O título original “Vou Te Contar” quase caiu no esquecimento. Até no Brasil lembram dela como “Wave”. Uma das coisas que irritava Antônio Carlos Jobim era ouvir suas músicas com letras vertidas para o inglês por Ray Gilbert e Norman e Marilyn Bergman. Fora a perda do espírito original, os letristas ficavam com metade dos royalties, o que não era nem um pouco justo. Por conta disso, Jobim resolveu ele mesmo escrever várias das versões. “Wave” é uma delas. Se não me engano, foi cantada com letra em inglês pela primeira vez por Frank Sinatra. Hartman deve ter ouvido esse registro, de 1969 pois, tão bom quanto o seu grave, é o de Sinatra. Bom, não vale comparar algum cantor com o velho Frank. É covardia. Apenas para registro, “Wave” teve sua primeira gravação nos Estados Unidos no álbum do mesmo nome, com arranjos de Claus Ogerman, em 1968.
Johnny Hartman é considerado cult, portanto, é aquele conhecido apenas pelos considerados “descolados”. Pelo menos, é o que parecia quando alguns “formadores de opinião”, como certo jornalista conhecido, em meados da década de 1990, decretou que em Nova York o álbum do momento era “Johnny Hartman and John Coltrane”. Detalhe: o disco é de 1963. Bom, dando um desconto, é provável que tenha lido alguma matéria sobre o álbum que estava sendo lançado pela primeira vez em CD, em 1995.
Bom, moda é moda. Teve uma época em que, se você não conhecesse “Chet Baker Sings”, era considerado um inculto e out. Lembro de quando trouxe esse álbum em CD, quando voltei do Japão, em 1988. Foram muitos os pedidos de cópias em fitas cassete, único meio de duplicação naquele tempo. Apenas os por volta de 50 anos tinham “CB Sings” em formato de LP e, provavelmente, em estado precário para audição, de tanto teremescutado. Os mais jovens estavam sendo apresentados àquele que diziam ter sido o grande influenciador da forma suave de cantar dos intérpretes da bossa nova. Nem o complete, inédito também no resto do mundo, de Billie Holiday na CBS, que eu tinha pago uma quantia considerável, fez tanto sucesso.
John e Johnny
Com a fama e prestígio adquiridos como sideman de Miles Davis e tocando com Thelonious Monk e os lançamentos dos excepcionais “Giant Steps” (1961). “Coltrane Jazz” (1961) e “My Favorite Things” (1961), Creed Taylor contratou John Coltrane a peso de ouro para a Impulse. Tinha recebido uma bela bolada na assinatura com a Atlantic Records. Mas no novo selo, seu passe só não foi maior do que a assinatura de Miles Davis com a CBS: 10 mil dólares no primeiro ano por dois discos, e 20 mil pelos próximos dois anos.
Os que ouviam Coltrane conheciam a sofisticação lírica inigualável ao tocar baladas e em composições próprias como “Naima”. Esse estilo belo e dinâmico nos andamentos lentos ficou registrado em “Ballads” (1963) e “Duke Ellington & John Coltrane” (1964). Sua interpretação de “In a Sentimental Mood”, neste último, é um dos clássicos de todos os tempos.
Ouça “In a Sentimental Mood”.
Hartman não atingiu a fama de Eckstine. Na fase pós Segunda Guerra Mundial, as orquestras ainda estavam à toda. Johnny começou com Earl Hines e logo depois com Dizzy Gillespie. Início brilhante. O primeiro disco que gravou como líder foi “Songs from the Heart” (1955), pela Bethlehem Records, e lançou apenas mais três LPs antes de “John Coltrane and Johnny Hartman”. O cantor mais famoso, fora Frank Sinatra, era Billy Eckstine. Era considerado o Sinatra negro. Bonitão, sua voz grave, de macho, como se falava antigamente, e carisma atraía milhões de ouvintes e, como não fosse isso suficiente, em suas orquestras tocavam os melhores músicos do jazz.
“John Coltrane and Jonnhy Hartman” foi gravado na mesma época dos dois citados. A escolha de Hartman foi a ideal. Os três álbuns representam o “gentle side” do gigante do saxofone.
O crítico A.B. Spellman, autor das liner notes do disco original, escreve que a era dos cantores, principalmente os do sexo masculino, perderam o protagonismo com o fim das bandas de bebop. Vários crooners que ficaram conhecidos eram barítonos, com vozes potentes, casos de Hartman, Herb Jeffries, Arthur Prysock e o grande Billy Eckstine.
Ouça “My One and Only Love”. A introdução de Coltrane é doce e genial.
Devido à boa repercussão, Hartman gravou mais dois álbuns na Impulse: “I Just Dropped to Say Hello” (1963) e depois, “The Voice That Is” (1965). Mas havia um problema que acometeu o mundo do jazz. O evolução e popularidade do rock matou esse gênero tão americano. Lançou vários discos depois, mas nem tudo é bom, por conta da escolha de repertório, por razões de mercado. Nem Tony Bennett escapou.
Na minha opinião, a canção mais marcante dos dois álbuns é “Charade”. É a melhor interpretação de todos os tempos do clássico de Henry Mancini e Johnny Mercer. Ouça.
Ouça “My One and Only Love”. A introdução de Coltrane é doce e genial.
Devido à boa repercussão, Hartman gravou mais dois álbuns na Impulse: “I Just Dropped to Say Hello” (1963) e depois, “The Voice That Is” (1965). Mas havia um problema que acometeu o mundo do jazz. O evolução e popularidade do rock matou esse gênero tão americano. Lançou vários discos depois, mas nem tudo é bom, por conta da escolha de repertório, por razões de mercado. Nem Tony Bennett escapou.
Na minha opinião, a canção mais marcante dos dois álbuns é “Charade”. É a melhor interpretação de todos os tempos do clássico de Henry Mancini e Johnny Mercer. Ouça.
De todos os posteriores, a obra prima é “Once in Every Life” (1980), pelo selo BeeHive. Quando ninguém mais ligava para ele, nos surpreende com essa pérola. A banda que o acompanha, com exceção do pianista Billy Taylor e do flautista e saxofonista Frank Wess, mais conhecidos, é completada por Joe Wilder no trompete e flugelhorn, Al Gafa na guitarra, Victor Gaskin no contrabaixo e Keith Copeland na bateria.
Neste álbum, nunca lançado em CD, Johnny Hartman reforça o talento que tinha em cantar baladas. São clássicos como “Easy Living”, “For All We Know”, “I Could Write a Book”, “I See Your Face Before Me”, “By Myself” e “Wave”.
Clint Eastwood que, além de ator e diretor, é um grande entendedor de jazz, comprou os direitos do disco e resolveu “picá-lo” e incluir todas as canções nos dois CDs que lançou como trilha de “Madison County”. Bom, a solução foi, ideia do Carlos Conde: montar o CD com as músicas na ordem original e copiar a capa original do LP. Foi o que fiz.
Ouça “Wave”, a música que me inspirou a escrever esse texto.
‘Moonlight in Vermont” fica mais genial na voz de Hartman.
