Ganha um doce quem sabe o que as irmãs Katia e Marielle Labèque e Maurice Ravel têm em comum fora terem seus nomes ligados à música erudita. Os três nasceram na região basca da França, Mais conhecida é a parte espanhola, que constitui 90% de seu território, e presente nos noticiários no século passado, devido aos atentados violentos e sanguinários perpetrados pelo grupo terrorista ETA, em favor da autononomia dos territórios bascos. Hoje, é considerado Comunidade Autônoma, como é a Catalunha.
Bascos notáveis
Maurice Ravel nasceu em Ciboure, bem perto de Biarritz, em março de 1875. Basco por parte da mãe, Marie Delouart, cresceu em Paris, entretanto, parafraseando uma frase conhecida, “saiu de lá, mas os Países Bascos não saíram dele.”
Katia e Marielle Labèque, nascidas em Bayonne, como Ravel, começaram seus estudos de piano com a mãe Ada Cecchi, que tinha sido aluna de Marguerite Long e, posteriormente, fizeram o Conservatório de Paris. Ficaram conhecidas, inicialmente, executando compositores contemporâneos, com György Ligeti, Luciano Berio e Olivier Messiaen. É desse autor “Visões do Amém”, que gravaram na primeira incursão fonográfica.
Belas e talentosas, atraíram a atenção das gravadoras. A Philips chegou na frente, com elas executando “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin, em versão para dois pianos. Venderam um milhão de cópias, fenômeno, em se tratando de música erudita.
O prestígio das irmãs não foi apenas pelas vendas. Compositores contemporâneos, a exemplo de Berio, Michael Nyman, Philip Glass e Osvaldo Golijov, compuseram especialmente para as Labèque tocarem em estreia mundial.
Depois de lançarem discos pelos melhores selos de música erudita, criaram o KML Recordings, focado em um repertório mais abrangente e heterodoxo, incluindo o rock experimental e a música mais tradicional, como a que gravaram com a espanhola Mayte Martin (“De Fuego y de Agua”, 2008).
Os álbuns mais recentes são demonstrativos do distanciamento do repertório mainstream. “Moondog” aborda a música de Thomas Hardin, cujo nome artístico intitula o disco. É algo muito diferente, algo impossível de ser rotulado.
No mais recente, “Amoria”, as irmãs Labèque fazem uma viagem pela música basca, do século 16 até nossos dias. É um tributo às suas origens, com um resultado que não decepciona. Seu início é animador. “Con amores, la mi madre”, de Joanes Antxieta, em arranjo para dois pianos e o contratenor Carlos Mena, é um grande início. As seguintes são também de autores pouco conhecidos, fora Pablo Sarasate, basco de Pamplona, e Maurice Ravel.
O amor de Ravel por seu país
Acho que não há ser humano no planeta que não conheça “Bolero”, popularmente chamada de “Bolero de Ravel”. Apesar de possuir uma obra de respeito, que não se resume ao tema que virou “carne de vaca” depois de ter feito parte da trilha sonora de “Retratos da Vida”, filme de Claude Lelouch. Ser basco foi um dado importante não apenas na música, como é possível perceber-se nessa afirmação, contida no encarte: “É sobre meu coração seco. Isso está errado. Mas sou basco e os bascos não se entregam aos poucos. Você pode não acreditar com o desgosto que eu deixei St. Jean de Luz. Eu realmente senti essa impressão nostálgica somente quando vi o oceano desaparecer primeiro, depois os Pirineus. Realmente, meu país é um dos mais belos e bonitos, eu diria. O mar está cheio de acácias. E essas suaves colinas verdes, de cima a baixo, caem das pequenas bolas de carvalho esculpidas no basco. E, acima de tudo isso, os Pirineus, a malva de terra das fadas. E então, há luz. Não é o sol implacável do outro meio-dia. Aqui, é um brilho excelente. As pessoas sentem isso; ele é ágil, elegante, e sua alegria não é vulgar. As danças são leves, de voluptuosidade, sem excesso. A religião em si, embora altamente observada, é mesclada de um grão de ceticismo.”
Bela declaração de amor, não? Por meio dele, amigos como Arthur Rubinstein, Alfred Cortot, Igor Stravinsky, Claude Debussy, Serge Prokofiev e Marguerite Long, conheceram esse belo país.
Destaques
Além de “Kaddisch”, das “Mélodies hébraïques”, e “Bolero”, executada por dois pianos e percussão com o grupo Hegiak, destacam-se a “Sarabanda”, de Bernardo Zala Gakdeano (séc. 17), “Agota”, deBalere Artxu (séc. 18). Como curiosidades, belas e singelas são “Haika mutil” e “Elurra iruñan”, compostas neste século.
Ouça o álbum no Soptify.

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