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| Barbosa-Lima na capa de Siboney |
Antigamente, aquele que não consumia drogas era um careta. Para se caracterizar que não estava sob efeito de alguma droga, se falava “estou careta”. Era o preconceito ao contrário. Mas “careta”, no sentido mais genérico, serve para se referir a uma pessoa mais conservadora, mais para o certinho.
O violonista brasileiro Carlos Barbosa-Lima era um careta, pelo menos quando o vi pela primeira vez em uma sala inóspita e acusticamente horrível. Lina Bo Bardi, autora do belíssimo projeto do Masp e de seu mobiliário, não privilegiava muito o conforto ergonômico. O jornalista Telmo Martino, do extinto Jornal da Tarde, do grupo do Estadão, adorava exercitar seus dotes viperinos para falar mal dos bancos (isso mesmo) de madeira maciça do teatro do Masp dizendo que tinham sido feitos pela Marcenaria Garrote Vil, ou qualquer coisa do tipo. Explicação: falava-se muito do garrote vil, instrumento de tortura da época da inquisição, por conta do longa ditadura do período Franco, na Espanha. Lina tinha cabelos longos e uma franja enorme para o lado esquerdo. Telmo dizia que a arquiteta era “a última fã de Veronica Lake”.
A apresentação a que assisti aconteceu no início dos anos 1970. Era um adolescente ainda e um curioso por quaisquer manifestações musicais, roqueiras, eruditas ou populares. Lembro que era uma noite fria e, recuperando-me de um resfriado, tossia como um condenado. Acho que fiquei mais preocupado em não quebrar aquele silêncio respeitoso de uma sala de concertos a fruir o violão daquele rapaz considerado, naquele tempo, o melhor violonista clássico do Brasil. Depois disso, por muito tempo não ouvi mais falar dele.
Carlos Barbosa-Lima nasceu em dezembro de 1944 e revelou-se prodígio no violão. Com 12 anos de idade, apresentou-se pela primeira vez em uma sala de concertos, em São Paulo. Menino ainda, foi apresentado ao violonista Luiz Bonfá e este aconselhou a família a estudar violão clássico.
Com 13 anos gravou Dez Dedos Mágicos Num Violão de Ouro pela extinta gravadora Chantecler. Passou a se apresentar em várias salas do Brasil e da América Latina e fez seu debut em Washington quando tinha 23 anos. Teve a oportunidade de tocar para Andrés Segovia, apresentou-se na Europa também e teve a honra de ter obras compostas especialmente para ele por Alberto Ginastera.
Nos primeiros anos dos 1980, mudou-se para Nova York e passou a dar aulas na Manhattan School of Music. Além de ótimo virtuose, Barbosa-Lima era considerado ótimo arranjjador, adaptando temas para o seu instrumento. Tocando com o violonista/guitarrista Charlie Byrd, grande divulgador, com Stan Getz, da bossa nova, conheceu Carl Jefferson, dono da gravadora Concord. Foi dessa época que voltei a ouvir falar dele ao me deparar com um disco chamado Impressions em que faziam parte do programa Fauré, Satie, Ravel, Enrique Ubieta, Robert Scott, Villa-Lobos e Laurindo de Almeida. Na foto da capa, era o mesmo “careta” que havia visto no Masp mais de dez anos antes, com menos fios de cabelo na parte superior do crânio, vestindo costume de cor escura e gravata, empunhando seu violão Thomas Humphrey.
O fato de ser contratado de uma gravadora mais voltada ao jazz, a Concord, e, talvez por gosto, resolveu explorar seus dotes de ótimo arranjador em obras externas ao mundo erudito. Lançou, em 1982, CBL Plays the Music of A.C. Jobim e George Gershwin. Ainda pela Concord, em 1991, soltou Music for Americas incluindo composições de Irving Berlin, Dave Brubeck Bobby Scott e Ary Barroso. Detalhe: gravou mais do que isso, e as referências são apenas sobre os álbuns que estão na minha discoteca.
Novo corte. Não ouço mais falar dele. Então encontro um CD de Barbosa-Lima com o título Frenesi. É de 2004. Algo tinha mudado. O nome desse clássico de Alberto Dominguez é bem claro nesse sentido. Os arranjos ainda são sóbrios. O repertório é latino americano, incluindo um belo Chega de Saudade, e uma exceção: Don’t Cry for Me Argentina. Apesar da citação a esse país, é composição do inglês Andrew Lloyd Webber.
Desbunde em mais de um sentido é Siboney, lançado em 2004 pelo selo Zoho. A capa revela um outro Barbosa-Lima. Trajando uma camisa estampada, com um chapeu panamá, é o “retrato” desse belo álbum. é pra cima, caliente. O repertório é de primeira. Até os que não morrem de amores pela música latina mais próxima do Caribe vão reconhecer a qualidade dos arranjos. Estão incluídas, além de Siboney (leia http://bit.ly/1187Wg5), do cubano Ernesto Lecuona, Drume Negrita, La Comparsa, Ojos Brujos, Guantanamera, Lamento Borincano, do portorriquenho Rafael Hernández Marín, e Perfidia. Os temas brasileiros são os clássicos Tico Tico, Bahia e Aquarela do Brasil. Um esclarecimento final: quando alguma era muito boa, dizia-se “tal coisa é um desbunde”, ou “é desbundante”. E assim é o álbum Siboney, de Carlos Barbosa-Lima.
Deste álbum, ouça Siboney.
Tocando Odeon.
Barbosa-Lima interpreta Villa-Lobos.
Seis Milongas, de Ernesto Cordero.

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