segunda-feira, 25 de julho de 2011

O feliz encontro de Charlie Haden com Sergei Rachmaninov

O baixista Charlie Haden passou a ser conhecido como integrante da banda de Ornette Coleman. Ótimo início. Nascido em uma família musical, desde cedo acostumou-se aos palcos, afinal, estreou com dois anos de idade. Os familiares se apresentavam em programas de rádio cantando músicas dos gêneros folk e country. Devido a um problema de saúde, aos quinze anos, que afetou suas cordas vocais, foi obrigado a parar de cantar (apesar da voz frágil, ousou cantar quase cinquenta anos depois em The Art of the Song (Verve, 1999). Aprendeu a tocar no contrabaixo do irmão mais velho e o resto é história.

Em 1957, mudou-se para Los Angeles e passou a tocar com o pianista Hampton Hawes. Entrar na banda de Ornette Coleman foi um pulo. Desde então, faz parte do primeiro time dos instrumentistas do jazz. Cansou de ganhar prêmios como melhor baixista dos anos 1960 em diante.

Suas qualidades não se resumem ao instrumento que toca. É, antes de mais nada, um artista que ousou e explorou possibilidades no campo da música. Participou de outra lendária formação com o pianista Keith Jarrett, com o baterista Paul Motian e o saxofonista Dewey Redman nos anos 1970 e 80. Paralelamente participou de um projeto musical “revolucionário” (as aspas são propositais) com a compositora e pianista Carla Bley. Criaram a Liberation Music Orchestra e produziram música com viés político elegendo temas como a Guerra Civil Espanhola, o colonialismo e o apartheid sul-africano. Esse engajamento resultou até em uma deportação quando se apresentou no Festival de Estoril, em Portugal, durante a vigência do governo salazarista. À parte da questão da eficácia ou não de se usar a arte como instrumento político, sob esse propósito produziu grandes discos, principalmente com a LMO. O álbum The Ballad of the Fallen (ECM, 1982), é um clássico e uma coleção de músicas lindíssimas.

Como líder, um dos projetos de maior sucesso – ou mais acessível – é o do Quartet West, Com o pianista e arranjador Alan Broadbent, Ernie Watts e Laurence Marable, gravaram uma série de álbuns em que revisitam o repertório antigo do cancioneiro americano. Uma das pedras de toque é a utilização de gravações antigas, como interpretações de Helen Forrest e Billie Holiday e, sobre elas, fazem releituras. Uma bela atmosfera sonora, que nos traz à memória aqueles filmes noir dos anos 1930 e 40, “veste” canções em belos arranjos para o quarteto, e muitas, com orquestra.

A capa diz bem: é um disco de Charlie Haden
Destaco aqui, entretanto, uma exceção: uma brilhante interpretação do terceiro Moments Musicaux, op. 16, de Rachmaninov. É uma mostra do virtuosismo de Haden no contrabaixo e também a de que é um músico que transita bem em qualquer gênero. Explico; disse que o repertório dos álbuns do Quartet West é de música americana. Art of the Song, apesar de constar como do Quartet West, é um disco com algumas participações especiais. Uma, mais que especial é de Shirley Horn, e a outra é de Bill Henderson. Como disse no primeiro parágrafo, ouvimos a voz (afinada, porém “frágil”) de Haden, em Wayfaring Stranger. Vendo pelo mais recente CD do Quartet, Sophisticated Ladies, nota-se que há uma sensível mudança de rota: nos dois, participações especiais de cantores. Até nas capas é perceptível: em Art of the Song, uma foto de Charlie Haden em preto e branco – e não do Quarteto, se considerarmos que não é um disco solo do baixista –, e no último um desenho de uma “sophisticated lady”.

Tendo sua foto estampada na capa, Haden fez um disco que até foge um pouco do espírito dos anteriores gravados pelo Quartet West. Até por isso, torna-se explicável a peça de Rachmaninov.



Ouça o original, interpretado por Nikolai Lugansky.

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