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terça-feira, 11 de outubro de 2016

O meu Cohen preferido

Nos últimos dias, sem saber nem por quê, uma canção fica a martelar em minha cabeça: “Famous Blue Raincoat”. É conhecida, mas não é a mais. Tem outras de Leonard Cohen que ficaram populares até no Brasil: “Hallelujah”, por exemplo, tema até de minissérie da rede Globo. Até a minha mãe, uma senhora de 81 anos, que nunca ouviu falar do bardo canadense, em um dos anúncios de “Justiça”, disse: ‘Essa é famosa!”. Acredito que é mais conhecida nas vozes de outros intérpretes do que na sua, como a de Jeff Buckely, possivelmente.

Cohen, que nem tão jovem era quando tornou-se conhecido, e no começo, visto como uma versão canadense de Bob Dylan, emplacou bons versos – já tinha livros de poesia publicados – em belas canções melancólicas de melodias simples que serviam mais como veículo para as suas palavras. Mas, caiu no gosto de um certo público que se identificava com os climas meio “waste land” e introspectivos. Dono também de uma voz limitada mas charmosa em seu tom que, com o tempo, foi ficando bem grave, virou cult.

Suas obras iniciais são verdadeiras pérolas. Do primeiro álbum, de 1967, temos pérolas como “Suzanne”, “Sisters of Mercy”, “So Long, Marianne” e “Hey, That’s No Way to Say Goodbye”. Dos posteriores “Songs from a Room” (1969), “Songs of Love and Hate” (1971) e “New Skin for Old Ceremony” (1974), temos “Bird on a Wire”, “Avalanche”, “Famous Blue Raincoat”, “Joan of Arc”, “Who by Fire” e “Chelsea Hotel”.

A mais conhecidas pelos fãs mais genéricos, como “Hallelujah”, “Dance Me to the End of World” – ambas de “Various Positions” –, “I’m Your Man”, “Everybody Knows” – de “I’m Your Man” –, são da década de 1980, o que me induz a dizer que foi a época em que Cohen virou pop. Mas suas obras da década anterior são mais significativas.

Sobre Jane ou a capa de chuva

Em uma ocasião qualquer, li uma entrevista do cineasta Domingos de Oliveira, na qual dizia que sabia quando estava deprimido: ficava ouvindo a mesma canção, repetidamente, por vários dias. Posso estar deprimido, mas meu caso é diferente. Ouço de tudo, e o dia todo, até nas noites de insônia. Entretanto, percebi que, nos últimos dias, os primeiros versos – It’s four in the morning, the end of december/ I’m writing now just to see if you’re better – martelam o meu cérebro, principalmente ao acordar. Não sou de prestar atenção em letras. Acho que é até por isso que prefiro música instrumental. Palavras cantadas são percebidas mais sonoramente que por seus significados. Até por isso, outro trecho que consigo lembrar sem ter de recorrer aos sites de letras é Jane came by with a lock of your hair.

Como a razão dessa postagem é “Famous Blue Raincoat”, faço uma breve pesquisa. Em primeiro lugar, busco a letra. Refere-se a um triângulo amoroso, é o que parece, ou um delírio de que há uma terceira pessoa na história de um casal.

Em entrevista à BBC Radio Interview ao ser perguntado sobre a música respondeu: O problema com essa música é que esqueci do triângulo real. Se foi o meu próprio, é claro. Eu sempre senti que havia um homem invisível a seduzir a mulher com quem eu estava, se verdadeira ou imaginária. Não me lembro, mas tinha a sensação de que sempre havia uma terceira parte, às vezes, eu, às vezes, um outro homem, às vezes, uma outra mulher.

Um dos charmes de Cohen são justamente, as letras confessionias (não sou de prestar muita atenção em letras, repito, mas quando um trecho ou outro chama a atenção, tento assimilar o que está sendo dito), e por isso, fico a pensar por que “Famous Blue Raincoat” não me sai da cabeça. Até onde sei não vivo um triângulo amoroso ou fico a imaginar-me em um, se bem que a realidade é sempre traiçoeira, se não é por isso, acho que deve ser em razão de nas últimas noites, lá pelas quatro, cinco da manhã, desperto e fico a ler os jornais matutinos em seu formato digital enquanto ouço alguma música que sai dos falantes da minha caixa da Altec Lansing.

Algumas versões, além da original, são bem interessantes. Uma delas é a de Solveig Slettahjell.




Outra interessante. É da dupla francesa AaRON.




Cohen gosta da versão de Jeniffer Warnes, que foi backing de sua banda.




Alguns outros conhecidos têm cover dessa canção. Um é Lloyd Cole.




A outra é Tori Amos.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Eles adoram cantar Leonard Cohen



 

São tantos os covers de Leonard Cohen, que ele virou um standard. Não são apenas as canções que se tornaram standards. Ele também, com um certo perigo de tornar-se caricatura de si mesmo. Quando ficou conhecido já tinha aquele jeito de “diferente”. Era alguém que parecia surgir na contra mão. Enquanto todo mundo queria fazer muito barulho, era da ala mais zen. A boa amostra desse seu estilo é a sua longa fala na apresentação no festival da Ilha de Wight.

Cohen, na mesma medida em que envelheceu, foi ficando mais conhecido e todo mundo canta suas canções. Agora que completou 80 anos, foram lançados alguns álbuns lembrando da efeméride, e o próprio Leonard soltou “Popular Problems”. A mais conhecida revista francesa especializada em música popular, a “Les InrocKuptibles”, encartou um CD com algumas interpretações conhecidas e outras menos. Dos intérpretes consagrados, muito boa é “Avalanche”, com Nick Cave em performance “intensa” e dramática, como de costume.

Veja Cave em “Avalanche”

As homenagens não param por aí. Saiu no mercado alemão um álbum chamado “Poet – Leonard Cohen in Deutscher Sprache”. É o bardo canadense cantado na língua de Goethe e Schiller. Os nomes, fora o de Nina Hagen, para mim, são desconhecidos. Mas não custa dar uma ouvida. 

Ouça Peter Maffay em “Zuerst Also Manhattan” ou, “First We Take Manhattan”

 

O melhor disco tributo é bem antigo e tem um punhado de nomes consagrados como Lloyd Cole, Ian McCulloch, Pixies, James, John Cale, Nick Cave e R.E.M., dentre outros. Chama-se “I’m Your Fan”, de 1991.

Muito linda, presente em “I’m Your Fan”, é Suzanne com Geoffrey Oryema. Ouça.

 

Não posso deixar de repetir um dos grandes covers presentes nessa postagem. Veja “If It Be Your Will”, com Antony and The Johnsons.


 

O melhor disco tributo é bem antigo e tem um punhado de nomes consagrados como Lloyd Cole, Ian McCulloch, Pixies, James, John Cale, Nick Cave e R.E.M., dentre outros. Chama-se “I’m Your Fan”, de 1991.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O mais do mesmíssimo Leonard Cohen no novo CD

Quanto mais fica grossa a sua voz, mais light vai ficando sua música. Leonard Cohen é um típico representante daquela figura quase marginal e torna-se mainstream através do tempo. Não é o único. O escritor William Burroughs era uma figura da pesada, misógino (chegou a escrever um texto em que defendia a extinção do sexo feminino da humanidade), drogado, homossexual e assassino incidental – acidental ou não? – de sua mulher Joan Wollmer, morta com um tiro na cabeça. Tremendo escritor da beat generation, autor de Naked Lunch, “amansou” no decorrer do tempo e virou “carne de vaca”. A imagem do excêntrico ficou maior que a obra e o convidaram para outras atividades como filmes (Drugstore Cowboys, de Gus van Saint) e a participar em discos de Bill Laswell, Ministry e Laurie Anderson. Em Sharkey’s Night, no disco Mr. Heartbreak (WB 1983), sua fala casa bem com a “esquisitice” de Laurie.

Ouça.


 

Não que a vida de Leonard Cohen tenha sido tão punk quanto a de Burroughs, mas as canções antigas são sombrias, carregadas e levam a imaginá-lo uma pessoa depressiva e de personalidade complexa. Não abdicou da condição de judeu, quando converteu-se ao budismo. O abraço à nova religião talvez tenha-o deixado mais light, o que não significa que tenham deixado meio “dark”. O que foi ficando cada vez mais “sombria” foi a voz, culpa do cigarro e da idade.

Cohen nunca foi o que se pode-se chamar de popular, nos anos 1960, quando compôs suas melhores canções, que são as que fazem parte dos três primeiros álbuns, como Suzanne, So Long, Marianne, Bird on a Wire e Famous Blue Raincoat. Dance Me to the End of the World e Hallelujah, duas canções adoradas pelos seus fãs tardios, são de 1984, registrados em Various Positions, lançado depois de um hiato de quase cinco anos. O álbum passou praticamente despercebido pela crítica e pelo público. Hallelujah tornou-se o standard que é hoje por conta de outras interpretações. A mais conhecida é a de Jeff Buckley. E a outra é de John Cale. Hallelujah lançou Buckley às paradas e serviu para “ressuscitar” Cohen. Um disco tributo, intitulado I’m Your Fan, um trocadilho sobre a conhecida I’m Your Man, de 1991, ajudou o canadense a “cair na boca do povo” também. Ele andava um pouco esquecido, apesar do passado brilhante. Com gravações de R.E.M. (First We Take Manhattan), House of Love (Who by Fire), Geoffrey Ozema (Suzanne) e Nick Cave (Tower of Song), dentre outros, é um grande disco, diferentemente de centenas desses “tributos”, que são mais caça-níqueis que qualquer outra coisa.

Ouça Hallelujah, com Jeff Buckley.




Ouça First We Take Manhattan, com R.E.M.


 

Problemas populares. Em 21 de setembro, Leonard Cohen completa 80 anos. Muitos nessa idade, se vivos, teriam colocado seus pijamas e os tiraria apenas para ir à feira ou ao supermercado. Mas Cohen continua pimpão. Acaba de lançar mais um álbum. Na capa de Popular Problems apoia-se numa bengala e não tira o chapéu que virou sua marca registrada da fase, como dizem aqui no Brasil, “melhor idade”. Nem é o caso de esperar mais uma revolução de Mr. Cohen. Mas, lá está. Continua mandando bem. O som é mais light, com aqueles backing vocals femininos que dão o ar de sua graça de quando em quando. É a graça que serve de apoio à voz sombria, quase discursiva. Sintomaticamente, a primeira música chama-se Slow. É Cohen em marcha lenta, mas sempre em frente.

Ouça Slow.


 

Quando ouço Did I Ever Love You, antes da batidinha country-folk e backing das meninas, às suas primeiras intervenções vocais, me vem à cabeça aquela voz característica de outro cantor. Estou falando de Tom Waits. Por que até agora não tinha pensado nisso? Cohen foi ficando meio Waits, com o passar do tempo. E outra coisa curiosa: quando sua voz era menos grave, a impressão era a de que sua música era mais sombria, como disse antes.

À primeira ouvida Popular Problems está no mesmo nível do anterior Old Ideas (2012), talvez um pouco melhor. Pelo menos é essa a impressão enquanto ouço o álbum recém lançado. Em nenhum dos dois há uma canção marcante como Take This Waltz ou Bird on a Wire. Mas, é o seguinte: tendemos a ser mais complacentes com nossos ídolos com o passar do tempo.

Ouça My Oh My, uma das que gostei nessa primeira audição.



terça-feira, 19 de agosto de 2014

Por que ouvir Leyla McCalla?

Em 2011, Jean-Pierre Bruneau saía de uma apresentação do festival de jazz que acontecia em New Orleans e viu uma garota tocando violoncelo na Sauvage Street, acompanhada de dois meninos. Imaginou que fossem seus filhos. Diante da cena curiosa, tirou algumas fotos. Os dois, na verdade, eram participantes do New Orleans Strings Project. Poucas semanas depois, Tim Duffy, que passava uns dias de férias na cidade, se deparou com a garota, na mesma rua, a tocar uma Sarabanda de uma das Suítes para Cello, de Bach. Convidou-a para trabalhar com ele na Fundação Music Maker Relief, na Carolina do Norte.

Filha de haitianos emigrados, Leyla McCalla nasceu em Nova York. Estudou violoncelo desde criança e graduou-se na New York University. Antes da faculdade, os pais e ela ficaram morando em Gana por dois anos, período em que parou de tocar por falta de escolas de música.

Disposta a seguir carreira como músico, McCalla tocou com Mos Def no show de Gil Scott-Heron, no Carnegie Hall, em 2008. Dois anos depois, resolveu mudar-se para New Orleans por achar que era um lugar em que se respirava música por todos os lados. Essa decisão, segundo ela, “deu-lhe um novo sopro de vida em sua veia criativa.” Entrevistada por Chris Zebo para a Maroon Weekly afirmou que “New Orleans sempre me faz sentir em casa. Quanto mais aprendo sobre a história da Louisiana, suas ligações com o Haiti e a cultura francesa, aumenta meu sentimento de pertencer ao lugar.”

Passou a fazer parte do Carolina Chocolate Drops. Lançaram Leaving Eden e foram indicados para o Grammy. Disposta a gravar um disco solo, por meio de um crowdfunding, levantou cerca de 20 mil dólares, bem mais do que os cinco mil que imaginara conseguir arrecadar. Foi assim que Vari-Colored Songs tornou-se realidade. O subtítulo, grafado em letras menores é “A tribute to Langston Hughes”.

O Haiti como elo
Langston Hughes, um dos poetas americanos mais importantes do século XX, era negro, comunista e gay. Imagine se fosse judeu. Apesar da simpatia pelo comunismo, nunca filiou-se por não concordar em ser parte de uma organização baseada na “estrita disciplina e aceitação das diretrizes que ele, como escritor, não poderia aceitar”, ao contrário de outro negro notável, o cantor Paul Robeson. Mesmo não sendo membro do Partido, foi chamado para depor na época do macartismo.

Hughes, como jornalista, conheceu conheceu vários países africanos, além da Rússia, França, Itália e Espanha, e também o Haiti. Morou por três meses nesse lugar que admirava por ter sido a primeira república negra. Uma rica cultura, na vanguarda política, foi aniquilada por uma das ditaduras mais sangrentas do continente americano. As décadas do governo de François Duvivier, que ficou conhecido como Papa Doc, que se inicia em 1957 e vai até 1975, quando morre, tornou o país em um dos mais pobres, com um dos mais baixos índices de alfabetização, miserável a ponto de ter como item de exportação mais importante o plasma sanguíneo. A maioria da população sobrevivia vendendo sangue. Como desgraça pouca é bobagem, sucedeu-o o filho Jean-Claude, apelidado Baby Doc. Governou até 1985. A melhor saída para os haitianos era o mar. Os pais de Leyla foram um dos que preferiram emigrar .

Leyla McCalla conheceu Langston Hughes porque seu pai era um admirador do poeta afro-americano. Ao gravar seu primeiro álbum como solista, resolveu musicar alguns de seus poemas. Há uma lógica muito interessante até se chegar à Vari-Colored Songs. O Haiti é o elo de ligação. Ela é filha de haitianos, Hughes, o poeta preferido do pai, admirava este país, Leyla passa a infância em Nova York, mas resolve mudar-se para New Orleans, uma cidade com forte presença da cultura francesa e negra, como o Haiti.

Vari-Colored Songs é um álbum que deve ser conhecido porque representa uma síntese dessas culturas. Os elogios de veículos como o New York Times, Washington Post, The Guardian e as quatro estrelas dadas pela Downbeat no número de abril são o reconhecimento de que, como escreve esta última de que esse disco é um “esplêndido início de carreira”. Quando, letargicamente, esperamos por mais uma novidade “mais do mesmo” como tantos álbuns de intérpretes cantando os mesmos standards de Cole Porter e George Gershwin, topamos com algo diferente e original.

Já na primeira faixa, fica claro que estamos diante de um disco diferente, ou estranho, você dirá. O violoncelo não é tocado com o arco, como seria costumeiro. Por onde ficaram os ensinamentos que teve na New York University. Nenhuma pista da sarabanda de Bach executada nas ruas de New Orleans. Leyla toca o violoncelo como se fosse um violão tamanho gigante e utiliza-o como instrumento rítmico; quando toca banjo, é a mesma coisa. Praticamente, não há solos em todo o álbum. Percebe-se um foco na simplicidade, em algo que lembra o canto de trabalhadores durante seus labores. Estamos diante de uma intérprete absolutamente original e, ao mesmo tempo, cultivada em um ambiente intelectualizado e metropolitano: Langston Hughes, Nova York e violoncelo, instrumento não exatamente popular entre as camadas menos desfavorecidas economicamente.

A instrumentação mínima, McCalla ao cello ou ao banjo, é acompanhada pelo pedal steel guitar de Tom Pryor e (ou) do contrabaixo de Cassidy Holden, os violões de Luke Winslow-King, Rubby Jenkins e participação de Rhiannon Giddens, os dois últimos, parceiros do Carolina Chocolate Drops. A dominância dos sons do pedal steel guitar nos leva a classificar a música de McCalla como folk ou country. É inclassificável, mas, mesmo sendo seu álbum de estreia, já chama atenção de veículos diversos como The Guardian, New York Times e Downbeat.

Assista ao vídeo de Heart of Gold. A música é de McCall e os versos são de Langston Hughes.





When I Can See the Valley é uma composição de McCalla, e letra também.




Manman Mwen é um dos destaques do álbum.




Outro destaque é Latibonit. Esta versão é de um vídeo em Paris.




Finalmente, Changing Tides, que fecha o álbum.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O bardo canadense Leonard Cohen revisitado

Esse texto é uma republicação, com algumas mudanças em relação ao original publicado no blogue “Vamos Combinar”, de Paulo Moreira Leite, no site da revista Época (8/10/2009). A razão de ser republicado é que as colaborações de PML para essa revista não estão mais disponibilizadas.

Acho que todo mundo já notou que o ar em contato com a superfície quente do asfalto cria um efeito de “miragem”, que é como se estivéssemos a “ver” o ar em movimento. É possível ver tal fenômeno logo antes da largada de corridas de Formula 1, por causa do calor das pistas, dos motores e dos gases que saem dos escapamentos. Isso acontece em superfícies quentes e também em superfícies gélidas como as das regiões polares. Variações abruptas da temperatura do ar causam uma espécie de refração. Isso tem um nome: “fata morgana”, expressão que vem do italiano em referência à meia-irmã do Rei Arthur que, “segundo a lenda, era uma fada que conseguia mudar de aparência ‘criando’ um efeito de ilusão óptica” (as aspas são porque tirei essa definição da Wikipédia”).

Werner Herzog fez um filme em 1971 com esse nome. Acho que poucas pessoas o assistiram. O cineclube da Faculdade de Arquitetura da USP promovia com frequência sessões de filmes de pouco apelo comercial, raramente exibidos em sessões comerciais. A primeira cena é a de um avião pousando num aeroporto no meio do nada. A câmera fixa “vê” a imagem sob o efeito da fata morgana. Essa cena se repete várias vezes “anunciando” que estamos chegando em um lugar de clima tórrido, no caso, ao deserto do Saara.

Veja Cohen em Suzanne, no festival da Ilha de Wight.



O filme, na época, impressionou-me. A trilha musical combinava perfeitamente com as cenas de paisagem desolada e despovoada. A amiga Ruth Klotzel disse que as canções eram de um cantor chamado Leonard Cohen. Procurei nas melhores lojas de São Paulo e não encontrei nada dele. Na primeira viagem que fiz a Nova York comprei o LP Songs of Leonard Cohen. E todas as músicas do filme estavam lá: Suzanne, So Long, Marianne, Hey, That’s No Way to Say Goodbye e Sisters of Mercy. Tornou-se meu disco predileto por muito tempo. A voz de Cohen era meio grave, melancólica e triste. Sem entender direito as letras, “via” as tais paisagens desoladas de Fata Morgana e imaginava que eram palavras de dor e abandono. No mesmo ano de 1971, Robert Altman dirigiu o filme McCabe and Mrs. Miller (Onde os Homens São Homens; no DVD trocaram o título para Jogos e Trapaças). Warren Beatty era um jogador de cartas profissional que vagava de cidade em cidade atravessando regiões nevadas e desoladas. Eram viagens solitárias – ele e o cavalo – por lugares em que não se via uma vivalma. As canções que os acompanhavam também eram solitárias – a voz e o violão. Logo identifiquei que era Cohen. Provavelmente, nem Altman tinha visto o filme de Herzog e nem o contrário, mas era uma coincidência muito grande. No mesmo ano!

O canadense Leonard Cohen quando se tornou músico já era um escritor com algumas obras publicadas, o que explica a qualidade de suas letras, em contraste com a pobreza característica da maioria das canções pop/rock.

O melhor intérprete de Leonard Cohen é ele mesmo. Com quase 50 anos de carreira está sendo descoberto pelas novas gerações e estamos sempre a tomar conhecimento de intérpretes regravando-o. Sua voz, nos anos 1960, não era tão grave como agora. Mais áspera, perdeu um certo brilho. Devido a pequena amplitude de sua voz, o tom é sempre meio monocórdio. Pode-se dizer que inventou um estilo de cantar à sua medida. Suas limitações como cantor são camufladas pelos “backing vocals” femininos, violões acústicos ou esporádicas intervenções de algum outro instrumento. No século XXI a cozinha aumentou: presença maior de baterias, órgãos eletrônicos, saxes, gaitas e até algo parecido a uma guitarra portuguesa. Não dá para dizer que piorou. Pode-se dizer que, como todo mundo, transformou-se. Continua interessante. Alguns o compararão a Serge Gainsbourg ou ao australiano Nick Cave.

Vamos a Leonard Cohen pelos outros. Na área jazzística, Suzanne foi cantada por Dianne Reeves, René Marie e pelo novo darling do show business, Michael Bublé. No pop/rock temos First We Take Manhattan com o R.E.M., Hey, That’s No Way to Say Goodbye, com IanMcCulloch, vocalista do Echo & The Bunnymen, So Long Marianne com a banda inglesa James, Chelsea Hotel com Lloyd Cole, Hallelujah com John Cale, ex-membro do Velvet Underground, Suzanne com Nick Cave e uma estonteante Who by Fire pela banda underrated House of Love. Sua conterrânea kd lang, como de costume, interpreta um irretocável Hallelujah e um belo Bird on a Wire em seu último CD Hymns of the 49th Parallel. Num terreno que nem é pop nem é música erudita, a canadense Patricia O’Callaghan no CD Real Emotional Girl interpreta várias de seu repertório: Hallelujah, I’m Your Man, Take This Waltz e A Singer Must Die. Vale a pena ouvir.

Ouça O’Callaghan em Hallelujah.



O Hallelujah de kd lang. Veja.



Uma sugestão para se conhecer todos os sucessos de Cohen é Live in London (2009). Ele fala um pouco demais no show, mas está perdoado depois de tanta coisa boa que compôs.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Madeleine Peyroux anda pra frente com novo disco

Em vez de, simplesmente, refestelar-se noss louros da consagração ou no “não se mexe em time que está ganhando”, Madeleine Peyroux acaba de lançar um disco que é bem diferente do que gravou até agora. Diferente, seria exagero; sua melhor qualidade é certa despretensão. É um disco “relaxado”: parece que foi feito com alegria e descontração.

Quando lançou o primeiro disco Dreamland, em 1996, foi classificada como uma nova Billie Holiday em razão da semelhança de registro de voz. É possível que essa “herança” possa ter pesado. Apenas em 2004 lançaria seu segundo disco, Careless Love. Desde então, tem gravado com apurada constância e amplia o espectro do público: se era inclinado ao jazz, inicialmente, hoje, faz música que trespassa rótulos.

Madeleine Peyroux descontraída
Em Dreamland, apesar do repertório eclético, seu produtor e descobridor, o A&R Yves Beauvais, por conta dessa semelhança com a voz de Lady Day, escolheu acompanhantes jazzistas por excelência, como James Carter, Regina Carter, Marcus Printup e Cyrus Chesnut. É nesse disco que Peyroux interpreta La vie en rose.

A volta de Peyroux em Careless Love representou um avanço considerável em termos de repertório. Responsável, em parte, foi a intervenção do produtor Larry Klein, craque em revelar ou desvelar potencialidades. Exemplos são Joni Mitchell, Melody Gardot e Luciana Souza, que tiveram discos produzidos por ele. Boa parte da população de bom gosto do planeta conhece seu Dance Me to the End of Love, composição de Leonard Cohen, e seu brilhante J’ai deux amours, que já tinha sido gravado em um disco menos conhecido, do qual me refiro no próximo parágrafo.

Nesse hiato de 1996 a 2006 gravou Got You in My Mind, em 2004. Curiosamente, esse disco gravado com William Galison, portanto não considerado um solo de Peyroux, pode ser visto como uma ponte e um “elo perdido” que se reata em seu mais recente CD.

Madeleine Peyroux, como Norah Jones e Lizz Wright fazem parte de um time que foge aos rótulos mais ortodoxos, sem que isso signifique que sejam melhores ou piores do que os que escolheram uma linguagem mais específica. Diana Krall é do jazz, por excelência, assim como Cassandra Wilson ou Stacey Kent, mesmo que estas fujam do repertório mais tradicional. Esse “fugir”, de certo modo, quer dizer que “quem fica parado é poste”: desde que o jazz é jazz, seus intérpretes vão expandindo seus universos sonoros. Basta lembrar de Charlie Parker tocando Tico-Tico no Fubá (na mesma velocidade do fraseado de Ademilde Fonseca) ou de rememorar que um dos standards mais executados – Someday My Prince Wll Come – é o tema de Branca de Neve, de Walt Disney.

Em Got You in My Mind, em razão de não ser um disco apenas dela, mas em parceria com o gaitista e violonista William Galison – se considerarmos a ordem dos nomes, é mais dele do que dela – há a predominância de um tom folk e até country, por conta da instrumentação – incluindo acordeão e Dobro (que é um violão cujo som metálico lembra o do banjo). Aliás, é com uma instrumentação em que se ouvem notas parcimoniosas de banjo e de um teclado que deve ser o de um órgão Hammond, que se inicia o mais recente disco de Peyroux, com um belo Martha My Dear, de Lennon e McCartney. A seguinte, The Kind You Can’t Afford tem uma marcação de baixo e a guitarra “seca” de Marc Ribot que faz lembrar a batida do início de Take Me to the River, de Al Green.

Marc Ribot, conhecido pelas participações em discos de Tom Waits, do americano-pernambucano Arto Lindsay e do avant-garde John Zorn, é um instrumentista limitado. É algo que ele próprio reconhece. Tomou partido, no entanto, dessas limitações e conseguiu desenvolver um estilo tão específico que é inconfundível. Apesar de lembrar as distorções da guitarra de Ry Cooder ou do estilo “meio-lamuriento”, “meio havaiano” de Bill Frisell, nas primeiras intervenções, sabemos que é Ribot quem está tocando.

É esse americano, criador da banda Los Cubanos Postizos, que transita pelo free jazz, pela música latina, músico que tocou nos discos de gente tão diferente entre si como Marianne Faithfull, McCoy Tyner, Alison Krauss, John Lurie nos Lounge Lizards, David Silvyan e Wilson Pickett, quem imprime sua marca, e é o diferencial nesse último CD de Peyroux.

A cantora tem, cada vez mais, apresentado composições próprias. Das quinze que compõem o disco, apenas quatro não são de sua lavra. Dessas, pode se destacar uma incomum parceria de Peyroux com o ex-Stones Bill Wyman em Leaving Home Again, The Things I’ve Seen Today, um hipnótico Standing on the Rooftop, Lay Your Sleeping Head, My Love, e a melancólica Superhero. Madeleine, no entanto, se supera em uma sublime interpretação de Love in Vain, de Robert Johnson. É essa a que você vai ouvir.



Ouça também Standing on the Rooftop.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fleet Foxes, muito prazer

Corre a lenda de que o escritor Julio Cortazar dizia serem Maria Bethânia e Caetano Veloso uma só pessoa. Pus-me a imaginar se existe um ser que seja David Crosby e Graham Nash ao mesmo tempo. Para quem não sabe, os dois citados fizeram parte de uma das formações-ícones do “folk rock”: Crosby, Stills & Nash… & Young por um tempo. A entrada do canadense foi um belo acréscimo que resultou em pelo menos dois clássicos: o ao vivo 4-Way Street e Déjà vu. Mas quando eram os três apenas, eram também excepcionais.

Com a primeira dissolução da banda, dois deles formaram o Crosby & Nash. A voz de cada um é bem diferente, mas suas harmonizações vocais são tão perfeitas que (pensei numa sessão “frankenstein” ou “dr. Jekill and mr. Hyde”) poderiam criar um único ser resultante dessa fusão. Se Cortazar podia achar aquilo dos irmãos Veloso, por que não esse “ser” único?

Ouvindo as vocalizações iniciais de Sun It Rises do Fleet Foxes (2008), no CD do mesmo título, achei que, muito bem, poderia ser a banda mais recente de David Crosby. Imediatamente, lembrei-me de If I Could Only Remember My Name…, primeiro solo de DC, de 1971. É muito antigo, não? Não conheço bem o Fleet Foxes – fui apresentado há menos de seis meses – e por isso, não sei dizer se a voz principal é de Robin Pecknold. Fiquei com a impressão de que sua voz se parece mais à de Crosby, mas por alguns momentos, parece com a de Nash também. Foi por isso que imaginei os dois em um só.

Agora, em 2011, foi lançado o álbum seguinte: Helplessness Blues. É uma reafirmação da qualidade do anterior. Continuo gostando mais do outro, talvez por tê-lo ouvido mais. Além de lembrar de Crosby & Nash, lembra bastante, pela qualidade das harmonias vocais, os Beach Boys, de Brian Wilson, um pouco o irlandês Van Morrison, e também uma banda inglesa, que poucos se lembrarão – o Housemartins. Musicalmente é isso, mas lembram paisagens solitárias do filme Jeremiah Johnson, Mais Forte Que a Vingança (1972, direção de Sydney Pollack e protagonizado por Robert Redford), devido ao tom melancólico e climático, meio desolado; tem alguma coisa de “viajante” no som evocativo, mas nada intenso e “psicodélico” como o das músicas de Pink Floyd, por exemplo.

Montezuma, a primeira canção de Helplesseness Blues, reforça a ideia de que Pecknold é uma simbiose de Crosby e Nash. Sua voz parece com a do segundo. O registro das vozes de David e Graham tendem aos agudos, com a diferença de que a do primeiro é mais anasalada e a do segundo, mais “juvenil”.

As harmonias vocais de Bedouin Dress são uma mistura de Beach Boys e CS&N. Na melhor faixa do disco – Lorelai – o registro da voz lembra as interpretações de Chicago – inclusive pela batida – e Teach Your Children Well. Em The Shrine/The Argument, a voz, principalmente nos agudos, lembra os vocais de Crosby. É outro destaque pelas variações de ritmo e de climas que lembram a atmosfera devastadoramente desolada de To the Last Whale… A. A Critical Mass, B. Wind on the Water. No final, há um solo “tempestuoso” de saxofone sobre um fundo de cordas que fazem lembrar mais ainda esse clássico gravado em 1975.

Pensando bem, Helplessness Blues é tão bom quanto o disco anterior.


Ouça Lorelai, do último disco.




White Winter Hymnal




He Doesn’t Know Why


quarta-feira, 2 de março de 2011

O morto Nick Drake


A primeira vez que ouvi Nick Drake não sabia nada dele. Senti uma atração imediata por sua música. Tinha um quê de desamparo naquelas palavras entoadas, meio soltas no ar à cata de alguma outra dor. Nem lembro como acabei comprando um disco dele. Na capa, um rosto infantil com uma blusa de listras cobrindo seu corpo no meio de uma paisagem verde um tanto fantasmagórica.

Nick lançou três discos: Five Leaves Left (1969), Bryter Layter (1972) e Pink Moon (1972). Em 1974 morreu, aparentemente, por ingestão excessiva de antidepressivos. Era usuário de marijuana e tinha tomado LSD também. Desde o começo de sua carreira ficou evidente sua fragilidade psicológica, passando por constantes episódios de depressão e de insônia.

Filho de um engenheiro de estradas, nasceu na Birmânia e, de uma família endinheirada, frequentou escolas de elite e estudou literatura inglesa na Fitzwilliam College. De personalidade retraída, tinha poucos amigos. Descoberto por Joe Boyd, que se tornou seu produtor, assinou contrato com a gravadora Island, de Chris Blackwell. Vendeu pouco em vida, Vendeu muito mais depois de morto. Deixou clássicos como River Man, Way to Blue, Day Is Done e Things Behing the Sun. Intérpretes da área jazzística como Brad Mehldau, Tessa Souter e Norah Jones gravaram composições de Drake. O brasileiro Renato Russo gravou Clothes of Sand em The Stonewall Celebration Concert (1994).


Ouça River Man.



 

Ouça Way to Blue.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Amos Lee: uma alternativa à Norah Jones

Como gosto não se discute, não aceito que discordem se digo que não gosto de Norah Jones. Brincadeira! Mas está além da minha compreensão todo esse sucesso. E é fácil discordar de mim: afinal, vendeu milhões de discos e ganhou dez Grammy. Não é desprezível para quem está há pouco tempo no mercado. Pode ser um pouco de preconceito, talvez por ficar contrariado quando a classificam como jazzista. Jones é mais folk, country e quase nada jazz.

Na década de 1960/70, quando se revelaram James Taylor, Carole King, Cat Stevens e Simon & Garfunkel, surgiram algumas classificações alternativas ao rock: “folk rock” e “soft rock”. Diferentemente do som pesado que bandas inglesas como o Cream, formado por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, The Who, ou os americanos como Jimi Hendrix ou a cantora Janis Joplin, cantavam de modo mais suave. As músicas eram melodicamente mais agradáveis e menos agressivas ao ouvido médio. Eram interregnos de paz. A juventude masculina, naquele tempo, pensava duas vezes antes de dizer que gostava de um You’ve Gotta Friend, cantado por Carole King ou por James Taylor, ou de Wild World de Yusuf Islam (esse é o nome de Cat Stevens depois que se converteu ao islamismo). Era coisa de menininha. Música de macho eram as de Led Zeppelin ou dos Rolling Stones. Preconceito bobo ou não, é comum às mulheres gostarem menos de som pesado e, os homens, mais. Um amigo, brincando, gostava de dizer que ainda ia conseguir arrumar uma namorada que não gostava de Phil Collins.

Norah é protagonista do filme Beijos Roubados (My Blueberry Nights), em que contracena com Jude Law. Seu diretor, Wong Kar-Wai, é um mestre em combinar situações com músicas. Em Beijos tem Norah, é claro, e mais Ry Cooder, Otis Redding, Gustavo Santaolalla, Cassandra Wilson e Cat Power, que faz uma pequena ponta. Trilha de primeira! Como as dos filmes anteriores, principalmente em In the Mood for Love e em 2046, Kar-Wai constrói um “mood” deliciosamente retrô com canções em inglês e no trôpego espanhol de Nat King Cole. Pelo jeito, Kar-Wai gosta de Jones. Ponto para ela.

O primeiro CD, Amos Lee (2005) foi lançado no Brasil e pouco divulgado. É até inexplicável que tenha saído aqui. Se lançam, por que não divulgar. Tinha potencial. A hipótese mais provável é a de que foi lançado para aproveitar o sucesso de Norah Jones. Não é simples coincidência: Jones participa tocando piano acústico e o Wurlitzer, e um dos produtores é Lee Alexander, baixista, componente da banda e ex-namorado dela. A outra é que são da mesma gravadora, a Blue Note.

Se não é uma novidade num mercado tão diversificado, é um disco bem agradável de ouvir. Não escapou, a meu ver, da síndrome do segundo disco. É bem mais fraco que o CD que leva seu nome. Se alguém tiver alguma curiosidade em relação a ele, acesse seu site: www.amoslee.com

Um dos destaques do primeiro é Keep It Loose, Keep It Tight. Outras: Black River, e a bela Soul Suckers. Vejam.