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quinta-feira, 25 de abril de 2019

O brilho eterno de Schubert na visão de Vladimir Martynov

De vez em quando, a ignorância ajuda. A ignorância faz de mim um curioso. Por curiosidade, e por gostar de música, tento ouvir de tudo e ver se aprendo alguma coisa.

Em relação à música erudita, passo temporadas ouvindo compulsivamente determinadas peças dos meus compositores preferidos por intérpretes diferentes. Digo isso em razão de uma “reinterpretação” do “Quinteto de Cordas em Sol maior”, de Franz Schubert, de Vladimir Martynov, que ouvi pela primeira vez há pouco tempo.

Schubert é uma das minhas obsessões. Fora a “Oitava Sinfonia”, que “morou” na discoteca da minha família, inadvertidamente, pois meu pai nem rádio ouvia, a primeira coisa que ouvi foi a “Sonata para Piano em Si bemol maior, D. 960”, com Alfred Brendel, em LP lançado pela Philips brasileira. Comecei por cima. Está entre as suas grandes composições.

Na mesma época, por curiosidade, achei no meio dos usados, no Edgar Discos, um disco com as “Quatro Últimas Canções” (“Vier letzte lieder”), de Richard Strauss, cantadas por Montserrat Caballé, bem antes dela ficar mundialmente conhecida pelo dueto que fez com Freddie Mercury, da banda Queen. Foi uma paixão avassaladora pelos “lieder”, que nascia em mim.

Como os álbuns importados eram muito caros para o bolso de estudante, procurava LPs nacionais lançados no Brasil pelos selos Philips e Deutsche Grammophon. Mesmo com o domínio total de títulos de música popular, éramos brindados com poucos e bons títulos de música erudita, pois tinham percebido que existia um nicho, pequeno, mas fiel, para esse gênero. Apesar da qualidade sofrível dos LPs, em que os chiados concorriam com os pianíssimos, era o possível para os de poucas posses. Além dos Vivaldi, Boccherini e Handel, que vendiam bem, lembro de boas gravações, de compositores menos vendedores, como Brahms, em uma caixa com as “Quatro Sinfonias”, com regência de Georg Solti, Mahler, com a integral das Sinfonias, com Bernard Haitink, e até discos de compositores contemporâneos, como Luciano Berio e Penderecki.

Depois das “Quatro Últimas Canções”, conheci “A Canção da Terra” (“Das lied von der Erde”), de Mahler. Com meu interesse despertado pelas sonatas para piano, quando lançado, comprei um LP de lieder, por Elly Ameling. Sem conhecer uma palavra de alemão, tentava cantar junto “Im abendrot” e “Die liebe hat gelogen”, decifrando cada fonema das letras incluídas no encarte.

Lembro agora que, antes dos LPs com as últimas sonatas de Schubert, por Brendel, tinha comprado o “Quinteto para Piano e Cordas, D. 667”, conhecido como “A Truta”, de uma gravação da alemã MPS/Basf.

O ser e o artista
Muitos criticaram a cinebiografia “Amadeus”, dirigida por Milos Forman. É ficção, afinal. Antonio Salieri ficou mal na fita. Foi demonizado no filme, invejoso do talento de seu contemporâneo. Mozart é retratado como um irresponsável e inconsequente. Mas foi um gênio.

É preciso dissociar a pessoa do artista. Schubert adorava uma taberna. Era um boêmio e, bêbado, mostrava “um lado mais selvagem de seu caráter”, segundo Alex Ross (“Escuta só”, Cia das Letras, 2010, pág. 149).

Franz Schubert nasceu em Viena, 1797, e morreu em 1828. Em seus 31 anos de vida, produziu como ninguém. É autor de cerca de mil obras. É autor dos lieder mais belos da história. Foi um dos que melhor casaram a poesia com a música. “Sua necessidade de retratar torrentes de sentimento o levou a um estudo obsessivo da poesia: ele foi – e continua a ser – um dos compositores mais literários.” (id., pág. 155)

De sua incrível produção, entre 1823 a 1828, ano de sua morte, compôs uma série de obras-primas: “três quartetos, dois trios para piano, o quinteto para cordas, as últimas oito sonatas para piano, a Nona Sinfonia e os ciclos de canções.” (id, pág. 160)

De acordo com Ross,“várias composições partiram de fontes schubertianas: ‘Rendering’, de Luciano Berio, ‘November 19, 1828’ (data da morte de Schubert, é claro), de John Harbison, ‘Lazarus’, de Édisson Denisov, e ‘Torso’, de Georg Friedrich Haas, para citar alguns. Enquanto isso, parece que o próprio Schubert ainda está compondo: conclusões de diferentes editores de suas numerosas peças inacabadas chegam de tempos em tempos.’ Resumindo: até hoje, compositores “estudam suas partituras em busca de novos caminhos.”

Ouvi, pela primeira vez, recentemente o álbum “Music of Vladimir Martynov”, com o Kronos Quartet. É de 2012, portanto, não é novidade. Dentre as peças escolhidas, a que mais me impressionou foi “Schubert-Quintet (Unfinished) - Movement I e II”. Complementa o CD “The Beatitudes” e “Das Abschied”, que é também uma “reinvenção” sobre o último movimento de “Das lede von der Erde” (“Canção da Terra”), de Gustav Mahler. Mas essa é menos impressionante.

O diferencial do “Quinteto para Cordas em Dó Maior, D. 956” é uso de dois violoncelos. Citando mais uma vez Ross: “ O quinteto para Cordas e a Sonata em Si Bemol, ambas terminados em setembro de 1828, parecem de fato uma despedida consciente e uma conclusão. A sequência de eventos do adagio do Quinteto – um tema principal hesitante, quase insuportavelmente melancólico, uma seção central veemente, um retorno ao primeiro tema, enfraquecido, contudo ainda mais adorável; de novo um brevíssimo lampejo de ira; depois uma passagem para o silêncio – poderia mostrar uma consciência, um desafio e depois a aceitação da morte.” Depois dessa descrição genial de Alex Ross, não resta senão ouví-la.

Veja o Camerata Quartet e Marta Kordykiewicz no segundo violoncelo a tocar o Adagio do Quinteto em Dó Maior.




Ouça a “reinvenção” de Martynov. Movimento I.



Movimento II.




quinta-feira, 18 de abril de 2019

Sobre Richard Strauss e saudades da Edgar Discos



Lembro que, por recomendação de alguém, conheci uma pequena loja de discos que ficava espremida entre a Cultura Inglesa e a delegacia do bairro. Na rua Lacerda Franco gastei boa parte da minha mesada em LPs na Edgar Discos. Era uma dessas casas de bairro cuja frente resumia-se à janela do quarto da frente e uma entrada lateral que possuía um portão baixo de ferro. Quatro ou cinco degraus acima, passava-se pela porta e pelo quarto da frente e, logo depois, à direita, chegava-se a um cômodo que não devia ter mais que quatro por quatro metros, entulhado de discos novos e usados. O “filé” eram os de segunda mão, principalmente para alguém que recebia uma mesada “na conta”. Economizava no lanche e no cinema para poder comprá-los.

Era uma família estranha. O Edgar usava um óculos de armação pesada, preto, que ampliava seus olhos e sua roupa não denotava que tinha sido alfaiate antes de ter a loja: calças mal ajambradas, meio largas, que iam descendo e deixava à mostra sua cueca “samba-canção”, daquelas que, antigamente, eram de ilhoses – sem elástico na cintura – e, por vezes, revelavam o que hoje chamam de “cofrinho”. Quase sempre sua mãe estava sentada numa cadeira vestida com camisolas de malha suedine branca com estampas coloridas e chinelos com meias soquete, geralmente cinzas, de lã. Tinha os cabelos grisalhos bem crespos, sempre puxados para trás e presos. Conversava de vez em quando com os clientes. Tinha o rosto comprido e suas bochechas saltadas marcavam a região da boca, dando-lhe uma aparência meio canina, meio “guarda” do pedaço. Sua esposa era uma senhorinha pequena de lábios bem finos e boca característica de quem usava dentaduras mal ajustadas, voz esganiçada de sotaque indefinível e seu indefectível “Edegar”. Tinha uma filha também, que quase sempre estava na loja. Usava uns óculos meio fora da moda e, como devia ter hipermetropia, como seu pai, seus olhos ficavam ampliados através das lentes e parecia um pouco com aquela moça que trabalhava no programa humorístico ‘Chaves’ que, até hoje é exibido na emissora do senhor Silvio Santos.

Fora essa estranheza toda, no setor dos discos novos, Edgar sempre tinha as últimas novidades. O bom era que sempre recebia discos promocionais com um selo em hot stamping onde se lia “Produto Invendável”. Custavam quase sempre a metade de um novo. Como recebia poucos desses, a tática era passar pela loja com frequência, o que no meu caso, era umas três vezes por semana.

Os discos usados ficavam nas prateleiras inferiores, cuidadosamente separados por gêneros. Ia direto nos setores de jazz e de música clássica. Lá estavam as “joias”, aqueles discos importados “detestados”, avant-garde demais, atonais demais, que não batiam com o gosto “normal” e eram uma pechincha. Formei boa parte de minha discoteca no Edgar. Além dos avant-garde como o Art Ensemble of Chicago, Anthony Braxton e Cecil Taylor, garimpei meus primeiros Art Tatum. Até hoje é um dos meus pianistas preferidos.

Alimentou também minha discoteca de música clássica. Tinha uns poucos discos de Bela Bartók, Debussy, Stravinsky e Mahler, comprados na loja Bruno Blois. No Edgar, arriscava mais. Se a aposta fosse errada, não teria custado muito dinheiro. E a oferta era bem razoável. Nessa busca pelo “desconhecido” comprei um disco com canções de Mahler, cantadas por um barítono de quem não me lembro mais o nome. Foi uma revelação. Paixão à primeira vista. Desde então, adoro os lieder cantados em alemão, principalmente. A voz humana é fascinante.
Richard Strauss, autor de “Vier Letzte Lieder”

Um outro disco que comprei lá e me marcou foi o “Vier Letzte Lieder” (“As Quatro Últimas Canções”, de Richard Strausss, cantada pela espanhola Montserrat Caballé e regência de Alain Lombard, da gravadora francesa Erato. Foi um impacto. Não tornou-se a minha peça de cabeceira apenas porque dificilmente ouço música deitado na cama. O primeiro lied, “Frühling” (“Primavera”) é fascinante. Seu início é impactante. É tensa, de beleza dramática e, ao mesmo tempo, transmite uma sensação de paz crepuscular. Não é à toa que são as últimas peças completas compostas por Strauss. O compositor de “Also Sprach Zarathustra” deve ter ido para o céu depois desse “testamento”.

Pelo interesse pela música cantada descobri a “Canção da Terra” (“Das lied von der Erde”), de Mahler – que comprei usado no Edgar, com regência de Bruno Walter –, depois, descobri os lieder de Schubert, Schumann, Canteloube, Poulenc e Duparc. Vi que mais atrás existiam as “Paixões” de Bach, sua “Missa em si menor”, o “Vespro della Beata Vergine” e “Orfeo”, de Monteverdi, as canções de trevas de Charpentier. É um universo sem fim.

Por conta de um tanto de obsessividade, quando gosto de uma peça, procuro ouvir várias versões para poder compará-las. Tenho várias versões do “Cravo Bem-Temperado”, das “Suites para Cello”, de Bach, do “Vespro della Beata Vergine”, de Monteverdi, e de “Vier Letzte Lieder”, de Richard Strauss. E, assim conheci Elisabeth Schwarzkopf, uma das minhas paixões musicais.


Veja e ouça Richard Strauss. “Im abendrot” com Kiri Te Kanawa, regência de Georg Solti.


Ouça as “Quatro Últimas Canções”, de Richard Strauss, com Elizabeth Schwarzkopf, minha nazista preferida, sob regência de George Szell. Pode ser um pouco exagerado o termo “nazista”. No fim da Segunda Guerra, ela foi morar em Viena, para ser “poupada” de alguma possível consequência de ter sido simpatizante do regime de Hitler. Outro simpatizante, Karl Böhm foi ser diretor do Teatro Colón, de Buenos Aires, pela mesma razão. Schwarzkopf nunca tocou nesse assunto, se não me engano. Casou com Walter Legge, um dos grandes produtores da música erudita, responsável pelo setor de clássicos da EMI. Tornou-se uma das cantoras mais prestigiadas e chegou a ter um programa de televisão.


quinta-feira, 28 de março de 2019

Violinistas mulheres e Bach

Bem, não posso dizer com muita propriedade que, antigamente, os principais violinistas eram homens. É meio chute. Creio que o mais conhecido no século passado foi Jascha Heifetz, assim como, David Oistrakh, Nathan Milstein e, talvez, Isaac Stern e Arthur Grumiaux. Em termos de fama, devemos citar Yehudi Menuhin, muito popular, por seu carisma e por suas aparições em programas de TV. De uma geração posterior, Gidon Kremer e Itzhak Perlman.

Um destaque, entre mulheres, uma das pioneiras foi Sarah Chang, considerada menina prodígio. Pouco se fala dela, hoje. A primeira, realmente, a ser considerada um fenômeno foi Anne-Sophie Mutter. Tinha 13 anos, quando Herbert von Karajan convidou-a para fazer parte da Filarmônica de Berlim. Foi assunto até em veículos não especializados em música clássica. Muitos membros da orquestra não gostaram nem um pouco. Mas o “kaiser” Karajan, ex-membro do Partido Nazista nos tempos de Hitler, fez valer sua autoridade. Por bem ou por mal, o maestro sabia o que estava fazendo. Logo, Mutter , por seu talento, calou a boca de seus detratores e firmou-se como uma das estrelas da música erudita. Inaugurou, de certo modo, a era dos astros desse gênero, como estratégia de mercado: intérpretes estrelas, aliando talento e beleza física. Mutter tocava maravilhosamente, com vestidos confeccionados especialmente para ela por casas como a Dior,

A alemã abriu um enorme caminho em um terreno antes dominado por músicos do sexo masculino. Era a vez delas, começando por Viktoria Mullova, pouco mais velha que Mutter. De curioso, sobre Mullova, nascida em 1958, é a de que despontou ainda no período em que o regime soviético “protegia” muito seus talentos. Em excursão na Finlândia, fugiu espetacularmente para o Ocidente. Sua vontade de fugir da ditadura comunista era tão grande que deixou o Stradivarius, que o regime colocou à sua disposição, no hotel. 

Hilary Hahn, uma das grandes violinistas atuais
Vieram outras depois: Hilary Hahn, Julia Fischer, Nicola Benedetti, Rachel Podger, Isabelle Faust e Amandine Beyer. Os homens ficaram em minoria. Os melhores, como Maxim Vengerov e Gil Shaham, foram eclipsados pela nova “big wave”.

Bach, sempre Bach
Na última semana, fiquei a ouvir obsessivamente as “Partitas” e “Sonatas”, os “Concertos para Violino” e as “Sonatas para violino e cravo (ou piano)”,  de Johann Sebastian Bach. Coincidiu com seu aniversário. Bach, acima de tudo e de todos. É o maior compositor de todos os tempos, na minha opinião.

Começou assim: ao ouvir pela primeira vez as “Sonatas e Partitas”, com Amandine Beyer, resolvi fuçar na minha discoteca à procura das mesmas peças com outros intérpretes. Uma coincidência: das mais recentes, todas são do sexo feminino. Além da francesa, ouvi várias com o violino, solos, duos e concertos com Isabelle Faust, Rachel Podger e Hilary Hahn. Não tenho conhecimento suficiente para dizer qual delas é a melhor tocando Bach. Sei que acho todas de primeiríssimo nível. Vale a pena ouvir qualquer uma delas.

Veja Beyer tocando a “Partita BWV 1002 – Allemande”.




Ouça, da mesma “Partita”, o quarto movimento.




Uma das violinistas mais impressionantes da atualidade é Hilary Hahn. Veja-a a tocar a mesma peça.


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Katia e Marielle Labèque e suas raízes

Ganha um doce quem sabe o que as irmãs Katia e Marielle Labèque e Maurice Ravel têm em comum fora terem seus nomes ligados à música erudita. Os três nasceram na região basca da França, Mais conhecida é a parte espanhola, que constitui 90% de seu território, e presente nos noticiários no século passado, devido aos atentados violentos e sanguinários perpetrados pelo grupo terrorista ETA, em favor da autononomia dos territórios bascos. Hoje, é considerado Comunidade Autônoma, como é a Catalunha.

Bascos notáveis
Maurice Ravel nasceu em Ciboure, bem perto de Biarritz, em março de 1875. Basco por parte da mãe, Marie Delouart, cresceu em Paris, entretanto, parafraseando uma frase conhecida, “saiu de lá, mas os Países Bascos não saíram dele.”

Katia e Marielle Labèque, nascidas em Bayonne, como Ravel, começaram seus estudos de piano com a mãe Ada Cecchi, que tinha sido aluna de Marguerite Long e, posteriormente, fizeram o Conservatório de Paris. Ficaram conhecidas, inicialmente, executando compositores contemporâneos, com György Ligeti, Luciano Berio e Olivier Messiaen. É desse autor “Visões do Amém”, que gravaram na primeira incursão fonográfica.

Belas e talentosas, atraíram a atenção das gravadoras. A Philips chegou na frente, com elas executando “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin, em versão para dois pianos. Venderam um milhão de cópias, fenômeno, em se tratando de música erudita.

O prestígio das irmãs não foi apenas pelas vendas. Compositores contemporâneos, a exemplo de Berio, Michael Nyman, Philip Glass e Osvaldo Golijov, compuseram especialmente para as Labèque tocarem em estreia mundial.

Depois de lançarem discos pelos melhores selos de música erudita, criaram o KML Recordings, focado em um repertório mais abrangente e heterodoxo, incluindo o rock experimental e a música mais tradicional, como a que gravaram com a espanhola Mayte Martin (“De Fuego y de Agua”, 2008).

Os álbuns mais recentes são demonstrativos do distanciamento do repertório mainstream. “Moondog” aborda a música de Thomas Hardin, cujo nome artístico intitula o disco. É algo muito diferente, algo impossível de ser rotulado.

No mais recente, “Amoria”, as irmãs Labèque fazem uma viagem pela música basca, do século 16 até nossos dias. É um tributo às suas origens, com um resultado que não decepciona. Seu início é animador. “Con amores, la mi madre”, de Joanes Antxieta, em arranjo para dois pianos e o contratenor Carlos Mena, é um grande início. As seguintes são também de autores pouco conhecidos, fora Pablo Sarasate, basco de Pamplona, e Maurice Ravel.

O amor de Ravel por seu país
Acho que não há ser humano no planeta que não conheça “Bolero”, popularmente chamada de “Bolero de Ravel”. Apesar de possuir uma obra de respeito, que não se resume ao tema que virou “carne de vaca” depois de ter feito parte da trilha sonora de “Retratos da Vida”, filme de Claude Lelouch. Ser basco foi um dado importante não apenas na música, como é possível perceber-se nessa afirmação, contida no encarte: “É sobre meu coração seco. Isso está errado. Mas sou basco e os bascos não se entregam aos poucos. Você pode não acreditar com o desgosto que eu deixei St. Jean de Luz. Eu realmente senti essa impressão nostálgica somente quando vi o oceano desaparecer primeiro, depois os Pirineus. Realmente, meu país é um dos mais belos e bonitos, eu diria. O mar está cheio de acácias. E essas suaves colinas verdes, de cima a baixo, caem das pequenas bolas de carvalho esculpidas no basco. E, acima de tudo isso, os Pirineus, a malva de terra das fadas. E então, há luz. Não é o sol implacável do outro meio-dia. Aqui, é um brilho excelente. As pessoas sentem isso; ele é ágil, elegante, e sua alegria não é vulgar. As danças são leves, de voluptuosidade, sem excesso. A religião em si, embora altamente observada, é mesclada de um grão de ceticismo.”

Bela declaração de amor, não? Por meio dele, amigos como Arthur Rubinstein, Alfred Cortot, Igor Stravinsky, Claude Debussy, Serge Prokofiev e Marguerite Long, conheceram esse belo país.

Destaques
Além de “Kaddisch”, das “Mélodies hébraïques”, e “Bolero”, executada por dois pianos e percussão com o grupo Hegiak, destacam-se a “Sarabanda”, de Bernardo Zala Gakdeano (séc. 17), “Agota”, deBalere Artxu (séc. 18). Como curiosidades, belas e singelas são “Haika mutil” e “Elurra iruñan”, compostas neste século.

Ouça o álbum no Soptify.




quinta-feira, 28 de junho de 2018

Puccini é pop e é jazz

Até quem não gosta de ópera ou de música erudita e nunca viu “Cantando na Chuva”, por não gostar de musicais, deve ter ouvido “Nessum dorma”, uma das árias mais conhecidas. Depois dos milhões de álbuns vendidos de “Three Tenors”, com Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras, árias como de Giacomo Puccini, citada acima, caíram, como se dizia antigamente, “na boca do povo”. Quem não a conhece a desse disco – tudo é possível –, deve conhecê-la na interpretação de Andrea Bocelli, o tenor mais pop do mundo, ou, quem sabe, com o espetaculoso André Rieu.

Questão de gosto. A ópera é daquele gênero “amo ou odeio”. Os libretistas capricham em enredos fantasiosos e teatralidade exuberante. Traições, violência, paixões, finais trágicos, nem tudo é leve e engraçado como nas “Bodas de Fígaro” e “Flauta Mágica”, de Mozart. É um gênero over por natureza, e exige uma certa sofisticação cultural/musical de seu ouvinte.

Alguns escolheram cenários que podem ser considerados exóticos, como Verdi, em “Aída”, no antigo Egito, como gancho, em razão da inauguração do canal de Suez, ou o Japão, para cantar a impossibilidade do amor de um tenente americano por uma gueixa. “Turandot”, ópera que Puccini não conseguiu concluir, o cenário é a China.

A ária “Nessum dorma” é a mais conhecida dessa ópera. É Calaf, um dos pretendentes da princesa Turandot, quem canta. Dentre as inúmeras gravações, a dirigida por Zubin Mehta, com Joan Sutherland e Luciano Pavarotti, de 1972, é considerada um clássico.

Ouça “Nessum dorma”, com o italiano.




Tão conhecida e sublime, natural que existam gravações como no jazz, com o trumpetista Lester Bowie e sua Brass Fantasy e até uma com o roqueiro Jeff Beck.

Comecemos com Jeff Beck.




Com Lester Bowie.




E lucevan le stelle
Em cenário mais familiar, Itália, mais precisamente, o pintor Mario Cavaradossi aguarda sua execução, no terceiro ato. É quando canta “E lucevan le stelle”, lembrando-se de sua amada Tosca. É uma ópera com belo libretto e merece ser conhecida até por quem não gosta do gênero. Várias árias são clássicas, sendo “E lucevan…” a mais bela. Uma grande montagem, com cenários de Franco Zefirelli, é a do Metropolitan, regência de Giuseppe Sinopoli, com Hildegard Behrens e Placido Domingo.  É a apresentada aqui.




Alguns músicos mais ligados ao jazz fizeram boas gravações dessa ária. Uma delas é a de Grover Washington Jr, no álbum “Aria”.




Outra bem boa, que postei no YouTube e foi bloqueada é a presente em “Tati” (ECM, 2005). Não foi seu único registro. Ouça a que está em “Rava l’opéra va” (Label Bleu).




quinta-feira, 19 de abril de 2018

Haydn por Paul Lewis e “concorrentes” de peso

Após ouvir o novíssimo lançamento com Paul Lewis tocando as “Sonatas de Piano Hob. XVI:32, 40, 49 e 50” (as numerações confundem, pois alguns as nomeiam pelo número e outros pela catalogação chamada Hoboken, feita por Anthony von Hoboken), penso quem pode ser o meu intérprete preferido dessas sonatas do Haydn. O inglês é um dos meus candidatos, com certeza.

Por alguma obsessão (patológica?), ponho-me a ouvir durante dias as mesmas peças tocadas por diferentes intérpretes. Há algum encanto, além da genialidade mais que afirmada no decorrer da história de Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, Schubert, Schumann, Haydn e outros, que é a de ser executada exaustivamente por músicos igualmente talentosos, e cada interpretação ser diferente da outra. Na música erudita não serve a expressão “cover”, ou “versão”, se traduzida para o português.

Os olhos azuis penetrantes de Paul Lewis
Antes de mais nada, devo ressaltar que nunca tive algum aprendizado formal em música, fora um semestre que resolvi estudar no Conservatório, depois dos 20 anos, que apenas confirmou minha falta de jeito para a coisa. Mal leio as notas de uma partitura. Não escrevo, portanto, como um expert em música erudita, e sim, mais como um ouvinte atencioso. Minhas avaliações são “gosto mais dessa do que daquela”. Se me perguntarem por que gostei de certa interpretação, responderei: “Porque emociona.”

Minha preferência mais antiga, quando se trata das sonatas para piano de Joseph Haydn, é a de Alfred Brendel.

Algo enervante era ficar a ouvir estalidos de estática e riscos nos antigos discos de vinil. Quando surgiram os CDs, privilegiei os de música erudita. Meus Led Zeppelin, Rolling Stones em formato LP poderiam esperar para serem substituídos pela nova mídia.

Um dos primeiros que comprei foi justamente de Brendel tocando três sonatas de Haydn, que tinha passado a ser um dos meus preferidos depois que comprei um LP com as últimas sonatas de Franz Schubert.  Não havia uma grande oferta de álbuns com as sonatas dele. Encantado por elas, passei a procurá-las e nem estava preocupado de ser por algum pianista mais famoso. Achei um CD de Emanuel Ax, da Sony. Nem o conhecia. A aposta foi acertada. Ax é um tremendo pianista. Recentemente, com Leonidas Kavakos e Yo-Yo Ma, gravou um grande CD com os trios de piano de Johannes Brahms.

Alfred Brendel pensa na vida
Hoje, há uma boa oferta de títulos com as sonatas de Haydn, e todos, sem exceção, são muito bons e aí vai pelo gosto do ouvinte. Há uma integral pela Warner, com dez CDs, de Rudolph Buchbinder, de Ax, que foi citado no parágrafo anterior, um album com tquatro CDs – três com sonatas e um com dois concertos. András Schiff tem dois álbuns. Este é um dos grandes pianistas da atualidade. Depois de longa jornada na Decca, está na ECM, fazendo novas leituras de vários autores que tinha gravado antes. Dentre os novos registros incluem-se Bach, integral das sonatas de Beethoven, e Schubert.

Dos pianistas do segundo andar – expressão do meu amigo para os que já morreram –, Sviatoslav reina no céu com grandes gravações. Como gosto é gosto e não se discute; apenas se lamenta, li em algum lugar alguém descendo a lenha em sua interpretação do “Cravo Bem Temperado”, de Johann Sebastian Bach. Na minha proverbial ignorância, adoro. O único problema é que fico tonto com o “prestissimo” que imprime no “2º Prelúdio” do “Livro 1”. Concorre com o de Hélène Grimaud, tão “presto” quanto. Seus registro estão dispersos em gravações ao vivo – naquele tempo, não estava tão fácil para os russos gravarem em selos ocidentais. Acho que estão em catálogo dois muito bons pela Decca. Há um outro na coleção “Richter – Authorizing Recordings”, da Philips.

Outro do segundo andar, falecido muito jovem, é Glenn Gould. Amado e odiado, vai, é um gênio. Suas leituras de Bach marcaram o universo da música. Quem assistiu a um documentário mostrando sua visita à antiga União Soviética viu, que além dos russos que o ouviram nas salas de concerto, era um revolucionário, não na acepção Lenin/Stalin/Kruschev. Foi o primeiro ocidental da América do Norte a pisar em terras soviéticas. Sem armas, apenas com as mãos, fez a sua revolução: mexeu com os cânones artísticos vigentes de uma terra que se orgulhava de sua tradição.

Pouco mais de uma década após o fim da Segunda Guerra e a maior transformação da geopolítica da história, mais exatamente em 1957, os russos viram com desconfiança a vinda de um “invasor”. Na primeira apresentação, poucos ursos pardos acomodaram-se em suas poltronas. Bastou a primeira parte para que a novidade de se espalhasse como rastilho, pelos que lá estavam. Mais ursos pardos foram chegando para ouvir aquele alienígena. No fim da apresentação, a sala estava cheia. E nem tinha sanduíche de mortadela e um copo de suco Tang. Foram por vontade própria. E também não era um público qualquer: em sua maioria, músicos e instrumentistas. Nas apresentações posteriores, as salas ficaram lotadas. Gould parecia um espião que saiu do frio – ou melhor, entrou, pois nunca saiu –, vestindo sempre pesados sobretudos, cachecóis, boinas e luvas. Pela temperatura, estava em seu habitat.

Sendo tão paradigma da obra de Bach para teclado, um pouco decepcionado depois de comprar dois CDs duplos com as sonatas de piano de Mozart, passei a ter receio de ouvi-lo a tocar outros compositores. Podemos achar, mas nunca fincarmos nossas convicções em alguma avaliação passível de modificar-se. Acabei comprando uma caixa com dois Cds com as tais sonatas de Haydn. Surpreendeu. É diferente de tudo. Por onde pisa, deixa a sua marca. É o que se percebe na “Sonata no. 50, Hob XVI:60”. Lembra o seu Bach. Foge daquele “romantismo” de um Horowitz, por exemplo. Ele é seco. Sua mão esquerda marca as notas com toques muito definidos. Ouve-se cada uma delas separada, mesmo em tempos mais rápidos. O lento é preenchido pelo silêncio e o acelerado é percebido em cada passada – ou melhor, nota – tão definida, com pouco uso de pedal. Gould foi único. Depois de sua morte, alguns o viram como um simples mortal, ou quiseram. Thomas Bernhard, ao escrever “O Náufrago”, apenas confirmou a sua genialidade.

Para se comparar, ouça Alfred Brendel o segundo movimento “Adagio e cantabile”, da “Sonata 59, Hob XVI:48”.



Glenn Gould, no mesmo movimento da mesma sonata. Compare.




Jean-Efflam Bavouzet pensando em Haydn
Novas gerações
Há uma turma de pianistas excepcionais com excepcionais abordagens das sonatas de Haydn. Um é Andreas Staier, que gravou em um pianoforte fabricado nos anos 1989, a partir de um original de Anton Walter, de 1790. É bem interessante, pois resgata a sonoridade do piano da época do austríaco, menos potente que o da atualidade. Outra ótima é a de Marc-André Hamelin, com as sonatas 23, 24, 32, 37, 40, 41, 43, 46, 50, 52. Está entre as melhores, na minha opinião de leigo.

Uma das minhas preferidas das “Sonatas” é a de número 50, Hob XVI: 60. Veja o segundo e terceiro movimentos, com Hamelin.




O mesmo Adagio, com Alfred Brendel. Compare.



Outro com um bom álbum simplesmente chamado “Sonatas” (Hob XVI:10, 31, 35, 37, 43) é o conterrâneo do escritor Omar Pamuk, Fazil Say. Sai da curva dos virtuoses. É compositor também, algo raro dentre eles. Tem uma pegada enérgica, “sin perder la ternura”, como demonstra tocando os “Noturnos” (Warner Classics, 2017), de Frederic Chopin.

A crítica tem incensado as interpretações de Jean-Efflam Bazouvet. Lançou em 2012, em cinco volumes, pela Chandos. As “Sonatas” de Haydn não chegam à “cerebralidade” de últimas de Beethoven. São anteriores às dele. São geralmente mais curtas; possuem dois ou até três movimentos. Possuem a leveza e beleza lírica de seu quase contemporâneo Mozart, que nasceu depois de Haydn e morreu antes de seu longevo conterrâneo. Bavouzet compreendeu muito bem esse espírito.

Ouça a Sonata no. 50 Hob XVI:37, com Bazouvet.




Só faltou dizer algo mais do Haydn de Paul Lewis. Depois de ouvir “Sonata” (Harmonia Mundi, 2006), com obras de Beethoven, Schubert e Liszt, liguei para o meu amigo Carlos Guena para dividir meu entusiasmo pela novidade. Nem sei a diferença de um lá menor de um dó maior, mas sou um apaixonado por música. Sou um simples amante dessa arte. Ao ouvir sua interpretação da “Sonata no. 20, D 959”, de Schubert, pensei: “Que maravilha!” Não estava longe do senso comum. Lewis, hoje, é reconhecido como os melhores gigantes deste início de século. Não é pouco perto do número de virtuoses do piano. Gravou depois, Beethoven – a integral das sonatas, os cinco concertos –, Schubert – sonatas e obras para dois pianos, Mussorgsky – “Quadros de Uma Exposição” –, Brahms – “Concerto no. 1” –,  e Liszt – “Sonata em Ré menor” e outras para piano.. Em maio, completa 46 anos. Tem um mundo pela frente. Sou fã. Deu para perceber?

Veja-o tocando o segundo movimento da “Sonata no. 54, Hob XVI:40”. Na legenda do vídeo está erroneamente registrado como Sonata no. 40. No primeiro parágrafo, escrevi que as numerações confundem. Não estava certo?


quinta-feira, 1 de março de 2018

Mario Batkovic, O acordeonista

Mario Batkovic (ph: Tim van Veem)
Escrevi mais de uma vez, mas serve de introdução para o acordeão. Minha lembrança mais vívida é a de uma senhora que costumava tocá-lo em tardes domingueiras da minha infância em Passos, MG. Associei definitivamente a uma certa melancolia.

A outra associação, mais uma vez me repito, é a do acordeonista cego em um filme de Federico Fellini. Lembro agora do acordeão em algum filme de Emir Kusturica, quando ainda a Iugoslávia existia. Ao fazer um esforço de memória, lembro tambémde Kiki de Montparnasse ao lado de um acordeonista, em foto de Brassaï, um dos que melhor retratou a vida noturna de Paris dos anos 1930.

Lembrei-me de Kusturica por causa de Mario Batkovic. Achei que era um sobrenome de origem dos Balcãs. Correto, mas em seu site (http://www.batkovic.com) nem é dito que nasceu na Bósnia. Apenas que mora na Suiça e que estudou na HochschulefürMusik and Theatre in Hannover, Alemanha, e aprendeu a tocar acordeão com o prof. Elspeth Moser, e graduou-se como “mestre das artes de improvisação em música de câmara”, na MusikAkademie of Basel.

Graças ao amigo Matias José Ribeiro, meu guru, que tem me apresentado músicos que nunca tinha ouvido falar, conheci Mario Batkovic. Não faz muito tempo, mas desde então, ouço e fico fascinado com a sua música.

A primeira associação possível é com a música de Steve Reich e de Philip Glass. Batkovic, depois do aprendizado formal em uma escola, passou a explorar o instrumento até o limite de suas possibilidades, produzindo graves impressionantes, percutindo nos botões e teclas, construindo melodias sobre ostinatos hipnotizantes, que formam a base sonora. Nesse sentido, no desenvolvimento de variações sobre a repetição, assemelha-se um pouco, principalmente, com o autor de “Tehilim” e “Music for 18 Instruments”.  

O acordeão, como escrevi em “O sublime e o inusitado com Richard Galliano e Thierry Escaich”, é, grosseiramente falando, um “órgão de bolso”, pois segue o mesmo princípio da passagem de ar para a geração do som, com a diferença de que tem que ser gerado pelo próprio músico mecanicamente. O órgão foi inventado para ser o instrumento dos instrumentos. É a origem dos sintetizadores, que emulam qualquer outro instrumento. O acordeão, como parente próximo, almeja essa completude. Batkovic é O acordeonista, com “O” maísculo, porque explora essas possibilidades, além, é claro, de construir sonoridades belas, tensas e sublimes.


Veja-o executando “Quatere”, a primeira do álbum.




“Semper” é um dos destaques.




quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O sublime e o inusitado com Richard Galliano e Thierry Escaich

Thierry Escaich e Richard Galliano
Depois de tanto ouvir música nessa vida, o que você mais quer? Algo que te surpreenda, como quando você ainda era um adolescente? Ao acabar de ouvir “Aria”, diante do inusitado e da beleza, acho que ainda há espaço para boas surpresas.

Galliano é bem conhecido no universo do jazz, tido o melhor acordeonista da atualidade. Parente do bandoneon e mais difundido, não é popular como o piano ou a guitarra. Os que assistiram Federico Fellini devem lembrar-se do acordeonista cego em “Amarcord”.

Lembro bem de uma senhora que sempre tocava acordeão depois dos almoços dominicais que aconteciam em ranchos – em Minas Gerais, pelo menos, assim eram chamadas as chácaras –, fazendas ou casas com quintais enormes. Era um costume bem interiorano e comum em Minas e em São Paulo. São as duas coisas que me fazem lembrar do acordeão: Fellini e almoços dominicais. E também por isso, associo-o a um estado de melancolia, pois não eram reuniões muito aprazíveis para mim, pelo menos.

Depois que mudei-me para São Paulo conheci o “outro lado” do acordeão. Muito popular no Nordeste, por meio dele, executava-se música para dançar em salões de forró e baião. Nomes populares como o de Luiz Gonzaga e Dominguinhos me fizeram ver que a tal da sanfona – mais popular com esse nome – podia ser um instrumento “para cima”, apesar de “Assum Preto” (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira) ou “Lamento Sertanejo” (Dominguinhos, Anastácia).

Semelhanças
O órgão tradicional, considerado o rei dos instrumentos, pela capacidade de gerar uma variedade impressionante de sonoridades, é uma das invenções mais antigas. Associamos à música de igreja. Tanto é que os mais completos e de qualidade são os de locais de culto, católicos, em geral. Por suas dimensões, necessita de espaços grandes como catedrais ou salas de espetáculos. Surgiu depois o órgão elétrico, hoje usados em igrejas e em cultos evangélicos. O Hammond, a mais conhecida o melhor, é o preferido por músicos de jazz, como Dr. Lonnie Smith, Jimmy Smith, Larry Goldings e Joey DeFrancesco. Antes de sua invenção, o harmônio foi o instrumento que fez a ponte entre o antigo e o atual. É o instrumento que tem o som mais parecido com a do acordeão e o da harmônica de boca, a popular gaita, e ainda é tocado em algumas igrejas.

O acordeão é uma invenção do século 19, posterior à do harmônio. É capaz de gerar uma gama enorme de sons. Em uma comparação não muito razoável, diria que é a ”versão de bolso” do órgão e do harmônio.

Não lembro de alguém ter tentado anteriormente juntar os dois instrumetos, como fizeram Galliano e Escaich.

Grandiosidade e melancolia
Thierry Escaich não é muito conhecido pois faz parte do universo da música erudita. Além de organista, é compositor. Lançou no ano passado “Baroque Song”, pelo selo Sony Classical. Não compõe apenas para o órgão. No álbum recente, há uma obra para clarineta e orquestra, uma para cordas (“Erinnerung, pour orchestre à cordes”, 2009) e outras duas para orquestra – “Baroque Song” (2007) e “Suite symphonique de «Claude»” (2014).

Richard Galliano é conhecido no universo jazzístico, porém, nos últimos tempos tem se aventurado pelo “crossover”. Gravou pela Deutsche Grammophon álbuns dedicados a Bach, Mozart e Vivaldi e um quarto ao italiano Nino Rota, autor de muitas trilhas de cinema. O genial de Galliano é não apenas ser um grande instrumentista. Os arranjos nesses discos, em sua grande maioria, são de sua autoria. Faz mágica com um quarteto de cordas e ele a tocar o acordeão ou os seus parentes, a accordina e o bandoneon.

“Aria” não tinha como não ser considerado crossover. Mas essa classificação será sempre dúbia. Nela estão incluídos trabalhos dos “pops” Sting, Paul McCartney e, em sentido inverso, dos eruditos Anne Sofie von Otter, Gidon Kremer e uma infinidade de músicos. É genérico demais. Porém, está combinado: é crossover porque mistura o erudito com o popular. Há obras como “Siciliano” (Bach), “La Folia” (Arcangelo Corelli), “Adagio”, do “Concerto para oboé” (Alessandro Marcello), “Slovanské Tance” (Dvórak) e “Vocalise” (Rachmaninov), assim como composições dos dois, e duas de Astor Piazzolla (“Oblivion” e “Tanti Anni Prima”).

Impressionante a riqueza cromática na combinação dos dois instrumentos. Ouça o clássico “Caruso”, de Lucio Dalla. O órgão utilizado para as gravações foi a da Igreja Francesa de Berna. Construída em 1726, foi reformada em 1991, e totalmente concluída em 2012. Confira.




Publico pelo YouTube apenas para divulgação e não ganho dinheiro com o meu canal. Mesmo assim, fui notificado por infringir a lei de direitos autorais e posso ser suspenso. Ouça “Caruso”, antes que o retirem. Publico a seguir apenas os que já estão disponíveis.

Veja Galliano e Escaich na Igreja Saint-Etienne-du-Monde, Paris.




Outro trecho.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Messiaen e a adversidade

Cristo e os pássaros, as guias de Messiaen
Quem nasceu a partir depois de meados do século 19 e início do seguinte viveu duas grandes guerras. É um dado e tanto aos que sobreviveram, principalmente para os que estavam nos palcos dos conflitos.

Pierre Messiaen foi um deles. Professor e tradutor de William Shakespeare, mesmo assim, foi convocado na 1ª Guerra Mundial. Tinha dois filhos e era casado com a poeta Cécile Sauvage. Um deles, Olivier Messiaen, se tornaria um dos compositores mais importantes do século 20.

Com sete anos, Olivier aprendeu a tocar piano sozinho. Com onze, entrou no Conservatório de Paris e, além de instrumentista, passou a compor.

Olivier não tinha a esta muito boa, mas assim mesmo foi convocado na 2ª Guerra Mundial, mas trabalhando como auxiliar em um hospital. Foi capturado pelos alemães, em maio de 1940, ficando prisioneiro em um campo perto de Nancy. Na mesma situação, encontravam-se o clarinetista Henri Akoka e o violoncelista Étienne Pasquier. Na breve estada, Messiaen compôs uma peça solo para Akoka.

Antes do início da Guerra, Messiaen já tinha um bom número de obras compostas, como os “Prelúdios” para piano (1928-1929), várias para órgão — “Le banquet céleste” (1926), “Diptyque” (1930) e “Apparition de église èternelle” (1932) — e “Les offrandes oubliées” (1930) para orquestra.

No fim de junho, foram transferidos para Stalag VIII-A, a 110 quilômetros de Dresden. Um dos guardas, Carl-Albert Brüll, apaixonado por música e fluente em francês, auxiliou Messiaen. Arrumaram um piano de armário, o que foi de grande auxílio para que continuasse a compor, embora desafinado. Aos dois músicos que foram transferidos, juntou-se o violinista Jean Le Boulaire. Assim nasceu “Quatuor pour la fin des Temps”, feita para ser tocada pelos músicos disponíveis no campo. Em condições adversas, Messiaen não deixou de compor.

Há um elemento simbólico bem forte de ter sido composto durante a Guerra, e mais ainda em um campo de prisioneiros, e o título ser “Quarteto pelo Fim dos Tempos”. Na verdade, alguns movimentos tinham sido concebidos anteriormente. A peça foi concluída em Stalag VIII A. “Louange à l’Éternité de Jésus” (Prece para a eternidade de Jesus”), o quinto movimento, é de “Fête des belles aux” (1937). A segunda “prece” – “Louange à l’Immortalité de Jésus” –, movimento final, é um retrabalho baseado em “Diptyque” (1930). O solo composto para a clarineta de Henri Akoka, em Nancy, passou a fazer parte do terceiro movimento: “Abîme des oiseaux”.

Ao vivo em Stalag VIII A
A première do “Quarteto” aconteceu em 15 de janeiro de 1941, às 18 horas, em Hut 27B, feito um teatro improvisado. Messiaen disse em uma entrevista que cerca de 5 mil pessoas, de diversas classes, ouviram o “Quarteto” em total silêncio. Empolgação do compositor.

É o tipo de coisa que fica no mito, na lenda. Impossível 5 mil. Étienne Pasquier, o violoncelista, relata que todos assentos estavam ocupados, cerca de 400. Muitos estavam ouvindo música de câmera pela primeira vez. Era uma noite fria e os telhados estavam cobertos de neve. Étienne faz outra retificação: o seu violoncelo estava com as quatro cordas, e não três, como relatou Messiaen. “Quatuor” era uma obra revolucionária. Obviamente, alguns dos espectadores ficaram irritados.

No mesmo ano, Messiaen foi solto e apresentou a peça, pela primeira vez, em Paris, em 24 de junho, no Théâtre des Mathurins. Antes, houve uma introdução falada. O compositor Arthur Honneger, com certo sarcasmo, afirmou em uma crítica em Comoedia que “algumas pessoas, talvez, tenham encontrado um pouco de literatura demais na música.”

Ser católico (fervoroso) e vanguarda ao mesmo tempo é um tanto contraditório, não? São duas substâncias que não se misturam, aparentemente. Mas Messiaen tinha duas paixões: Cristo e o canto dos pássaros. O “Quatuor” era uma peça programática e o texto explicativo era parte essencial.

A peça pode ser ouvida sem o texto, sem dúvida. É impactante, revolucionária e emblemática, considerando-se a época em que foi composta. As marcações de tempo coincidem com os sentimentos que o compositor imprime: infinitamente lento, estático (“Louange à l’Éternité de Jésus”), extremamente lento e terno, estático (“Louange à l’Immortalité de Jésus”), decidido, vigoroso, granítico, um pouco vivo (“Danse de la fureur, pour les sept trompettes”) e, por aí vai.

A parte do texto é também muito interessante, poético e religioso. É um complemento que merece ser conhecido. Está um tanto longo para ser lido em uma tela de computador ou celular, mas, paciência.

• “Liturgy de cristal”: Entre três e quatro da manhã, o coro da aurora: um pássaro preto e uma andorinha improvisam um solo, rodeados por sons esparsos… transponha isso para um plano religioso e você tem o silêncio harmonioso do céu.

• “Abîme des oiseaux”: O abismo, que é o Tempo, na sua tristeza e cansaço. Os pássaros são o oposto do Tempo: representam nosso desejo pela luz, pelas estrelas, por arco-íris e vocalises radiosos.

O “fim dos tempos” não é o fim da humanidade. Na visão religiosa, ou de Messiaen, significa a supressão do tempo, e não uma visão apocalíptica. No sétimo movimento – “Fouillis d’arcs-en-ciel, pour l’Ange qui annonce la fin du Temps” – percebe-se o que o compositor busca exprimir: O anjo aparece com toda força… Em meus sonhos, ouço e vejo acordes ordenados e melodias, cores e formas familiares; então me transporto para a irrealidade e sofrimento, com êxtase, um redemoinho de sons e cores sobre-humanos.

Melhores gravações
Apesar de ser um quarteto, não segue a formação tradicional de violinos, viola e violoncelo. Por essa razão, as gravações existentes são de músicos reunidos para tocar “Quatuor pour la fin de Temps” exclusivamente. O primeiro registro que ouvi é o meu preferido – é quase sempre assim, não?, a primeira impressão – é de Hans Deinzer (clarineta), Aloys Kontarsky (piano), Saschko Gawriloff (violino) e Siegfried Palm (cello), da Deutsche Harmonia Mundi (1978). Acho que não existe em CD.

Em 1979, pela Deutsche Grammophon, saiu o “Quarteto”, com Claude Desurmont, Daniel Barenboim, Luben Yordanoff e Albert Tétard (mantenho a ordem dos instrumentos aqui e nos próximos). Essa é versão que menos gosto. Por que? Não sei. Questão de gosto.

Outra é com Wolfgang Meyer, Yvonne Loriod, Christoph Poppen e Manuel Fischer-Dieskau, lançado pela EMI, em 1991. O destaque aqui é Loriod, segunda mulher de Messiaen, que deve ter passado boas orientações.

Em 2000, pela Deutsche Grammophon, os instrumentistas são Paul Meyer, Myung-Whun Chung, Gil Shaham e Jian Wang. Não gosto.

Acaba de ser lançada, pela Sony, e é essa a razão de estar a escrever sobre esse quarteto, é com Martin Fröst, Lucas Debargue, Janine Jansen e Torleif Thedéen. Ouvi umas três vezes e torna-se a minha primeira opção, já que a de 1978 ficou apenas na minha lembrança como a melhor e nem posso comparar. Nem sei por onde anda esse LP.

No YouTube tem várias gravações na íntegra. Por ser uma peça que foge à formação costumeira de um quarteto, há uma profusão de virtuoses em seus instrumentos reunidos, o que o torna mais interessantes. Disponibilizo duas dessas.

Veja esta, com Patrick Messina, Nicolas Stavi, Daniel Hope e Tatjana Vassilijeva.




Nesta, músicos do primeiro time: Sabine Meyer, na clarineta, e Sol Gabetta, no violoncelo, são as mais conhecidas. Os outros são Bertrand Chamayou, ao piano, e Antje Weithaas no violino.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Três grandes violonistas na ECM

Uma qualidade positiva de Manfred Eicher é sua abertura para todos os tipos de sons e dom de descobrir talentos. Dois dos intérpretes aqui abordados, são de países da Europa Oriental, o que é bom para nós deste continente, que graças a ele, temos acesso. Zsófia Boros nasceu em Praga, é cidadã húngara e mora atualmente em Viena. Ferenc Snétberger é húngaro, filho de pais romenos. O terceiro, José Luis Montón, é e Barcelona. Todos têm formação clássica e escolheram o violão como instrumento. Há outros violonistas no selo, que se destacam, como o argentino Dominic Miller, que os fãs de Sting devem conhecer, em sua estreia na ECM, recentemente, e o iraniano Golfam Khayam, que podem ser assunto para outros posts.

Da esquerda para a direita, José Luis Montón, Zsófia Boros, Ferenc Snétberger, violonistas da ECM


Snétberger é o mais velho – 60 anos –, Montón tem 54, e Boros, 36. O primeiro acaba de lançar seu segundo disco pela ECM, assim como Boros. O espanhol, com vários pelo selo Auvidis, estreou no selo, em 2015, com “Solo Guitarra”.

Amina Alaoui participou pela primeira vez em disco da ECM, cantando em “Siwan”, de Jon Balke. Em 2011, lançou o excepcional “Arco Íris”. Nesse álbum, contou com Sofiane Negra no oud, instrumento de cordas tradicional dos países árabes, o brasileiro radicado em Portugal, Edu Miranda ao bandolim, e José Luis Montón na guitarra flamenca. Manfred Eicher deve ter se empolgado com a performance, e o catalão gravou “Solo Guitarra”. Belo álbum, que é pouco conhecido. Montón carrega a maestria da tradição flamenca, por meio da energia rítmica tão característica dos ibéricos e uma riqueza melódica emocionante.

Um dos melhores momentos de “Solo Guitarra” é “Con Permiso”. Ouça.




Ouça também a sua versão para a conhecida “Ária da Suite em ré menor”, de Johann Sebastian Bach.




Zsófia Boros, de 1994 a 1998, estudou no Conservatório Musical de Bratislava, na Eslováquia, e no Conservatório de Música Béla Bartók, em Budapeste, e posteriormente, na Universidade de Música e Teatro de Viena, concluindo-o em 2004. Pós graduou-se na Francisco Tárrega Guitar Academy, na Itália.

Com a flautista Daniela Lahner, formou o duo AgiLeo, em 2004. Apesar da formação essencialmente clássica, Boros enveredou pelo rico repertório existente para esse instrumento mundo afora. Não é à toa que seu primeiro CD na ECM tenha se chamado “En Otra Parte” (2013). Nele, o predomínio é de temas do continente americano. As exceções ficam com os espanhois Vicente Amigo e Francisco Calleja, e o austríaco Martin Reiter. No encarte, afirma: “muitas vezes eu acho que a escolha da música está em minhas mãos, mas depois me pergunto se não foi a música que me escolheu como um meio. Minha abordagem é sempre intuitiva. Quando um trecho me pega ou me toca, quero refletir isso – de me tornar um espelho e transmiti-lo.”

Fazem parte do álbum o genial cubano Leo Brouwer, os argentinos Dominic Miller, Abel Fleury e Quique Sinesi, o americano Ralph Towner, e Dilermando Reis.

Em seu último, lançado no fim do ano passado, “Local Objects”, outro solo, temos a suite “Koyunbaba”, de Carlo Domeniconi, “Nocturne”, de Mathias Duplessy, “Fantasie”, de Franghiz Ali-Zadeh, “Milonga”, do argentino Jorge Cardoso, “Gothenburg”, do austríaco Alex Pinter, “Vertigo Shadow”, de Al DiMeola, “Celebração de Núpcias”, de Egberto Gismonti, e “Inspiração”, de Garoto. A seleção é bem variada e o álbum está no mesmo nível do anterior, ou seja, é ótimo. Boros é uma das grandes violonistas da atualidade.

Ouça a composição de Garoto.




Veja o clipe de “Nocturne”, faixa de abertura.




Veja também o clipe de “Celebração de Núpcias”.




O terceiro grande violonista desse post é Ferenc Snétberger. No mês passado, lançou seu segundo pela ECM, no formato trio, com o baixista Anders Jormin e o baterista Joey Barron. Aqui, vou tratar do seu álbum de estreia. Chamado apenas “In Concert”, é um registro ao vivo no Liszt Academy, e é composta de apenas uma peça “Budapest” –, dividida em oito partes. O encore, é a única de autoria alheia: “Somewhere Over the Rainbow”.

Ouça um trecho de “Budapest”.




quinta-feira, 4 de maio de 2017

A pescaria de John Zorn nas águas da música sefardita, com Dora Juárez Kiczkovsky

Quando aquele rapaz magérrimo entrou no palco, no Free Jazz Festival, em 1989, parte da plateia sabia o que podia acontecer. Alguns dos que lá estavam, conheciam John Zorn, por meio de seus discos “The Big Gundown” e “Spillane”, lançados em edições nacionais. 

O som nervoso do sax alto do americano, eram mais frenéticos e ruidosos, ao vivo, quase insuportáveis. Não era para qualquer ouvido. Na mesma noite, estava programada a apresentação de outro representante do free jazz: Cecil Taylor. A debandada foi geral. Afinal, o nome do evento não era Free Jazz Festival? Eram a expressão do “free” Tinha esse nome em razão da marca de cigarros que o patrocinava. Nem tão free, o festival foi a oportunidade de conhecermos ao vivo músicos do quilate de Joe Pass, Chick Corea, Stan Getz, Dexter Gordon, John McLaughlin e muitos outros.

Nem tão fã de Zorn, por sua importância, nunca deixei de acompanhá-lo, mesmo que pouco ouvindo-o. Seus álbuns da série Masada tinham capas incrivelmente belas: douradas, com imagens que remetiam à cultura judaica. Os primeiros saíram, se não me engano pelo selo japonês DIW. Os músicos que tocavam com ele nos primeiros eram do primeiro time: Dave Douglas, Greg Cohen e Joey Baron ou Kenny Wollesen, na bateria.

Tempos depois, criaria a própria gravadora. No mesmo ritmo frenético com que soprava o saxofone, montava bandas, cada qual com direções musicais diferentes, dentre elas a Naked City, surgida com o disco do mesmo nome, a John Zorn’s Cobra, Hemophiliacs, além da Masada, citada em cima, Electric Masada, e gravou e produziu séries como a “Filmworks” e a “Book of Angels”. Lançou várias centenas de álbuns, com formações que tocam suas composições e de outros, nem sempre com sua participação como músico. Reuniu uma verdadeira constelação de artistas de todos os continentes, explorando ritmos e formas musicais, quebrando com os conceitos do que é erudito ou popular.

 Na série da banda Masada, Zorn explora suas raízes com cerca de duzentas composições que representam uma música judaica do século 21. As formações musicais para o projeto, que envolve também os “Book of Angels” – até agora, são cerca de 30 álbuns –, vão desde formações clássicas como trios e quartetos de cordas, performances em que participa como músico, e também intérpretes como Cyro Batista, Greg Cohen, Jamie Saft, o trio Medeski, Martin and Wood, Bill Frisell, Mark Feldman e Joe Lovano. Outro projeto interessante, é uma série de discos em que toca órgão solo.

Zorn criou um verdadeiro acervo da música judaica, indo muito além do klezmer, tocado por músicos amadores, sem aprendizado formal, nos shtetls – aldeias ou guetos que se espalharam pela Europa Oriental. A sua exploração se expande pelas vertentes resultantes da diáspora dos judeus pelo mundo. É relevante a presença deles no lado ocidental da Europa, principalmente nos Países Baixos e na Península Ibérica. Os judeus sefarditas que habitavam a Península foram expulsos pela Inquisição. Muitos se converteram ao cristianismo e muitos foram para outros lugares, como o norte da África e a América do Sul. Um dos destinos foi o México e muitos continuaram, apesar de convertidos, a seguir os ritos tradicionais, clandestinamente.


Dora
Em primeiro lugar, tiveram de sair da Polônia, perseguidos, para não terem o mesmo destino de seus parentes e de milhões de judeus, os campos de concentração. A família de Dora Juárez Kiczkovsky, novamente, em virtude do recrudescimento da ditadura militar na Argentina, em 1976, resolveu mudar de país.

No México, Dora estudou cinema e na Escola Superior de Ensino de Música do Instituto de Belas Artes. Montou um trio com Leika Mochán e Sandra Cuevas. Gravaram ““Muna Zul”, nome que escolheram para a formação, que foi lançado pelo selo Tzadik, de Zorn, em 2006. Em relação ao cinema, colaborou com Werner Herzog, compondo para um de seus filmes.

Em 2013, foi a vez de “Notas Para Una Diáspora”. O título é ótimo, pois sintetiza o percurso dos judeus ao longo da história e, por conseguinte, a sua e de sua família. Com cantos sefarditas de “amor, morte, guerra e migração”, a artista mexicana de origem judia mergulha em suas raízes para enlaçar o ancestral com o contemporâneo”, assim a gravadora Tzadik a define. Dora interpreta canções sefarditas que remontam a Idade Média espanhola antes da diáspora, quando os reis católicos expulsam os judeus da Península Ibérica.

Nada melhor do que o próprio John Zorn explicar por que lançou esse álbum por sua gravadora: “Dora Juárez cria uma fascinante travessia musical, explorando sua própria identidade, rastreando as raízes judaicas de sua linhagem familiar do leste europeu, Espanha, Argentina, Israel e México. Esta é a história judaica apaixonada e intensamente pessoal contada por meio de canções sefarditas.” Quer melhor crédito?

Não é para todos os gostos, certamente. Mas basta deixar os ouvidos livres de quaisquer preconceitos para sentir a beleza e singeleza dessas canções ancestrais na doce voz de Dora.

Ouça “Las tres morillas”, a nona faixa do disco.




A minha preferida é “Por qué yorash?”




Dora canta “Morenica”. Beleza em estado puro.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Piazzolla e Salvatore Accardo: o início de uma bela amizade

Salvatore Accardo e Astor Piazzolla
Ter uma música composta especialmente não é coisa para todos, principalmente, se o autor for Astor Piazzolla.

O violinista Salvatore Accardo excursionava por várias cidades da América Latina, com o pianista Alfredo Rossi. Em julho de 1969, em Buenos Aires, Accardo, ciceroneado pelo amigo violista Nestor Panik, fez um tour pelas várias casas de tango da cidade. Hoje à noite vamos ouvir algo muito especial —, disse-lhe Rossi e o levou ao Michelangelo. O local era estava cheio de gente fumando, bebendo e conversando ruidosamente. Quando as luzes se apagaram, surgiu Piazzolla.

No intervalo, Panik, que já havia tocado com o bandoneonista, levou-o ao camarim. Foi apresentado à Amelita Baltar e depois a Piazzolla. “É uma honra que você tenha vindo me ouvir”, disse-lhe. Como amante da música erudita, estivera na sua apresentação no Teatro Colón. Sua devoção pelo tango afastou-o dos estudos no conservatório. Foi uma decisão difícil, disse. Queixou-se que fosse tão criticado em sua própria terra natal. “Dizem que quero destruir a tradição e até me chamam de traidor.” O tango que Astor tinha em mente era uma música para ser ouvida e não para ser dançada, uma forma que abarcasse a música e a experiência cultural e humana.

A conversa tinha se alongado até depois da apresentação. Ao se despedirem, Salvatore o convidou para a sua última apresentação. Astor lhe disse: “Vou escrever alguma coisa para você.”

Durante o intervalo, o argentino foi até o camarim e entregou-lhe uma composição para violino e piano, intitulada “Milonga em ré”. “É para você, como lhe prometi.” Salvatore chamou Alfredo e mostrou-lhe a composição. Finda a apresentação, no encore, Accardo anunciou que iria tocar “Milonga em ré”, de Astor Piazzolla. No camarim, Astor mal pôde conter a emoção com a surpresa.

Piazzolla convidou-o a ir a sua casa mais tarde, em Palermo. O dia ficou marcado indelevelmente para Accardo. Do aparelho de televisão ligado, acompanharam os primeiros passos de Neil Armstrong no solo da lua. No dia 20 de julho de 1969, o astronauta escreveu seu nome na história. É bem provável que a frase estivesse preparada: “Um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade.” A partir de então, nunca mais perderam contato e encontravam-se quando coincidia de estarem na mesma cidade.

Salvatore conta uma história curiosa. Em uma outra vez em que estava em Buenos Aires, 1972 ou 1973, não se lembra exatamente, o grupo de Piazzolla estava com uma gravação marcada. O italiano ofereceu o “Il Presidente”, Stradivarius, de 1720, ao violinista Antonio Agri, por quem ficara fascinado desde aquela noite no Michelangelo. Este ficou branco com a oferta. Acabou aceitando. Agri nem aprendizado formal tinha. Aprendeu a tocar de ouvido.

Apesar da amizade, nunca gravaram juntos. O italiano tem até uma justificativa: Astor tinha Agri. Não precisava dele.

No início de 2001, Accardo entrou nos estúdios para gravar a homenagem ao seu grande amigo Piazzolla. Com transcrições de Francesco Fiore, ele e Orchestra Camerata Italiana, foram lançados três álbuns: “Le Grand Tango”, “Oblivion” e “Adiós Nonino”.

Um dos números mais belos é “Jeanne y Paul”, que está em “Adiós Nonino”.



Ouça “Oblivion”, do álbum com o mesmo título.



Veja Accardo e a Orchestra Camerata Italiana, em um trecho de “Adiós Nonino”.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Pete Townsend quer ser clássico

Recorrendo-se aos googles da vida, é dado que a primeira opera-rock da história foi The Story of Simon Simopath , de uma banda inglesa chamada Nirvana, em 1967. Pelas mesmas buscas, Neil Strauss, do The New York Times, cita S.F. Sorrow, do Pretty Things, este sim, mais conhecido que o Nirvana, de 1968, como sendo o pioneiro. Para a maioria da humanidade, pois a do Pretty Things foi solenemente ignorada, quem “inventou” o gênero foi Pete Townsend, com Tommy. Esta sim, fez um sucesso danado, e até o mais alienado ouvinte conhece o refrão “See me, feel me, touch me, heel me”.

Pete quebra, Jimi põe fogo
Como boa parte das estrelas do rock, Pete Townsend não poderia deixar de ser um “diferente”. Desde o início, queria “causar”. Dificilmente conseguiria pelo quesito beleza. É bem conhecida aquela história em que desejava fazer algo muito impactante no festival de Monterrey, em 1967. Tido como a grande atração, não queriam ser surpreendidos por Jimi Hendrix, um daqueles talentos que surgem muito de vez em quando.

Uma das marcas do inglês era a de destruir a guitarra, quesito em que se achava pioneiro, saltar com as pernas abertas, além de movimentar o braço como uma hélice de helicóptero, enquanto Roger Daltrey fazia o mesmo com o microfone. E foi o que Pete fez quando se apresentaram no Festival de Monterey, em 1967: arrebentou a guitarra batendo-a por várias vezes no chão e nas caixas, produzindo ruidosas microfonias. Foi selvagem. Quando achou que ninguém faria algo mais impressionante,  chegou a vez de Jimi Hendrix. Tirou um frasco de álcool e ateou fogo na sua Fender. Mais selvagem ainda. Pete ficou possesso. Além de melhor guitarrista, era capaz de ser mais inusitado.

Faz parte da mística estrelas do rock serem excêntricas, diferentes. Townsend não era exceção. Afirmou, em certa feita, que era bissexual. Desmentiu depois. Esteve envolvido em outra polêmica: foi acusado de pedofilia. Ficou comprovado que usou o cartão de crédito em um site de pornografia infantil. Chegou a ser preso. Isso foi em 2003. Desde então, não tem se envolvido em polêmicas. Drogas e álcool também não causaram os estragos que vitimaram dois dos membros da banda. O primeiro foi Keith Moon, um maluco de pedra e tão bebum quanto outro baterista: John Bonham; John Entwistle, que parecia ser o mais certinho, morreu do coração, que não aguentou alguns gramas de cocaína, na ocasião em que iriam fazer uma apresentação em Las Vegas.

Defeitos, todos têm; talento, não. É o que nunca faltou a Pete. Inovou quando compôs Tommy. O próximo – Who’s Next – era menos ambicioso, mas tão bom quanto. Em 1973, lançaram a segunda ópera-rock: Quadrophenia. O enredo criado por ele era sobre um mod  que se torna fã do The Who. Pete estava inspiradíssimo, Daltrey com a voz nos trinques, Moon, um selvagem batendo como nunca, e John Entwistle, como sempre, discreto, um mestre, tocando o contrabaixo como se fosse uma guitarra.

Nos 70. Para quem é autor dos versos “Hope I die before I get old”, estar completando 70 anos é uma ironia. Mas já que está vivo, melhor é fazer alguma coisa. E é o que o velho Pete faz. Seu trabalho mais recente é o Quadrophenia versão erudita, intitulado Pete Townsend’s Classic Quadrophenia. O “classic” não tem a conotação de “coisa antiga”, já que o original tem mais de 40 anos. É “classic” porque ele pretendeu dar uma roupagem de música erudita.

Quadrophenia ganhou uma partitura escrita pela companheira Rachel Fuller, fiel colaboradora nos últimos anos. O escolhido para cantar como Jimmy foi o tenor Alfie Boe. Townsend ambicionava com este projeto que sua ópera se inscrevesse no terreno da música erudita. Inclusive, o álbum saiu pela Deutsche Grammophon, a mais prestigiada do gênero. Os críticos ingleses não entenderam assim e Pete escreveu no Facebook: “esnobismo musical na elite clássica”. Mesmo assim, estreou em segundo lugar na Billboard Classical Crossover. Está de bom tamanho; não para o ego de Pete. Ser classificado de “crossover” está justo.

Ouvindo-se o original de 1973, fica claro que Pete concebeu Quadrophenia com a estrutura de uma ópera. A primeira faixa apresenta os motivos musicais principais da história. O encarte é um libretto com uma narração feita por meio de fotos de autoria de Ethan A. Russell. Em Classic Quadrophenia, Jimmy, em vez de Daltrey, é Alfie Boe, tenor de formação clássica e protagonista como Jean Valjean no musical Les Miserables.

Certamente, aquele que conhece o original terá a curiosidade de ouvir esta versão “erudita”. Não ficará decepcionado. Os arranjos de Fuller e a Royal Philharmonic Orchestra, sob regência de Robert Ziegler contribuem e destacam a riqueza e o requinte das composições de Pete. Além disso, acerta na escolha de Alfred Boe como Jimmy.

Infelizmente, como é um lançamento muito recente e de uma grande gravadora, sua reprodução é vetada, mesmo quando não é por motivos comerciais. Mas temos alguma coisa disponível no YouTube. Veja e ouça.

The Real Me é a primeira faixa após a abertura.




Veja Alfie Boe na poderosa Dr. Jimmy.




Veja Alfie Boe em Love Reign O’er Me.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A melancolia singela de Erik Satie

Aquarela de Julius Bissier
Do pouco que entendo de música, minha opinião sobre a obra de Satie se resume a dizer que gosto muito mais de Claude Debussy e Maurice Ravel, e talvez, de Gabriel Fauré. Seu trabalho – ou sua imagem? – está associada à avant-garde, a uma certa iconoclastia, enfim, a de um artista a frente do seu tempo. Era amigo de Tristan Tzara e de outros artistas ligados ao dadaísmo, tinha ligações com nomes do cubismo, compondo peças com cenários de Braque e Picasso, e colaborou também em obras de Jean Cocteau.

Houve um tempo em que gostar de Satie era o máximo. Acho que ainda é. Mas, perto das composições de Debussy e Ravel, suas composições soam um tanto primárias e muito pouco “vanguarda” perto de peças como La cathédrale engloutie, do compositor de Jeux. Ser considerado um dos precursores do minimalismo é outra coisa que escrevem sobre Satie. Pode ser. Na minha opinião, faço questão de ressaltar, não é minimalismo: é singeleza, se existe esse estilo, ou até mais, se existe essa expressão em português.

É por essa singeleza que reside a grandeza de Satie. Que belas peças curtas e mínimas como as Gnossiennes ou as Gymnopédies! São suas obras primas e estão entre as minhas preferidas de todo o repertório popular ou erudito. São demonstrações de que não é necessário complexidade para se atingir a beleza. Talvez, quem sabe, o sublime esteja nos poucos elementos, e isso pode ser, genericamente, o “minimalismo” e não a da música de Steve Reich ou de Philip Glass, a beleza suprema da arte, como em uma pintura de Barnett Newman, ou na “singeleza” – de novo a expressão – de um trabalho de Julius Bissier.


Audições
Os meus “gnossiennes” e “gymnopédies” preferidos até hoje, quem sabe, porque foi a primeira, são os de Reinbert de Leeuw.

Ouça a Gnossiènne no.1 com ele.




Ouça a Gymnopédie no.1 com o mesmo pianista.




Dentre as mais recentes, e já que falamos de inoconoclastia também, uma boa é a da “iconoclasta” – nem tão iconoclasta aqui – Joanna McGregor. Ouça a Gymnopédie no.1.




As Gymnopédies foram orquestradas por Claude Debussy. Nada como ele para dar um colorido especial a essas obras. Ouça aqui com interpretação da Orpheus Chamber Orchestra.




Elas serviram a uma variedade enorme de interpretações com outros instrumentos. Ouça esta da Royal Philharmonic Orchestra, com Ophelie Gaillard no violoncelo.




A Gnossienne no.3 no acordeon, com Richard Galliano.




E, finalmente, a razão de ter lembrado de Erik Satie: Lavinia Meijer. Em seu CD Voyage (Sony, 2015), Meijer explora o repertório impressionista de Satie e Debussy. Ouça a Gnossienne no.2.




Bônus: veja Lavinia Meijer executando Clair de lune, de Debussy.




terça-feira, 9 de junho de 2015

Surpresa dupla com Avi Avital

Um bom programa para amanhã, 10 de junho, é a apresentação de Avi Avital, na Sala São Paulo. É parte da programação da Série TUCCA de Concertos Internacionais. Esta entidade existe há 15 anos e dedica-se à pesquisa e à assistência de crianças e adolescentes carentes com câncer.

Fora o belo trabalho que desenvolvem, essa associação é responsável por um dos melhores programas de concerto do Brasil, mais interessantes até do que o da Osesp, por ter um foco também em outros gêneros, além da música erudita. Para se ter uma ideia, depois de Avi Avital, estão programadas apresentações de Miloš Karadaglić (9 de setembro), um dos melhores violonistas da atualidade, Alice Sarah Ott e Francesco Tristano (14 de outubro), pianistas que acabam de lançar o belo Scandale (Deutsche Grammophon, 2014), e, em 11 de novembro, a do quarteto de Gerald Clayton, com Cyrille Aimée e Sachal Vasandani, dois cantores “rising stars”.

É evidente que o foco dos programadores da série da TUCCA é outro, pois o da Osesp é mais específico. Essa liberdade propicia ao público conhecer novos nomes. Avital, Karadaglić, Ott e Tristano não são estranhos àqueles que acompanham a música clássica, pois são contratados de Deutsche Grammophon, que há muito vem apostando em repertórios mais ecléticos, misturando o popular com o erudito.


Avi Avital  O mandolin – ou bandolim, como é conhecido no Brasil – surgiu por volta de 1750 e, apesar de razoavelmente popular, nunca foi muito utilizado na música erudita. Do pouco que se conhece, a obra mais conhecida que o utiliza, é o Concerto de Mandolin, RV 425, de Antonio Vivaldi. Conforme publicações especializadas, foi usado também, nunca como solista, por Beethoven, Mahler, Schoenberg e Mozart. Na conhecida Canção da Terra (Das lied von der Erde), de Mahler, o bandolim é utilizado brevemente.

Na esfera do popular, ele e suas variantes, como o banjo e o mandolim elétrico, são populares nas músicas country e folk americanas e acredito que também na Europa Central. No Brasil é o instrumento muito usado no choro. Cooperaram para a sua popularidade Jacob do Bandolim, Joel Nascimento e Déo Rian. Dentre os atuais, o grande nome é Hamilton de Holanda. É um dos músicos brasileiros com maior prestígio internacional atualmente. O Que Será?, com o italiano Stefano Bollani, lançado pela ECM, mereceu elogios empolgados tanto dos críticos como do público apreciador da música instrumental. (leia e ouça em http://bit.ly/1MgoefE)

O israelense Avi Avital, nascido em Beersheba, cidade do sul do país, começou a tocar o bandolim com sete anos e logo foi estudar em Jerusalém e depois, em Pádua, escolha lógica, pois a Itália é o berço desse instrumento. Em razão de poucas peças compostas para ele, seus estudos voltaram-se às transcrições, principalmente de obras para o violino.

Seu primeiro álbum lançado pela Deutsche Grammophon, intitulado, simplesmente, Bach, é composto por três concertos e duas sonatas do alemão. São transcrições muito interessantes e perfeitamente adaptadas ao bandolim. Ouça o Concerto BWV 1052R.





Veja Avital executando o Primeiro Movimento da Cello Suite nº1. Acho que não há nenhum registro em disco dessa peça.




Ano passado, Avital lançou o álbum Vivaldi, dedicado ao veneziano, compositor das peças mais conhecidas da música clássica e também autor de uma das poucas para o bandolim, o Concerto em Dó maior, RV 425. E nada melhor do que ser acompanhado pela Venice Baroque Orchestra ao homenagear o “il prete rosso”.

Pode-se dizer que Avi é uma estrela, guardando-se as proporções e não se comparando aos ídolos do rock. É jovem, carismático e transita pelo crossover, algo entre o clássico e o pop. Ser indicado ao Grammy atesta o quanto é conhecido. Ser popular tocando música erudita significa que você está no nível de um André Rieu? Errado. Em muitos casos, o aumento da popularidade está relacionada a um empobrecimento musical. Mas não é esse o caso, nem de Avi, nem de outros como Daniel Hope. O perigo, no entanto, pode estar próximo.

Veja Avi com a Venice Baroque Orchestra no Concerto para Bandolim.




Um destaque, devido a sua popularidade, é Quatro Estações. Ouça um dos movimentos de Verão.




Pelo mundo  O álbum mais interessante, no entanto, considerando-se que a seara de Avital é o crossover, até por conta de o bandolim não ser um instrumento de concerto muito utilizado, é Between Worlds (DG, 2014). Ele explora o repertório erudito, tocando composições de Manuel De Falla, Vittorio Monti, Heitor Villa-Lobos e Béla Bartók. Mais interessante, no aspecto “world”, são as execuções de composições da Geórgia, Bulgária, não deixando de incluir uma composição de sua conterrânea Ora Bat Chaim. Dos “exemplares” étnicos, uma bem interessante é a búlgara Bučimiš.





Avital fala sobre Czárdás, de Vittorio Monti, que é executada com Richard Galliano.