Como gosto não se discute, não aceito que discordem se digo que não gosto de Norah Jones. Brincadeira! Mas está além da minha compreensão todo esse sucesso. E é fácil discordar de mim: afinal, vendeu milhões de discos e ganhou dez Grammy. Não é desprezível para quem está há pouco tempo no mercado. Pode ser um pouco de preconceito, talvez por ficar contrariado quando a classificam como jazzista. Jones é mais folk, country e quase nada jazz.
Na década de 1960/70, quando se revelaram James Taylor, Carole King, Cat Stevens e Simon & Garfunkel, surgiram algumas classificações alternativas ao rock: “folk rock” e “soft rock”. Diferentemente do som pesado que bandas inglesas como o Cream, formado por Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker, The Who, ou os americanos como Jimi Hendrix ou a cantora Janis Joplin, cantavam de modo mais suave. As músicas eram melodicamente mais agradáveis e menos agressivas ao ouvido médio. Eram interregnos de paz. A juventude masculina, naquele tempo, pensava duas vezes antes de dizer que gostava de um You’ve Gotta Friend, cantado por Carole King ou por James Taylor, ou de Wild World de Yusuf Islam (esse é o nome de Cat Stevens depois que se converteu ao islamismo). Era coisa de menininha. Música de macho eram as de Led Zeppelin ou dos Rolling Stones. Preconceito bobo ou não, é comum às mulheres gostarem menos de som pesado e, os homens, mais. Um amigo, brincando, gostava de dizer que ainda ia conseguir arrumar uma namorada que não gostava de Phil Collins.
Norah é protagonista do filme Beijos Roubados (My Blueberry Nights), em que contracena com Jude Law. Seu diretor, Wong Kar-Wai, é um mestre em combinar situações com músicas. Em Beijos tem Norah, é claro, e mais Ry Cooder, Otis Redding, Gustavo Santaolalla, Cassandra Wilson e Cat Power, que faz uma pequena ponta. Trilha de primeira! Como as dos filmes anteriores, principalmente em In the Mood for Love e em 2046, Kar-Wai constrói um “mood” deliciosamente retrô com canções em inglês e no trôpego espanhol de Nat King Cole. Pelo jeito, Kar-Wai gosta de Jones. Ponto para ela.
O primeiro CD, Amos Lee (2005) foi lançado no Brasil e pouco divulgado. É até inexplicável que tenha saído aqui. Se lançam, por que não divulgar. Tinha potencial. A hipótese mais provável é a de que foi lançado para aproveitar o sucesso de Norah Jones. Não é simples coincidência: Jones participa tocando piano acústico e o Wurlitzer, e um dos produtores é Lee Alexander, baixista, componente da banda e ex-namorado dela. A outra é que são da mesma gravadora, a Blue Note.
Se não é uma novidade num mercado tão diversificado, é um disco bem agradável de ouvir. Não escapou, a meu ver, da síndrome do segundo disco. É bem mais fraco que o CD que leva seu nome. Se alguém tiver alguma curiosidade em relação a ele, acesse seu site: www.amoslee.com
Um dos destaques do primeiro é Keep It Loose, Keep It Tight. Outras: Black River, e a bela Soul Suckers. Vejam.

Nenhum comentário:
Postar um comentário