quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Seu nome é Indra Rios-Moore

O amor tem dessas coisas. Indra trabalhava como garçonete em um bar de vinhos e lá conheceu Benjamin Trauerup, jovem dinamarquês saxofonista. Após três semanas estavam morando juntos, e um ano depois, mudaram-se para a Dinamarca. Indra diz que “Se não fosse tão jovem e um pouco estúpida não teria ido para a Dinamarca, mas eu estava apaixonada, e ainda estou. Pois então, foi uma escolha pragmática. Demorou quatro anos para que eu aprendesse o dinamarquês, já que não é uma língua que flua naturalmente para um americano. Afinal, a criatividade surge da dificuldade.”

Ter casado com um dinamarquês é apenas um dado que se soma à incrível mistura de sangues e etnias. A mãe de Indra, assistente social de profissão, é portorriquenha, e o pai, Donald Moore, contrabaixista que já tocou com Jackie McLean, Archie Shepp, Elvin Jones e Sonny Rollins, é afro-americano-sírio. A música entrou naturalmente em sua vida por conta da profissão do pai e muito mais ouvindo a coleção de discos de jazz, rock e soul music de sua mãe. É dela também o nome Indra, inspirada na deusa hindu “guerreira do céu e da chuva”.

Indra e Benjamin, com o baixista Thomas Sejthen, montaram um trio em 2007. Lançaram um álbum chamado Indra, simplesmente, que foi indicado para Danish Music Award for Best Jazz Vocal Album, em 2010. Com o segundo álbum, In Between, em 2012, ganharam o prêmio que dois anos antes fora apenas indicação.

Indra e Benjamin estavam dispostos a dar um passo maior. Tinha gostado demais de Turbulent Indigo, de Joni Mitchell. Resolveram enviar um e-mail para Larry Klein, ex-marido de Joni, e midas da produção artística de cantores e cantoras, tendo em seu currículo, dentre outros, Melody Gardot, Luciana Souza e Madeleine Peyroux. Larry topou. Um contratempo: Indra ficou grávida.

Zarparam em Nova York com o novo membro da família. Pegaram cada tostão economizado para gravarem com Klein. Para a escolha do repertório, Indra pensou no que ouvia do aparelho da mãe. Lembrou-se de uma canção chamada Hacia Donde, composição da mexicana Marta Valdés. Foi uma de suas escolhas, além de Heroes, de David Bowie. Parece que virou norma: alguns originais, novas interpretações de sucessos pop e os famigerados standards. Está aí o modelo seguido pela maioria, até de consagrados como Diana Krall, Cassandra Wilson e até de emergentes como José James, Gregory Porter e Gretchen Parlato. Com Indra não é muito diferente. Dois standards contrabalançam as “modernidades”: Azure e Solitude, ambas de Duke Ellington.

Uma canção parece tão fora de contexto, mas tem relação com Hacía Donde. A escolha de Money, do grupo Pink Floyd, conhecidíssima até pelo ouvinte mais distraído, Foi sugestão do irmão mais novo. Quando menino, ficava a ouvir hip-hop. Indra insistia que devia ouvir rock dos anos 1970, Black Sabbath, Rolling Stones e Pink Floyd. Quando perguntou se tinha alguma sugestão de música para incluir no novo CD, respondeu: Money.

Na sua interpretação, Indra não foge muito do original, e o saxofone de Benjamin Traerup, e notas esparsas da guitarra de Uffe Steen compõem uma atmosfera relaxada e íntima.




Ninguém foge de sua natureza. Um bom produtor é aquele que sabe melhor explorar as características de cada um. É o que Larry Klein faz muito bem. Diana Krall não deixa de ser Diana Krall, assim como Joni Mitchell, que foi sua mais longa parceria, como marido e mulher e produtor e “produzida”. No caso de Rios-Moore, ele explora bem a voz inequivocamente negra, sem a extroversão de uma Sarah Vaughan ou de uma Etta James. A dela é nuançada, de uma expressividade mais para o intimista, com cada nota fluindo naturalmente sob uma instrumentação bem econômica. Essa característica está bem evidente desde os primeiros sons de Little Black Train.

Veja o clipe oficial de Little Black Train.




Mas o melhor de Heartland são duas interpretações matadoras: a de Heroes, de David Bowie, e From Silence.

Ouça Heroes.

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