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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Bésame mucho: o primeiro de um milhão de beijos

A bela Consuelo
Não só os que não gostam de samba são “doentes do pé”. Quem não gosta de bolero é também doente do pé. A influência desse gênero é tão forte no Brasil que está “infiltrada” em uma das formas consagradas da MPB: o samba-canção.

A bela Consuelo Velásquez, mexicana de nascimento, mal tinha completado 16 anos quando compôs um dos maiores sucessos de todos os tempos: Besame Mucho. Começou cedo a tocar piano clássico e, segundo se conta, inspirou-se em uma obra do espanhol Enrique Granados. De 1940 para cá, são milhares de registros. E continua sendo gravada e cantada até hoje. É um dos grandes standards da música mundial.

Dei-me ao trabalho de contar quantas gravações tenho em casa: 44. Com certeza, tenho mais. E surpreende pela variedade. Na minha lista não estão incluídos nomes como o Francisco Petrônio, Altemar Dutra, Cauby Peixoto e Ângela Maria que, salvo falha de percepção, devem ter cantado o clássico mexicano.

As surpresas começam com uma gravação de 1962 dos Beatles que não faz parte da discografia oficial, mas está presente em Anthology (Apple, 1995). Outra inesperada é a do pianista Bill Evans. Não tem muito a cara dele. Entretanto, está presente em Piano Player (Columbia, 1988). Ele está acompanhado aqui do vibrafone de Dave Pike. Confira.




Ouça o Besame Mucho dos Beatles, com Paul McCartney cantando.




Em sua curta passagem pela Terra, o fabuloso Nat King Cole deixou um legado fantástico. Além de ter inventado o formato piano, guitarra e bateria, sem o contrabaixo, depois imitado por muita gente, inclusive por seu fã incondicional Oscar Peterson, Cole, antes genial pianista, continuou genial cantando. Dono de uma voz suave e terrivelmente agradável, conquistou um público enorme cantando standards como Mona Lisa, Nature Boy e Stardust. A popularidade chegou a tanto que tornou-se o primeiro negro a estrelar um programa de televisão. O problema foi que na América racista nenhuma empresa ousou patrociná-lo receosa de perder clientes em vez de conquistá-los. Resultado: durou pouco.

O “rei” gravou muito e variou mais ainda. Deixou alguns discos cantando em espanhol e até em português. Besame Mucho não ia escapar.





No bojo das gravações do pessoal do jazz, além de Bill Evans, encontramos registros de Stan Getz, Art Pepper, Grant Green, Wes Montgomery, Teddy Edwards, Frank Rosolino e Jim Hall. Cantada, temos Carmen McRae, Natalie Cole, Dianne Reeves, Jackie Ryan, Nicki Parrott, Laura Figy e Diana Krall.

Ouça a de Diana Krall.




Dos instrumentistas do jazz, mais recentemente, temos registros de Dave Liebman, Sonny Fortune, Avishai Cohen, Steve Kuhn, Chucho Valdés, Michel Camilo e Tomatito, Elgar Djangirov e Michel Petrucciani.

É desse grande pianista uma das melhores. Veja.




No álbum Amoroso, João Gilberto interpreta Besame Mucho. Essa é a versão mais conhecida, com arranjo excepcional de Claus Ogermann. Mas não é primeira. Gravou-a em Farolito, disco gravado no México, em 1970.

Ouça a versão de Amoroso.




Não é só João Gilberto quem gravou o clássico de Consuelo Velásquez. Na esteira de Amoroso, Rosa Passos gravou Amorosa, em referência ao nosso cantor maior. Veja Rosa cantando acompanhando-se ao violão.




Temos também alguns registros de intérpretes da música erudita. Um deles é o de Roberto Alagna. O conhecido tenor lançou um álbum chamado Pasión em 2011 pela Deutsche Grammophon com uma coleção de boleros excepcional, no melhor estilo “latin lover”, carregando nas tintas dramáticas, muito apropriadas ao gênero. Não poderia faltar a interpretação do melhor tenor vivo da atualidade: Placido Domingo. Detalhe: este último é quase mexicano. Apesar de nascido na Espanha, cresceu em solo latino americano. Alagna nasceu na França, mas é de origem italiana.

Veja.




Ainda no terreno erudito, ou melhor, no chamado crossover, pois as tintas dessas gravações estão entre o erudito e o popular, temos duas ótimas gravações. Uma é de Christina Pluhar e seu L’Arpeggiata, que tem lançado ótimos discos temáticos. Em Los Pájaros Perdidos (Virgin, 2012), Besame Mucho é cantada por Raquel Andueza.

Em uma transcrição mais radical, existe a gravação do italiano Stefano Scodanibbio, muito linda, por sinal, em Reinventions (ECM, 2013). Outras a serem destacadas são as do violonista Miloš Karadaglić em Miloš Latino Gold (DG, 2013), transcrita pelo brasileiro Sérgio Assad, e os de Katia Labèque em Shape of My Heart (KML, 2010) e Little Girl Blue (Dreyfus 1995). Ouça a que está em Shape of My Heart. Aliás, pela amostragem Katia Labèque adora um bolero. Já gravou La Comparsa e Quizas Quizas, Quizas. Para quem não sabe, Katia e Marielle nasceram na região basca da França, como Maurice Ravel. Não é coincidência que tenham um “pezinho” na Espanha.

Ouça Katia em duo com o cubano Gonzalo Rubalcaba.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Agora, Natalie Cole também canta em espanhol

A “espanhola” Natalie Cole
Quem é espírita ou acredita em coisas como reencarnação, deve ter jurado que Nat King Cole tinha ressucitado em 1991. Nesse ano fora lançado um dueto de Natalie Cole e seu pai cantando Unforgettable. Era tão perfeito que poderia jurar-se que Nat estava entre nós, novamente. Não sei se Natalie foi pioneira nesse tipo de “truque”. O certo é que ficou banal, tal o número de gente que veio do além e sem direito de levar seus royalties para o céu ou para o inferno.

Infelizmente, Nat está morto desde 1959, em consequência dos três maços de cigarro que fumava diariamente. Era um cara especial. Grande pianista, influenciou muitos, como Oscar Peterson, com seu trio pioneiro composto de piano, guitarra e contrabaixo. Revolucionário, em sua maestria ao piano, tornou-se popular – e bote popular nisso – como cantor com sua voz de barítono cantando baladas como Mona Lisa e Nature Boy. Tão popular que foi o primeiro negro a ter um programa só seu na NBC. Mesmo fazendo sucesso, durou apenas uma ano por falta de patrocinadores. Na América racista, ninguém tinha coragem de anunciar seus produtos no The Nat King Cole Show. Era um boa praça carismático, sempre a sorrir, mas sofreu na pele o fato de ser preto. Campeão de vendas, ganhando muito dinheiro, comprou uma casa em Los Angeles. A vizinhança não gostou nenhum pouco e a Ku Klu Klan, muito menos: fincaram uma cruz em chamas na frente dela.

É sempre difícil ser filho de gênios. Ou você é um perfeito idiota que não vai importar-se com isso, ou é aquela velha questão do desejo de ser melhor que a geração anterior. Não deve ter sido fácil para Natalie Cole. Nove dias depois de completar 15 anos, o pai morreu. Abusou no consumo de cocaína, heroína e alcool. A consequência, descobriu em 2008: tem hepatite C.

De hoje em dia há uma profusão de atores que são filhos de atores, cantores filhos de cantores, jogadores filhos de jogadores, mas experimente contar quantos conseguem ser melhor que seus progenitores. Mercer herdou a orquestra do pai Duke Ellington e não conseguiu nem ao menos ser uma sombra. E Frank Sinatra Jr? E Nancy? Bom, Nancy até conseguiu certa projeção. E o filho de Pelé? O vício de Natalie Cole bem que pode ter sido pelo peso imenso de ter o pai que teve o “King” acrescentado ao nome, tal a sua genialidade. Mas ela tinha voz e capacidade e perseverou. Sem o peso do nome, porventura tivesse sido mais fácil.

A bela negra de olhos cor de mel, aos trancos e barrancos, erigiu uma carreira respeitável e hoje é contratada da Verve Records, uma das majors especializadas em jazz. Está na estrada desde 1975 e tem mais de vinte discos lançados. O último chama-se Natalie en Español. Um disco em “espanhol”, com certeza. Fãs de King Cole devem conhecer Cole Español (1956), A Mis Amigos (1959) e More Cole Español (1962). No primeiro tem até música brasileira: Suas Mãos, de Antonio Maria, Caboclo do Rio (a única interpretação que eu conheço é a de Inesita Barroso) e Não Tenho Lágrimas, cantadas em nossa língua. E mais: Nadie Me Ama. Advinhe de quem é? É aquela mesma, o Ninguém Me Ama, de Antonio Maria, “en español”. Ouça.




As músicas hispânicas mais conhecidas são as do gênero que, antigamente, chamavam de “mela cueca”, o bolero. O nome vem do tempo em que se dançava coladinho, corpos se tocando, sussurros nos ouvidos. Era a chance dos casais ficarem se roçando longe das vistas dos pais. Nos três álbuns de King Cole, temos clássicos desse tipo, como Perfídia, Noche de Ronda, A Media Luz e Solamente Una Vez.

Natalie Cole se acerca de alguns convidados, como Andrea Bocelli (esse não podia faltar; deve ser campeão de parcerias) e Juan Luis Guerra, e instrumentistas como os trumpetistas Arturo Sandoval e Chris Botti, e claro, seu pai. Ouça Acércate Más, com os dois.




A parte boa do álbum de Natalie são algumas músicas mais recentes, como Oye Como Va e Yo Lo Amo. Esta é a conhecida And I Love Her, de Lennon e McCartney. Uma curiosidade é uma versão de Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá, em espanhol.

Confira.

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Ouça Besame Mucho, com Andrea Bocelli.




Ouça o medley de Voy Apagar la Luz e Contigo Aprendi.




Ouça a bela El Dia en Que Me Quieras.




terça-feira, 23 de julho de 2013

Histórias de amor

Historia de Un Amor é uma das faixas de Amor
Em O Paradoxo do Amor – Ensaio sobre as metamorfoses da experiência amorosa (Difel, 2011), Pascal Bruckner escreve:

“Apaixonar-se é dar relevo às coisas, encarnar-se de novo na densidade do mundo e descobri-lo mais rico, mais consistente do que suspeitávamos. O amor nos resgata do pecado de existir: quando fracassa, ele nos oprime com a gratuidade desta vida. Sozinho eu me sinto ao mesmo tempo vazio e saturado: se sou apenas eu, eu sou demais. No momento abominável do rompimento, esse eu que desejara botar entre parênteses volta para mim como bumerangue, como um monte de preocupações inúteis. Eis-me outra vez carregando um peso morto: levantar-me, lavar-me, alimentar-me, suportar a insanidade de meu monólogo interior, matar as horas, errar como uma alma penada. Esse vazio é um transbordamento. […] O segredo desse eu, porém, é que ele é inteiramente forjado pelo outro, pelo estado de exaltação em que ele nos põe: prazer inaudito de ser amado, ou seja, salvo enquanto vivo. O amor tem um poder germinativo, faz eclodir algo que não existia senão em estado latente; ele nos libera do ego obsessivo e pobre que constitui nosso fundo pessoal. Ele nos devolve um outro aplacado, feliz, que nos torna fortes, capazes de grandes ações.” (pág. 82)

Carlos Amarán, autor de Historia de Un Amor, canta o abandono e a importância do ser amado, da falta que ele faz, o amado como a “luz da vida” e o “escuro” quando ele se vai, e o fatalismo do “sofrer”: “Por que Deus me fez te querer/ Para me fazer sofrer mais…/ Sempre foste a razão do meu existir/ […] É uma história de amor/ Como nenhuma igual/ Que me fez compreender/ Todo o bem todo o mal/ Que deu luz à minha vida? apagando-se depois/ Ai!, que vida tão escura/ Coração/ Sem teu amor não viverei!”

Dorival Caymmi, em Samba da Minha Terra, canta que “quem não gosta de samba bom sujeito não é/ é ruim da cabeça ou doente do pé.” Acho que o mesmo se aplica ao bolero: “quem não gosta de bolero é doente do pé”. O samba-canção é uma “conformação” do samba com o bolero. É só ouvir Risque, de Ary Barroso, para se compreender isso.

O bolero foi o grande gênero latino-americano do século passado. E não poderia deixar de ser muito diferente no Brasil. O “dois pra lá dois pra cá” foi o prelúdio de muitos namoros e casamentos. Em tempos de mais recato, dois corpos se juntavam e se tocavam ao som de Besame Mucho ou Solamente Una Vez. Nesses momentos, uma perna furtiva se encaixava entre as pernas da parceira. Bom, devia ser muito bom e muito mais sensual, naquele clima de romance em que o sexo ficava sublimado.

O gênero bolero vendeu muito e serviu até como designação de vestimenta feminina, o bolerinho, aquela peça curta que cobre os ombros das moçoilas, senhoras mais recatadas e outras nem tanto. O bolero foi a festa da gravadora EMI, dona do melhor plantel de cantores e cantoras. O mundo mudou e arroubos de romantismo passaram a ser considerados bregas. Mas o amor existe e chega sem avisar. É um gênero do passado, mas é sempre revisitado. É o que bons músicos de jazz fazem. O catalão Tete Montoliu (Tete Montoliú interpreta Boleros, Melopea Discos), os americanos Eddie Higgins (Amor, Venus Records) e Steve Kuhn (Quiereme Mucho, Venus Records), e o italiano Renato Sellani (Latin Album, Philology) gravaram seus discos elegendo o bolero como gênero. E, não sei por que, Historia de Un Amor tem tocado no meu aparelho de mp3. Está certo que bolero não combina muito com essa coisa chamada iPod.

Vamos ouvir esse clássico cantado por Eydie Gormé com o Trio Los Panchos.






Ouça Historia de un Amor, na interpretação do italiano Renato Sellani.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Com Eddie Higgins.


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quinta-feira, 27 de junho de 2013

A desbundada de Carlos Barbosa-Lima

Barbosa-Lima na capa de Siboney
Antes de iniciar efetivamente o texto é bom esclarecer o significado da palavra que se origina do verbo “desbundar” e algumas outras. Segundo o Aurélio, a gíria significa 1. perder o autodomínio, por efeito de droga (3). 2. P. ext. Perder o autodomínio; perder as estribeiras. § desbundado, adj. É uma expressão bem típica que se popularizou na década de 1970. O início do ano de 1972, no Rio de Janeiro, foi cunhado de “verão do desbunde”. Caetano Veloso e Gilberto Gil haviam voltado para o Brasil e lançaram, respectivamente, Transa e Expresso 2222. Gal Costa realizou o show Fa-Tal, dirigido por Waly Salomão. Este lançou o livro Me segura qu'eu vou dar um troço e foi um dos protagonistas do desbunde.

Antigamente, aquele que não consumia drogas era um careta. Para se caracterizar que não estava sob efeito de alguma droga, se falava “estou careta”. Era o preconceito ao contrário. Mas “careta”, no sentido mais genérico, serve para se referir a uma pessoa mais conservadora, mais para o certinho.

O violonista brasileiro Carlos Barbosa-Lima era um careta, pelo menos quando o vi pela primeira vez em uma sala inóspita e acusticamente horrível. Lina Bo Bardi, autora do belíssimo projeto do Masp e de seu mobiliário, não privilegiava muito o conforto ergonômico. O jornalista Telmo Martino, do extinto Jornal da Tarde, do grupo do Estadão, adorava exercitar seus dotes viperinos para falar mal dos bancos (isso mesmo) de madeira maciça do teatro do Masp dizendo que tinham sido feitos pela Marcenaria Garrote Vil, ou qualquer coisa do tipo. Explicação: falava-se muito do garrote vil, instrumento de tortura da época da inquisição, por conta do longa ditadura do período Franco, na Espanha. Lina tinha cabelos longos e uma franja enorme para o lado esquerdo. Telmo dizia que a arquiteta era “a última fã de Veronica Lake”.

A apresentação a que assisti aconteceu no início dos anos 1970. Era um adolescente ainda e um curioso por quaisquer manifestações musicais, roqueiras, eruditas ou populares. Lembro que era uma noite fria e, recuperando-me de um resfriado, tossia como um condenado. Acho que fiquei mais preocupado em não quebrar aquele silêncio respeitoso de uma sala de concertos a fruir o violão daquele rapaz considerado, naquele tempo, o melhor violonista clássico do Brasil. Depois disso, por muito tempo não ouvi mais falar dele.

Carlos Barbosa-Lima nasceu em dezembro de 1944 e revelou-se prodígio no violão. Com 12 anos de idade, apresentou-se pela primeira vez em uma sala de concertos, em São Paulo. Menino ainda, foi apresentado ao violonista Luiz Bonfá e este aconselhou a família a estudar violão clássico.

Com 13 anos gravou Dez Dedos Mágicos Num Violão de Ouro pela extinta gravadora Chantecler. Passou a se apresentar em várias salas do Brasil e da América Latina e fez seu debut em Washington quando tinha 23 anos. Teve a oportunidade de tocar para Andrés Segovia, apresentou-se na Europa também e teve a honra de ter obras compostas especialmente para ele por Alberto Ginastera.

Nos primeiros anos dos 1980, mudou-se para Nova York e passou a dar aulas na Manhattan School of Music. Além de ótimo virtuose, Barbosa-Lima era considerado ótimo arranjjador, adaptando temas para o seu instrumento. Tocando com o violonista/guitarrista Charlie Byrd, grande divulgador, com Stan Getz, da bossa nova, conheceu Carl Jefferson, dono da gravadora Concord. Foi dessa época que voltei a ouvir falar dele ao me deparar com um disco chamado Impressions em que faziam parte do programa Fauré, Satie, Ravel, Enrique Ubieta, Robert Scott, Villa-Lobos e Laurindo de Almeida. Na foto da capa, era o mesmo “careta” que havia visto no Masp mais de dez anos antes, com menos fios de cabelo na parte superior do crânio, vestindo costume de cor escura e gravata, empunhando seu violão Thomas Humphrey.

O fato de ser contratado de uma gravadora mais voltada ao jazz, a Concord, e, talvez por gosto, resolveu explorar seus dotes de ótimo arranjador em obras externas ao mundo erudito. Lançou, em 1982, CBL Plays the Music of A.C. Jobim e George Gershwin. Ainda pela Concord, em 1991, soltou Music for Americas incluindo composições de Irving Berlin, Dave Brubeck Bobby Scott e Ary Barroso. Detalhe: gravou mais do que isso, e as referências são apenas sobre os álbuns que estão na minha discoteca.

Novo corte. Não ouço mais falar dele. Então encontro um CD de Barbosa-Lima com o título Frenesi. É de 2004. Algo tinha mudado. O nome desse clássico de Alberto Dominguez é bem claro nesse sentido. Os arranjos ainda são sóbrios. O repertório é latino americano, incluindo um belo Chega de Saudade, e uma exceção: Don’t Cry for Me Argentina. Apesar da citação a esse país, é composição do inglês Andrew Lloyd Webber.

Desbunde em mais de um sentido é Siboney, lançado em 2004 pelo selo Zoho. A capa revela um outro Barbosa-Lima. Trajando uma camisa estampada, com um chapeu panamá, é o “retrato” desse belo álbum. é pra cima, caliente. O repertório é de primeira. Até os que não morrem de amores pela música latina mais próxima do Caribe vão reconhecer a qualidade dos arranjos. Estão incluídas, além de Siboney (leia http://bit.ly/1187Wg5), do cubano Ernesto Lecuona, Drume Negrita, La Comparsa, Ojos Brujos, Guantanamera, Lamento Borincano, do portorriquenho Rafael Hernández Marín, e Perfidia. Os temas brasileiros são os clássicos Tico Tico, Bahia e Aquarela do Brasil. Um esclarecimento final: quando alguma era muito boa, dizia-se “tal coisa é um desbunde”, ou “é desbundante”. E assim é o álbum Siboney, de Carlos Barbosa-Lima.

Deste álbum, ouça Siboney.





Tocando Odeon.




Barbosa-Lima interpreta Villa-Lobos.




Seis Milongas, de Ernesto Cordero.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Adoro histórias de amor

Higgins, um craque no piano trio
Em O Paradoxo do Amor – Ensaio sobre as metamorfoses da experiência amorosa (Difel, 2011), Pascal Bruckner escreve:

“Apaixonar-se é dar relevo às coisas, encarnar-se de novo na densidade do mundo e descobri-lo mais rico, mais consistente do que suspeitávamos. O amor nos resgata do pecado de existir: quando fracassa, ele nos oprime com a gratuidade desta vida. Sozinho eu me sinto ao mesmo tempo vazio e saturado: se sou apenas eu, eu sou demais. No momento abominável do rompimento, esse eu que desejara botar entre parênteses volta para mim como bumerangue, como um monte de preocupações inúteis. Eis-me outra vez carregando um peso morto: levantar-me, lavar-me, alimentar-me, suportar a insanidade de meu monólogo interior, matar as horas, errar como uma alma penada. Esse vazio é um transbordamento. […] O segredo desse eu, porém, é que ele é inteiramente forjado pelo outro, pelo estado de exaltação em que ele nos põe: prazer inaudito de ser amado, ou seja, salvo enquanto vivo. O amor tem um poder germinativo, faz eclodir algo que não existia senão em estado latente; ele nos libera do ego obsessivo e pobre que constitui nosso fundo pessoal. Ele nos devolve um outro aplacado, feliz, que nos torna fortes, capazes de grandes ações.” (pág. 82)

Carlos Amarán, autor de Historia de Un Amor, canta o abandono e a importância do ser amado, da falta que ele faz, o amado como a “luz da vida” e o “escuro” quando ele se vai, e o fatalismo do “sofrer”: “Por que Deus me fez te querer/ Para me fazer sofrer mais…/ Sempre foste a razão do meu existir/ […] É uma história de amor/ Como nenhuma igual/ Que me fez compreender/ Todo o bem todo o mal/ Que deu luz à minha vida? apagando-se depois/ Ai!, que vida tão escura/ Coração/ Sem teu amor não viverei!”

Dorival Caymmi, em Samba da Minha Terra, canta que “quem não gosta de samba bom sujeito não é/ é ruim da cabeça ou doente do pé.” Acho que o mesmo se aplica ao bolero: “quem não gosta de bolero é doente do pé”. O samba-canção é uma “conformação” do samba com o bolero. Basta ouvir Risque, de Ary Barroso.

O bolero foi o grande gênero latino-americano do século passado. E não poderia deixar de ser muito diferente no Brasil. O “dois pra lá dois pra cá” foi o prelúdio de muitos namoros e casamentos. Em tempos de mais recato, dois corpos se juntavam e se tocavam ao som de Besame Mucho ou Solamente Una Vez. Nesses momentos, uma perna furtiva se encaixava entre as pernas da parceira. Bom, devia ser muito bom e muito mais sensual, naquele clima de romance em que o sexo ficava sublimado.

O gênero bolero vendeu muito e serviu até como designação de vestimenta feminina, o bolerinho, aquela peça curta que cobre os ombros das moçoilas, senhoras mais recatadas e outras nem tanto. O bolero foi a festa da gravadora EMI, dona do melhor plantel de cantores e cantoras. O mundo mudou e arroubos de romantismo passaram a ser considerados bregas. Mas o amor existe e chega sem avisar. É um gênero do passado, mas é sempre revisitado. É o que bons músicos de jazz fazem. Músicos como o catalão Tete Montoliu (Tete Montoliú interpreta Boleros, Melopea Discos), os americanos Eddie Higgins (Amor, Venus Records) e Steve Kuhn (Quiereme Mucho, Venus Records), e o italiano Renato Sellani (Latin Album, Philology) gravaram seus discos elegendo o bolero como gênero. E, não sei por que, Historia de Un Amor tem tocado no meu aparelho de mp3. Está certo que bolero não combina muito com essa coisa chamada iPod.

Vamos ouvir esse clássico cantado por Eydie Gormé com o Trio Los Panchos.



Vamos ouvir também nas interpretações de Eddie Higgins e depois a de Renato Sellani.

A de Higgins.



A de Sellani.


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