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terça-feira, 18 de junho de 2013

Milt Jackson, Coleman Hawkins e o saco do feijão

Elegância de Coleman Hawkins e Milt Jackson
Alguns amigos marcaram um jantar. Todos pediram seus pratos e a conversa andava bem animada. Um dos comensais percebeu que havia um fio de cabelo encaracolado em sua comida. Chamou o garçom e reclamou. Este lhe respondeu: “Ah, deve ser do saco do feijão”. Bom, é uma piada antiga e, perdão, infame. Muitos devem saber do resto dela. Uma pista: basta colocar o “F” maíusculo em “feijão”.

Charlie Parker podia estar doidão, com saxofone emprestado ou de plástico, mas subia ao palco sempre trajando terno e gravata. A elegância fazia parte do jazz. Elegância mesmo, no entanto, era coisa do Modern Jazz Quartet. Era o jazz a rigor. A plateia os ouvia como que estivessem em uma sala de concertos de música erudita. O pianista John Lewis sempre flertou com a música de Bach. Gravou-o até. O outro membro era Milt Jackson. Apelidos eram comuns, ou melhor, são. Podem possuir um sentido carinhoso, jocoso, enfim, são formas de tratamento que “pegam” em muitos casos. O de Milt era “Bags”. Dizem que é pela bolsa que tinha sob os olhos por conta de frequentes noitadas insones em bares e clubes.

O saxofone surgiu em 1846 pelas mãos de Adolph Sax. Não é comum nas orquestras sinfônicas por ser um instrumento relativamente novo. Assim mesmo existem peças em que é solista, caso da Rapsódia para Orquestra e Saxofone (1901), de Claude Debussy. Existem obras compostas por Villa-Lobos e Darius Milhaud, assim como presentes em peças orquestrais como Bolero, de Maurice Ravel, ou na sua versão orquestral de Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky.

Se não “pegou” nas salas de concerto, no jazz é um dos instrumentos mais importantes. Um dos responsáveis, sem dúvida, é Coleman Hawkins.

Hawkins causou um abalo sísmico com sua interpretação de Body and Soul, em 1939. Foi considerado revolucionário por romper com os tradicionais clichês do swing e antecipar harmonias que seriam comuns no bebop. É por isso, considerado um dos pais do sax tenor.

Ouça o Body and Soul de Hawkins.




Com Lester Young e Ben Webster formou um trio de ouro da época do swing. Hawkins tinha um sopro mais “metálico”, Lester era a suavidade, Webster, bem, é ainda hoje um dos meus preferidos. São clássicos os álbuns em que os dois gravaram juntos pelo selo Verve.

Ouça Rosita, uma das melhores de Coleman Hawkins Encounters Ben Webster.


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Coleman Hawkins era conhecido pelo apelido “Bean”. Surgiu em razão da cor da pele, pelo menos, essa parece ser a explicação consagrada em compêndios de jazz. Desconheço o nome do cristão que teve a ideia de reunir Hawkins e Milt Jackson para um disco e intitulá-lo juntando os dois apelidos: Bean Bags. Alguns podem não concordar, mas é genial, não?

Dois músicos desse quilate juntos, só poderia dar em coisa boa. Acrescentando-se Tommy Flanagan no piano, Kenny Burrell na guitarra, Eddie Jones no contrabaixo e Connie Kay, companheiro de Milt no Modern Jazz Quartet, fica melhor ainda.

Milt Jackson não era elegante apenas na indumentária; era também na forma de tocar. É um dos maiores nomes do vibrafone. Tinha muito estilo esse Bags! Ouça uma das músicas que compõe o “saco de feijão”: Don't Take Your Love From Me, de Henry Nemo.


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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A bela Rosita

Dentre os tipos de saxofone, meu preferido sempre foi o tenor. Em escala descendente, os outros são o barítono, o soprano e, por último o alto, apesar de Charlie Parker ou Phil Woods, dois gigantes. Dos tenores, por muito tempo, os preferidos foram Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young, nessa ordem.

A capa de um clássico
Seria inimaginável não ter os álbuns que meus ídolos gravaram juntos pela Verve Records. Em Coleman Hawkins Encounters Ben Webster, no meio de standards (It Never Entered My Mind, Prisoner of Love, simplesmente, maravilhosos) havia uma música chamada La Rosita. Quando tenho saudades de Rosita, procuro-a no meu iPod de 160 GB. Ouvi-la é um prazer e levanta meu humor, se estiver em baixa.

Coleman Hawkins tinha um som cheio, um tanto áspero, e o de Ben era veludo puro. O Carlos Conde não se conformava com que alguém pudesse gostar de Webster. Dizia que ele fazia “ar” e não som. Questão de gosto. Ele era incomparável tocando baladas. Quem conhece Time After Time (Ben Webster and Associates, Verve) tocado por ele sabe do que estou falando.

Mas La Rosita chegou por outras vias dessa vez. Não lembro de nenhum outro registro além desse de 1957. Qualquer coisa que ache do pianista Bebo Valdés, compro, desde Bebo y El Cigala, DVD duplo com show e documentário dirigido por Fernando Trueba. O cineasta espanhol é responsável pelo “renascimento” do cubano expatriado, que se encontrava meio esquecido. Pela gravadora espanhola Calle 54 foram gravados alguns CDs. Encontrei, casualmente, We Could Make Such Beautiful Music Together (2003), um duo com o violinista uruguaio Federico Britos num site. Adivinhem? Adorei. E mais, ainda, porque me fez lembrar de Rosita. É a quarta faixa de um disco em que se mesclam standards americanos, composições próprias, um Piazzola e um Jobim.

Uma observação: a canção La Rosita foi composta por Allan Stuart (pseudônimo de Lester O’Keefe) e Paul Dupont (pseudônimo de Gustave Haenschen). Estranho, não? Em matéria de 2008 no Los Angeles Times (http://articles.latimes.com/2008/oct/23/world/fg-bebo23), assinado por Sebastian Rotella, Bebo diz: “que bela peça. É mexicana, você sabe, os mexicanos têm músicas melódicas.” Pelo jeito, nem Bebo sabe das origens de Rosita.

Ouçam e comparem.
Coleman Hawkins e Ben Webster:



Bebo Valdés e Federico Brito: