Mostrando postagens com marcador Stanley Kubrick. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stanley Kubrick. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

A Favorita e meu Schubert favorito

Rachel Weisz e Olivia Colman em “Favorita”
Um tanto aleatoriamente resolvi assistir à “A Favorita”; nem tanto, vou confessar. Em rápida pesquisa, descubro que é um filme de Yorgos Lanthimus. Nomes diferentes me atraem. Filmes iugoslavos, quando Tito ainda vivia, iranianos, turcos, romenos, libaneses, israelenses, argentinos, chineses, coreanos, etc., despertam minha curiosidade; e gregos também, mais especificamente, Theo Angelopoulos.

Um filme com Rachel Weisz e Emma Stone estrelando, convenhamos, se não é mainstream, está próximo disso. É algo como Juliette Binoche em um filme de Abbas Kiarostami (“Cópia Fiel”, 2010) ou Natalie Portman trabalhando com Amos Gitai (“Free Zone”, 2005).

O filme levou um Globo de Ouro – Olivia Colman, melhor atriz de comédia – e sete Bafta – um deles, o de melhor filme britânico –, e tem dez indicações ao Oscar deste ano. Numericamente, concorre com “Roma”, de Alfonso Cuarón.

Anne (Olivia Colman) é a rainha, com uma série de problemas de saúde, e precisa de auxílio para se locomover. Mas quem governa é a duquesa de Malborough (Rachel Weisz), sua “favorita”, que decide sobre os assuntos de Estado por ela. Esse “equilíbrio” é quebrado com a chegada de Abgail (Emma Stone), que torna-se criada do reino e, aos poucos, conquista o papel de “favorita”. Basicamente, a história é a disputa ferrenha das duas para ser a segunda da rainha, tudo em clima de comédia, com imagens soturnas, com alguma semelhança, pela iconoclastia, ao subverter a linguagem de filmes de época, à “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola. Não chega aos termos desta, que colocou personagens usando tênis All Star, mas é original nas imagens filmadas com lente grande angular e olho de peixe, que é aquela que capta 180º das cenas. Tematicamente é uma abordagem que, segundo o crítico Luis Carlos Merten, de “O Estado de São Paulo”, revela “uma profunda descrença na humanidade.” Ainda, segundo ele, “reis não são deuses, mas gente. […] Mulheres, como os homens, fazem coisas horríveis.” É um filme admirável.

Trilhas sonoras
Minha diversão é reconhecer temas utilizados em filmes de época. Compositores como Beethoven, Mozart, Schubert, Bach e Brahms servem bem a esse propósito. Um mestre no uso desse repertório é Stanley Kubrick. A prova é “Barry Lyndon”. Seu extremo bom gosto e inventividade está presente também em “Laranja Mecânica”, (“A clockwork orange”) com temas de Ludwig van Beethoven tocados em sintetizadores (novidade total na época), execução de Walter Carlos (mais tarde, trocou de nome para Wendy Carlos); em “2001 – Uma odisséia no espaço”, com “Also spracht Zarathustra”, de Richard Strauss”, abrindo o filme, “Danúbio Azul”, de Johann Strauss, o “Adagio” de “Gayane ballet suite”, de Aram Khachaturian, e “Lux aeterna”, de György Ligeti; de “De olhos bem fechados” (“Eyes wide shut”), novamente com trechos de Ligeti (“Musica ricercata), Shostakovich (“Suite no. 2 para Jazz Orchestra”), além de alguns standards americanos; e no espetacular encerramento de “Dr. Fantástico” (Dr. Strangelove”), dessa vez com um motivo da música popular, com “We’ll meet again”, cantada por Vera Lynn.

Veja o final de “Dr. Fantástico”, com We’ll Meet Again”.




Alguns devem ter ouvido essas composições eruditas pela primeira vez em filmes de Stanley Kubrick. Para exemplificar, lembro de um amigo, ao ouvir um trecho da “Nona Sinfonia”, de Beethoven, dizer mais ou menos o seguinte: “É a música do ‘Laranja mecânica’!” Acho que nem sabia quem era Beethoven, e nunca tinha ouvido o último movimento da “Nona”, tão pop quanto o início da “Quinta Sinfonia”, do alemão. Esses temas ficaram muito conhecidas em versões “profanas”, como “Also spracht Zarathustra”, com Eumir Deodato, e o último movimento da “Nona”, conhecida como “Ode a Alegria”, por algum cantor que não vou lembrar do nome agora. Outra composição erudita que ficou conhecida por meio de um filme – “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”) – é “Bolero”, nominada popularmente “Bolero de Ravel”.

Bom, voltando à “Favorita”, não lembro se em seu final ou nos letreiros, ouço o “Andante sostenuto”, da “Piano Sonata em si bemol maior, D. 960”, uma das três últimas sonatas de Franz Schubert, compostas no fim de sua vida, em 1828. Vi, nos créditos finais, que era interpretado por Sviatoslav Richter. Como ouvi muitas versões, não consegui reconhecer que era dele.

Movido pela curiosidade, fiz uma pesquisa no meu acervo. Como as últimas sonatas de piano do austríaco estão entre as minhas peças preferidas, tenho dezenas de interpretações diferentes. O que chamou a atenção de imediato foi o tom mais dramático do que, naturalmente, é o “andante”. Com Richter, os movimentos lentos são solenes, e os tempos rápidos, por seu virtuosismo técnico excepcional, transformam-se em montanhas russas – ou soviéticas. Infelizmente, por ter vivido sob o regime stalinista, a maioria de suas gravações são da Melodya, inferiores tecnicamente. Mesmo os lançados pela Philips e outras gravadoras menores são, em sua maioria, de apresentações ao vivo. Richter “brigava” com as tosses irritantes acrescentadas às suas brilhantes performances.

As sonatas com Richter estão entre as melhores de todos os tempos, na minha opinião, principalmente a de no. 19, D. 958. Como sou obsessivo, resolvi, compará-la a de outros pianistas.  Tenho mais que as que cito, mas dei-me ao trabalho de ouvir a de Alfred Brendel, Krystian Zimerman, Radu Lupu, Mitsuko Uchida, Paul Lewis, Claudio Arrau, András Schiff, Leif Ove Andsenes, Marc-André Hamelin e Stephen Hough. No conjunto, considerando-se a sonata inteira, minha preferida é a de Brendel, talvez por ter sido a primeira que conheci., mas é difícil dizer qual é a melhor. Faço questão de frisar que é a opinião de um leigo, pois sou um semi-analfabeto em música erudita; sou apenas um apreciador de música.Todas essas são muito boas. Dos registros mais recentes, minhas preferidas são as de Lewis, Andsnes e Hamelin. No conjunto, das últimas três sonatas, elejo como melhor a do inglês.

Sou fã de tudo o que Paul Lewis grava. Ouça o “Andante sostenuto” da sonata com ele.






 Sviatoslav Richter, no “Andante”, da “Piano sonata D. 960.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Stanley Kubrick, o mestre da música

Alguns devem lembrar-se da proibição de vários filmes perpetrados pela censura na época do governo militar, década de 1970. Filmes de cunho político-social como Mimi, o Metalúrgico (Lina Wertmüller), A Classe Operária Vai ao Paraíso (Elio Petri), Sacco e Vanzetti (Giuliano Montaldo), Queimada (Gillo Pontecorvo); ou Sopro no Coração (Louis Malle), Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci), Toda Nudez Será Castigada (Arnaldo Jabor) e Laranja Mecânica (Stanley Kubrick), esses, por abordarem temas polêmicos, foram proibidos pelo Conselho Superior de Censura. Não sei se alguém se lembra que, antes da exibição de um programa, uma novela, aparecia uma ficha com carimbo da Censura e uma voz em off dizia algo como “Esse programa está liberado para exibição a partir das 22h.”

A censura, no entanto, não é exclusividade brasileira. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) causou muita polêmica em 1971, quando foi lançado. Como Sob o Domínio do Medo, do americano Sam Peckinpah, era um filme que abordava a “ultraviolência”. Foi proibido no país de origem de seu diretor, a Inglaterra. Posteriormente, o próprio Stanley Kubrick proibiu a exibição e comercialização em vídeo. Os ingleses que queriam assistí-lo, tiveram de recorrer às cópias piratas.

Kubrick: retrato do artista quando jovem
Anthony Burgess, autor do romance que deu origem ao filme, escreveu o livro a partir de uma experiência que viveu: o estupro sofrido por sua mulher em um assalto. Uma das passagens mais chocantes é a de quando a gangue de Alex entra na residência onde moram um escritor e sua mulher. Alex canta e dança como Gene Kelly em Cantando na Chuva. Em vez do guarda-chuvas, tem um bastão na mão; enquanto canta Singin’ in the Rain, em vez de chutar as poças-d’água deixadas pela chuva, acerta violentas botinadas no escritor, imobilizado pelos comparsas. É uma cena antológica, apesar de capaz de causar enjoos nos de estômago mais delicado.

Parece que a ideia de usar Singin’ in the Rain é de McDowell, e não do diretor. Isso, no entanto, não tira os méritos do bom gosto de Kubrick no uso da música em seus filmes. Em Laranja Mecânica, Beethoven é arranjado pelo organista Walter Carlos (que, mais tarde, mudaria seu nome para Wendy Carlos). Bem capaz que os puristas tenham odiado as versões eletrônicas de Carlos.

Antes desse filme, Kubrick já tinha demonstrado o quanto uma música, incidental ou não, é um fator gerador ou complementar para as cenas, potencializando o que vemos na tela. É sempre interessante ver aqueles que sabem mesclar o antigo  com o novo, a música mais popular (brega, até) com a informação erudita mais sofisticada. Alguém no Brasil é tão requintado quanto o britânico: Júlio Bressane.

O filme 2001, Uma Odisseia no Espaço (1968) consagrou a abertura de Also Spracht Zarathustra, de Richard Strauss. Tornou-se tema de publicidade, e massivamente conhecida por um público que nem sabia que havia um outro Strauss além de Johann, que, aliás consta no filme com a conhecidíssima Danúbio Azul. Also Spracht… mereceu até adaptação do brasileiro Eumir Deodato, excelente arranjador e músico ligado ao jazz e à bossa-nova. Aproveitou a “onda” e vendeu milhares de discos pela gravadora que, nos anos 1960 e 70, entrou de sola no mercado tentando vender um “jazz” (as aspas são porque nem sempre se podia considerar jazz) mais palatável ao público médio, a CTI Records, de Creed Taylor. Ele fez com que nomes consagrados como Paul Desmond, saxofonista de Dave Brubeck, registrasse interpretações canhestras de sucessos da música pop.

A trilha de 2001 é complementada pelo russo (armênio) Aram Khachaturyan e György Ligeti (Lux aeterna, Atmospheres, Requiem e Adventures). A música climática do húngaro era perfeita para um filme de ficção científica. Mais tarde, Kubrick voltaria a usar a música de Ligeti (Musica ricercata) em De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999). Nesse filme estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman, a música vanguardista de Ligeti, e Jazz Suite, de Shostakovich, são complementadas por alguns temas da inglesa Jocelyn Pook (o tema do Masked Ball é de sua autoria) e por standards como If I Had You, Strangers in the Night e Blame It on My Youth ou até músicas de Chris Isaak.

Outro filme em que é evidente a sofisticação do gosto musical do cineasta é Barry Lyndon (1975). Sendo filme de época, as escolhas recaem em Vivaldi (3º movimento do Concerto de cello em ré menor), Bach (Adagio do Concerto para 2 cravos e orquestra, BWV 1062), Handel (Sarabanda da Suíte para cravo nº 4 in ré menor, HWV 437), Giovanni Paisiello (O Barbeiro de Sevilha), Mozart (Idomeneo) e Schubert. O romance de Tackeray, no qual se baseia Kubrick, é de 1840, sucesso nas “paradas literárias” da Inglaterrra. Mais que perfeito é a utilização do Segundo movimento do belíssimo Trio nº 2, opus 100 (violino, cello e piano) na cena que se inicia na mesa de jogo e termina num beijo. Anos depois, Tony Scott iria utilizar a mesma música em Fome de Viver (The Hunger, 1983), filme protagonizado por Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon.

Veja a cena de Barry Lyndon com o segundo movimento (Andante con moto) do Piano Trio opus 100.



Outro exemplo da maestria de Kubrick na utilização da música: cena final de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), com a música We’ll Meet Again, cantada por Vera Lynne.