quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A morte do mensageiro de Deus

No dia 4 de setembro, Phil Woods anunciou sua aposentadoria num show em Pittisburgh na qual, junto com a orquestra local, tocou temas do álbum Charlie Parker with Strings. Phil apresentou-se com um tubo de oxigênio ao lado. Brincou dizendo que era seu “amplificador”. Há muito tempo, os milhões de cigarros que consumiu afetaram-lhe os pulmões. A parte impressionante é que continuava a tocar apesar do enfisema pulmonar. Poucas semanas depois, mais exatamente em 29 de setembro, morreu.

Woods afirmava que, se “Charlie Parker era Deus, nesse caso, eu sou o o seu mensageiro.” Não era apenas uma frase de efeito. Era o que achavam os críticos: um legítimo herdeiro do legado de Bird. Um outro dado reforçou essa ligação: depois da morte do genial saxofonista alto, Phil casou-se com Chan Richardson, sua viúva, além de tocar o mesmo instrumento. Mantiveram o casamento por muito tempo.

Sua importância, descontando-se Parker, como altoísta é comparável a de outros dois grandes do instrumento: Cannonball Adderley e Art Pepper. Dois outros são considerados importantes, mas não tanto quanto estes: Johnny Hodges, eterno membro da banda de Duke Ellington, e Paul Desmond, conhecido até pelo gajo da esquina, por Take Five, em seus tempos do quarteto de Dave Brubeck.

Surpreende que Phil tenha morrido, fumando tanto, com 83 anos e, tocando. O enfisema o perseguia há muito tempo. Não lembro há quanto tempo foi que, comentário de quem o assistiu em São Paulo, de seus curtíssimos solos devido a falta de fôlego. Mesmo assim, como se diz por aí, continuava a mandar bem. Conseguia fazer bom uso do pouco ar que lhe sobrava nos pulmões, o que era uma façanha.

Tendo gravado álbuns de sucesso nos anos 1950 e 1960, Woods mudou-se para a França. Saiu um pouco dos holofotes por isso. Montou uma banda meio estranha chamada Phil Woods and His European Rhythm Machine, incorporando instrumentos eletrônicos como o piano elétrico e ritmos africanos. Mas a banda era boa e música também, apesar de não fazer o gosto de todo mundo. O pianista elétrico era Gordon Beck e os franceses da banda eram do primeiro time, como Henri Texier e Daniel Humair.

Ao voltar para o seu país natal, gravou vários álbuns para a Concord Jazz e a Antilles com o quarteto formado por Hal Galper, Bill Goodwin e Steve Gilmore. Outros como Tom Harrell, Jim McNeely e Bill Charlap participaram de outras formações. Um bom disco dessa época é Birds of a Feather (Antilles, 1982).

Um bom ponto de contato com a música brasileira é o álbum Astor & Elis (Chesky), de 1996, que conta com o pianista Bill Charlap e Duduka da Fonseca na bateria.

Ouça o bolero Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, de João Bosco e Aldir Blanc, com Phil Woods.






Veja uma apresentação de Woods de 2005 com orquestra, no Festival de Marciac.




Phil e Michel Legrand, em Watch What Happens.




Veja os dois novamente na bela What Are You Doing the Rest of Your Life?, composição do francês. Ah, ele canta; o Michel.




As amostras aqui apresentadas são deste século. Phil já tinha sido diagnosticado com enfisema pulmonar. Não importava tanto o fôlego, porque ele sempre manteve a limpidez no som e a sutileza que sempre foram suas marcas no saxofone alto.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Os estrelados da Downbeat de janeiro a março

Por um probleminha, a lista sumiu e saiu um post em branco. Percebi depois. Esta é a lista de janeiro a março. Proximamente, listo de abril até junho. Aconteceram vários acessos e não tinha nenhum texto. Assino a Downbeat há mais de 30 anos. É a minha preferida, mesmo com tantas outras publicações especializadas em jazz disponíveis. É uma forma de estar em dia com os lançamentos. A lista é apenas dos álbuns que receberam 4 ou mais estrelas, sendo 5 a máxima classificação.

5 estrelas
Keith Jarrett/Charlie Haden/Paul Motian - Hamburg ’72 (ECM)
Vijay Iyer Trio - Break Stuff (ECM)

4 1/2 estrelas
Aki Takase/Alexander von Schlippenbach - So Long Eric: Homage to Eric Dolphy (Intakt)
Annie Lennox - Nostalgia (Blue Note) http://bit.ly/1Q9cGx8
Ben Goldberg - Orphic Machine (Bag Production)
Chris Greene Quartet - Music Appreciation (Single Malt)
Friends & Neighbors - Hymn for a Hungry Nation (Clean Feed)
Kenny Wheeler - Songs for Quintet (ECM) http://bit.ly/1NoHlIY
Marcus Roberts and The Modern Jazz Generation - Romance, Swing and the Blues (J. Master)
Michael Blake - Tiddy Room (Sunnyside)
Peter Madsen’s CIA Trio - Elvis Never Left the Building (Playscape)
Rob Mazurek and Black Cube SP - Return the Tides: Ascension Suite and Holy Ghost (Cuneiform)
Sam Newsome - The Straight Horn of Africa: A Path to Liberation (self produced)
The Mike Longo Trio - Celebrates Oscar Peterson Live (Consolidated Artists)
Wadada Leo Smith - The Great Lakes Suite (Tum)

4 estrelas
Branford Marsalis - In My Solitude: Live at the Grace Cathedral (Marsalis Music)
Brian Lynch/Emmet Cohen - Questioned Answer (Holistic Musicworks)
Carmen Lundy - Soul to Soul (Afrasia)
Chad Eby Quartet - The Sweet Shel Suite (Music Lab)
Chris Walden Big Band - Full-on! (Origin)
Clarence Penn & Pen Station - Monk: The Lost Files (Origin)
Collina/Cervetto/Pellon/Bosso - Michel on Air (ITI)
Conrad Herwig - The Latin Side of Joe Henderson (Half Note)
Dan Zinn - Shangri La (Z Music)
Dana Stephens - Peace (Sunnyside)  http://bit.ly/1yxWuBy, http://bit.ly/1Q9d1jh
Darrell Katz - Why Do You Ride? (Leo)
Enrico Pieranunzi - Stories (CamJazz)
Evan Parker/Sylvie Courvoisier - Either or And (Relative Pitch)
Fred Frith - The Natural Order (Northern Spy)
Gary Dial/Dick Oatts - That Music Always Round Me (BCM-D)
Ivo Perelman/Karl Berger - Reverie (Leo Records)
Jan Harbeck Quartet - Variations in Blue (Stunt)
Jason Marsalis Vibes Quartet - The 21st Century Trad Band (Basin Street)
Jean-Michel Pilc - What Is This Thing Called Love (Sunnyside)
Kenny Barron/Dave Holland - The Art of Conversation (Impulse!)  http://bit.ly/1VFbLev
Mark Elf - Returns 2014 (Jen Bay)
Michael O’Neill/Kenny Washington - New Beginnings (Jazzmo)
Michel Reis Quartet - Capturing This Moment (Double Moon)
Nels Cline/Julian Lage - Room (Mack Avenue)
New Orleans Brass Bands - Through the Streets of the City (Smithsonian Folkways)
Paul Jones - Short History (Blujazz)
Peal Nilssen-Love Large Unit - Erta Ale (PNL)
Ron Miles - Circuit Rider (Enja)
Roseanna Vitro - Clarity: Music of Clare Fischer (Random Act)
Russ Johnson - Still Out to Lunch (Enja)
Spockfrevo Orquestra - Ninho de Vespas (Motéma)
Wooley/Rempis/Niggenkemper/Corsano - From Wolves to Whales (Aerophonic)
Yony Allen - Film of Life (Jazz Village)




Recomendações
Dos que ouvi – não são muitos –, recomendo:
Keith Jarrett/Charlie Haden/Paul Motian - Hamburg ’72
Vijay Iyer Trio - Break Stuff  
Aki Takase/Alexander von Schlippenbach - So Long Eric: Homage to Eric DolphyAnnie Lennox - Nostalgia
Kenny Wheeler - Songs for Quintet 
Wadada Leo Smith - The Great Lakes Suite
Branford Marsalis - In My Solitude: Live at the Grace Cathedral
Dana Stephens - Peace
Enrico Pieranunzi - Stories
Kenny Barron/Dave Holland - The Art of Conversation
Nels Cline/Julian Lage - Room 
Russ Johnson - Still Out to Lunch 
Spockfrevo Orquestra - Ninho de Vespas (Motéma)


Ouça Everything that Lives Laments, com Keith Jarrett, Charlie Haden e Paul Motian.



Ouça Peace, com Dayna Stephens.




Ouça Annie Lennox cantando Summertime.




Ouça Nonethless, com Kenny Wheeler.


 

Meu coração espanhol

Hoje mesmo, estava a ouvir uma cantora chamada Eva Fernández, espanhola. Ou melhor, catalã. Além de cantar, toca sax alto. Interessante. Ontem ouvi um álbum ótimo – vou ter de fazer um post separado dele – chamado Gasteiz, com o saxofonista Gorka Benítez, o baterista David Xingu, e o guitarrista americano Ben Monder. Faz tempo que não ouço um disco que tenha me impressionado tanto quanto este.

Sempre se fez grande música na Espanha, e com alguma influência moura, que trouxe uma marca única. Desde compositores como Manuel De Falla, Joaquín Rodrigo, Isaac Abéniz e grandes violonistas como Alberto Tárrega (este, compositor de talento também), Narciso Yepes e pianistas como Alicia de Larrocha. Sua influência é marcante na música dos impressionistas Claude Debussy e Maurice Ravel.

O que mais se conhece da Espanha é o flamenco, difundido por filmes de Carlos Saura, que serviram para que Paco de Lucia se tornasse mundialmente conhecido. Mas a presença do jazz sempre foi forte na Península, como sede de bons selos especializados no gênero, bons festivais e bons músicos como Tete Montoliu, Javier Colina, Chano Domínguez, Joan Chamorro e Gerardo Nuñez.

Por outra lado, a música espanhola influenciou o jazz. O exemplo exemplar é o de Gil Evans e seus discos com Miles Davis, inspirados pela música de Rodrigo. Al DiMeola e Chick Corea também incorporaram a batida e elementos melódicos. Em Light as a Feather encontra-se uma das evidências. O Concerto de Aranjuez serve de tema para a entrada de uma das maiores composições de Corea: Spain.

Depois de The Leprechaum, que já incorporava essas influências, lançou o álbum que escancarava seu amor por sua música: My Spanish Heart. O americano estava em sua fase “fantasia”. No anterior, na capa ilustrada, seu dedo indicador toca a de uma fada. Neste, veste-se com roupas de toureiro; no seguinte, Mad Hatter, fantasia-se de personagem de Alice, de Lewis Carroll.

A crítica e o público estavam adorando Chick; menos eu. Não tinha gostado muito de The Leprechaum. Sentia-me saudoso do som do Return to Forever. Para aumentar meus temores, em Love Castle, de My Spanish Heart, Crystal Gayle fazia uma vocalização sobre um arranjo com trompetes. Elegi The Hilltop, belíssimo duo de Chick com Stanley Clarke, e pouco ouvi este álbum desde então.

Por acaso My Spanish Heart estava no iPod que fica plugado no meu som Altec Lansing que fica na cabeceira da minha cama. Ao ouví-lo agora, mudei um pouco de juízo sobre ele. Continuo a não gostar daquelas faixas cheias de palmas (handclaps) e as com vocalizações de Mrs. Moran. A única exceção, talvez, que faço com as com palmas é com Armando’s Rhumba, feita em homenagem ao seu pai.

Acho ainda The Hilltop a melhor. Algumas, que puxam pelo lado mais melódico, como The Gardens e a música título, são os destaques. A suíte El Bozo, lembra um pouco Return to Forever, e a suíte final, Spanish Fantasy, tem bons momentos.

Ouça The Hilltop.



Ouça Armando’s Rhumba.



Ouça The Gardens.



Ouça o álbum na íntegra.