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terça-feira, 24 de junho de 2014

Maria Bethânia e o amor

Maria Bethânia e seus belos cabelos brancos
Antigamente, o amor era excludente, exclusivo. Gostar de alguém significava excluir o outro. O meu amor era por Gal Costa. Não existia mais nenhuma cantora. Se fosse gostar de outra, minhas preferências recairiam em Sylvinha Telles, que estava morta, e nunca por Elis Regina ou por Maria Bethânia, vivas. A paixão por Caetano Veloso e por Gilberto Gil – os baianos, por coincidência? – era um problema para amar Chico Buarque. Talvez menos por Edu Lobo, nem tão antagonista, na minha mecânica mental.

Stalinistas como Jorge Amado odiavam trotskistas. O baiano chegou ao ponto de criar um personagem chamado Abelardo Saquila em Os Subterrâneos da Liberdade, para atacar e denegrir o nome do trotskista Hermínio Sacchetta. Golpe baixo. Um outro stalinista de carteirinha teria um comportamento menos odioso. Segundo o estatuto do Partido Comunista, no artigo 13 proíbia-se o contato dos comunistas com a “canalha trotskista”. Oscar Niemeyer costumava reunir os amigos em seu escritório. Só gente da esquerda. Mesmo com a vigência do artigo 13, Oscar continuava amigo de um arquiteto… trotskista. Os camaradas reclamaram. Oscar respondeu-lhes que continuava amigo dele porque ele era só “canalha”; então, tudo bem.

Muitos anos depois disso tudo, na década de 1970, em plena ditadura militar, as coisas não tinham mudado muito: stalinistas de um lado, e do outro, os trotskistas. Os partidários do primeiro eram membros ou simpatizantes do Partidão, retrógrados e sendo nacionalistas, gêneros como o samba eram a manifestação mais importante na cultura brasileira. Ah, e liam Amado. O “outro lado” era internacionalista, gostava de rock’n’roll, libertária, lia David Cooper, Wilhlem Reich, Ronald Laing, gostava de Merlau-Ponty, Claude Léfort e, como ninguém é perfeito, achava Marilena Chauí o máximo. Bom, isso são outros tempos. Depois de concluir o curso de arquitetura na FAU, prestei vestibular para estudar filosofia, só para ter aula com ela. Na década de 1970, Nelson Rodrigues era odiado por ser de direita, apesar de obra significativa como dramaturgo e jornalista. Hoje, e não é pela ascensão da direita, esta sim burra e mal educada, é adorado e incensado como revolucionário pela esquerda. As coisas mudam.

Bethânia e Gal Costa. As duas nasceram na Bahia. E Bethânia, apesar de irmão de Caetano Veloso, seguiu por trilhas diferentes. Veio antes para o Sudeste e surgiu como um foguete substituindo Nara Leão no musical “Opinião”. Possuía uma voz forte e presença carismática. Não dava para ignorar. Nara, por sua vez, era uma mocinha um tanto tímida, dentucinha e, todo mundo dizia, tinha os joelhos mais bonitos do Brasil. Era filha de um advogado classe média, que hoje poderia ser incluído, segundo as novas divisões sociais, dentre os membros da elite branca mal educada. Em sua casa, outros filhos da elite branca mal educada se reuniam para tocar e cantar. Assim nasceu a bossa nova, movimento da classe média mais e menos abastada.

Gilberto Gil, filho de médico, portanto, da elite, estudou administração de empresas e veio trabalhar em uma multinacional americana, em São Paulo. Veio depois Caetano; e depois, Gal. Caetano virou a tal da MPB de cabeça para baixo introduzindo guitarras elétricas ao defender Alegria, Alegria com uma banda de jovens cabeludos argentinos. Gil, mais conservador, no princípio, foi contra a eletrificação da MPB. Participou até de passeata contra as guitarras e a favor da pureza da nossa música. O anti-americanismo era forte. Mudou. Defendeu Domingo no Parque com um brilhante arranjo de Rogério Duprat, numa mistura de orquestra de cordas com os elétricos e jovens Mutantes.

Descobriram uma voz doce, afinadíssima e delicada em Domingo, LP lançado pela Philips em que cantava com o leão manso Caetano Veloso. Em pouquíssimo tempo, já sob nuvens tropicalistas, lançaria-se como uma menina de cabelos à la Angela Davis, rosto redondinho, meio hippie, e dando seus gritinhos. Nesse meio tempo acontecia uma revolução na Amériaca com Jimi Hendrix e Janis Joplin. Provavelmente, a Gal que emergia ouvira Janis e, sob as asas do “segura que vou ter um troço” Wally Salomão, montou um show antológico chamado Fa-tal A Todo Vapor. Aí, tinha soltado a garganta em canções belíssimas de Jards Macalé e do próprio Wally.

Maria Bethânia, por sua vez, seguia seu caminho, um pouco distante dos anos quentes dos finas dos anos 1970. Com Fauzi Arap, montou shows memoráveis. Eram dramáticos, ou melhor, teatrais, com Maria misturando poesia da mais alta qualidade com música. Minhas objeções quanto a pegar o espectador pela catarse, apesar de achar interessante, e um certo fervor preconceituoso tipo “é isso ou aquilo” e nunca as duas coisas ao mesmo tempo, fizeram-me, no máximo, ouvir os discos e nunca ira a um desses shows. A gente sempre tem do que arrepender. Hoje, sinto não ter visto nenhum deles.

Do mesmo modo que não perdia oportunidades de ver e ouvir Gal, caetanista de carteirinha, tinha dificuldade de gostar de Chico Buarque. Como castigo vem a galope, arrumei uma namorada que o adorava. Todo o tempo em que ficava em sua casa, um disco de Chico recém-lançado rodava na vitrola. Devo admitir que não foi de todo o mal, digo, ficar a ouvi-lo.

Bethânia, a revelação. Com o tempo, tornando-me menos sectário, lidando melhor com os opostos político-culturais, meus ouvidos ficaram mais tolerantes. Em 1978 fora lançado o LP Álibi. Nessa altura, estava com outra namorada, e para o meu desgosto, gostava de Bethânia. A música título, de Djavan tocou muito no rádio, assim como Explode Coração, de Gonzaguinha. Se não ouvia em sua casa, quando ligava o rádio no carro, lá vinha Bethânia. O disco vendeu mais de um milhão de cópias, coisa rara em se tratando de MPB. E, vai saber por que, adorava ouvir a mais que brega Negue (na verdade, isso revela o meu lado brega). Passava os dias a cantar o refrão. Era o resgate de um ícone do brega. Adelino Moreira não era um desconhecido. Vendia milhões de discos, como Jair Amorim, nas vozes de intérpretes como Altemar Dutra e Agnaldo Timóteo. Adelino era tão brega que, mesmo milionário, continuava a morar em São Cristóvão, um subúrbio carioca. Para fazer juz ao dinheiro amealhado, construiu uma bela casa… com a piscina na frente. Era a forma de mostrar que era rico e que fazia sucesso.

Sem que percebesse, discos de Bethânia começaram a habitar a minha casa. Passava de uma dezena. Tinha a obrigaçação de escutá-los. Mas passou muito tempo até que, sem dar-me conta, estava ouvindo com frequência o CD Âmbar (EMI 1996). Ficava emocionado com o seu Chão de Estrelas, aquela que muitos consideram a música com o verso mais belo da MPB: “E tu, tu pisavas no astros distraída”. Impressionara-me já a primeira faixa: Âmbar. E a composição era de Adriana Calcanhoto. A amiga Andressa a adora. Mesmo levando em conta o seu bom gosto, nunca havia dado muita importância ao seu juízo. Chico César é outro compositor que combina lindamente com Maria Betânia. Invocação, com belíssimo vocalise de Virgínia Rodrigues, é outro destaque. E a faixa seguinte é outra bela contribuição de Calcanhoto, com Uns Versos. Comentei com um amigo que andava ouvindo muito Bethânia. Percebi um olhar meio estranho. Depois de alguns segundos perguntou se eu estava bem. Sem que eu respondesse, arrematou: “Mas isso passa logo”, como se eu estivesse com algum problema.

Ouça Âmbar.




Ouça Chão de Estrelas.




Meus Quintais. Neste mês Maria Bethânia lança mais um álbum. Não muito tempo atrás, saiu um duplo – Cartas de Amor – ao vivo. Meus Quintais é o primeiro após a morte da mãe, dona Canô. Na imprensa e nos releases, a tônica é morte da mãe e o clima melancólico de Meus Quintais, e como o título sugere, um disco “interior”, com os “pés na terra”, e memorialista. Mas Bethânia sempre foi assim, talvez; antes mais dramática e agora, mais serena, no entanto, sempre intensa.

Bethânia pediu a Chico César uma música. O paraibano enviou-lhe Xavante e Arco da Velha Índia. Impressionante como funciona. Ouça Xavante.




Adriana Calcanhoto, quando soube que César estava compondo para um novo disco de Bethânia, enviou uma mensagem: “Ciúme de Chico César.” Depois da “cobrada”, não teve saída. Ainda bem. Compôs Iara. A pedra de toque foi a junção de um texto de Clarice Lispector. Foi a última contribuição de Fauzi Arap, diretor teatral daqueles antológicos shows da década de 1970.

Ouça Iara / Uma Perigosa Yara




O fecho é com um belíssimo Dindi, faixa bônus.





Veja o vídeo release do novo álbum.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Dois tempos: “De Manhã” e o show Gemini V, com Pery Ribeiro, Leny Andrade e o Bossa Três

Leny e Pery, anos depois do Gemini V
Em uma casa muito simpática de São Paulo, o Madeleine, na Vila Madalena, todas as quintas feiras apresenta-se o Hammond Grooves, trio formado por Daniel LaTorre, o mestre (e o melhor) do Hammond B-3 no Brasil, Daniel Daibem, na guitarra, conhecido pelos programas na Eldorado FM, e Wagner Vasconcelos na bateria. Tocaram De Manhã, uma das primeiras composições de Caetano Veloso e cantada pela primeira vez, se não me engano, pela irmã Maria Bethânia, em ritmo mais para o samba jazz.

Imediatamente lembrei-me daquela que considero a melhor interpretação dessa canção, a de Leny Andrade, em um disco antológico chamado Gemini V. É a reprodução “ao vivo” de um show na boate Porão 73, no Rio de Janeiro. “Reprodução” porque optaram por registrá-la em estúdio mesmo, “arremedando” um espetáculo ao vivo. Antigamente não havia a facilidade de hoje em se gravar um show de modo decente. O mundo mudou e, com um telefone celular é possível se fazer um filminho com som bem razoável.

Ronaldo Bôscoli e Miele formaram uma dupla invencível em produzir os chamados pocket shows. Havia passado o tempo das produções espetaculares do tempo dos cassinos legalizados até 1946. O roteiro de Gemini V é o de uma viagem musical, inspirada, evidentemente, na era espacial dos Geminis e Sputniks anteriores à expedição Apolo, que desembarcou na lua. Depois disso, alguma poesia se foi.

O sons de um um contrabaixo “desorientado”, no arco, anunciam o início da “viagem”. Entra Pery. Ao fim do medley, Leny pergunta: “Pery… Pery, eu quando vim entrando, eu vi escrito assim: Gemini V… por que Gemini V?” “Ora, Leny – responde Pery –, porque Gemini quer dizer vanguarda e cinco, é só contar. 1, 2, 3, 4, 5.” Leny: “Já estou começando a entender.” Contagem regressiva. Assim é o início de um dos grandes discos da música brasileira.

O dado mais significativo da carreira de Pery é a primazia de ter gravado Garota de Ipanema ou, também, o de ser filho de dois notáveis – Herivelto Martins e Dalva de Oliveira – que, afora seus talentos, viram suas vidas (brigas, infidelidades, etc.) expostas nos meios de comunicação (leia sobre os pais de Pery em http://bit.ly/VGteV6). É imerecido para a bela voz de Pery, que deve ter sofrido um bocado por ser filho deles.

Sendo um marco da bossa nova, assim como Chega de Saudade (1956), somos inclinados a pensar que o primeiro a gravá-la tenha sido João Gilberto. Quando Tom Jobim e Vinícius de Moraes compuseram Garota e lançaram-na no show “Encontro”, na boate Au Gourmet, que teve estreia em 2 de agosto de 1962. Quem viu não deve ter esquecido. Reuniu Jobim, Vinícius e João Gilberto. Mas, como em Chega de Saudade, João foi o “segundo”. A primeira gravação aconteceu em Canção do Amor Demais, de Elisete Cardoso, clássico com arranjos de Jobim e acompanhamento ao violão de João. Dizem que ele “vacilou” bem: não queria participar do disco. Garota de Ipanema foi lançada por Pery em 1963 em disco com o Tamba Trio e Os Cariocas.

Voltando ao show, depois da contagem regressiva, é a vez de Leny cantar. E, que grande cantora era, e é. Como a voz de Sarah Vaughan, foi se transformando com o tempo, ganhando peso, ficando mais grave. A Leny de 1966 tinha a voz de menina, e o suingue, tão importante para os intépretes mais jazzísticos, já estava todo lá. Que belas modulações vocais! Nos liner notes do disco, Bôscoli é todo elogios para Pery e Leny: “Pery está perto do total. E que dizer de Leny Andrade? Talvez dizer que ninguém mais a supera. Para mim ela passa a ser, neste LP, a maior cantora do Brasil.”

A conjugação de várias músicas em uma, o que chamam de medley, é mais comum no jazz, e nas apresentações ao vivo é frequente. Gemini V é quase todo assim, de canções que, por sua temática, se “juntam”. Como não podia deixar de ser, a primeira se chama O Astronauta, de Baden Powell e Vinícius de Moraes; o tema “espacial” é seguido por Só Tinha de Ser com Você, Rio de Sol Maior (Luis Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli), Rio (Robero Menescal e Bôscoli), Coisas do Dia (da Sinfonia do Rio de Janeiro, de Billy Blanco e Antônio Carlos Jobim), Estamos Aí (Maurício Einhorn, Durval Ferreira e Regina Werneck), Feitinho pro Poeta (Baden Powell e Luiz Fernando Freire), e Garota de Ipanema. Estes oito temas perfazem um tempo de seis minutos e vinte e um segundos, incluindo a fala inicial (a citada no parágrafo anterior). É muito para tão pouco tempo. Deixo de citar os outros dois medley, para não ficar tão cacete.

A qualidade maior do show é perfeita sintonia entre Pery e Leny, muito graças ao Bossa Três, do grande pianista da noite Luiz Carlos Vinhas, com Otávio Bally Jr. no contrabaixo e Ronie Mesquita na bateria. Um detalhe: ser pianista da noite não o desmerece; significa apenas que, primordialmente, era um pianista das noites cariocas. O balanço de Vinhas era contagiante. Pode ser conferido em Nanã, de Moacir Santos, primeiro número solo do Bossa Três. A sexta faixa também é do trio de Vinhas. É um Só Saudade (Newton Mendonça e A. C. Jobim), de primeira. Pena que tenha morrido antes de ter feito 60 anos devido a complicações pós-operatórias. De uma levada só, resolvera fazer plástica nos olhos, na papada do pescoço, e cirurgia de duas hérnias, uma no abdomen e outra na virilha. Foi muito. Tem cara de descuido da clínica onde fez as cirurgias.

O ponto alto, pelo menos de Leny, é na faixa seguinte. Seu De Manhã é excepcional. Não existe melhor, nem a do autor, Caetano Veloso, nem da irmã Maria e, muito menos, a de Elis Regina. Leny é internacional: apresenta-se bastante fora do Brasil. Não existe aqui alguém com seu senso de fraseado. Pery é (era, porque já morreu) outro com aquele suingue brasileiro que os estrangeiros não possuem. Não teve o prestígio que merecia. Era o cara certo na hora errada. Submergiu na onda da jovem guarda e do rock’n’roll. Era um tremendo cantor. Isso pode ser conferido em Por Quem Morreu de Amor (Menescal/Bôscoli). Ouça e tire o chapeu.


Ouça também De Manhã por Maria Bethânia.
Veja e ouça com seu autor, Caetano Veloso.