Não sei se, devido à proximidade do Natal, e à de outra efeméride, o centenário da morte de Tolstoi, veio-me à ideia uma coisa, digamos, meio-besta: falar de alguns barbudos célebres. Barbudos, digo; não barbas ou barbichas; como as do escritor… e de Papai Noel.
![]() |
| Liev Tolstoi |
Liev Tolstoi, que no meu tempo era chamado de “Leão” e não “Lev” ou “Liev” – e possuía acento agudo no Segundo “o” –, em novembro de 1910, fez o que muitos homens ficam a vida inteira pensando em fazer e não fazem: fugir de casa. Pois, com 82 anos nas costas, saiu escondido da mulher. A notícia correu feito rastilho de pólvora e foi coberta pelas publicações europeias. Foi um frenesi. Dez dias depois, em 20 de novembro, 6h05 da manhã, o escritor russo morreu em consequência de uma pneumonia e, vá lá, tinha uma idade avançada, pelo menos para os padrões da época. Aproveitando a efeméride – o centenário –, o jornalista e escritor Pavel Basinsky escreveu o livro Fuga do Paraíso.
Tolstoi era considerado deus, guardadas algumas proporções. O paraíso a que se refere Pavel é a propriedade do escritor: Iásnaia Poliana. Distante 200 quilômetros de Moscou, o lugar era quase um santuário. Pessoas de todos os lugares que para lá acorriam eram acolhidas pelo escritor. Observou a jornalista Tatiana Shebaeva: “Em Iásnaia Poliana, Tolstoi estava aberto ao mundo, acessível a todo viajante, admirador, bandido ou miserável. Ao mesmo tempo, voltava-se cada vez mais para si próprio e, dando ouvidos à voz da alma, dolorosamente percebia com sofrimento toda e qualquer injustiça ou brutalidade.” (FSP, 22/10/2010, Gazeta Russa, p.8). A imensa barba branca e roupas simples – botas, batas largas – davam-lhe aparência de um mujique. “Tolstoi acreditava que o homem tinha sido feito para a felicidade. Ele mesmo aspirava à felicidade e ao paraíso – não para desfrute individual, mas para o maior número de pessoas possível.” (id. FSP, p.8). Amealhou um sem-número de fanáticos seguidores. A corte czarista torcia o nariz e chegou a censurar publicações do russo.
Iásnaia Poliana ainda hoje atrai muitos visitantes e funciona como um polo aglutinador não só de tolstoístas (“não comem carne, não consomem álcool ou tabaco e procuram não utilizar animais na lavoura. Numa fase mais avançada, além de plantar o próprio alimento e fabricar suas roupas e sapatos, Tolstoi chegou a abdicar do sexo.” – FSP, 21/11/2010, em Ilustríssima, assinado por Mariana Darmaros), mas de eventos literários como a Conferência Acadêmica Internacional Liev Tolstoi.
![]() |
| O Nobel de Literatura, Bernard Shaw |
Se barbas longas não são requisito primário para ser um bom escritor, existe a coincidência de outros dois possuírem essas características: o dublinense George Bernard Shaw (1856-1950) e o americano Walt Whitman. Um terceiro, Herman Melville, autor do clássico Moby Dick e da breve narrativa (genial) Bartleby, o escrivão, possuía longas barbas também, mas, ao contrário dos três citados anteriormente, tinha vasta cabeleira. Com algumas diferenças, eram calvos, o menos talvez, era Whitman, apesar das acentuadas entradas.
O autor de O Socialista Insociável era ótimo frasista e autor de cerca de 60 peças teatrais, dentre as quais, a mais conhecida é Pigmaleão. Em outra seara, em outro continente e em outro século viveu Walt Whitman (1819-1892). Sua obra mais conhecida é Folhas de Relva (Leaves of Grass), que a cada nova edição foi se ampliando. Começou com 12 poemas, na primeira edição. Na última, tinha mais de 300.
![]() |
| Walt Whitman, em montagem, como Papai Noel |
A razão de juntar os três escritores é mais que casual. Não tem o propósito de fazer comparações ou suscitar discussões que possam resultar em ensaios teóricos. Vale mais como uma constatação e um fato episódico. Outros barbudos famosos como Karl Marx e Deus (se bem que a ciência não tenha provado se tinha barba ou não) ficam de fora.
Barbas longas são marcantes visualmente e podem tornar-se “maiores” do que seus possuidores. Uma vez que voltava de Paris, tinha pedido um táxi que me levasse até o aeroporto. O motorista vestia uma camisa azul-clara, de mangas curtas, usava óculos de grau forte e tinha longas barbas grisalhas. Lembrei-me do brasileiro Paulo Freire. Era a cara do educador. Isso ficou na lembrança.
![]() |
| Mark Twain, um bigodudo célebre |
Mudando de assunto, mas nem tanto, por outra coincidência, 2010 é o centenário da morte de outro grande escritor: Mark Twain. No mês de seu falecimento (abril), não lembro que tenha recebido tantas referências como Tolstoi. Twain é um clássico, inventor de personagens conhecidos como Huckleberry Finn e Tom Sawyer. As narratives das aventuras dos dois eram parte constante dos livros da União Cultural Brasil-Estados Unidos, em São Paulo. Foi desse modo que tive o primeiro “contato” com Twain. O americano ficou famoso em vida e, ao contrário de muitos, e como Tolstoi, desfrutou a condição de celebridade, quando sê-lo não era tão comum como sói ser nos dias. Andy Warhol, ao afirmar que todo mundo teria direito aos seus quinze minutos de fama, antecipou, em alguns anos, o que vivemos atualmente. Uma vez, e olhe que foi há mais de dez anos, um artista austero e sério, arquiteto, como o ex-guerrilheiro urbano Sérgio Ferro, militante da ALN de Carlos Marighella, apareceu em seis páginas – não lembro o número de páginas – da revista de amenidades Caras, vi que o mundo mudara bastante.
A referência ao escritor Mark Twain é pela comemoração dos cem anos de seu falecimento, e não por ser barbudo. O americano usava mesmo era um vasto bigode, daqueles de fazer inveja a Friedrich Nietzsche. Bem, mas aí é outro assunto.




Nenhum comentário:
Postar um comentário