quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Norah Jones é sempre ela mesma

 

Com o tempo, passamos a dar importância cada vez menor ao que um dia nos impressionou ou nos deixou apaixonados. E, pensando bem, por que? E se esse encanto esquecido, um dia, retorna?

Há algo de perenal quando ouço um novo trabalho de Norah Jones. Calma! Não a colocaria no pedestal dos gênios, como o que ocupa Billie Holiday ou Miles Davis. Quem sabe, melhor que não seja um gênio, que seja alguém que lhe traz esse sentimento de encantamento, sem que percebamos, como um amor suave, sem arroubos de ame-o ou deixe-o.

Comigo acontece de forma original.Ressurge sem que ao menos perceba.Cada novo álbum dela me provoca isso. Esqueço, e quando vem o outro, volta o mesmo sentimento. Por que?

Lançada sob a égide de um mega esquema de marketing como a nova voz do jazz. pela gravadora Blue Note, “Come Away with Me” vendeu como água em dia de verão. Até hoje, são 27 milhões de cópias vendidas. Passei a infância em Minas, portanto, sou desconfiado. Não caí na conversa da Blue Note. Mas sou curioso. Ouvi e concluí que de jazz não tinha nada. E achei bem normalzinho.

A mudança de opinião em relação à sua música aconteceu por vias tortas. Veio ao assistir “My Blueberry Nights”, no Brasil, intitulado “Um Beijo Roubado”. No filme dirigido por Wong Kar-Wai. Lizzie, ou Elizabeth, abandonada pelo namorado, vai curtir a for de cotovelo no café de Jeremy que fica perto de onde mora e lá permanece até ser a última cliente. A origem do título é justamente o último pedaço de torta de blueberry, oferecido pelo personagem protagonizado por Jude Law. Acho que nessa cena captei a tônica da música de Norah. Imagino que Kar-wai, cineasta com gosto apuradíssimo para a música, deve tê-la convidado por ter captado essa conexão. No seu olhar de abandono, à procura de algum conforto, creio que descobri o que era a sua música. 

Outra evidência da conexão de Kar-Wai com a cultura pop é ter Chan Marshall, mais conhecida como Cat Power, fazer uma aparição breve como Katya.

Não sou de prestar atenção em letras, acho que por ouvir mais jazz e música erudita. Mas quando me atenho ao seu teor, percebo que são confessionais, quase sempre. Uma boa descrição sobre as composições de Jones é a de Damien Morris, em “The Guardian” (21.6.2020):

“A música foi definida para não perturbar, mas Jones encontrou uma maneira matizada e emotiva de discutir perdas, mentiras, arrependimento, indecisão e depressão.”

Nesse momento anômalo em que vivemos, versos como “não parece tão triste, não é tão ruim assim/ Ou é?/ Pode ser hoje.” encaixam-se perfeitamente. Jones está isolada, como a maioria da população, com seus dois filhos, mas não para de compor. Algumas faixas da edição especial são de registros feitos no isolamento imposto pela pandemia.

É por isso: quando “esquecemos” dela, chega com uma música que toca nossos corações e almas. Não é pouco. “Pick Me Up Off the Floor” é um grande álbum.Os destaques, para o meu gosto são “Heartbroken, Day After”, “I’ll Be Gone”, “Trying to Keep Together”, “It’s Gonna Be” e “I Am Missing You”. As duas últimas estão na edição especial recém lançada.

Assista a um vídeo de Norah Jones na sua casa: “That’s the Way the World Goes Round”.

 

Ouça.

2 comentários:

  1. Como sempre sua abordagem é dinâmica,vou dar atenção às considerações,não ouço nada dela ,talvez esteja na hora.O filme é legal mas confesso q não me lembro da parte musical.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou me referindo à escolha das músicas que o diretor Wong Kar-Wai em outros filmes, não especificamente deste. Ele usa bem em “Amor à Flor da Pele”. Em “My Blueberry Nights”, inclui Cat Power, que faz uma pequena ponta.

      Excluir