sexta-feira, 29 de julho de 2011

Metric. O mundo não são só Beethoven e jazz

Haynes em ação
Essa é para fechar bem o fim de semana.

Uma das bandas mais interessantes que têm surgido nos últimos anos é o Metric. Isso já falei? Nem sei por que não falei. A alma dessa banda é Emily Haines. E como,muitas vezes, a música está nos genes, é filha de Paul Haines, coautor do disco Escalator Over Hills, com Carla Bley (dela, leia em http://bit.ly/ncr7Y7).

Lançaram quantidade pequena de discos – Old World Underground, Where Are You Now? (2003), Live It Out (2006), Grow Up and Blow Away (2007), Fantasies (2009) –, e alguns EPs. Diminuta nessa era em que muito se grava. A vantagem é a qualidade: são pops, rockers, indies, não muito importa, fazem música que invade cérebros por serem agradáveis, antes de mais nada, mas nem por isso, fáceis ou vulgares. Não são revolucionários naquele sentido estrito, no entanto, desde o primeiro momento, percebemos sofisticação e bom gosto. O que devemos pedir mais se nos causa tanto prazer.

Para quem não conhece o som, vai a dica. Veja Metric no programa de David Letterman cantando Help I’m Alive.



Gimme SImpathy.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O dramaticamente belo retrato em branco e preto de Enrico Rava

Enrico Rava é um velho fornecedor de pérolas para a gravadora ECM, de Manfred Eicher (leia: http://bit.ly/pcM9QE). É uma parceria que, de tão antiga, possivelmente, ultrapassa a idade de algum incauto leitor desse blogue. No fim dos anos 1970, num momento de pura insanidade, uma gravadora brasileira lançou um pacote de LPs da ECM. Parte do povo que conhecia o Köln Concert, de Keith Jarrett, e sabia da existência dessa gravadora alegrou-se por esse auspicioso acontecimento.

Além de Jarrett, o cast era de tirar o chapéu. Tivemos a chance de conhecer um jovem que nem tinha completado 18 anos quando gravou seu primeiro disco (Pat Metheny), e também a sorte de saber que existia vida musical de grande qualidade nos países nórdicos. Conhecê-los ampliava o espectro do que tínhamos como sendo jazz.

Aqueles que estavam perto de vinte anos viram nesses lançamentos uma alternativa ao jazz mainstream e ao que era chamado de jazz fusion ou jazz-rock. A ECM representava uma preferência interessante por abrir espaços como o de Jarrett poder realizar um disco solo de improviso, coisa que, provavelmente não se viabilizaria nos EUA. Chick Corea tinha abraçado a eletrificação, mas lhe foi dada a oportunidade de realizar dois discos solo (Piano Improvisations vol. 1 e vol.2), ou entrar no terreno da experimentação, gravando com Anthony Braxton.

Mais que isso, permitiu-nos o contato com músicas europeus de quem pouco conhecíamos, como Jan Garbarek, Eberhard Weber, Barre Philips e Terje Rypdal. Enrico Rava é parte desses anos iniciais da ECM.

Rava, que teve seu primeiro disco pela ECM em 1975 – The Pilgrim and the Stars. Antes desse, lançara, como solista, um disco pela italiana Black Saint – Il Giro del Giorno in 80 Mondi – em 1972. Percebem-se influências de Miles Davis – sua primeira inspiração – e do sopro quase sem vibrato de Chet Baker, mas isso são apenas influências. Rava não é o mais rápido do oeste porque, no cerne de seu som, importa a intensidade melódica de seu trumpete, e nisso é soberano.

Em Pilgrim, Rava tocou com o guitarrista John Abercrombie, o baixista Palle Danielsson e Jon Christensen. Essa formação realçou o que era designado como “som ECM”. Com os mesmos músicos, lançou The Plot, em 1977. No ano seguinte, lançou Enrico Rava Quartet, com a participação do trobonista Roswell Rudd. O álbum a seguir foi “Ah”, gravado com o pianista Franco D’Andrea, o baixista Giovanni Tommaso, e com o “estrangeiro” Bruce Ditmas na bateria. É um dos pontos altos de sua primeira fase ECM. A maioria dos temas compostos por Rava é tocado de forma vigorosa e fogem um pouco da tendência ECM; e contrariando brevemente o que disse de seu estilo, mais para o melódico, se esmera em ágeis solos em linhas ascendentes e descendentes serpenteantes. Em 1981 gravou ainda Opening Night.

Antes e depois: bigode e cabelo iguais 
O “rittorno” de Rava à ECM acontece em 2004 com o CD Easy Living. Nessa última fase, seu parceiro mais constante tem sido o pianista Stefano Bollani. O destaque desse álbum são as belas combinações do som do trumpete com o do trambone de Gianluca Petrella. Tati (2004) é um disco com temas melancólicos em que é acompanhado apenas por Bollani e Paul Motian, o rei da bateria minimalista. Com a mesma formação de Easy Living, com Andrea Pozza substituindo Bollani, gravou The Words and the Days (2005). Lançou a seguir, em 2006, The Third Man, belíssimo duo com Bollani; dois anos depois, foi a vez de New York Days, com participação do saxofonista tenor Mark Turner.

Apesar da referência aos discos da segunda fase ECM de Rava, o motivo principal é uma música específica do duo que fez com Bollani. Um tanto em razão de natural identificação, o destaque aqui é Retrato em Branco e Preto, de Chico Buarque e Antonio Carlos Jobim. Nem vou cair na besteira de dizer qual é a de que mais gosto para não arrumar encrenca. Tampouco direi que a minha preferida é a de João Gilberto, e menos ainda a de Elis Regina e Jobim do clássico Elis & Tom. É, no entanto, nesse disco que está o que considero a mais perfeita síntese dessa música: o último acorde ao piano de Tom. Ouça:



No CD com Bollani constam duas interpretações. É a segunda que você vai ouvir. O piano é climático e dramático, e o trumpete de Rava mais ainda. Toda a dor de sublimes versos como E o que é que eu posso contra o encanto,/ Desse amor que eu nego tanto/ Evito tanto e que, no entanto,/ Volta sempre a enfeitiçar/ Com seus mesmos tristes, velhos fatos,/ Que num álbum de retratos/ Eu teimo em colecionar. estão desenhadas nas notas de Enrico Rava.

João canta Retrato em Branco e Preto.



Leia também “A beleza dramática do piano de Mal Waldron” em http://bit.ly/nE5dGg

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O feliz encontro de Charlie Haden com Sergei Rachmaninov

O baixista Charlie Haden passou a ser conhecido como integrante da banda de Ornette Coleman. Ótimo início. Nascido em uma família musical, desde cedo acostumou-se aos palcos, afinal, estreou com dois anos de idade. Os familiares se apresentavam em programas de rádio cantando músicas dos gêneros folk e country. Devido a um problema de saúde, aos quinze anos, que afetou suas cordas vocais, foi obrigado a parar de cantar (apesar da voz frágil, ousou cantar quase cinquenta anos depois em The Art of the Song (Verve, 1999). Aprendeu a tocar no contrabaixo do irmão mais velho e o resto é história.

Em 1957, mudou-se para Los Angeles e passou a tocar com o pianista Hampton Hawes. Entrar na banda de Ornette Coleman foi um pulo. Desde então, faz parte do primeiro time dos instrumentistas do jazz. Cansou de ganhar prêmios como melhor baixista dos anos 1960 em diante.

Suas qualidades não se resumem ao instrumento que toca. É, antes de mais nada, um artista que ousou e explorou possibilidades no campo da música. Participou de outra lendária formação com o pianista Keith Jarrett, com o baterista Paul Motian e o saxofonista Dewey Redman nos anos 1970 e 80. Paralelamente participou de um projeto musical “revolucionário” (as aspas são propositais) com a compositora e pianista Carla Bley. Criaram a Liberation Music Orchestra e produziram música com viés político elegendo temas como a Guerra Civil Espanhola, o colonialismo e o apartheid sul-africano. Esse engajamento resultou até em uma deportação quando se apresentou no Festival de Estoril, em Portugal, durante a vigência do governo salazarista. À parte da questão da eficácia ou não de se usar a arte como instrumento político, sob esse propósito produziu grandes discos, principalmente com a LMO. O álbum The Ballad of the Fallen (ECM, 1982), é um clássico e uma coleção de músicas lindíssimas.

Como líder, um dos projetos de maior sucesso – ou mais acessível – é o do Quartet West, Com o pianista e arranjador Alan Broadbent, Ernie Watts e Laurence Marable, gravaram uma série de álbuns em que revisitam o repertório antigo do cancioneiro americano. Uma das pedras de toque é a utilização de gravações antigas, como interpretações de Helen Forrest e Billie Holiday e, sobre elas, fazem releituras. Uma bela atmosfera sonora, que nos traz à memória aqueles filmes noir dos anos 1930 e 40, “veste” canções em belos arranjos para o quarteto, e muitas, com orquestra.

A capa diz bem: é um disco de Charlie Haden
Destaco aqui, entretanto, uma exceção: uma brilhante interpretação do terceiro Moments Musicaux, op. 16, de Rachmaninov. É uma mostra do virtuosismo de Haden no contrabaixo e também a de que é um músico que transita bem em qualquer gênero. Explico; disse que o repertório dos álbuns do Quartet West é de música americana. Art of the Song, apesar de constar como do Quartet West, é um disco com algumas participações especiais. Uma, mais que especial é de Shirley Horn, e a outra é de Bill Henderson. Como disse no primeiro parágrafo, ouvimos a voz (afinada, porém “frágil”) de Haden, em Wayfaring Stranger. Vendo pelo mais recente CD do Quartet, Sophisticated Ladies, nota-se que há uma sensível mudança de rota: nos dois, participações especiais de cantores. Até nas capas é perceptível: em Art of the Song, uma foto de Charlie Haden em preto e branco – e não do Quarteto, se considerarmos que não é um disco solo do baixista –, e no último um desenho de uma “sophisticated lady”.

Tendo sua foto estampada na capa, Haden fez um disco que até foge um pouco do espírito dos anteriores gravados pelo Quartet West. Até por isso, torna-se explicável a peça de Rachmaninov.



Ouça o original, interpretado por Nikolai Lugansky.