quarta-feira, 21 de julho de 2010

A mulher que não dá samba, segundo Vanzolini

Em tempos não muito distantes, mas hoje, longínquos – 50 e tantos anos – os soviéticos buscavam o cosmos e os americanos, os astros. Esses desbravadores do espaço eram chamados, na União Soviética, de cosmonautas, e, nos Estados Unidos, de astronautas. A diferença parecia sutil sem ser. Essas duas nações representavam os opostos, a esquerda e a direita, e estavam em alerta incessante prontos a destruir um ao outro. Nessa coisa denominada “guerra fria”, a humanidade vivia a iminência de deixar de existir. Seres amedrontados, Terceiro Mundo ou Primeiro Mundo, Budapeste era um lugar praticamente proibido para os ocidentais. A guerra fria acabou, a União Soviética se desmembrou e o que se designava como “esquerda” virou abstração. E, surpreendentemente, o mundo esfriou, mesmo com o propalado aumento da temperatura global. E globalizados ficamos. O mundo virou internético com informações fáceis de serem coletadas até na mais longínqua paragem. Ficamos cínicos e boa parte da humanidade é solidária em catástrofes como enchentes, vulcões explosivos, terremotos e maremotos, mas pouco sensiveis à miséria e às ditaduras. É o que se poderia chamar de “solidariedade de butique”. Uma amiga perguntou à sua filha estudante de medicina no Rio de Janeiro se estava ajudando os desabrigados e feridos vítimas das enchentes no início do ano. Ela disse, sim, “doei um monte de roupas que não uso”.

No meio da década de 1960, numa cidade de 50 mil habitantes, como Passos (MG) não existia a televisão, mas as bancas vendiam uma revista de tiragem semanal chamada Intervalo, que publicava, além de notícias sobre artistas ou programas televisivos, a programação semanal. Era possível acompanhar a trama das telenovelas sem assistí-las pelas sinopses publicadas. Havia uma página “musical” que trazia sempre a letra de uma música que fazia sucesso. Os gostos musicais eram decorrentes das especifidades locais, uma cidade com 65% dos habitantes em regiões rurais. Apesar do sucesso de Altemar Dutra ou Agnaldo Timóteo, os adolescentes, sabe-se lá como, estavam ficando fãs da turma da Jovem Guarda. Tinha até professor de violão com o ensino voltado às correntes roqueiras. Destacava-se uma banda de meninos chamada Edinho e Seu Conjunto. Um menino da minha classe no ensino básico, o Otacílio, era um de seus componentes. Tocava acordeão. O Edinho, mais tarde, formaria o Edinho Santa Cruz e Banda. Tocou por um bom tempo no programa dominical de Fausto Silva.

Eram conhecidos e amados cantores como Roberto Carlos, Agnaldo Rayol e Wanderley Cardoso. Representavam o ápice da sofisticação cultural. De vez em quando, na página da revista Intervalo vinham impressas letras em inglês. Eram de uma banda britânica chamada The Beatles. Muitos, como eu, não o conheciam. É claro que Passos já tinha sido invadida pelos americanos. Filmes de Elvis Presley enchiam as salas dos cines Alvorada e Roxy e uma pequena parcela reagia histericamente com suas perturbadoras performances. Mas, sucesso mesmo, era Altemar Dutra – um must – e, quase tanto, um mexicano chamado Miguel Aceves Mejía.

O rock’n’roll foi um fenômeno massivo. Até os nacionalistas-tradicionalistas-stalinistas/realistas-socialistas foram obrigados a admitir a força desse movimento musical. Fora os Beatles, que tinham suas letras publicadas em revistas, pouco acesso se tinha às letras originais e, por conseguinte, cantava-se no que Toninho Horta chamou de “falso inglês” (“Eu ouvi Paul Anka/ Um dia/ Eu ouvi Ray Charles/ Bill Halley/ No rádio eu sempre ouvi/ mas não entendia nada de inglês/ mas eu guardava o som/ toda melodia sem poder cantar/ Eu tinha que inventar um jeito de cantar inglês.// […]// Beatles, Dylan/ ouvi uma vez e eu cantei/ Eu lembro que inventei/ todos se encantaram com meu falso inglês.”). O pouco acesso às letras em inglês fizeram com que minhas músicas preferidas da época em que, realmente, passei a comprar discos e ouví-los à exaustão, se transformassem em massas sonoras em que as letras não possuam o mínimo significado para mim. Credito um pouco minha preferência pela música instrumental (jazz, principalmente) à dificuldade de saber do que tratavam as letras de As Tears Go By e Ruby Tuesday, dos Rolling Stones, ou de dar o mesmo valor para os “obla-di-o-bla-da” se comparados a “help/ I need somebody/ Help, not just anybody/ Help, you know I need someone/ help!”. Essa “distorção” se estendeu até às músicas cantadas em português. Posso cantá-las e, frequentemente, canto sem prestar atenção em seus significados. Aí entram os amigos. Quando dizem “que letra linda tem tal música!”, aí resolvo prestar atenção e descubro que elas são parte complementar e, em muitos casos, essenciais. 

Bem, o que a calça tem a ver com a cadeira, como disse Ferreira Gullar noutro dia? Apenas o último parágrafo tem relação mais direta com o que vem a seguir. Almoçava um dia com o Paulo Caruso e, cara bom de papo, capaz de conversar sobre temas mais improváveis – tem uma piada ou graça para tudo, inclusive com a desgraça –, como de costume, na maior parte do tempo, falamos de música. Suas antenas se direcionam muito às letras – suas releituras de músicas conhecidas em que coloca novas letras são, quase sempre, impagáveis. É uma deficiência essa dificuldade que tenho em prestar atenção às letras. Ainda bem que os amigos ajudam. Na penúltima vez em que nos encontramos, Paulo falou muito de Jorge Drexler e, naturalmente – não perguntem por que – a conversa caiu em Paulo Vanzolini.

E nem é por causa de Paulo que reproduzo a letra de Mulher Que Não Dá Samba, de Vanzolini. É que, alguns sábados passados, enquanto ia para a festa de aniversário da Maria Adelaide Amaral, na Serra da Cantareira, a amiga Vera Galli não parava de cantá-la. E, vejam, que letra genial, como a dos sambas mais espirituosos. Geniais os versos “Se atrás da bronca viesse a roupa limpa, o café quente/ Ou se fosse ignorante no claro e ardente no escuro/ […]/ Mulher que não dá samba eu não quero mais”.


Mulher Que Não Dá Samba

Parece que vai tudo em santa paz
Na base do mais ou menos
Um pouco mais menos que mais
Tão regular, sem reclamar
Porém não satisfaz
Mas francamente, de que serve tanta paz
Ainda se fosse brava porém competente
Se atrás da bronca viesse a roupa limpa, o café quente
Ou se fosse ignorante no claro e ardente no escuro
Eu lhe asseguro
Não faria falta a paz
Mulher que não dá samba eu não quero mais
Mulher que não dá samba eu não quero mais

Ouçam-na cantada por Carmen Costa e Paulo Marques:


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