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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Diferenças entre o gosto da patuleia e o da crítica, de acordo com a lista dos melhores de 2012

Radio Music Society, de Spalding é o melhor do ano
Com certo atraso, comento sobre a lista dos melhores, segundo os leitores da revista Downbeat.

Todo ano, pouco depois de publicada a lista dos melhores eleitos por uma junta de críticos convidados, a Downbeat envia aos seus assinantes, por e-mail, um link para que seus leitores votem nos melhores do ano. Para cada categoria são sugeridos alguns nomes, mas é possível se votar em algum outro. É inevitável uma certa contaminação pelo fato de se votar depois de se saber o que os críticos escolheram.

Na edição de dezembro, que é lançada logo no início de novembro, sai o resultado do Readers Poll. É normal que os críticos especializados sejam mais sofisticados e informados que o chamado povão, mesmo em gênero tão específico como o jazz.


A lista dos melhores CDs na opinião dos leitores
1. Esperanza Spalding, Radio Music Society
2. Ahmad Jamal, Blue Moon
3. Tony Bennett, Duets II
4. Vijay Iyer, Accelerando
5. Keith Jarrett, Rio
6. Brad Mehldau Trio, Ode
7. Sonny Rollins, Road Shows, Vol. 2
8. Arturo Sandoval, Dear Diz (Everyday I Think of You)
9. Corea, Clarke & White, Forever
10. Trombone Shorty, For True

Na dos melhores pela crítica, Accelerando (ACT 2012), do pianista Vijay Iyer, ficou em primeiro lugar com quase o dobro do segundo – Road Shows, vol. 2, de Sonny Rollins. Na do povão, em primeiro ficou Radio Music Society, de Esperanza Spalding. Como foi lançado em abril do ano passado, nem consta na lista dos 30 melhores da crítica. É o caso, provavelmente, de outros álbuns como Ode, de Brad Mehldau, e de Dear Diz (Everyday I Think of You), de Arturo Sandoval, lançado em junho. Spalding é nova, belo penteado black (lembra a ex-ativista Angela Davis), canta e toca um instrumento do seu tamanho – o contrabaixo acústico – e é talentosa, mas supervalorizada, devido ao seu carisma. Meu voto foi para Rio, de Keith Jarrett. Na lista dos críticos ficou em terceiro. É um dos melhores registros do pianista nos últimos anos. Leia e ouça em http://bit.ly/MF8xTA.

A divergência mais perceptível é a não classificação – entre os 30 melhores – do álbum Be Good, de Gregory Porter (ouça e leia sobre ele em http://bit.ly/TVkW98). Inexplicável. Merecidamente, Sonny Rollins e o “retorno” de Forever, de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White constam nas duas listas. Faz o gosto da patuleia e da crítica. Corea é sofisticado e pop ao mesmo tempo.

Os dez discos classificados devem ser ouvidos e cada um preenche um “pedaço” de prazer do fã do jazz. Não ouvi apenas os de Arturo Sandoval (leia sobre seu Time for Love, lançado em 2010, em http://bit.ly/VvMdf5) – mas tudo o que grava é bom –, e o de Tony Bennett, apesar de considerá-lo “the best” como cantor, não tenho a mínima curiosidade de conhecer. Esses “duets”, moda iniciada com Frank Sinatra no crepúsculo de sua carreira, em 1993, dividindo os vocais com Julio Iglesias, por exemplo, são um saco de gatos; se bem que dividiu também com Bennett, Bono, do U2, e Aretha Franklin. Têm cara de caça níqueis. Em Duets II, Bennett divide vocais com k d lang, Norah Jones, Andrea Bocelli, Amy Winehouse, o que não é mal, mas também com Lady Gaga e Mariah Carey.

Veja Body and Soul, com Amy Winehouse. Amy é Amy, ou melhor, foi. Era bem talhada para interpretar standards do cancioneiro americano. Basta ouví-la a cantar (There Is) No Greater Love, em Frank (2003). Foi uma de suas gravações derradeiras.




Os melhores instrumentistas
Apenas para registro (e poucos comentários) listo os melhores de alguns instrumentos.
Piano: Brad Mehldau (leitores) e Vijay Iyer (crítica)
Sax alto: Kenny Garrett (L), Rudresh Mahanthappa (C)
Sax soprano: Wayne Shorter (L), Branford Marsalis (C)
Trumpete: Wynton Marsalis (L), Ambrose Akinmusire (C)
Flauta: Hubert Laws (L), Nicole Mitchell (C)
Guitarra: Pat Metheny (L), Bill Frisell (C)
Trombone: Trombone Shorty (L), Wycliff Gordon (C)
Vocalista feminina: Diana Krall (L), Cassandra Wilson (C)

Em alguns instrumentos concordam em quem são os melhores: baixo acústico (Christian McBride), sax tenor (Sonny Rollins), bateria (Jack DeJohnette), sax barítono (Gary Smulyan; na lista dos leitores empatou com James Carter), clarineta (Anat Cohen), entre outros.

Pelas diferenças percebe-se o óbvio: os críticos adoram Vijay Iyer e Rudresh Mahanthappa, e os leitores ainda estão se acostumando com eles mas, no básico, não existe grande diferença entre o que eles gostam e nós, membros da patuleia.

Ouça duas interpretações de Ahmad Jamal, do CD Blue Moon (Jazz Village, 2012). Leia sobre esse CD em http://bit.ly/V6khVi.

Gypsy. Nesta e na próxima, Ahmad é acompanhado por Reginald Veal no baixo, Herlin Riley na bateria, e Manolo Badrena na percussão.



Laura.



Com Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White, ouça No Mistery.




quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Qual a sua preferida do disco póstumo de Amy Winehouse?

A gravadora aproveita a época de Natal e lança Winehouse
Por ocasião da morte de Amy Winehouse terminei por não comentar nesse blogue. Mas, agora com o lançamento do CD póstumo, tem-se mais assunto do que supostas causas da morte de Amy ou de seus abusos com as drogas e o álcool.

Como Amy não lançou mais nada desde Back to Black, no fim de 2006, havia grande expectativa em torno da possibilidade de ela lançar um novo disco, apesar da gangorra que se tornou a sua vida, sendo mais notícia de jornais sensacionalistas do que de veículos especializados em música. Reconheça-se o gosto sádico das pessoas de ficarem assistindo à derrocada de seus ídolos como compensação pela vida ordinária que muitos levam.

Diante do sem-número de escândalos e vida exposta, Amy tornou-se célebre, mais pela frequência com que apareceu em tabloides e revistas de fofocas. Apesar disso, e reconhecida como garota promissora por dois bons discos gravados, seus fãs, certamente, tinham a expectativa de que, mais uma vez, os surpreenderia com seu talento natural. A morte a acolheu mais carinhosamente do que a vida. Depois de sua morte, falava-se das gravações que fizera com produção de Mark Ronson e de Salaam Remi. Finalmente, temos acesso a essses registros. Se não têm a qualidade que se esperava – era essa a expectativa depois de Back to Black, não era? – há coisas interessantes.

Depois que morreu, surgiu a notícia de que havia gravado com o quase nonagenário Tony Bennett. Finalmente, a conhecemos, pois é uma das faixas de Lioness: Hidden Treasures, lançado em 5 deste mês. Foi a primeira que ouvi. Não sou tão fã, como era Carlos Conde, de Body and Soul; isso é impossível. Se houvesse algum CD com essa música cantada por Bruno e Marrone, certamente, Conde teria comprado. Ele possuía todos os Body and Soul de que tinha notícia. É um dos grandes standards do cancioneiro americano, um clássico. Fui direto nela. Bennett é um caso de amor à primeira vista.

Tornaram-se moda esses discos em que cantores consagrados fazem duetos com intérpretes dos mais variados gêneros. Não sei bem se foi Frank Sinatra quem iniciou essa moda, mas todos devem conhecer os dois discos que ele gravou nos anos 1990, dividindo sua voz cansada com as de cantores consagrados como o próprio Bennett ou Liza Minelli, e outros nem tanto, como a de Gloria Stefan ou a de Julio Iglesias.

Body and Soul com Tony Bennett e Amy Winehouse decepciona. A voz da inglesa parece a de uma Natalie Cole piorada. Ficou devendo nessa. Mas o resto do CD não chega a decepcionar e, muito menos, pode ser considerado ruim. O charme do repertório de Winehouse sempre foi, mesmo em composições inéditas, a de um certo “revivalismo” do som dos anos 1950 e 60. Backing vocals a la Golden Boys, intervenções de naipes de sopro, com marcações bem definidas da bateria, do sax barítono e por “riffs” econômicos da guitarra, fazem parte do “fundo sonoro” para a voz (muito) especial de Winehouse. Por conta desse gosto “revivalista” (veja, ela não foi a única a fazer isso: virou uma fórmula quase infalível e, de certa forma, é consequência da facilidade propiciada pela internet de conhecer o que era feito em outros tempos na música popular), não é muito difícil gostar de qualquer coisa que Amy tenha feito nessa direção, mesmo não estando em momentos mais inspirados.

Depois de ouvir Lioness, umas três vezes; minha capacidade de julgamento se desvanece e, sem muito refletir, me encanto com a faixa de abertura, uma releitura meio ska, meio reggae, com um invariável naipe de metais, de Our Day Will Come. A quarta faixa é uma composição de Carole King e Gerry Goffin, clássico originalmente gravado pelo grupo The Shireless. A “cozinha” dos Dap-Kings, o arranjo das cordas e o vocal ocasional apenas somam a essa bela interpretação da inglesa. A “peteca” não cai em Like Smoke. A intervenção “rapper” de Nas combina perfeitamente com a instrumentação retrô. Muito boa. Outro destaque é a versão “bossa eletrônica” da nossa Garota de Ipanema. Bem interessante. Mas, do que eu gostei mesmo é de A Song for You, clássico de Leon Russell. Caiu no gosto até de cantores mais associados ao jazz, como Carme McRae e Shirley Horn. É uma daquelas em que é difícil estragar.

Para comparação, ouça a mais conhecida, a de Donny Hathaway.



Ouça A Song for You, por Amy Winehouse.



Ouça Our Day Will Come, a primeira de Lioness.