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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
O tenor quente de Eric Alexander
Está muito certo Jack Bowers, em sua resenha de “No Regrets”, álbum lançado em 2017, de Eric Alexander. “Um dos pontos fortes de Alexander, e talvez o que o levou a ser tão subestimado, quando nos referimos aos mestres contemporâneos, é que ele faz tudo tão implausivelmente fácil. A técnica e a fluência são tais que não há literalmente nada que não possa fazer no saxofone tenor.”
Descobri Eric Alexander por meio do Carlos Conde, que tinha um dos bons programas de jazz nas rádios brasileiras. Apesar da diferença de idade – uns 20 anos –, fiquei muito amigo dele, a ponto de ser convidado com frequência para assistir aos shows em clubes como o Bourbon Street, em São Paulo. A grande vantagem é que, sendo os seus convites de cortesia, sentávamos na mesa mais próxima ao palco. Enjoei de ver John Pizzarelli.
Conde tinha suas idiossincrasias. Não era grande fã de John Coltrane, para a minha frustração. Detestava Ben Webster, um dos meus tenoristas preferidos. O que eu apreciava, o sopro volumoso, segundo ele, era ar e não música. Acho que, pelo menos, não tinha aversão por Lester Young, Coleman Hawkins e Dexter Gordon, outros dos meus ídolos.
Da geração mais nova, de quando ainda estava vivo, gostava muito de Eric Alexander. Fomos juntos, com o Alberico Cilento, vê-lo em um festival de jazz em São Paulo. Passados tanto anos, ouço ainda Alexander com certa frequência, e concordo que é um dos bons saxofonistas da atualidade. Não tem a fama de Branford Marsalis, Joe Lovano ou Charles Lloyd, mas é craque.
Minhas noites com Eric
Ouço música o tempo todo, até antes de dormir. Além de me trazer um enorme prazer, é meu sonífero. Tenho uma boa caixa Altec Lansing ao lado da cama, com um iPod de 140 GB. Uma série, intitulada “Gentle Ballads”, de Alexander, tem funcionado como uma espécie de acalanto adulto.
Não sei se foram gravados mais, no entanto, são cinco os títulos, no período de 2004 e 2011. Todos são da Venus Records, gravadora que se especializou em lançar álbuns de jazz, com músicos consagrados, como Archie Shepp, Kenny Barron, Steve Kuhn, Sir Roland Hanna e Cedar Walton, e outros mais novos, como os italianos Massimo Faraò, Stefano Bollani, a australiana Nicki Parrott, e as cantoras Alexis Cole, Simone Kopmajer e Tessa Souter. O nicho da gravadora japonesa é aquele público menos afeito às experimentações vanguardistas e à instrumentação do jazz-rock. Até Archie Shepp apresenta-se mais “domesticado” em seus álbuns por essa gravadora.
Os álbuns de Alexender pela Venus vão então por essa seara mais “gentle”, bem diferentes dos seus registros pela HighNote, mais ousados e diferentes, mas dentro do espectro do jazz contemporâneo. Em comum, o que se destaca é o que Jack Bowers ressalta: a sua maestria no tenor.
Nas “gentle ballads” estão presentes os mais belos standards do cancioneiro americano, como “Midnight Sun”, “I’m a Fool to Want You”, “My Ship”, “Stormy Weather”, “Chelsea Bridge”, “Don’t Explain”, “Summertime”, “Little Girl Blue”, “Goodbye”, “You Don’t Know What Love Is”, “Nature Boy”, “Body and Soul”, “Tenderly” e “My One and Only Love”, dentre outras, não necessariamente executados em tempos lentos. O piano é de Mike LeDonne – nos discos da HighNote é Harold Mabern –, com John Webber no contrabaixo e Joe Farnsworth na bateria.
Destaco então, o Eric das minhas noites, começando com “Mona Lisa”. Que belo saxofone!
“Left Alone”, de Billie Holiday e Mal Waldron, é um dos melhores números da série, com o sax matador
“Nature Boy”. Nas baladas, vem a lembrança inevitável de John Coltrane, em “Ballads” (Impulse, 1965), e o belíssimo “Johnny Hartman e John Coltrane” (Impulse, 1965)
“Tenderly”.
Veja Alexander em um número que não está nessa série. É um original de outro grande saxofonista: Dexter Gordon. A música é “Cheesecake”.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
O clássico da Noviça Rebelde por Eric Alexander
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| Alexander e seu tenor |
Coltrane foi participante e protagonista das várias transformações que aconteceram no jazz a partir dos anos 1950. Tocou com Dizzy Gillespie no início da carreira e entrou para o grupo de Miles Davis em 1955. Não ficou muito tempo em decorrência de um problema que afligia boa parte dos melhores músicos de jazz da época: as drogas. Mesmo assim, continuou na ativa gravando discos para o selo Prestige e tocando com Thelonious Monk. Foi um aprendizado e tanto. Segundo Coltrane, “ele me mostrou as respostas tocando-as… Monk foi um dos primeiros a me mostrar como tocar duas ou três notas ao mesmo tempo no tenor.” Era o início da consolidação do estilo que o crítico Ira Glitter chamou de “sheets of sound”.
Quando voltou ao grupo de Miles, em 1958, era outro Coltrane. Em quatro sessões, uma em 26 de maio de 1958 das 19 às 22h; em 2 de março de 1959, das 14h30 às 17h30; e outra das 19 às 22h; em 22 de abril, das 14h30 às 17h30, nos estúdios da Columbia gravaram um dos melhores discos de todos os tempos: Kind of Blue.
No mesmo ano de 1959, assinou um contrato com a Atlantic Records e gravou Giant Steps, Coltrane Jazz, My Favorite Things, Olé Coltrane, Coltrane’s Sound (lançado em 1964), e Coltrane’s Blues (lançado em 1962), como líder.
Nos discos gravados pela Atlantic passou a tocar o sax soprano também, instrumento consagrado por Sidney Bechet, e que, praticamante, havia deixado de ser usado no jazz. A execução de My Favorite Things no sax soprano foi o perfeito exemplo das novas possibilidades de improvisação que esse instrumento abriu para o que Coltrane vislumbrava.
Pode-se dizer que Coltrane “inventou” o tema de My Favorite Things para o jazz. Seu início com o piano de McCoy Tyner, o longo solo de Coltrane e a bateria “drum machine” de Elvin Jones são inesquecíveis e são referências para qualquer interpretação posterior.
É o que sucede com a brilhante interpretação de Eric Alexander. David Hazeltine, no acompanhamento, segue as mesmas linhas melódicas de McCoy Tyner. Alexander era um dos saxofonistas preferidos do amigo Carlos Conde (ele detestava Ben Webster, um dos meus ídolos). Foi por ele que o descobri. Assistimos a uma apresentação de Alexander em um festival de jazz há alguns anos. O tenorista navega com desenvoltura em andamentos lentos – como na série Gentle Ballads, pela gravadora japonesa Venus – com performances mais uptempo, caso de My Favorite Things, que você vai ouvir agora. Tem como sidemen, além de Hazeltine, do baixista John Webber e do baterista Joe Fansworth.
Ouça o clássico de Coltrane em apresentação para uma emissora de TV.
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