sexta-feira, 23 de julho de 2010

Algo em comum entre Renato Russo e Sarah Vaughan

Pensando bem, é difícil imaginar alguma semelhança entre Renato Russo e Sarah Vaughan. Provavelmente, seus talentos. Mas são de universos tão diferentes! Até onde os gostos de Russo moldaram sua música? É inegável que eles possuem algumas influências em comum, apesar da abissal diferença de gerações. No rock visceral de sua banda, a Legião Urbana, e menos em músicas mais lentas, é correto imaginar que o Sex Pistols, Ramones ou The Smiths, por exemplo, tenham sido mais relevantes que, digamos, Stephen Sondheim. Cito esse compositor americano, pois em seu primeiro disco solo, The Stonewall Celebration Concert, Russo gravou uma de suas mais belas canções: Send in the Clowns, do musical A Little Night Music, de 1973. Essa música pode ser considerada um dos últimos standards, se classificadas na acepção em que essa palavra é usada no jazz. Como comparação, standards são Summertime, Take the “A” Train, Night and Day, e uma infindável lista de canções que foram interpretadas por milhares de cantores e instrumentistas.

Stephen Sondheim é, praticamente, o “último dos moicanos” de uma linhagem que começa em Irving Berlin e é continuada pelos irmãos Gershwin, Cole Porter, Rodgers, Hammerstein e Hart, Johnny Mercer e tantos outros mais que fizeram parte da era de ouro dos musicais. O que têm em comum é o fato de ambos serem homossexuais, mas desconheço que tenha sido essa a razão de Renato Russo ter gravado essa música em The Stonewall Celebration Concert, apesar de o título ser uma referência explícita a essa opção sexual, já que está relacionada à The Stonewall Inn. Essa casa situada no Greenwich Village, em Nova York, foi palco de protestos violentos dos homossexuais contra as constantes batidas policiais, em 1969, e tornou-se um marco do movimento dos direitos dos gays.

No CD de Russo a música que tocou nas rádios brasileiras foi Cathedral, da cantora pop Tanita Tikaram. Os destaques são Say It Isn’t So e Let’s Face the Music and Dance, ambas de Irving Berlin, Somewhere, de Leonard Bernstein e letra do compositor de Send in the Clowns, que abre o disco. A melhor faixa é Clothes of Sand, de Nick Drake, um dos grandes talentos desaparecidos precocemente. Formado em literatura pela Universidade de Cambridge, suas composições eram sofisticadas e, geralmente, melancólicas. Suicidou-se com 26 anos.

Os fãs mais ardorosos do brasileiro vão discordar, mas The Stonewall Celebration Concert não é um grande disco. Sua voz “Jerry Adriani” não combina com algumas músicas e a impressão é a de que falta alguma coisa que faça o ouvinte “entrar” no clima. Boas mesmo eram as músicas cantadas com sua banda, a Legião Urbana. Send in the Clowns foi gravada por muitos. A melhor, na minha opinião é a de Sarah Vaughan. Ouçam e comprovem:

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