quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O Trem das Onze “al sugo” de Stefano Bollani

O “brasiliano” Bollani
Dois dos melhores pianistas italianos da atualidade se chamam Stefano. O mais conhecido é Bollani; Battaglia é bem menos, mas é também especial. Ambos gravam pela ECM, o que é boa recomendação. Gravam muito. Bem ativos. Battaglia segue um percurso mais linear, Bollani varia bem. É, ora jazz, ora italiano, erudito e… brasileiro, e como seus projetos são muito diversificados, grava por outros selos além da ECM. Joga nas onze, como se diz no Brasil.

Em algum lugar, “bestando” pela internet, descobri que havia o DVD Carioca, de Bollani. Como conhecia o CD, com o mesmo nome, saí à procura. Acabei, casualmente, encontrando na Livraria da Vila. O programa é um pouco diferente ao do CD pois foi tirado de uma apresentação no Festival di Villa Arconatti, em 28 de julho de 2009. Os músicos são os mesmos: os brasileiros Marco Pereira (violão), Jorge Helder (baixo), Jurim Moreira (bateria), Armando Marçal (percussão) e Zé Nogueira (sax soprano). Os “estrangeiros” são o clarinetista Nico Gori e Mirko Guerrini no sax tenor, músicos que gravam sempre com ele.

O CD é de 2008 e o DVD é do ano seguinte. Luz Negra, Segura Ele, Caprichos do Destino, Na Baixa do Sapateiro, Trem das Onze, Tico Tico no Fubá, Ao Romper da Aurora, Choro Sim, Apanhei-te Cavaquinho e A Voz do Morro estão nas duas versões. No CD temos 16 músicas. Duas participações valorizam o disco: Zé Renato, em Hora da Razão, e Monica Salmaso, em Folhas Secas.

Bollani é um tipo extrovertido, como grande parte dos músicos italianos. Lembro de uma apresentação de seu “xará”, um terceiro Stefano, este, de Battista, bom saxofonista alto, em que conseguiu fazer a plateia acompanhá-lo em Mack The Knife, de Kurt Weill, no Auditório Ibirapuera, SP. O trompetista Enrico Rava, com quem habitualmente Bollani toca, também: é falante e gosta de interagir com o público. A exceção, pelo menos, da vez que o (ou)vi, é o também trompetista Paolo Fresu.

Além de Carioca, Stefano gravou outro CD “brasileiro” – Falando de Amor (Venus Records, 2003) –, dedicado a Tom Jobim. Seu amor pela música brasileira não se restringe aos dois álbuns: Dom de Iludir e Brigas Nunca Mais fazem parte de Stone in the Water (ECM, 2009).

Ouça seu belíssimo Retrato em Branco e Preto, do álbum Falando de Amor. Bollani gravou Retrato novamente em The Third Man (ECM, 2007), com Enrico Rava.




Veja Bollani cantando Trem das Onze, do paulista Adoniran Barbosa e diga se ele não adora o Brasil.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Madeleine Peyroux com traje a rigor

Peyroux na capa do mais recente álbum
Está anunciado para 5 de março o lançamento do novo álbum de Madeleine Peyroux. Chama-se The Blue Room. É o quarto (dela) produzido por Larry Klein (leia http://bit.ly/XTTWnO). O baixista virou “o” produtor das cantoras. Estão na “lista” Luciana Souza (sua mulher, atualmente), Melody Gardot e Joni Mitchell (ex-mulher). Tem homens também, em minoria: produziu Rio, álbum agradabilíssimo do vocalista e trumpetista Till Brönner. (leia em http://bit.ly/VLOOCN e http://bit.ly/TZiTlO)

Depois de ouvir The Blue Room por umas três vezes, fica-se a impressão de que é um tanto morno; não empolga. Não é uma crítica. Às vezes, uma orquestra “engessa” os solistas, mesmo que os arranjos sejam de Vince Mendoza, um craque. É uma Madeleine vestida a rigor. Até a capa transmite essa sensação.

The Blue Room foi concebido tendo-se como referência Modern Sounds in Country and Western Music, disco clássico lançado por Ray Charles em 1962. Larry afirma que esse disco foi importante na vida dele, porque fundia vários gêneros musicais americanos como o rhythm’n’blues, country music e jazz. Na época foi considerado transgressivo e causou boa celeuma.

Quando apresentou o projeto de gravar um disco que tivesse como referência esse álbum de Ray Charles, pensou logo em Madeleine por achar que o repertório dela se caracteriza por essa “mistura”. Madeleine “vestiu a camisa” – ou foi o smoking? Sugeriu algumas outras que poderiam se encaixar no projeto: Guilty (Randy Newman), Desperadoes Under the Eaves (Warren Zevon), Gentle on My Mind (John Hartford), e como não poderia faltar, mais uma de Leonard Cohen. A escolhida foi Bird on a Wire e é um dos destaques, junto com o clássico I Can’t Stop Loving You, a mais conhecida do LP de Ray Charles. As outras que ela regravou desse disco são Bye Bye Love, You Don’t Know Me, Born to Lose e I Love You So Much It Hurts.

Ouça Bird on a Wire.




Veja o vídeo de Changing All Those Things, composição de Buddy Holly.