sábado, 24 de outubro de 2020

Flerte

Um termo que caiu em desuso é “flerte”, ou melhor, ninguém mais flerta. Um dos significados, segundo o dicionário Houaiss é “fazer a corte”. Nem “corte” é mais usado em nossos dias, pronunciado com o circunflexo e não com acentuação aguda, que significa outra coisa ainda.

Reencontrei com uma colega de faculdade que, por coincidência, morava no mesmo prédio de uma amiga íntima.

Dias depois, liguei para M, sua vizinha, e contei que tínhamos combinado de sair. Com a liberdade — ou liberalidade — das verdadeiras amigas, daquelas que dizem tudo sem receios, que te aconselham, e até te recriminam, disse: “Vai com calma! Ela é minha amiga e você não vai cair matando.” Bom, nunca fui de cair matando. Sou tímido. Sempre fui cuidadoso, até demais. 

Fiz o que ela disse. Saímos para jantar e conversamos muito. Eu a conhecia pouco. Estudamos na mesma turma por um semestre e sequer era da turma com quem andava. Lembrava bem dela porque era muito bonita.

Curiosa, M ligou-me no dia seguinte e perguntou como tinha sido o jantar. Disse que tínhamos combinado de sair novamente. Não satisfeita de ter me orientado do que fazer uma vez, deu-me os próximos passos. “Leve-a para jantar em um local mais perto da sua casa e depois você pode convidá-la para assistir a alguma ópera no seu telão. Sei que ela gosta muito. Mas você não vai cair matando em cima dela!”

Pois fiz tudo nos conformes. Coloquei a “Flauta Mágica”, do Mozart. Conversamos sobre a cenografia, sobre os cantores. Entendia de ópera mesmo. Bom, a história termina aqui. A partir desse dia, nunca mais permiti que minha amiga palpitasse sobre como devo agir nessas situações.

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