Uma linha tênue separa o colecionador do acumulador. Meu receio é o de não saber de que lado estou. Sempre comprei em quantidade, vinhos, charutos, sabonete, azeite de oliva, em suma, qualquer coisa.
Mais por distração, presumo, lembro de o acúcar está acabando. Vou ao mercado e, ao guardá-lo, vejo que tinha um pacote fechado na despensa. Nesses dias, além do açúcar, vi tenho em dobro, feijão carioca.
Não acho que meu caso seja patológico, apesar de ter mais que três mil DVDs e Blu-Ray e mais de sete mil CDs, além de milhares de livros espalhados pela casa em prateleiras, inclusive no banheiro, esta, destinada à música e ao cinema, o que pode me classificar no gênero “colecionador”, mas não no de “acumulador”.
Nessa classificação, não conheci alguém que ganhasse, se houvesse um concurso, do seo José. Tendo convivido durante anos com ele, passando muitos fins de semana no sítio perto de Campinas, fiquei sabendo de muitas histórias, contadas pelos seus filhos, e algumas, que presenciei. Lembro de uma vez em que comprou um quilo de orégano. Dona Palmira, sua mulher, distribuiu saquinhos de orégano para quem aparecia na sua casa.
No tempo em que a linha telefônica era cara e difícil de se adquirir, tinha mais de dez. Bom, aí existia uma coisa objetiva: alugava e levantava um bom dinheiro. Com isso, alguns imóveis e uma boa aposentadoria como funcionário público, pode-se dizer que conseguia viver confortavelmente.
Ele tinha uma maneira sui generis de complementar a aposentadoria. Um exemplo: quando o metrô foi inaugurado, em 1974, comprou 1.000 bilhetes. Li em algum jornal, talvez há cerca de dez anos, em que se dizia que o preço do bilhete valorizou mais que qualquer aplicação financeira, mais que poupança ou ações. Não sei se ele tinha essa visão de grande investidor ou estrategista financeiro. Como bom descendente de português, acumulava e gastava pouco.
O famoso “tijorola”
Logo que o telefone celular foi lançado, quando você tinha ficar na fila para conseguir comprar um, ser José comprou duas linhas. Lembro que sua filha foi uma das primeiras pessoas que conheci que possuía o que era conhecido como “tijorola”. Explico: a primeira marca a surgir foi a Motorola, que dominou por anos o mercado, junto com a Nokia, que veio logo a seguir. O aparelho era enorme. Lembro também que os exibidos de plantão adoravam se mostrar com eles presos na cintura. Sempre tem um metido por mór. O ex-deputado federal Carlos Benevides, filho de Carlos Mauro Cabral Benevides, que foi senador entre nas anos 1970 e 80, ficou famoso porque gostava de se exibir com dois celulares, um em cada lado da cintura. Deram-lhe o apelido de “o mais rápido do Oeste”, remetendo aos pistoleiros dos westerns americanos.
Muitos leitores provavelmente nem vão saber dos famosos orelhões da Telesp. Foi uma criação genial de uma designer brasileira, uma derivação das cabines telefônicas de antigamente. Para utilizá-los eram necessárias as fichas telefônicas, de formato redondo, como as moedas, com uma ranhura no meio. Você inseria as fichas para poder fazer a ligação. Todo mundo andava com essas fichas no bolso para o caso de terem que ligar para alguém. Digo todo mundo porque todo mundo andava mesmo com as tais fichas porque era o único modo de se telefonar quando se estava na rua. Pois então, sei José tinha 1.500 delas em casa. Quando ficaram obsoletas, com o surgimento dos telefones móveis, algo tinha que ser feito. Um dos filhos levou-as até uma central da Telefônica e recebeu o valor correspondente em dinheiro.
Apesar das diferenças de idade, ela e ele, mais de vinte anos mais novo que eu, ficamos muito amigos e mantivemos por alguns anos uma forte amizade, mesmo fora do trabalho. O que nos uniu foi que tínhamos muitos interesses em comum. A primeira aproximação foi com ele. Como ouvia música em qualquer momento, tinha uma caixinha de som e ficava trabalhando embalado pelo jazz. Ele veio puxar uma conversa porque eu estava ouvindo John Coltrane, se não me falha a memória.
Com ela, lembro que nossa primeira conversa foi sobre cinema. Assistia tudo, conhecia muito, adorava Audrey Hepburn em “Boneca de Luxo” (“Breakfast at Tiffany’s, 1961), de Blake Edwards. Amava também Diane Keaton e Woody Allen. Apesar de ter menos de 30 anos na época, em vez de filmes contemporâneos, tinha predileção pelos clássicos americanos das décadas de 1950 e 60. Tínhamos outra predileção em comum, os discos de Eydie Gormé cantando boleros, que, aliás, ele detestava e achava muito brega. Adorávamos também o álbum “Lágrimas Negras” de Bebo Valdés e o espanhol El Cigala. Esse ele odiava mais que a vida. Em casa, quando coloquei o vídeo, ele, num ataque de ira, tirou o DVD e disse: “Isso vocês não vão ouvir!”. Aí colocou “Pulse”, do Pink Floyd, que ele adorava.
Passamos a fazer coisas juntos. Como eu tenho quase todos esses clássicos, os discos e filmes em DVD, muitos dos encontros aconteciam na minha casa. Eu fazia jantares ou lanches e bebíamos bem. Eu e ela tínhamos uma preferência especial pelas “torch songs”, que hoje podemos classificar como “sofrências”, mas por favor, não nos confundam com fãs de música sertaneja. Daí a razão de gostarmos especialmente do estilo “esganado” de cantar de El Cigala.
É aqui que Nana Caymmi entra na história. Um dia saímos nós três e o Ricardo, que não tinha quase nada em comum com a gente. Fomos no meu carro ao restaurante. Na época, tinha um aparelho de MiniDisc, que hoje nem mais existe. Tinha o costume de fazer seleções temáticas para ouvir no trânsito – playlists, para usarmos a expressão atual. Na volta do almoço, começa a tocar “Boca a Boca” (Milton Nascimento, Fernando Brant). Entramos no estacionamento, desliguei o carro, e ficamos ouvindo a música até o fim. Nós três, emocionados, em silêncio, estávamos com os olhos marejados. Saímos em silêncio, sem trocarmos uma palavra. O Ricardo não deve ter entendido nada.
Ouça o meu playlist com a Nana. As minhas preferidas são da década de 1970.
Até os onze anos morei em Passos, MG. Na minha infância ouvia Tonico e Tinoco, Miguel Acevez Mejía, Agnaldo Timóteo e Elvis Presley, os preferidos da Elsa, que era a empregada doméstica – era assim que eram designadas naquele tempo. Meus pais vinham a São Paulo com frequência, mais meu pai que tinha que vir para comprar materiais para a sua loja de fotografia.
Nas vezes em que minha mãe o acompanhava sempre vinha com novidades fonográficas. Trazia discos (chamados compactos simples, em que cabiam apenas duas músicas, uma em cada lado dos disquinhos). Assim, meu gosto foi ficando mais sofisticado. Não sei se ela pedia recomendação nas lojas, mas trazia os sucessos da época: Wanderley Cardoso, Ronnie Von e Chico Buarque, que fez o maior sucesso em um dos primeiros festivais da TV Record com “A Banda”. Ah, não posso deixar de citar Roberto Carlos. A televisão não tinha chegado em Passos, mesmo assim comprava semanalmente a revista “Intervalo” e ficava sonhando com o dia em que me pai comprasse uma. Na revista, na parada de sucessos musicais, o destaque eram os Beatles, de quem não fazia a menor ideia do que tocavam.
Pensando na educação dos filhos, meu pai, quando terminei o primário, que eram os primeiros anos do antigo primeiro grau, com o dinheiro que ganhou, construiu um sobrado em que a loja ficava no térreo e casa no outro pavimento em um bairro da periferia de São Paulo, onde dois de seus irmãos tinham se estabelecido.
Desse início em São Paulo, em poucos anos ele montou uma loja em um lugar melhor, o Brooklin Paulista e prosperou. Comprou um terreno no bairro do Morumbi e construiu uma nova casa.
Bom comerciante, em pouco tempos “engoliu” seus dois concorrentes na região. A Foto Yokoyama virou “a loja do Brooklin”. Executivos da Volkswagen, Alpargatas, Casas Pernambucanas eram seus clientes, moradores da parte rica do bairro. Algumas figuras mais conhecidas moravam lá também e se tornaram clientes, dentre eles, Rivellino e alguns astros da música: Agnaldo Rayol, seu irmão Reynaldo Rayol, Marcos Roberto e Marcos Fridman, esse últimos que apareciam eventualmente no programa Jovem Guarda, de Roberto e Erasmo Carlos.
Um pequeno parágrafo antes de chegar ao último. Agnaldo Rayol era o representante, digamos, da música brega, comparando-o com Ronnie Von e Roberto Carlos. Fizera o maior sucesso com “A Praia”. Foi tanto que saiu até um disquinho promocional da pasta de dentes Kolynos. Aposto que quem nasceu em meados dos anos 1950 deve ter tido esse compacto simples, brinde que você ganhava ao comprar o dentifrício.
Bem, chegando onde eu queria chegar. O Agnaldo Rayol ia fazer uma viagem ao exterior e precisava tirar a foto 5x7 para o passaporte. Ligaram para a loja avisando que ele ia em um horário determinado, sabe, tipo estrela mesmo. Naquela época fãs atacavam seus ídolos, rasgavam suas roupas etc. Evidente que meu pai nos avisou e, estávamos todos lá, minha mãe e meus irmãos. Entra ele todo bem vestido, com óculos escuros maior que a cara dele, tira a foto e vai embora. Esse foi o meu único e derradeiro encontro com o Agnaldo Rayol.
Em toda a minha infância nunca soube da existência de uma parte do boi: o filé mignon. Em Passos, MG, cidade em que morei até os 11 anos, quando se comia um bife, o normal era a alcatra ou o contra filé.
Um tempo depois de mudarmos para São Paulo, pela primeira vez na vida, soube que existia o filé mignon.
Minha mãe sempre foi partidária da participação de todos nas tarefas domésticas. Tornei-me o comprador oficial de carne. Até hoje, olhando para as peças em um açougue, reconheço cada corte. Se era carne moída, a escolha era o patinho, para os bifes a rolê, o coxão mole ou o duro. Os bifes do dia a dia eram sempre de alcatra. Minha mãe dizia: “Só compra alcatra se tiver passado do meio da peça.” A carne é mais dura no começo dela. Nesse caso, a instrução era para comprar contrafilé. É uma coisa que não esqueci.
Morando em São Paulo, ao descobrir da existência do filé mignon, fiquei com vontade de experimentar. Minha mãe, no entanto, mantinha-se irredutível. Continuava na alcatra. Seu argumento: “Filé mignon é uma carne sem graça, seca e é para banguelas.”Bom, pra que discutir com a mãe?
Deve ter demorado uns cinco anos para que eu pudesse comer filé mignon pela primeira vez. Ela, inexplicavelmente, mudou de opinião e os bifes quase diários mudaram para esse corte.
Comida de rico. Apesar da infância de sacrifícios, meu pai era de hábitos requintados. Por exemplo, jogava golfe. Quando minha irmã foi para a Escandinávia, deu-lhe dólares para que trouxesse caviar, salmão defumado e enguia defumada, que ocuparam dois terços de sua mala na volta. Na década de 1970, eram itens da mesa de ricos, o que não era o nosso caso.
Sempre participei dos afazeres domésticos. Meu pai adorava fazer festas em nossa casa no bairro do Morumbi. Sobrava para minha mãe e sua auxiliar, a empregada doméstica da vez. No apuro, virei o terceiro auxiliar: batia maionese na mão, cortava cebola, picava alho e ficava a acompanhar o cozimento dos alimentos. Desse modo, adquiri uma certa habilidade com os utensílios domésticos e com a cozinha.
Meu pai chegava sempre por volta das 19h. A mesa já estava sempre posta. A peça de salmão defumado era de respeito, uns 40 cm., assim como a enguia defumada. Eu era o cortador oficial. Todas as noites, fatiava o salmão em finíssimas lâminas e a enguia em rodelas de menos de um centímetro de espessura. Durante semanas, diariamente, foi o menu de jantar do meu pai. O resto da família, exceto eu, nunca foi chegado em coisas do mar.
Em um das vezes em que o menu incluía filé mignon, enquanto se esbaldava com o caviar — comia de colherada —, salmão e enguia defumada, veio com essa: “Vocês ficam comendo filé mignon… e nem imaginam o tanto de gente que não tem nem tem o que comer!” E nós, mudos, olhando para a cara dele, impávida, a deliciar-se com iguarias pouco comuns em mesas de comensais da classe média.
Um termo que caiu em desuso é “flerte”, ou melhor, ninguém mais flerta. Um dos significados, segundo o dicionário Houaiss é “fazer a corte”. Nem “corte” é mais usado em nossos dias, pronunciado com o circunflexo e não com acentuação aguda, que significa outra coisa ainda.
Reencontrei com uma colega de faculdade que, por coincidência, morava no mesmo prédio de uma amiga íntima.
Dias depois, liguei para M, sua vizinha, e contei que tínhamos combinado de sair. Com a liberdade — ou liberalidade — das verdadeiras amigas, daquelas que dizem tudo sem receios, que te aconselham, e até te recriminam, disse: “Vai com calma! Ela é minha amiga e você não vai cair matando.” Bom, nunca fui de cair matando. Sou tímido. Sempre fui cuidadoso, até demais.
Fiz o que ela disse. Saímos para jantar e conversamos muito. Eu a conhecia pouco. Estudamos na mesma turma por um semestre e sequer era da turma com quem andava. Lembrava bem dela porque era muito bonita.
Curiosa, M ligou-me no dia seguinte e perguntou como tinha sido o jantar. Disse que tínhamos combinado de sair novamente. Não satisfeita de ter me orientado do que fazer uma vez, deu-me os próximos passos. “Leve-a para jantar em um local mais perto da sua casa e depois você pode convidá-la para assistir a alguma ópera no seu telão. Sei que ela gosta muito. Mas você não vai cair matando em cima dela!”
Pois fiz tudo nos conformes. Coloquei a “Flauta Mágica”, do Mozart. Conversamos sobre a cenografia, sobre os cantores. Entendia de ópera mesmo. Bom, a história termina aqui. A partir desse dia, nunca mais permiti que minha amiga palpitasse sobre como devo agir nessas situações.
O uso de artefatos explosivos sempre foi a modalidade mais comum nos atentados perpetrados por movimentos considerados terroristas, como o dos bascos, do IRA e dos árabes Causaram muitos estragos e mortes no continente europeu. Eram deixados em logradouros públicos de grande circulação ou em automóveis estacionados e, em vários casos os alvos almejados eram figuras públicas adversárias consideradas inimigas ou adversárias desses movimentos separatistas.
Uma modalidade, porém, pode ser considerada exclusiva dos árabes: a dos homens-bomba. Haveria a promessa de que no Paraíso os mortos seriam recebidos por 72 virgens. Talvez seja por isso a prevalência de homens nessa modalidade, mas até como forma de despistar um ou outro atentado foi praticado por mulheres. Objetivamente, seria mais fácil disfarçar ou esconder as bombas sob as vestes femininas.
Minha quase chegada ao paraíso. Embarcamos bem cedo, do aeroporto de Cumbica, para Montevidéu. Foi minha última viagem em um Boeing-747, minha aeronave preferida.
O hotel, meio antigo, ficava na avenida da praia, mas próxima da região central da cidade. Depois de andar bastante, de almoçarmos no Mercado, acabamos entrando em um shopping porque ela queria comprar um creme. Preferi dar uma explorada por outras lojas. Uns quinze minutos depois, voltei e ela continuava na loja. Preferi esperar no lado de fora, já um pouco impaciente e irritado com a demora, de cócoras, com as costas encostadas na parede.
Quando a vi saindo, devo ter levantado rapidamente e ter tido uma queda abrupta de pressão. Desmaiei. Na queda, bati a cabeça com certa violência e foi essa a razão de ter recobrado os sentidos no instante seguinte. Ao abrir os olhos vi três jovens moças agachadas perguntando se eu estava bem. Ela, não sei se pelo susto, nem se abaixou. Vi seu rosto e de mais umas cinco pessoas em pé observando. Fui levado para a enfermaria do shopping. Disse que estava bem e saímos em pouco tempo.
Mesmo em momentos graves, mantenho um certo senso de humor. “Achei que tinha morrido. Quando vi aquelas três belas garotas, achei que eram as primeiras virgens das 72 que me esperavam no paraíso”, disse. Ela ficou fula com a minha observação. Mas, passou. O resto da viagem foi deliciosa. Um dia volto a Montevidéu. Sem virgens.
Como música é vida, assista a um show da marroquina Amina Aloui, genial. Interpreta canções de raízes muçulmanas, em árabe, em espanhol e em português.
A buzina, nos carros, existe para alertar o outro, seja um pedestre ou um outro veículo. Como qualquer invenção, mesmo sendo para o bem, pode achar o seu espaço para o mal. Se é lenda ou não, dizem que Santos Dumont morreu desgostoso ao perceber que sua invenção poderia ser uma poderosa arma para a guerra.
Estava chegando ao estacionamento em que deixava meu carro diariamente. Bem na entrada, um senhor estava parado a admirar um outdoor de uma pin-up da revista Playboy. Buzinei para que ele permitisse que eu entrasse no estacionamento. Nada. Buzinei novamente. Saí do carro para falar que ele precisava sair da frente. Descobri então que ele era surdo e mudo.
O Conde, como era conhecido Carlos Conde, pelos amigos, foi um dos maiores colecionadores e expert do jazz, no Brasil. Teve um programa de jazz por muitos anos na rádio Cultura, interrompido pouco antes de sua morte.
Apesar da diferença de idade — cerca de vinte anos —, fiquei amigo do Carlos Conde ao ponto de, frequentemente, ser convidado a ir em apresentações em que ganhava convites, na condição de ter um programa especializado em jazz na rádio Cultura. Nas do Bourbon Street, Edgar, um dos sócios, reservava a mesa mais próxima do palco. Nnena Freelom, Carol Welsman, James Carter, John Pizzarelli tocaram e cantaram a menos de três metros de nós.
Ele tinha por hábito viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos. Era um cliente conhecido da loja mais especializada em jazz em Nova York, a Jazz Record Center, localizada em um prédio próximo à Union Square. Trazia mais de cem CDs por vez. Jogava as “jewel box” e trazia apenas os CDs, encarte e capas dentro de um Case Logic, para não dar na vista. Comprava as “jewel box” no Brasil e remontava-os.
Houve uma vez em que estivemos no mesmo período em Nova York e nos desencontramos. Não existiam celulares, o que dificultou a nossa comunicação. A gente se encontrou no check in do aeroporto, pois voltávamos na mesma noite. Coincidência.
Em outra ocasião, tinha acabado de voltar e nos dias seguintes quem ia para lá era eu. Nos Estados Unidos, os lançamentos acontecem em datas anunciadas. Por um dia, não conseguiu comprar o CD “The Classic Concert Live” (Concord Jazz 2005), de uma apresentação de seu cantor preferido, Mel Tormé, no Carnegie Hall, com Gerry Mulligan e George Shearing. Ele disse: “Preciso ter esse CD. Eu estava no show. É o primeiro em que tenho certeza de que estava na plateia.” Comprei na J&R, uma de nossas preferidas, localizada perto da prefeitura. Bem downtown, a J&R era um conjunto de lojas, uma do lado da outra, em que se vendia desde utensílios domésticos, equipamentos de som, CDs a computadores. Ele, como eu, íamos uma vez por dia, pelo menos. Fazia parte do meu roteiro, junto com a Tower, localizada no Village. Na volta, ainda passava na HMV da Times Square.
Fui até as Torres Gêmeas apenas na primeira vez em que fui a Nova York. Acho que há pontos turísticos que devem ser visitados uma vez apenas. É o suficiente. Peguei o barco para conhecer a estátua da Liberdade em uma única ocasião. Ao Empire State fui umas três vezes, isso porque em cada uma delas, estava com alguém que não o conhecia. Portanto, o World Trade Center “sumiu” da minha vida. Por essa razão não percebi que ficava a pouco mais de um quarteirão da J&R.
Um dia depois do atentado às Torres Gêmeas, me liga o Conde e diz: “Você sabe qual é o meio mais fácil de ir à J&R?” Depois de uma pausa, completou: “de avião.” Não entendi prontamente. Desculpe. É uma piada de humor negro e hoje soa um pouco incoveniente. Mas foi o que ele disse. O Conde tinha umas tiradas muito espirituosas. Era um lado divertido dele. Não presenciou o ocorrido porque voltou dois dias antes. Sua mulher e a filha ainda estavam em Nova York. Tiveram que adiar a volta.
No ano seguinte, fui a Nova York. Foi aí que percebi como as Torres eram perto da J&R. Fui até lá. Era um imenso buraco cercado por tapumes.
Agora vai um “Body and Soul”, pelo Mel Tormé. Era a canção preferida do Conde. Tinha todas as gravações que conheceu.
Dona Luzia, isso mesmo, dona – era como a tratávamos – foi empregada da minha família por um bom tempo, por cinco anos talvez. Era alcoólatra, fumante inveterada, negra, de tez bem escura, cerca de 1,80 de altura, muito magra, sem nenhum atributo de beleza, digamos que era feia, bem feia. Mesmo assim, não lhe faltavam homens. Tinha borogodó. Com cerca de 40 anos, aparentava 60.
Na minha casa ninguém bebia. Meu pai tinha uma ou outra garrafa de whisky para os amigos, devidamente escondidos, porque dona Luzia era daquelas que bebia até perfume e loção de pós-barba. Meu pai a aturava, quase não a via. Minha mãe sempre foi compreensiva e bondosa. Inclusive, exigia que tratássemos qualquer um de nossos semelhantes com respeito, pobres ou ricos. Acho que, por isso, o ‘dona’
Luzia”.
Sendo alcoólatra, de vez em quando, nem conseguia levantar e dar conta das tarefas domésticas. Minha mãe nasceu pobre e nunca foi de fugir do batente. Cozinhava e até auxiliava dona Luzia, quando ela não se encontrava em suas melhores condições de trabalho.
Anualmente, dona Luzia viajava para a Bahia no período de suas férias. Em uma delas, passado um mês, não voltou. Desapareceu. Não tivemos mais notícia. Cerca de cinco meses depois, ressurgiu do nada. Minha mãe nunca deixaria alguém desamparado. Dona Luzia voltou a trabalhar conosco, sem que a outra fosse despedida.
Contou-nos que ficara hospitalizada. Tinha uma cicatriz bem visível na testa. Disse que estava em um descampado e nisso, perseguida por um touro, bateu de cara em uma cerca de arame farpado.
A única parente que dona Luzia tinha em São Paulo era uma sobrinha, que, de vez em quando, aparecia e a levava para passear em fins de semana. Enquanto se arrumava para sair, a sobrinha acabou contando o que realmente acontecera. Estava em um bar, bebendo, é claro, e engraçou-se com um rapaz. Só não contava que a sua mulher estava junto. As duas brigaram e dona Luzia acabou levando uma facada na testa. Aquela marca não foi em decorrência de ter tentado se livrar de uma chifrada.
Dentre as empregadas domésticas que passaram pela casa da minha família, algumas se destacam por suas peculiaridades: dona Neusa, alcoólatra, que não voltou das férias por ter levado uma facada na testa, uma outra de peitos enormes que andava com um radinho de pilha encaixado no sutiã, uma pernambucana que dizia que era fácil de arrumar um matador por 200 reais, mas a de quem escrevo nesse momento, é por uma lembrança bem mais banal, mais ou menos banal.
Nem lembro do nome dela e nem por quanto tempo trabalhou na casa de meus pais. Devia ter uns 16 anos ou um pouco mais. Depois de um tempinho, percebi algo de estranho em seu olhar. Inicialmente achei que era estrábica. Conversando com ela um dia, por curiosidade, devo ter perguntado se tinha algum problema na vista. Disse que sim. Teve que colocar um olho de vidro.
Diziam que David Bowie tinha um olho de vidro, porque uma de suas pupilas não dilatava e os olhos ficavam de cores diferentes. Mas parece que tinha um problema por ter levado um soco em uma briga com um amigo por causa de uma amiga. Quem viu “O Homem Que Caiu na Terra” (1976), filme de Nicolas Roeg, protagonizado pelo inglês, deve ter percebido a diferença do tamanho das pupilas nos closes.
Estávamos na cozinha quando me contou do olho. Devo ter feito mais alguma pergunta. Prontamente, ela disse: “Quer ver como é o olho de vidro? Eu posso tirar para você ver.” E nisso, levou a faca que estava usando para cozinhar em direção a ele. Devo ter gritado ou apenas me assustado. Só me lembro que disse: “Não, não precisa!”
Reproduzo aqui, sei que que é um ato licencioso, mas é porque é a melhor coisa que li sobre Elisabeth Bishop, depois dessa celeuma de que apoiou a ditadura militar, tinha uma visão negativa sobre o Brasil, etc.
O texto:
Um porto na montanha
Elizabeth Bishop e a linda casa mineira onde viveu alguns de seus melhores anos de Brasil
Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo
03 de dezembro de 2019 | 03h00
De dezembro de 1951 a abril de 1974, a aventura brasileira de Elizabeth Bishop, a homenageada da próxima Flip, estendeu-se por 22 anos – alguns deles, os anos finais, vividos em Ouro Preto, sobretudo depois da morte de sua companheira, Lota de Macedo Soares, em 1967. A cidade não tomou conhecimento da grande poeta americana. Nós, os então jovens escritores de Minas, também não. Hoje, leitor apaixonado de tudo o que ela escreveu, carrego a frustração retroativa de ter cruzado com Elizabeth em Ouro Preto, talvez nas madrugadas de Belo Horizonte, sem me dar conta de quem estava ali. Consolam-me as histórias que saltam de seus livros e, em especial, da memória de seus (e meus) amigos Linda e José Alberto Nemer, vinhetas que um dia reuni com a pretensão de iluminar ainda mais a personagem que Marta Góes tão lindamente recriou na peça ‘Um Porto para Elizabeth Bishop’.
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Ela adorava aquela casa, construída entre 1698, dois anos após a descoberta do ouro na região, e 1711, quando Ouro Preto foi elevada à condição de vila. Comprou-a em 1965 e não teve outra na vida, a não ser o apartamentinho de Boston onde morreria em 1979. Tinha, dizia Elizabeth, “o telhado mais lindo da cidade”, cuja forma lhe sugeria “uma lagosta deitada de bruços”. Batizou-a Casa Mariana, não por estar plantada à beira do caminho que leva a essa cidade, mas em homenagem à poeta americana Marianne Moore, mestra e amiga. Perfeitamente conservada, pertence hoje aos irmãos Nemer.
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“Gosto de Ouro Preto”, explicou Elizabeth ao poeta Robert Lowell, “porque tudo lá foi feito ali mesmo, à mão, com pedra, ferro, cobre e madeira. Tiveram que inventar muita coisa – e tudo está em perfeito estado há quase 300 anos.” Não havia mudado de opinião cinco anos mais tarde, numa entrevista ao Jornal do Brasil: “De Ouro Preto, gosto sobretudo das coisas que são feitas aqui. Os móveis, os utensílios do século 18 são sólidos. O clássico não me atrai, o que importa é a durabilidade – aqui as coisas permanecem”.
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Elizabeth tinha dois gatos, Suzuki e Tobias, dados a se aconchegar. “Eles gostam de experimentar o colo das visitas”, explicava.
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Adorava café na cama. Levantava-se, fazia um tanto de coisas – e, de volta às cobertas, pedia o breakfast. Gostava de variar de bandeja e caneca, que tinha em profusão. Quando Anny Baumann, sua médica e amiga, foi passar uns dias na Casa Mariana, tratou de incorporá-la a esse desjejum na alcova. Tratavam-se de “Dra. Baumann” e “Miss Bishop”, mas a intimidade daquele desalinho matinal acabou estimulando a médica a propor uma quebra em tamanha cerimônia: “Já que nós tomamos café de camisola”, anunciou, “vou te chamar de Elizabeth”. Mas a amiga continuou a chamá-la de “Dra. Baumann”.
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Acordava e punha logo um disco. Janis Joplin, Bob Dylan – ou Joan Baez, cujas letras copiava, esperançosa de ensinar inglês a Linda Nemer. Queria traduzir Não Identificado, de Caetano Veloso, mas esbarrou na impossibilidade de passar para o inglês a conotação fonográfica embutida em “disco voador”.
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Teve uma jovem empregada, Vitória, e cuidou de vesti-la com uniforme, meias três-quartos e o mais. Para ensinar-lhe inglês, escrevia nas coisas os nomes que as designavam – window, table, chair... A cozinha da Casa Mariana era inteirinha escrita em inglês.
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Seu talento era também culinário. Preparava pratos indianos (trazia curry dos Estados Unidos), lombo de porco com purê de maçã, abobrinha ao forno, geleias, conserva agridoce de legumes, tortas de maçã e de limão... Bem americana, tinha termômetro para controlar o cozimento da carne, colherinhas para medidas exatas, panelas dinamarquesas com design dos anos de 1940. Inda há quem se lembre da batida de limão de Elizabeth Bishop.
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Bebia muito, muito, e quase sempre na cama – onde também costumava escrever, o caderno apoiado numa prancheta. Começava com uísque, descia para a cachaça. Depois de esvaziá-la, rolava a garrafa para baixo da cama. Não se levantava mais, e não via noite nem dia. Cantava, ria, chorava, conversava com imaginários interlocutores. Jamais agressiva. Virava um trapinho, obedecia às ordens que lhe dessem. Tinha dia de chamar Vitória, chamar o chofer e tocar para a casa de Linda, em Belo Horizonte: “Não aguento mais, me salva!”. A amiga lhe dava o confortável quartinho dos fundos e encarregava Dilza, a empregada, de preparar um suco de laranja, uma comidinha leve. Elizabeth, que era cheia de pudores, ficava constrangida quando a chamavam para a mesa – não queria que reparassem nas mãos trêmulas da bebida.
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Ao sentir que já não dava conta do alcoolismo, pedia para ser internada. Levavam-na então para a clínica Pinel, em Belo Horizonte. Depois passava uns dias na casa dos Nemer, antes de retornar a Ouro Preto. Atravessava romances policiais, estoques que o caçula José Alberto, jovem artista plástico, seu xodó, ia renovar na livraria. Pintava aquarelas em papel ingres que Linda comprava na Livraria Oscar Nicolai. E adorava engraxar sapatos – seus e de todo o pessoal da casa. Divertia-se também polindo a prataria. (Falava de duas “besteiras” que, entre muitas, nunca fez: vender a prataria e mexer no capital.)
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Belo Horizonte, disse em carta ao poeta James Merrill, era “a cidade mais feia do mundo”. Mas acabou descobrindo ali “alguns lugares bastante apresentáveis, até divertidos”, entre eles “um restaurante maravilhoso” (provavelmente o finado Tavares, especializado em caça) e um boteco onde, além de batidas “de todos os sabores possíveis”, topou certa vez com “cerca de sete poetas às duas da manhã”.
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Foi com Linda à serra da Piedade, nas cercanias de Belo Horizonte, e decidiram almoçar. O cozinheiro veio lá de dentro com o bife espetado no garfo. De tão batido, ficara quase translúcido. Elizabeth não parava de rir: “Eu vou comer um pedaço de renda...”.
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De passagem por Ouro Preto, umas grã-finas do Rio, amigas de Lota, foram visitar Elizabeth. A filha de uma delas, mocinha, lhe perguntou o que fazia na vida. “Sou escritora”, respondeu. “Ah”, disse a outra, “pensei que a senhora trabalhasse...”
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Uma noite Elizabeth improvisou um serão lítero-musical, com uma gente simples que provavelmente conhecera em botequins ouro-pretanos. Um dos convidados ia em meio à exaltada declamação de um poema quando irrompeu na sala, esbaforida, uma jovem americana, amiga de Elizabeth, trazendo um guardanapo que abriu teatralmente no centro da roda: “Escorpião! Escorpião!”. Parou tudo. A dona da casa voltou-se para o desacorçoado declamador: “Você, que é poeta, entende as tristezas que a gente passa...”.
Ela entendia.
E Bishop gostava de Janis Joplin e Bob Dylan.
De 1962/63, ou será 1964. “Girl from the North Country”.
Nada mais anímico do que “Ball and Chain”. A sua apresentação no Festival de Monterrey é inesquecível.
Em tempos não muito distantes, mas hoje, longínquos – 50 e tantos anos – os soviéticos buscavam o cosmos e os americanos, os astros. Esses desbravadores do espaço eram chamados, na União Soviética, de cosmonautas, e, nos Estados Unidos, de astronautas. A diferença parecia sutil sem ser. Essas duas nações representavam os opostos, a esquerda e a direita, e estavam em alerta incessante prontos a destruir um ao outro. Nessa coisa denominada “guerra fria”, a humanidade vivia a iminência de deixar de existir. Seres amedrontados, Terceiro Mundo ou Primeiro Mundo, Budapeste era um lugar praticamente proibido para os ocidentais. A guerra fria acabou, a União Soviética se desmembrou e o que se designava como “esquerda” virou abstração. E, surpreendentemente, o mundo esfriou, mesmo com o propalado aumento da temperatura global. E globalizados ficamos. O mundo virou internético com informações fáceis de serem coletadas até na mais longínqua paragem. Ficamos cínicos e boa parte da humanidade é solidária em catástrofes como enchentes, vulcões explosivos, terremotos e maremotos, mas pouco sensiveis à miséria e às ditaduras. É o que se poderia chamar de “solidariedade de butique”. Uma amiga perguntou à sua filha estudante de medicina no Rio de Janeiro se estava ajudando os desabrigados e feridos vítimas das enchentes no início do ano. Ela disse, sim, “doei um monte de roupas que não uso”.
No meio da década de 1960, numa cidade de 50 mil habitantes, como Passos (MG) não existia a televisão, mas as bancas vendiam uma revista de tiragem semanal chamada Intervalo, que publicava, além de notícias sobre artistas ou programas televisivos, a programação semanal. Era possível acompanhar a trama das telenovelas sem assistí-las pelas sinopses publicadas. Havia uma página “musical” que trazia sempre a letra de uma música que fazia sucesso. Os gostos musicais eram decorrentes das especifidades locais, uma cidade com 65% dos habitantes em regiões rurais. Apesar do sucesso de Altemar Dutra ou Agnaldo Timóteo, os adolescentes, sabe-se lá como, estavam ficando fãs da turma da Jovem Guarda. Tinha até professor de violão com o ensino voltado às correntes roqueiras. Destacava-se uma banda de meninos chamada Edinho e Seu Conjunto. Um menino da minha classe no ensino básico, o Otacílio, era um de seus componentes. Tocava acordeão. O Edinho, mais tarde, formaria o Edinho Santa Cruz e Banda. Tocou por um bom tempo no programa dominical de Fausto Silva.
Eram conhecidos e amados cantores como Roberto Carlos, Agnaldo Rayol e Wanderley Cardoso. Representavam o ápice da sofisticação cultural. De vez em quando, na página da revista Intervalo vinham impressas letras em inglês. Eram de uma banda britânica chamada The Beatles. Muitos, como eu, não o conheciam. É claro que Passos já tinha sido invadida pelos americanos. Filmes de Elvis Presley enchiam as salas dos cines Alvorada e Roxy e uma pequena parcela reagia histericamente com suas perturbadoras performances. Mas, sucesso mesmo, era Altemar Dutra – um must – e, quase tanto, um mexicano chamado Miguel Aceves Mejía.
O rock’n’roll foi um fenômeno massivo. Até os nacionalistas-tradicionalistas-stalinistas/realistas-socialistas foram obrigados a admitir a força desse movimento musical. Fora os Beatles, que tinham suas letras publicadas em revistas, pouco acesso se tinha às letras originais e, por conseguinte, cantava-se no que Toninho Horta chamou de “falso inglês” (“Eu ouvi Paul Anka/ Um dia/Eu ouvi Ray Charles/ Bill Halley/ No rádio eu sempre ouvi/ mas não entendia nada de inglês/ mas eu guardava o som/toda melodia sem poder cantar/ Eu tinha que inventar um jeito de cantar inglês.// […]// Beatles, Dylan/ ouvi uma vez e eu cantei/ Eu lembro que inventei/ todos se encantaram com meu falso inglês.”). O pouco acesso às letras em inglês fizeram com que minhas músicas preferidas da época em que, realmente, passei a comprar discos e ouví-los à exaustão, se transformassem em massas sonoras em que as letras não possuam o mínimo significado para mim. Credito um pouco minha preferência pela música instrumental (jazz, principalmente) à dificuldade de saber do que tratavam as letras de As Tears Go By e Ruby Tuesday, dos Rolling Stones, ou de dar o mesmo valor para os “obla-di-o-bla-da” se comparados a “Help/ I need somebody/ Help, not just anybody/ Help, you know I need someone/ help!”. Essa “distorção” se estendeu até às músicas cantadas em português. Posso cantá-las e, frequentemente, canto sem prestar atenção em seus significados. Aí entram os amigos. Quando dizem “que letra linda tem tal música!”, aí resolvo prestar atenção e descubro que elas são parte complementar e, em muitos casos, essenciais.
Bem, o que a calça tem a ver com a cadeira, como disse Ferreira Gullar noutro dia? Apenas o último parágrafo tem relação mais direta com o que vem a seguir. Almoçava um dia com o Paulo Caruso e, cara bom de papo, capaz de conversar sobre temas mais improváveis – tem uma piada ou graça para tudo, inclusive com a desgraça –, como de costume, na maior parte do tempo, falamos de música. Suas antenas se direcionam muito às letras – suas releituras de músicas conhecidas em que coloca novas letras são, quase sempre, impagáveis. É uma deficiência essa dificuldade que tenho em prestar atenção às letras. Ainda bem que os amigos ajudam. Na penúltima vez em que nos encontramos, Paulo falou muito de Jorge Drexler e, naturalmente – não perguntem por que – a conversa caiu em Paulo Vanzolini.
E nem é por causa de Paulo que reproduzo a letra de Mulher Que Não Dá Samba, de Vanzolini. É que, alguns sábados passados, enquanto ia para a festa de aniversário da Maria Adelaide Amaral, na Serra da Cantareira, a amiga Vera Galli não parava de cantá-la. E, vejam, que letra genial, como a dos sambas mais espirituosos. Geniais os versos “Se atrás da bronca viesse a roupa limpa, o café quente/ Ou se fosse ignorante no claro e ardente no escuro/ […]/ Mulher que não dá samba eu não quero mais”.
Mulher Que Não Dá Samba
Parece que vai tudo em santa paz
Na base do mais ou menos
Um pouco mais menos que mais
Tão regular, sem reclamar
Porém não satisfaz
Mas francamente, de que serve tanta paz
Ainda se fosse brava porém competente
Se atrás da bronca viesse a roupa limpa, o café quente
Ou se fosse ignorante no claro e ardente no escuro
Eu lhe asseguro
Não faria falta a paz
Mulher que não dá samba eu não quero mais
Mulher que não dá samba eu não quero mais
Ouçam-na cantada por Carmen Costa e Paulo Marques: