quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Stanley Kubrick, o mestre da música

Alguns devem lembrar-se da proibição de vários filmes perpetrados pela censura na época do governo militar, década de 1970. Filmes de cunho político-social como Mimi, o Metalúrgico (Lina Wertmüller), A Classe Operária Vai ao Paraíso (Elio Petri), Sacco e Vanzetti (Giuliano Montaldo), Queimada (Gillo Pontecorvo); ou Sopro no Coração (Louis Malle), Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci), Toda Nudez Será Castigada (Arnaldo Jabor) e Laranja Mecânica (Stanley Kubrick), esses, por abordarem temas polêmicos, foram proibidos pelo Conselho Superior de Censura. Não sei se alguém se lembra que, antes da exibição de um programa, uma novela, aparecia uma ficha com carimbo da Censura e uma voz em off dizia algo como “Esse programa está liberado para exibição a partir das 22h.”

A censura, no entanto, não é exclusividade brasileira. Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) causou muita polêmica em 1971, quando foi lançado. Como Sob o Domínio do Medo, do americano Sam Peckinpah, era um filme que abordava a “ultraviolência”. Foi proibido no país de origem de seu diretor, a Inglaterra. Posteriormente, o próprio Stanley Kubrick proibiu a exibição e comercialização em vídeo. Os ingleses que queriam assistí-lo, tiveram de recorrer às cópias piratas.

Kubrick: retrato do artista quando jovem
Anthony Burgess, autor do romance que deu origem ao filme, escreveu o livro a partir de uma experiência que viveu: o estupro sofrido por sua mulher em um assalto. Uma das passagens mais chocantes é a de quando a gangue de Alex entra na residência onde moram um escritor e sua mulher. Alex canta e dança como Gene Kelly em Cantando na Chuva. Em vez do guarda-chuvas, tem um bastão na mão; enquanto canta Singin’ in the Rain, em vez de chutar as poças-d’água deixadas pela chuva, acerta violentas botinadas no escritor, imobilizado pelos comparsas. É uma cena antológica, apesar de capaz de causar enjoos nos de estômago mais delicado.

Parece que a ideia de usar Singin’ in the Rain é de McDowell, e não do diretor. Isso, no entanto, não tira os méritos do bom gosto de Kubrick no uso da música em seus filmes. Em Laranja Mecânica, Beethoven é arranjado pelo organista Walter Carlos (que, mais tarde, mudaria seu nome para Wendy Carlos). Bem capaz que os puristas tenham odiado as versões eletrônicas de Carlos.

Antes desse filme, Kubrick já tinha demonstrado o quanto uma música, incidental ou não, é um fator gerador ou complementar para as cenas, potencializando o que vemos na tela. É sempre interessante ver aqueles que sabem mesclar o antigo  com o novo, a música mais popular (brega, até) com a informação erudita mais sofisticada. Alguém no Brasil é tão requintado quanto o britânico: Júlio Bressane.

O filme 2001, Uma Odisseia no Espaço (1968) consagrou a abertura de Also Spracht Zarathustra, de Richard Strauss. Tornou-se tema de publicidade, e massivamente conhecida por um público que nem sabia que havia um outro Strauss além de Johann, que, aliás consta no filme com a conhecidíssima Danúbio Azul. Also Spracht… mereceu até adaptação do brasileiro Eumir Deodato, excelente arranjador e músico ligado ao jazz e à bossa-nova. Aproveitou a “onda” e vendeu milhares de discos pela gravadora que, nos anos 1960 e 70, entrou de sola no mercado tentando vender um “jazz” (as aspas são porque nem sempre se podia considerar jazz) mais palatável ao público médio, a CTI Records, de Creed Taylor. Ele fez com que nomes consagrados como Paul Desmond, saxofonista de Dave Brubeck, registrasse interpretações canhestras de sucessos da música pop.

A trilha de 2001 é complementada pelo russo (armênio) Aram Khachaturyan e György Ligeti (Lux aeterna, Atmospheres, Requiem e Adventures). A música climática do húngaro era perfeita para um filme de ficção científica. Mais tarde, Kubrick voltaria a usar a música de Ligeti (Musica ricercata) em De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999). Nesse filme estrelado por Tom Cruise e Nicole Kidman, a música vanguardista de Ligeti, e Jazz Suite, de Shostakovich, são complementadas por alguns temas da inglesa Jocelyn Pook (o tema do Masked Ball é de sua autoria) e por standards como If I Had You, Strangers in the Night e Blame It on My Youth ou até músicas de Chris Isaak.

Outro filme em que é evidente a sofisticação do gosto musical do cineasta é Barry Lyndon (1975). Sendo filme de época, as escolhas recaem em Vivaldi (3º movimento do Concerto de cello em ré menor), Bach (Adagio do Concerto para 2 cravos e orquestra, BWV 1062), Handel (Sarabanda da Suíte para cravo nº 4 in ré menor, HWV 437), Giovanni Paisiello (O Barbeiro de Sevilha), Mozart (Idomeneo) e Schubert. O romance de Tackeray, no qual se baseia Kubrick, é de 1840, sucesso nas “paradas literárias” da Inglaterrra. Mais que perfeito é a utilização do Segundo movimento do belíssimo Trio nº 2, opus 100 (violino, cello e piano) na cena que se inicia na mesa de jogo e termina num beijo. Anos depois, Tony Scott iria utilizar a mesma música em Fome de Viver (The Hunger, 1983), filme protagonizado por Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon.

Veja a cena de Barry Lyndon com o segundo movimento (Andante con moto) do Piano Trio opus 100.



Outro exemplo da maestria de Kubrick na utilização da música: cena final de Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964), com a música We’ll Meet Again, cantada por Vera Lynne.

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