quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Luzes e trevas no mundo de Melody

O mundo visto através dos óculos de Melody Gardot é mais escuro. A frase pode ser de efeito, mas tem sua verdade. Se o que acontece na vida influi em como somos, a dela pode ser uma boa pista do que é a sua música, pelo menos a de seus dois primeiros discos. Algumas faixas de Worrisome Heart e My One and Only Thrill (não estou considerando o EP Some Lessons: The Bedroom Tapes, gravado depois de sair do hospital após um ano internada) são tremendamente tristes. No post passado (http://bit.ly/1KHzkrn), conto a terrível história por que passou depois de ter sido atropelada quando andava de bicicleta.

O sucesso foi instantâneo, desde o primeiro álbum, lançado com boa estrutura de divulgação. Seus ouvintes sentiram as dores que a perseguiam e até hoje persistem em razão das sequelas do acidente. A vida deve ter ficado bem melhor para Melody. E também deve ter achado que havia mais além de lamentar da própria desgraça. Almejou outros universos a explorar. The Absence (Verve 2012) incorpora elementos assimilados nas viagens em que conheceu Marrocos, as ruas de Lisboa, as praias brasileiras e o tango ouvido em casas de Buenos Aires. Pesa também a exploração por esses mundos a produção de Heitor Pereira, conhecido também como Heitor P. Não é à toa que uma das faixas se chame Iemenjá

No álbum mais recente, Currency of a Man, o foco é mais em cima de gêneros tipicamente americanos, da década de 1970. A produção é do mago das cantoras e cantores: Larry Klein é mestre em captar as potencialidades de quem os contrata e tem o dom de rechear suas vozes em instrumentações elegantes. O álbum foge um pouco do que os fãs esperavam de Gardot, o que, de maneira nenhuma, quer dizer que não seja bom. Mas, tem esse porém; é inferior aos anteriores.

Currency of a Man
Don’t Misunderstood abre com vocalise de Melody que parece um daqueles lamentos de blues, sobre um fundo de Hammond, percussões e lampejos de cordas. A música é atmosférica, lenta, meio preguiçosa, um tanto diferente do que se conhece dela. Mas não decepciona.

Don’t Talk segue na mesma toada, com uma introdução de cordas, e uma bela intervenção da guitarra que faz toda a diferença. Parece mais uma continuação da faixa de abertura. O mais do mesmo continua com It Gonna Come. A diferença mesmo está no belo arranjo, com uma marcação ritmica destacada de notas de baixo elétrico e o saxofone barítono. 

Nas três citadas, há um delicioso clima de sons da década de 1970, reforçada pelas cordas que surgem em breves intervalos, com riffs de sopros. Como gancho dessa época, Bad News lembra um pouco aquele instrumental meio bizarro Tom Waits. Same to You, que sucede ao breve Palmas de Rua – nome em português mesmo –, segue a receita das faixas anteriores, com ecos de gospel, funk e o pop antigo.


Ouça Same to You.




A Melody Gardot “escura”, que conhecemos dos álbuns Worrisome Heart e My One and Only Thrill, está presente na soturna No Man’s Prize. Ela é perfeita nas torch songs. A partir desta, resolve ser a Melody que vê o mundo através dos óculos que a protegem da luz. A exceção é a vigorosa Preacherman.


Veja. É a melhor das que Gardot é mais “solar”.





Bem Melody é If I Ever I Recall Your Face. Maravilhosa.




Infelizmente, o YouTube tem bloqueado o que é disponibilizado de intérpretes contratados de gravadoras maiores, fora o que é oficial, como os clipes promocionais. É uma pena, senão teria colocado as três últimas, todas muito lindas: Once I Was Loved, After the Rain e, principalmente, Buying My Troubles. Mas é possível ouvir trechos delas aqui. Boa audição.





terça-feira, 27 de outubro de 2015

A boa aposta em Melody Gardot

O talento de Melody
É estranho a grande imprensa no Brasil não ter dado a devida atenção a Melody Gardot. Seu último disco foi lançado no Brasil e, até onde eu sei, não se falou dela. Não faltam elementos que podem funcionar como “ganchos” para uma bela matéria, a começar pelo nome, que nos faz lembrar de Brigitte Bardot; é autora da maioria das músicas que grava. E aqueles óculos? Até nas capas de seus discos? Tem presença, é uma bela figura. Usa bengala para andar. O que pode ter acontecido com ela? E um último e importante detalhe: tem talento.

A razão de usar bengala e usar óculos escuros são a consequência de ter sido atropelada aos 19 anos andando de bicicleta. Ficou um ano hospitalizada. As sequelas foram sérios danos na bacia e na espinha, intolerância ao som e a luz. Antes de saber disso imaginei que os óculos eram uma acessório para lhe dar um certo ar de “intelectual” francesa, meio Audrey Hepburn em Funny Face. Pelo nome pensei que fosse francesa. Curioso e meio voyeur, aquele rosto na capa do CD que via exposto em todas as Fnacs e Virgins de Paris, me atraiu. Talvez fosse francesa cantando em inglês. Enganei-me. O disco não me impressionou muito na época: era meio Norah Jones e como não era lá muito fã dela, meio que a abandonei.

Um ano depois vi seu segundo disco. Por causa do título, My One and Only Thrill, que deve ter sido inspirado pela música My One and Only Love, que eu adoro, resolvi comprar.

Worrisome Heart, seu primeiro CD – tem o EP Some Lessons: The Bedroom Sessions entre os dois lançamentos –, como disse antes, me fez lembrar de Norah Jones e de várias outras que apareceram na mesma época, com o mesmo tipo de voz e repertório, meio molenga, um pouco insosso. No entanto tinha uma canção maravilhosa: Love Me Like a River Does. E a letra é uma maravilha: “Love me like a river does/ Cross the sea/ Love me like a river does/ Endlessly/ Love me like a river/ Baby, don’t rush, you’re not a waterfall”. Vale o disco. Imagens têm sentimentos.

O segundo, para meu espanto, era bem melhor que o anterior. Descobri por que: a produção era de Larry Klein. Ele tem a capacidade de valorizar e potencializar o talento de quem produz: Joni Mitchell, Madeleine Peyroux e Luciana Souza. Orquestrações sutis, solos discretos na medida se somam ao talento de Gardot como compositora e cantora. As canções “tristes” são as melhores e bem combinam com sua voz. Nas músicas mais “saltitantes”, dá-se bem também. A primeira faixa, Baby I”m a Fool parece com qualquer outra do CD anterior à exceção de um pequeno detalhe: o diferencial Klein. Cordas e um violão acústico que servem de ligação às palavras cantadas são um prenúncio do que está por vir. Larry Klein imprime um sabor “francês”, um clima meio bossa. A citação não é despropositada. Ouçam Coralie Clément, Carla Bruni e Charlotte Gainsbourg. Podemos dizer que existe um estilo “francês” de cantar: vozes pequenas e afinadas, com aquela sensualidade meio despretenciosa. Parte do álbum segue essa receita. Na quarta música, sentimos que algo está acontecendo. Um piano, um trumpete de poucas notas e um órgão criam o clima para a primeira faixa que vai fazer valer a pena comprar o disco: Your Heart Is as Black as Night. Só pelo título dá para imaginar o petardo que vem. Duas canções climáticas se seguem: Lover Undercover e Our Love Is Easy. Nessa altura, somos cúmplices das dores de Gardot. É um crescendo que se oxigena com uma leve faixa cantada em francês, meio Henri Salvador, leve percussão, sopros dobrados, aquele violãozinho; o chantilly desse doce é um belo solo no sax alto de Gary Foster.

Aí, Melody resolve nos tirar o fôlego de vez. A balada The Rain é daquelas de suspendermos a respiração para ouvir sua voz, o piano e as notas esparsas do sax tenor de Bryan Rogers. Ouvi-la faz chover em nossos corações. Uma sessão de cordas abre a próxima: My One and Only Thrill. Com Deep Within the Corner of My Mind, as duas anteriores formam um bloco só. Sua voz é doce e dramática, sem arroubos.

Gardot então canta a única música que não leva sua assinatura: Over the Rainbow. E termina com If the Stars Were Mine. Sim, há esperança nesse mundo. Um arco-íris desponta no horizonte. Num clima meio bossa saímos felizes por conhecer uma cantora que vale apostarmos nossas fichas.

Veja:
My One and Only Thrill




Veja o clipe de Baby, I’m a Fool.




Veja Melody em Your Heart Is Black as Night.




Veja Gardot em Love Me Like a River Does.




Publicado em 29/10/2009