá, perdeu a virgindade com Brad McMath e engravidou. Muito jovem, entregou a filha para a adoção. Por muito tempo, foi um segredo. Mudou-se para Toronto, decidida a tentar a carreira artística. Conheceu o folk singer Chuck Mitchell e casou-se. Não durou dois anos. Chegou ao fim em 1967. Joan Anderson adotou Joni Mitchell como nome artístico. Assim ficou conhecida uma das mais talentosas compositoras e intérpretes do século passado.
California girl
A garota canadense dos cabelos dourados partidos ao meio, conquistou o coração de David Crosby, que a levou para a Califórnia e tornou-se, nas palavras de seu biógrafo, “uma elegante princesa boêmia”. Lançou seu primeiro álbum. “Song to a Seagull”, produzido pelo namorado Crosby, em 1978. Joni tinha composições gravadas por outros intérpretes, como “Both Sides Now”, por Judy Collins, “Chelsea Mornng”, “Eastern Rain”, “Urge for Going” e “The Circle Game”, mas preferiu apenas temas inéditos em sua estreia no mercado fonográfico.
Nossa casinha
Joni montou a sua casa na Lookout Mountain Road, em Laurey Canyon, bairro de Los Angeles, que, na época, servia de morada de um sem número de músicos: Frank Zappa, Carole King, membros do The Doors, Buffalo Springfield, Byrds e Canned Heat. Em um encontro na sua casa estavam Stephen Stills, David Crosby. Ambos tocavam “You Don’t Have to Cry”, música em que estavam trabalhando. Graham Nash, vocalista dos Hollies, que estava de férias da Inglaterra, era um dos convidados. Tocada várias vezes, Nash deu uma de “entrão” e fez a terceira voz, com sua bela voz de tenor. A combinação foi sublime. Era o que faltava para o que Stills e Crosby pensavam em montar. Assim nasceu a fabulosa Crosby, Stills & Nash, mais tarde acrescida do canadense Neil Young. Enquanto Nash estava se entendendo musical, em outra sintonia, entendia-se com Mitchell.
Em pouco tempo, estava morando na casa de Joni. Em certa ocasião, passeavam e viram um vaso em uma loja de antiguidades que a interessou. Era uma noite chuvosa. “Por que você não põe flores no vaso, que eu acendo a lareira?” Logo que disse isso, surgiu uma ideia. Foi ao piano. “Eu acendo a lareira/ E você coloca as flores no vaso/ Que comprou hoje.” Foram os primeiros versos da doce “Our House”, canção que retratava, de algum modo, a felicidade doméstica. Mas não era essa a felicidade que Joni queria para ela. “Clouds”, o segundo álbum, estava sendo gravado. O casamento acabou quando terminava o ano de 1969.
Amores musicais
Joni ama a música e os músicos. Teve casos com James Taylor e Jackson Browne, Don Alias e John Guerin, citados anteriormente, e Jaco Pastorius. Todos foram parceiros musicais também. Preferia os músicos. Rechaçou investidas de Warren Beatty e Jack Nicholson. Ela conta que conseguiu escapar do assédio deles porque estava com o carro dela.
“Wild Things Run Fast”, de 1982, é o primeiro que gravou pela Geffen Records e o primeiro com o baixista Larry Klein. Nesse mesmo ano casou com ele. O disco, mesmo com a participação de Wayne Shorter em três faixas, representa um afastamento de elementos do jazz, que tinha incorporado desde “Hejira”.
A juventude de Klein – tinha 25 anos e ela 39, quando casaram – deu um novo gás. Houve uma guinada para uma linguagem mais pop. Klein revelou-se ótimo produtor e parceiro musical. Cercou-se de bons músicos, incluindo Wayne Shorter, que nunca deixou de fazer suas participações especiais, o baterista Brian Blade, Vinnie Colaiutta e Greg Leisz.
Sem comparar, era uma nova Joni. Seus discos podem não ser tão importantes quanto os gravados no selo Asylum, mas Joni ainda era capaz de compor música de boa qualidade. O melhor é dentre esses é “Turbulent Indigo” (Reprise Records), com os destaques “Sex Kills” e “The Magdalene Laundries”.
Joni e Larry deviam se amar. O casamento durou doze anos e continuaram amigos após a separação. Mas ele deve ter projetado uma relação mais estável. Queixou-se que ela não mudou no seu estilo de vida: continuou a fumar muito, quase não dormia, consumia em boas quantidades cocaína e capuccinos. Sentia-se cada vez mais irritada e perdida financeiramente. Teve de indenizar em 250 mil dólares a sua empregada, que a acusou de tê-la agredido. No verão de 1985, quase foi atropelada por um adolescente bêbado na Pacific Coast Highway, em Malibu, e quando voltou ao mesmo lugar, semanas depois, quase aconteceu a mesma coisa. Se a vida de Joni continuava turbulenta, para Larry não devia estar sendo fácil. Separou-se e atualmente está com a brasileira Luciana Souza.
É um tanto triste ver Joni com problemas para se movimentar. Pela sua descrição, o mal que a acomete é bem complicado e assustador: “Eu tenho essa doença estranha e incurável que parece vir do espaço sideral. A síndrome de Morgellons é um assassino lento e imprevisível – uma doença terrorista: explodirá um de seus órgãos, deixando você na cama por um ano.”
Bom, chega de papo e vamos ouvir a clássica “Sex Kills”.
É um tanto triste ver Joni com problemas para se movimentar. Pela sua descrição, o mal que a acomete é bem complicado e assustador: “Eu tenho essa doença estranha e incurável que parece vir do espaço sideral. A síndrome de Morgellons é um assassino lento e imprevisível – uma doença terrorista: explodirá um de seus órgãos, deixando você na cama por um ano.”
Bom, chega de papo e vamos ouvir a clássica “Sex Kills”.
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Joni Mitchell, standards e orquestras
![]() |
| Joni Mitchell, por ela mesma. |
O conceito é ótimo. Como não estou acostumado a prestar muita atenção em letras, não posso afirmar se conseguiram passar o conceito pretendido. Vou relacionar as canções na ordem para que o leitor tire suas conclusões: “You’re My Thrill” (1933), “At Last” (1942), “Comes Love” (1939), “You’ve Changed” (1968), “Answer Me, My Love” (1953), “A Case of You” (1972), “Don’t Go to Strangers” (1954), “Sometimes I’m Happy” (1925), Don’t Worry Bout Me” (1939), “Stormy Weather” (1933), “I Wish I Were in Love Again” (1937), “Both Sides Now” (1967).
A maioria das escolhidas é bem antiga, e dois são composições de sua lavra bem conhecidas do fã de Mitchell: “A Case of You” e “Both Sides Now”. Todas elas foram arranjadas por Vince Mendoza, um dos mestres da orquestração na atualidade. Larry Klein é um dos magos na produção de discos de cantores e cantoras. E sendo Joni Mitchell, Klein foi um parceiro musical ideal.
O destaque é a música título.
Outro número muito bom é “You’ve Changed”, de Carl Fischer e Bill Carey. A orquestração de Mendoza é de tirar o fôlego.
Mais Joni e orquestra
Depois de “Both Sides Now”, Larry e Joni gravaram o duplo “Travelogue”. Saiu em um box luxuoso, com um encarte de 28 páginas, em capa dura, contendo trechos de letras e pinturas de sua autoria, além de outro, as letras das 22 faixas. Ambos são com orquestra e gravados nos mesmos estúdios, o que faz concluir que podem ter sido realizados juntos. Não sei se foi. “Travelogue” foi lançado em novembro de 2002. É um ano importante na vida dela. Foi o fim do casamento de 20 anos com Larry e também porque declarou que este era seu último disco. Mudou de ideia e lançou mais um: “Shine” (2007).
O estranho é este belíssimo álbum não ter ficado nem entre os 100 mais vendidos, na época. Até para um colecionador da canadense, como eu, passou batido. Sem saber nem que tinha sido gravado, meio que sem querer, encontrei-o na Pop Discos, uma lojinha (ótima) que fica em uma galeria da rua Teodoro Sampaio, em São Paulo. Nunca tinha visto em lojas como a Tower, HMV e J&R em minhas viagens a Nova York.
Neste, as composições são todas de Mitchell, fora um caco de “Unchained Melody”, incluído em “Chinese Cafe”. Se Vince Mendoza preferiu arranjos mais discretos em “Both Sides Now”, em “Travelogue” são mais vigorosos, exuberantes e delicados, quando o momento pede. É um primor em canções conhecidas em novo contexto. E os músicos participantes, quase todos são do primeiríssimo time, como Wayne Shorter, Herbie Hancock, Kenny Wheeler, Billy Preston, Chuck Berghoffer, Larry Klein, craque no baixo elétrico, além de produtor, e Brian Blade.
Ouça a versão matadora de “Sex Kills”, a última grande canção de Joni Mitchell.
Excepcional também é a clássica “Hejira’.
Ouça “Amelia”
“For the Roses”. O sax soprano, advinhe de quem é.
“Woodstock”
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Bons produtores, bons produtos
![]() |
| O produtor e baixista Klein |
Por alguma coincidência, um dos grandes produtores da atualidade, começou tocando baixo, como o brasileiro Liminha. Em 1982, Larry Klein entrou para a banda que acompanhava a canadense Joni Mitchell. Tornaram-se parceiros na música e na vida. Produziu com Mitchell uma boa leva de CDs muito bem recebidos pela crítica e representou uma mudança de rumo em sua carreira, reaproximando-a do pop. Mesmo com o fim do casamento, em 1994, ano do lançamento de Turbulent Indigo, continuou a colaborar com ela em Both Sides Now, gravado com orquestra. Aproveitando o formato de Both Sides, gravaram o duplo Travelogue, que contém vários sucessos antigos de Mitchell. O bom produtor é aquele que sabe realçar as qualidades dos seus intérpretes. (sobre Joni Mitchell, leia: http://bit.ly/itpMsv , http://bit.ly/k81URE , http://bit.ly/kmauYk , http://bit.ly/eX6YHX , http://bit.ly/md969w)
Além dela, Klein produziu os últimos álbuns de Madeleine Peyroux, Careless Love (2004) e Half the Perfect World (2006) e Bare Bones (2009). Peyroux tinha gravado seu primeiro disco Dreamland em 1996. Imediatamente, por causa do timbre muito parecido ao de Billie Holiday, ganhou projeção. E sumiu. Reapareceu em grande estilo realizando um álbum impecável. Seria a mão de Klein? (sobre Peyroux, leia: http://bit.ly/hEOMMe, http://bit.ly/lYZbSu)
Dentre outros, produziria também o trumpetista e cantor Till Brönner – uma espécie de carbono de Chet Baker piorado – em Oceana (2006) e Rio (2008) – este último, lançado no Brasil. Na minha opinião – conheço apenas Rio – a mão de Klein é primordial para que o disco seja razoável. Juntou uma penca de convidados ilustres: Milton Nascimento, Vanessa da Mata, Luciana Souza, Annie Lennox, Aimee Mann, Melody Gardot e Kurt Elling. Bom, com um time desses, qualquer curioso se arrisca a conhecer Till Brönner. Foi o que aconteceu comigo.
Larry Klein tem mostrado competência como produtor, principalmente com cantores e cantoras. Em 2007, produziu o CD The New Bossa Nova, de Luciana Souza. Por coincidência, com a mesma “química” que ocorrera com Joni Mitchell: os dois, atualmente, são parceiros na música e na vida.
Para frisar de como o trabalho de um produtor pode ser um diferencial, basta comparar o primeiro CD de Melody Gardot com o segundo, My One and Only Thrill, produzido por ele (sobre Gardot, leia http://bit.ly/eXhQSQ). E fica a expectativa se não acontece no futuro um novo casamento.
Joni Mitchell canta Sex Kills.
Luciana Souza canta Morrer de Amor.
Melody Gardot canta Baby, I’m a Fool.
Publicado inicialmente em 27/10/2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Não canso de ouvir o último de Lizz Wright
Depois de um hiato de cinco anos, Lizz Wright retorna com Freedom & Surrender. Nesse período, comprou um terreno de 28 acres à beira das Great Smoky Mountains, um dos parques nacionais americanos mais conhecidos, no estado da Carolina do Norte, e está de gravadora nova. No meio do caminho não faltaram desilusões amorosas. O sofrimento sempre foi um bom caldo para a inspirações artísticas.
Em fevereiro deste ano, cerca de uma semana antes de entrar nos estúdios para gravar o novo álbum, Lizz estava na estrada e seu carro deslizou pela neve em uma curva e só parou em uma árvore. Até aparecer um vizinho que tirou-a do carro, passaram-se uns 20 minutos. Durante dois dias só ficava lembrando do carro deslizando vagarosamente pela neve. E percebeu que a sua vida também se movia lentamente.
O acidente serviu para que entrasse com outra disposição no estúdio. Tinha se reunido algumas vezes com Larry Klein, que seria seu produtor e com David Batteau, um de seus parceiros nas composições que entrariam no disco.
O time escolhido era composto por músicos que trabalham frequentemente com Klein: o guitarrista Dean Parks, o baterista Vinnie Colaiuta, os tecladistas Kenny Banks e Pete Kuzma, e o baixista Dan Lutz. Além deles, contribuiram para o disco Till Brönner (Till Brönner (outro parceiro costumeiro de Klein) e o tecladista Billy Childs.
Um dos talentos do ex-marido de Joni Mitchell, produtor de álbuns de Melody Gardot, Madeleine Peyroux, Till Brönner e Luciana Souza, sua atual mulher, é o de fazer discos consistentes instrumentalmente, criando sons que combinam à perfeição as suas vozes. Não foi diferente com Freedom & Surrender.
Lizz Wright é gospel? Lizz Wright é jazz?
Em entrevista à Downbeat, lançada neste mês (com data de janeiro de 2016), Lizz diz não se considerar uma cantora de jazz. Não se sente confortável com essa classificação. Diz que suas influências abarcam uma série de gêneros como a música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues tradicional, folk e o pop contemporâneo. Se existisse uma classificação mais precisa, o gênero seria a música gospel, bem evidenciada em Fellowship. O problema para nós (ou meu, mais especificamente) é o preconceito em relação a esse gênero. Recuso-me de ouvir a música chamada gospel brasileira. Mas essa questão fica um tanto delicada quando se trata do gospel americano. Sabidamente, grande número de cantores e cantoras da América do Norte cresceu em ambientes religiosos. Lizz, no caso, é filha de pastor.
O álbum
Lizz, inicialmente pensou em um disco com canções de amor. No ano e meio em que foi gestado, as composições foram desenhando um outro rumo, refletindo o que vivenciou depois de Fellowship. O título é a representação dessas passagens. Sintomaticamente, começa com Freedom e termina com Surrender. E o recheio é de grande qualidade. A voz aveludada, sensual, combina perfeitamente com a instrumentação, cheia de nuances, notas elegantes de guitarra, backing vocals localizados, toques de Hammond, pianos elétricos Fender Rhodes e discretas percussões.
Um bom exemplo das delicadezas sonoras de Larry Klein, combinando a voz quente, comparada ao sabor de um bourbon envelhecido por um crítico é Lean In. Estão lá as guitarras de Parks, intervenções esparsas de órgão e backings discretos.
Dentre os covers, com direito até a To Love Somebody, dos Bee Gees, muito boa é River Man, clássico cult de Nick Drake, que conta com a participação de Till Brönner.
Mas, bom mesmo é The New Game. Ouça.
Infelizmente, não foi possível incorporar a apresentação de Lizz Wright, sensualíssima, com uma blusa preta bem decotada,, cantando The New Game no programa de Jools Holland. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=uqJevfXy0oY
Há um belo duo com Gregory Porter, o cantor do momento, em Right Where You Are. A ideia da composição, feita em parceria com J.D. Souther, veio enquanto corria em Venice Beach em uma de sua idas a Los Angeles para encontrar-se com Larry Klein. Assista no link https://www.youtube.com/watch?v=vokPCNFARwE
Outro destaque é Somewhere Down the Mystic. Começa bem climática, com violões e guitarras sobrepostas, backings vocals. O maior prazer de ouvir Freedom & Surrender é ir percebendo novas sutilezas sonoras a cada audição.
Em fevereiro deste ano, cerca de uma semana antes de entrar nos estúdios para gravar o novo álbum, Lizz estava na estrada e seu carro deslizou pela neve em uma curva e só parou em uma árvore. Até aparecer um vizinho que tirou-a do carro, passaram-se uns 20 minutos. Durante dois dias só ficava lembrando do carro deslizando vagarosamente pela neve. E percebeu que a sua vida também se movia lentamente.
O acidente serviu para que entrasse com outra disposição no estúdio. Tinha se reunido algumas vezes com Larry Klein, que seria seu produtor e com David Batteau, um de seus parceiros nas composições que entrariam no disco.
O time escolhido era composto por músicos que trabalham frequentemente com Klein: o guitarrista Dean Parks, o baterista Vinnie Colaiuta, os tecladistas Kenny Banks e Pete Kuzma, e o baixista Dan Lutz. Além deles, contribuiram para o disco Till Brönner (Till Brönner (outro parceiro costumeiro de Klein) e o tecladista Billy Childs.
Um dos talentos do ex-marido de Joni Mitchell, produtor de álbuns de Melody Gardot, Madeleine Peyroux, Till Brönner e Luciana Souza, sua atual mulher, é o de fazer discos consistentes instrumentalmente, criando sons que combinam à perfeição as suas vozes. Não foi diferente com Freedom & Surrender.
Lizz Wright é gospel? Lizz Wright é jazz?
Em entrevista à Downbeat, lançada neste mês (com data de janeiro de 2016), Lizz diz não se considerar uma cantora de jazz. Não se sente confortável com essa classificação. Diz que suas influências abarcam uma série de gêneros como a música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues tradicional, folk e o pop contemporâneo. Se existisse uma classificação mais precisa, o gênero seria a música gospel, bem evidenciada em Fellowship. O problema para nós (ou meu, mais especificamente) é o preconceito em relação a esse gênero. Recuso-me de ouvir a música chamada gospel brasileira. Mas essa questão fica um tanto delicada quando se trata do gospel americano. Sabidamente, grande número de cantores e cantoras da América do Norte cresceu em ambientes religiosos. Lizz, no caso, é filha de pastor.
O álbum
Lizz, inicialmente pensou em um disco com canções de amor. No ano e meio em que foi gestado, as composições foram desenhando um outro rumo, refletindo o que vivenciou depois de Fellowship. O título é a representação dessas passagens. Sintomaticamente, começa com Freedom e termina com Surrender. E o recheio é de grande qualidade. A voz aveludada, sensual, combina perfeitamente com a instrumentação, cheia de nuances, notas elegantes de guitarra, backing vocals localizados, toques de Hammond, pianos elétricos Fender Rhodes e discretas percussões.
Um bom exemplo das delicadezas sonoras de Larry Klein, combinando a voz quente, comparada ao sabor de um bourbon envelhecido por um crítico é Lean In. Estão lá as guitarras de Parks, intervenções esparsas de órgão e backings discretos.
Dentre os covers, com direito até a To Love Somebody, dos Bee Gees, muito boa é River Man, clássico cult de Nick Drake, que conta com a participação de Till Brönner.
Mas, bom mesmo é The New Game. Ouça.
Infelizmente, não foi possível incorporar a apresentação de Lizz Wright, sensualíssima, com uma blusa preta bem decotada,, cantando The New Game no programa de Jools Holland. Veja em: https://www.youtube.com/watch?v=uqJevfXy0oY
Há um belo duo com Gregory Porter, o cantor do momento, em Right Where You Are. A ideia da composição, feita em parceria com J.D. Souther, veio enquanto corria em Venice Beach em uma de sua idas a Los Angeles para encontrar-se com Larry Klein. Assista no link https://www.youtube.com/watch?v=vokPCNFARwE
Outro destaque é Somewhere Down the Mystic. Começa bem climática, com violões e guitarras sobrepostas, backings vocals. O maior prazer de ouvir Freedom & Surrender é ir percebendo novas sutilezas sonoras a cada audição.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Seu nome é Indra Rios-Moore
O amor tem dessas coisas. Indra trabalhava como garçonete em um bar de vinhos e lá conheceu Benjamin Trauerup, jovem dinamarquês saxofonista. Após três semanas estavam morando juntos, e um ano depois, mudaram-se para a Dinamarca. Indra diz que “Se não fosse tão jovem e um pouco estúpida não teria ido para a Dinamarca, mas eu estava apaixonada, e ainda estou. Pois então, foi uma escolha pragmática. Demorou quatro anos para que eu aprendesse o dinamarquês, já que não é uma língua que flua naturalmente para um americano. Afinal, a criatividade surge da dificuldade.”
Ter casado com um dinamarquês é apenas um dado que se soma à incrível mistura de sangues e etnias. A mãe de Indra, assistente social de profissão, é portorriquenha, e o pai, Donald Moore, contrabaixista que já tocou com Jackie McLean, Archie Shepp, Elvin Jones e Sonny Rollins, é afro-americano-sírio. A música entrou naturalmente em sua vida por conta da profissão do pai e muito mais ouvindo a coleção de discos de jazz, rock e soul music de sua mãe. É dela também o nome Indra, inspirada na deusa hindu “guerreira do céu e da chuva”.
Indra e Benjamin, com o baixista Thomas Sejthen, montaram um trio em 2007. Lançaram um álbum chamado Indra, simplesmente, que foi indicado para Danish Music Award for Best Jazz Vocal Album, em 2010. Com o segundo álbum, In Between, em 2012, ganharam o prêmio que dois anos antes fora apenas indicação.
Indra e Benjamin estavam dispostos a dar um passo maior. Tinha gostado demais de Turbulent Indigo, de Joni Mitchell. Resolveram enviar um e-mail para Larry Klein, ex-marido de Joni, e midas da produção artística de cantores e cantoras, tendo em seu currículo, dentre outros, Melody Gardot, Luciana Souza e Madeleine Peyroux. Larry topou. Um contratempo: Indra ficou grávida.
Zarparam em Nova York com o novo membro da família. Pegaram cada tostão economizado para gravarem com Klein. Para a escolha do repertório, Indra pensou no que ouvia do aparelho da mãe. Lembrou-se de uma canção chamada Hacia Donde, composição da mexicana Marta Valdés. Foi uma de suas escolhas, além de Heroes, de David Bowie. Parece que virou norma: alguns originais, novas interpretações de sucessos pop e os famigerados standards. Está aí o modelo seguido pela maioria, até de consagrados como Diana Krall, Cassandra Wilson e até de emergentes como José James, Gregory Porter e Gretchen Parlato. Com Indra não é muito diferente. Dois standards contrabalançam as “modernidades”: Azure e Solitude, ambas de Duke Ellington.
Uma canção parece tão fora de contexto, mas tem relação com Hacía Donde. A escolha de Money, do grupo Pink Floyd, conhecidíssima até pelo ouvinte mais distraído, Foi sugestão do irmão mais novo. Quando menino, ficava a ouvir hip-hop. Indra insistia que devia ouvir rock dos anos 1970, Black Sabbath, Rolling Stones e Pink Floyd. Quando perguntou se tinha alguma sugestão de música para incluir no novo CD, respondeu: Money.
Na sua interpretação, Indra não foge muito do original, e o saxofone de Benjamin Traerup, e notas esparsas da guitarra de Uffe Steen compõem uma atmosfera relaxada e íntima.
Ninguém foge de sua natureza. Um bom produtor é aquele que sabe melhor explorar as características de cada um. É o que Larry Klein faz muito bem. Diana Krall não deixa de ser Diana Krall, assim como Joni Mitchell, que foi sua mais longa parceria, como marido e mulher e produtor e “produzida”. No caso de Rios-Moore, ele explora bem a voz inequivocamente negra, sem a extroversão de uma Sarah Vaughan ou de uma Etta James. A dela é nuançada, de uma expressividade mais para o intimista, com cada nota fluindo naturalmente sob uma instrumentação bem econômica. Essa característica está bem evidente desde os primeiros sons de Little Black Train.
Veja o clipe oficial de Little Black Train.
Ter casado com um dinamarquês é apenas um dado que se soma à incrível mistura de sangues e etnias. A mãe de Indra, assistente social de profissão, é portorriquenha, e o pai, Donald Moore, contrabaixista que já tocou com Jackie McLean, Archie Shepp, Elvin Jones e Sonny Rollins, é afro-americano-sírio. A música entrou naturalmente em sua vida por conta da profissão do pai e muito mais ouvindo a coleção de discos de jazz, rock e soul music de sua mãe. É dela também o nome Indra, inspirada na deusa hindu “guerreira do céu e da chuva”.
Indra e Benjamin, com o baixista Thomas Sejthen, montaram um trio em 2007. Lançaram um álbum chamado Indra, simplesmente, que foi indicado para Danish Music Award for Best Jazz Vocal Album, em 2010. Com o segundo álbum, In Between, em 2012, ganharam o prêmio que dois anos antes fora apenas indicação.
Indra e Benjamin estavam dispostos a dar um passo maior. Tinha gostado demais de Turbulent Indigo, de Joni Mitchell. Resolveram enviar um e-mail para Larry Klein, ex-marido de Joni, e midas da produção artística de cantores e cantoras, tendo em seu currículo, dentre outros, Melody Gardot, Luciana Souza e Madeleine Peyroux. Larry topou. Um contratempo: Indra ficou grávida.
Zarparam em Nova York com o novo membro da família. Pegaram cada tostão economizado para gravarem com Klein. Para a escolha do repertório, Indra pensou no que ouvia do aparelho da mãe. Lembrou-se de uma canção chamada Hacia Donde, composição da mexicana Marta Valdés. Foi uma de suas escolhas, além de Heroes, de David Bowie. Parece que virou norma: alguns originais, novas interpretações de sucessos pop e os famigerados standards. Está aí o modelo seguido pela maioria, até de consagrados como Diana Krall, Cassandra Wilson e até de emergentes como José James, Gregory Porter e Gretchen Parlato. Com Indra não é muito diferente. Dois standards contrabalançam as “modernidades”: Azure e Solitude, ambas de Duke Ellington.
Uma canção parece tão fora de contexto, mas tem relação com Hacía Donde. A escolha de Money, do grupo Pink Floyd, conhecidíssima até pelo ouvinte mais distraído, Foi sugestão do irmão mais novo. Quando menino, ficava a ouvir hip-hop. Indra insistia que devia ouvir rock dos anos 1970, Black Sabbath, Rolling Stones e Pink Floyd. Quando perguntou se tinha alguma sugestão de música para incluir no novo CD, respondeu: Money.
Na sua interpretação, Indra não foge muito do original, e o saxofone de Benjamin Traerup, e notas esparsas da guitarra de Uffe Steen compõem uma atmosfera relaxada e íntima.
Ninguém foge de sua natureza. Um bom produtor é aquele que sabe melhor explorar as características de cada um. É o que Larry Klein faz muito bem. Diana Krall não deixa de ser Diana Krall, assim como Joni Mitchell, que foi sua mais longa parceria, como marido e mulher e produtor e “produzida”. No caso de Rios-Moore, ele explora bem a voz inequivocamente negra, sem a extroversão de uma Sarah Vaughan ou de uma Etta James. A dela é nuançada, de uma expressividade mais para o intimista, com cada nota fluindo naturalmente sob uma instrumentação bem econômica. Essa característica está bem evidente desde os primeiros sons de Little Black Train.
Veja o clipe oficial de Little Black Train.
Mas o melhor de Heartland são duas interpretações matadoras: a de Heroes, de David Bowie, e From Silence.
Ouça Heroes.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Madeleine Peyroux com traje a rigor
![]() |
| Peyroux na capa do mais recente álbum |
Depois de ouvir The Blue Room por umas três vezes, fica-se a impressão de que é um tanto morno; não empolga. Não é uma crítica. Às vezes, uma orquestra “engessa” os solistas, mesmo que os arranjos sejam de Vince Mendoza, um craque. É uma Madeleine vestida a rigor. Até a capa transmite essa sensação.
The Blue Room foi concebido tendo-se como referência Modern Sounds in Country and Western Music, disco clássico lançado por Ray Charles em 1962. Larry afirma que esse disco foi importante na vida dele, porque fundia vários gêneros musicais americanos como o rhythm’n’blues, country music e jazz. Na época foi considerado transgressivo e causou boa celeuma.
Quando apresentou o projeto de gravar um disco que tivesse como referência esse álbum de Ray Charles, pensou logo em Madeleine por achar que o repertório dela se caracteriza por essa “mistura”. Madeleine “vestiu a camisa” – ou foi o smoking? Sugeriu algumas outras que poderiam se encaixar no projeto: Guilty (Randy Newman), Desperadoes Under the Eaves (Warren Zevon), Gentle on My Mind (John Hartford), e como não poderia faltar, mais uma de Leonard Cohen. A escolhida foi Bird on a Wire e é um dos destaques, junto com o clássico I Can’t Stop Loving You, a mais conhecida do LP de Ray Charles. As outras que ela regravou desse disco são Bye Bye Love, You Don’t Know Me, Born to Lose e I Love You So Much It Hurts.
Ouça Bird on a Wire.
Veja o vídeo de Changing All Those Things, composição de Buddy Holly.
Assinar:
Postagens (Atom)






