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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Ryuichi Sakamoto e as cerejeiras em flor

O sonho secreto de Trudi era conhecer o Monte Fuji
Os cinéfilos, provavelmente, devem lembrar-se do filme Homens, de 1985, de Doris Dörrie na direção. Depois de muito tempo longe do circuito nacional, chegou-nos Hanami - Cerejeiras em Flor. A estrutura de Hanami é linear, para infelicidade dos que acham a descontinuidade e a desconstrução o máximo. É uma bela história de amor de uma casal da “melhor idade” – já inventaram tantos eufemismos para a palavra “velho” nesses tempos politicamente corretos! Esta é a mais recente, que sucede a “terceira idade” – Trudi (Hannelore Elsner) e Rudi (Elmar Wepper). Depois da morte da mulher, Trudi descobre que ela nutria uma paixão, que nunca revelara, pela cultura japonesa. Esse processo de descoberta é o parte da revelação para o marido daquela que passou tantos anos ao seu lado vivendo uma “vidinha” numa pequena cidade alemã e parecia tão circunscrita a tancanhêz desse pequeno universo. Primeiro, é levado pela namorada de sua filha a assistir uma apresentação de Tadashi Endo, um dos mestres do butoh, na capital alemã. Depois, mexendo nas coisas da mulher, descobre que ela conhecia o teatro butoh e colecionava imagens do Monte Fuji.

Rudi vai ao Japão – ele, que nem visitar os filhos em Berlin queria – e visitar o Monte como parte de “viver a vida” não vivida de Trudi.

Chama a atenção não só o enredo, em que o butoh não aparece por mero acaso – essa arte surgida depois da Segunda Grande Guerra é definida como a “dança da escuridão” –, pois Dörrie trata da morte, mas também as belas músicas que ouvimos nesse filme. Uma delas é Asadoya Yunta, e a outra é Chinsagu no Hana, canção folclórica da região de Okinawa, que fazem parte de um álbum de Ryuichi Sakamoto, lançado em 1990.

Sakamoto é bem conhecido dos brasileiros. Se o nome não soar tão familiar, uma lembrança: trabalhou como ator em Furyo – Em Nome da Honra (Furyio), de Nagisa Oshima. Compôs a trilha sonora de O Último Imperador e teve a música Bibo No Aozora incluída no filme Babel, de Alejandro Iñárritu. Quem viu Furyo deve se lembrar da música-tema Merry Christmas, Mr. Lawrence, A versão com letra, que se chama Forbidden Colours, é belíssima, na voz de David Sylvian. Vale a pena conhecer.

O som de Sakamoto é uma mescla de influências da música tradicional japonesa com a de outras culturas, inclusive a brasileira: gravou dois álbuns – Casa e A Day in New York – com Jacques Morelenbaum e a cantora Paula Morelenbaum. Desse universo conhecido como “world music”, Sakamoto se destaca pela modernidade e de como explora a instrumentação eletrônica – às vezes, um tanto indigesta ao explorar e mimetizar demais influências do hiphop, do rap e do eletropop –, mas sempre com resultados instigantes e originais. Na busca “world”, tem como parceiros músicos de todos os continentes.

Um disco, Beauty, que está entre os melhores que gravou, serve de amostra da versatilidade e talento em saber misturar as mais diferentes linguagens étnicas. É uma ousadia misturar instrumentos orientais com os ocidentais, percussão africana, indiana e japonesa e vocais em sua língua de origem com o inglês e até com o português. As citadas acima, Asadoya Yunta, Ao no Aozora e Chinsagu no Hana fazem juz ao título Beauty. São belíssimas, emocionantes e inesquecíveis. A parte “brasileira” cabe ao americano nascido em Pernambuco, Arto Lindsay na composição Rose: canta em inglês e perfeito “português pernambucano”. Em outra música, dentre as “excentricidades” ouvimos uma mistura de violino do indiano Shankar, as dissonâncias da guitarra de Lindsay, sons do grupo africano Farafina e vocais de Youssou N’Dour e em outra, participação brasileira do percussionista Naná Vasconcelos. Haja “world” para Sakamoto! No campo das interpretações idiossincráticas, registre-se a versão de We Love You, de Mick Jagger e Keith Richards, electropop percussiva com a participação mais que especial de um dos fundadores do Soft Machine, Robert Wyatt, nos vocais e backing de ninguém nada menos que o ex- Beach Boys Brian Wilson. No repertório das “belezas” desse álbum, não podemos deixar de citar Diabaram, com vocais “dilacerantes” do senegalês Youssou N’Dour (é, realmente o mundo está cada dia mais “worldy”: alguém imaginaria um japonês e um africano juntos?). É um dos grandes momentos dessa verdadeira alquimia chamada música que poucos sabem fazer.

Não deixem de ver o filme de Doris Dörrie e não deixem de ouvir Ryuichi Sakamoto. Pode começar com Forbidden Colours, cantada pelo grande David Sylvian.


Ouça Beauty, de Sakamoto.





quinta-feira, 29 de junho de 2017

O Brasil de Jun Miyake

Jun Miyake e seu flugelhorn
Quando da inauguração do centro cultural Japan House, em maio, um dos eventos foi a apresentação de Jun Miyake e de Ryuichi Sakamoto, no Auditório Ibirapuera. O segundo é bem conhecido dos brasileiros. Apresentou-se, inclusive, com Paula e Jaques Morelenbaum, seus parceiros do projeto Casa. Bem antes de enveredar-se pela exploração de nossa música, que iniciou-se, provavelmente, depois que fez parcerias com o americano Arto Lindsay, pernambucano de nascimento, muitos sabiam dele, não por sua Yellow Magic Orchestra, mas por sua participação em “Bom Dia, Mr. Lawrence”, de Nagisa Oshima, como ator e também como autor da música tema “Forbidden Colors”, cantada pelo ex-Japan, David Sylvian.

Bem menos famoso aqui, os jornalistas tiveram de recorrer aos releases e ao Google para escrever sobre Jun Miyake. Um deles, aliás, uma delas, da Folha de S. Paulo, escreveu: “De suas lembranças mais frescas, salta-lhe a da ocasião em que decidiam juntos a capa da trilha sonora de ‘Pina’, premiado documentário de Wes Anderson.” (FSP, 7/5/2017). Desconfio de que tenha confundido com outro diretor cujo nome tem dois “dabliús”, mas a questão nem é essa. Faltou em todas as matérias – pelo menos, nas que cheguei a ler –, por pouco saberem dele, o dado mais importante, já que Miyake estava se apresentando no Brasil: sua proximidade com os ritmos brasileiros. Em nenhum lugar escreveram que lançou um álbum, em 2003,  chamado “Innocent Bossa in the Mirror”, tendo como parceiros musicais Vinícius Cantuária e Arto Lindsay.

Não sou um especialista sobre a obra do japonês, mas com o pouco que conheço, sei dessa ligação com o Brasil, não apenas com esse disco, mas com outros que vieram mais tarde. Coincidentemente, ambos têm ligações com o país, presumo, devido à “ajuda” de Arto Lindsay. Antes de trabalhar com Jaques Morelenbaum, na década de 1980, o pernambucano participa de alguns álbuns de Sakamoto, dentre eles, “Beauty” e “Heartbeat”.

Há outros pontos em comum, e aí, casualmente, incluo o “talking head” David Byrne: a participação frequente em trabalhos em outras áreas como o cinema, o teatro e a dança, colaborando com nomes consagrados como Bob Wilson, Twyla Tharp, Wim Vandekeybus Pina Bausch, Alejandro González Iñárritu, Bernardo Bertolucci e Nagisa Oshima.

Tanto Sakamoto como Miyake são craques no manejo de instrumentos eletrônicos e samples. Nas matérias das publicações brasileiras escreveram que Miyake escolheu o trompete por causa de Miles Davis. Bom, informação bem menos relevante do que suas parcerias com Lindsay.

Depois de cursar na Berklee College of Music, voltou ao Japão e passou a destacar-se mais como compositor do que como trompetista, devido ao talento em criar belas linhas melódicas. Evidente que toca trompete e flugelhorn, mas predomina sua atuação como tecladista e no uso da eletrônica.

Sonoridades brasileiras estão presentes em “Stolen from Strangers” (2008) e em “Lost Memory Theater Act 1” (2013),  – cito apenas os que conheço – por meio de ritmos e na voz de Arto Lindsay. No primeiro, várias são na língua portuguesa, como “Alviverde”, “O Fim” (belíssima) e “Outros Escuros”, co-compostas e cantadas por Arto. Miyake é fiel em suas parcerias. Cantuária participa de algumas faixas, além de Lisa Papineau e The Cosmic Voices of Bulgaria (em 1975, foi lançado o álbum “Les Mystères de Voix Bulgares”, que fez um sucesso enorme, a ponto de ser lançado no Brasil alguns anos depois; tantos anos depois, as cantoras devem ser outras, mas imagino que essa formação seja derivada desse álbum).

Em “Lost Memory Theater Act 1”, mesmo com os anos que separa do anterior, lá estão Cantuária, Papineau e as moças búlgaras. Novamente, Lindsay aparece: nas duas primeiras – “Assimétrica” e “Exibida” – canta e é coautor. Outras participações interessantes são a de Dhafer Youssef, no oud, David Byrne e a “desaparecida” Nina Hagen. Em “Lost Memory Theater Act-2” (2015), Arto não participa, mas Vinícius Cantuária está em duas faixas.

Em outras palavras, esqueceram de citar o que era mais relevante, quando apresentou-se no Brasil.

Ouça “Alviverde”, com Arto Lindsay.



Outra parceria de Arto: “Turn Back”.



Mais uma: “Outros Escuros”.



Deixando Lindsay de lado, veja a apresentação de Miyake, com a participação da Cosmic Voices from Bulgaria, em “White Rose”.



Um número interessante, presente em “Lost Memory Theater Act-2”, meio fora do contexto, é o clássico “Que Sera Sera”, de Jay Livingstone e Ray Evans, que lembra um pouco o clima das trilhas de Angelo Badalamenti. A voz principal é de Chie Umezawa.