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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Canadá e suas cantoras

O Canadá é quê nem o Santos, digo, o Santos Futebol Clube, o time de futebol. Sob esse parâmetro um tanto improvável, Diana Krall é o Pelé do Canadá. Como é difícil surgir um novo Pelé (há controvérsias), não será fácil surgir alguém como Krall, mas ambos estão sempre a revelar novos nomes. Depois de Edson Arantes do Nascimento o grande da atualidade é Neymar da Silva Santos Júnior, ou, simplesmente, Neymar. Acho que ainda não surgiu um Neymar no Canadá, mas há nomes a considerar.

Krall é bela (há controvérsias) – desculpe uma certa misoginia ou considerar essa qualidade –, talentosa, intérprete de voz inigualável, sensual, quente, além de excepcional pianista. Tal como Nat King Cole, abriu mão de ser o gênio do piano e priorizar o seu lado cantor. Diana, hoje, mais cantora que pianista, até hoje, não assumiu exatamente esse papel. Nunca deixou de apresentar-se sentada usando o instrumento como “acessório”. Nat, ao contrário, assumiu o papel e, carismático, foi o primeiro negro a ter um programa de TV (durou pouco, apesar do sucesso, pois ninguém – leia-se brancos – teve coragem de patrocinar a atração).

Além de bons instrumentistas, como Oscar Peterson, Oliver Jones, Dave Young, Renee Rosnes, Gil Evans e Maynard Ferguson, o Canadá tem sido pródigo em revelar bons cantores como Paul Anka, Michael Bublé (há controvérsias se ele é bom), Sophie Milman (é russa naturalizada canadense), Holly Cole, Carol Welsman, Nikki Yanowsky (mais pop que jazz), Susie Arioli, Brigitte Zarie, Emilie-Claire Barlow, Elizabeth Shepherd (é a diferente) e Laila Biali. Nenhuma das citadas é um Neymar, no entanto, merecem atenção, caso de Carol Welsman. É bonita, no alto de seus 55 anos, uma loura de belo porte, uma potranca, como diria um amigo, toca piano e canta. Quando se apresentou em São Paulo, no Bourbon Street, nos impressionou, a mim e ao Carlos Conde, não apenas por essas qualidades, mas por um pequeno detalhe: apresentou-se descalça. Depois do show, fomos ao camarim e ganhamos autógrafos nas capinhas de CD que tínhamos levado.


Veja Carol com Djavan e Oscar Castro-Neves, cantando em português.




Do time das veteranas, outra bem conhecida é Holly Cole. Não é uma grande cantora, mas tem seu encanto. Veja-a cantando I Can See Clearly Now.




Das mais (um pouco mais) novas, Emilie-Claire Barlow é bem interessante. Seu Live in Tokyo (2014) é muito bom mesmo, bem vibrante. O último também é bem interessante. Clear Day é Barlow com a Metrople Orkest. Veja a apresentação do CD mais recente.




Ouça Like a Lover, de Dori Caymmi, com Emilie-Claire.




Nikki Yanofsky é menos interessante. Ela não se decidiu se quer ser uma cantora de jazz ou ser pop. Aqui ataca no jazz cantando o clássico You’ve Changed.




Susie Arioli não faz feio cantando Pennies from Heaven.





Laila Biali, com Krall, canta e toca pian, como Krall e Welsman.
Veja Biali cantando Show Me the Place, de seu conterrâneo Leonard Cohen.




Laila canta outro conterrâneo, dessa vez, Neil Young (Heart of Gold).




Não poderia faltar outra canadense. Laila canta Woodstock, de Joni Mitchell.




Sophie Milman preenche, com méritos, vários quesitos para ser uma estrela. COnfira em Água de Beber.




Outra: La vie en rose.




No clássico Like Someone in Love.




Quer saber um pouco mais de Milman? Leia em http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2012/05/sophie-milman-cantora-que-veio-do-frio.html

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sophie Milman, a cantora que veio do frio

In the Moonlight, o mais recente de Milman
Com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, abriram-se as portas para a exportação massiva de mulheres para trabalharem na prostituição – só na Ucrânia, um dos países da antiga república, são mais de 50 mil – e de talentos musicais, fora o Femem, aquele grupo de mulheres que fazem topless para protestar contra qualquer coisa – o aquecimento global, a exploração de mulheres, a violência doméstica, Silvio Berlusconi, matança de ursos –, em resumo, contra qualquer coisa, que é um dos produtos de exportação mais vistosos da Ucrânia. O Brasil que espere: Inna Shevchenko, líder do grupo, está querendo montar um protesto em nossas terras contra a exploração e prostituição de crianças e adolescentes.

No terreno do jazz, o músico mais conhecido é o jovem pianista Eldar Djangirov, nascido no Quirquistão. Habilidosíssimo, abusa da técnica; cansa um pouco: sua apresentação no Brasil tocando só foi de uma chatice ímpar. No terreno pop, a moscovita de origem judaica, Regina Spektor é destaque. Cantora, compositora, é uma das top ten atual; sou fã (leia e ouça duas performances matadoras de Spektor em http://bit.ly/Kj9oH5). A terceira, que veio dos Montes Urais (você que frequentou as aulas de geografia, já deve ter ouvido falar dessa região), e de quem falei na semana passada, é Sophie Milman (http://bit.ly/IWrIIK).

Disse que tenho ouvido bastante Milman. Ando focado no seu mais recente CD, Into the Moonlight. Chama a atenção os nomes envolvidos: arranjadores como Alan Broadbent, Gil Goldstein e Rob Mounsey, os pianistas Gerald Clayton e Kevin Hays, o baixista Larry Grenadier, Lewis Nash na bateria, Randy Brecker no flugelhorn, Chris Potter no saxofone tenor, Gregoire Maret na gaita, e os guitarristas/violonistas Romero Lubambo e Julian Lage. E, orbitando, Matt Pierson, produtor de discos de Joshua Redman, Brad Mehldau e Jane Monheit.

Sophie Milman, apesar de parecer fazer mais sucesso do Canadá do que nos EUA e, por isso, não muito conhecida, é uma intérprete firme, afinada e, além de tudo, bela, item que anda valorizado no mercado fonográfico, inclusive na música clássica. Sophie inicia o disco com um Do It Again (G. Gershwin/Buddy DeSylva) de respeito. A voz é quente e envolvente (a expressão em inglês “warm” é a melhor definição, o que, em português, soa redutor e sonso). A peteca não cai na seguinte – Oh Look at Me Now. Em Moonlight é acompanhada por uma orquestra, um piano ocasional em saboroso caldo bossa-nova. Speak Low é Speak Low: difícil estragar. Em alguns momentos, lembra (um pouco só) Helen Merrill. O mood de ’Till There Was You é absolutamente delicioso: o violão calmo de Julian Lage, o acordeão tocado por Gil Goldstein (faz um belo solo no final) de fundo, bela marcação de baixo. É uma das melhores do disco.

O início é um solo de trumpete. De novo, um mood bossa-nova, com aquele tapete sonoro de cordas que lembra belos arranjos de Claus Ogerman e Johnny Mandel, fazem a delícia para os ouvidos mais delicados quando canta Watch What Happens. Novamente acompanhada pelas cordas, Milman ataca de Prelude to a Kiss, de Duke Ellington. Bom, aí chega a vez de Ces Petit Riens, de Serge Gainsbourg. Foi cantada lá, muito longe, por Françoise Hardy. Mais recentemente, Stacey gravou em Breakfast at the Morning Tram (2007). É excepcional como qualquer coisa que essa americana radicada na Inglaterra faz (sobre Stacey, leia: http://bit.ly/L3ygSA, http://bit.ly/KKE8yf, http://bit.ly/IXq3MC, http://bit.ly/JcltNm, http://bit.ly/KKErZK). A de Milman tem o acordeão de Goldstein e é meio abolerada e muito boa. Ainda prefiro a de Kent, mas não é demérito nenhum dizer isso, e, depois, sou fã de carteirinha da mulher de Jim Tomlinson (sobre ele, leia: http://bit.ly/JdmiJg).

É inimaginável pensar que uma canção como Ces Petit Riens pudesse combinar com Feist. Mas não é que So Sorry, da cantora pop canadense combina como sequência? Essa também cabe nos destaques. A voltagem não cai quando canta Detour Ahead, Let Me Love You e Daydream. A moça tem classe; faz a gente pensar em Peggy Lee e Helen Merrill: Sophie é da linhagem das cantoras brancas. Para terminar e para o deleite dos “brazucas”, canta No More Blues, mais conhecida como Chega de Saudade, com a letra de Jon Hendricks. Aqui, Sophie remexe com as cadeiras. Em Take Love Easy, de 2009, a moça “balançava” bem, mas essa é conversa para uma outra oportunidade.

Veja Milman, em Do It Again.



Ouça a bela So Sorry, de Feist.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O disco esquecido de Sophie Milman

No meu tempo de criança, em Minas Gerais, entre o céu e o inferno existia algo chamado purgatório. Fiquei impressionado ao ver um féretro passando na rua com um pequeno caixão branco carregado por algumas pessoas e outros a seguir o cortejo. Era branco porque era de um recém-nascido que não tinha sido batizado ainda.

Na escola, a professora, uma vez, perguntou com quanto tempo tínhamos sido batizados. No dia seguinte, um a um foi dizendo; cinco dias, uma semana, um mês… quando chegou a minha vez: um ano. A professora arregalou os olhos e começou a gritar comigo. Tenho trauma disso até hoje. Acho que meus pais não levavam muito a sério a coisa do batismo. Eram católicos por conveniência e não deviam achar que batizar um filho tão depois que tinha nascido fosse um problema.

Por força da tradição mineira, fiz a primeira comunhão aos sete anos. Não fui crismado. Saí de Passos antes disso. Ir à missa aos domingos, feriados e dias santos deixou de fazer parte da minha vida depois disso, apesar de ter me mudado para uma casa a menos de 50 metros de uma igreja.

Hoje penso: se tivesse morrido antes de fazer um ano teria ido para o purgatório, ou limbo, como dizem; e parece que é pior do que o inferno.

A bela Sophie
Guardo os discos em várias estantes que se espalham pela sala de som e no hall. Devo dizer que sou um desorganizado com um sentido muito específico de organização: posso demorar alguns dias procurando alguma coisa pela casa, mas acabo localizando. No meio de tantas pilhas de CDs e DVDs há um trecho que chamo de “limbo”. Há anos vejo o CD de Linda Ronstadt cantando standards (é outra que não resistiu gravar Gershwin, Cole Porter Cia.), junto de outro também de vários artistas interpretando canções de Sting, da Blue Note (faz parte de uma série de coletâneas que seguem esse figurino e são, na realidade, estratégia para esse selo tradicionalíssimo de jazz faturar “unzinho”). Lembro bem desses dois pois estão há anos no mesmo lugar. No total são uns cinco CDs. Mas um dos que estavam no “limbo” tem sido objeto de audição constante nos últimos dias: Make Someone Happy, de Sophie Milman. (Desculpe, amiga, vou ser sincero: comprei-o porque estava barato e me chamou atenção a sua beleza em deslumbrante tomara que caia confeccionado em sedoso tecido – perdoe a repetição – de perfeito caimento. O fundo da capa é preto com ornamentos florais em cinza quase negro; e a imagem impactante de uma loura de olhos cinza de tom levemente azulado).

Toda vez que minha vista atingia o “limbo”, via aquela bela mulher. Resolvi que deveria ouvi-la com um pouco mais de atenção, e desde então, ando escutando algumas outras coisas dela que estão disponíveis na Internet. Estou gostando tanto que, aos descobrir que existe um DVD de Sophie – Live in Montreal –, encomendei-o pela Amazon.

Pela biografia em seu site, Sophie Milman nasceu nos Montes Urais. Saiu pequena da Rússia e, antes de fixar residência em Toronto, morou até os 16 anos em Israel. Com 21 anos gravou seu primeiro disco pela Linus Entertainment. Make Someone Happt (2007) é seu segundo álbum e foi lançado pela mesma gravadora. O CD foi agraciado como o melhor disco vocal do ano, em 2008, pelo Juno Awards, o Grammy canadense. Vende bem por lá. Não sei se acontece o mesmo nos EUA. Existem poucas referências sobre Milman na imprensa especializada em jazz. Sei de uma matéria na Downbeat assinada por Norman Provizer em uma matéria chamada “Trans-Continental Reflections”, de dezembro de 2008. Mais recentemente, com o lançamento de In the Moonlight, agora, em 2011, a imprensa especializada americana tem falado um pouco mais dela.

Apesar de o repertório de Milman estar calcado em standards, tem demonstrado bom gosto na escolha, mesclando-o com canções menos conhecidas e mais recentes. Em seu disco de estreia, mesmo cantando músicas consagradas como My Baby Just Cares for Me, The Man I Love ou My Heart Belongs to Daddy, mescla-as com Água de Beber, La Vie en Rose e Ochi chornyye (Dark Eyes), do ucraniano Yevhen Hrebinka.

People Will Say We’re in Love (Richard Rodgers/Oscar Hammerstein II), Like Someone in Love (Jimmy van Heusen/Johnny Burke) e Make Someone Happy (Betty Comden, Adolf Green e Jule Styne), a música-título, são os standards do álbum. Deixei da lado Fever (Eddie Cooley e John Davenport) e It Might As Well Be Spring (Richard Rodgers/Oscar Hammestein II) pois são destaques desse CD. Menos expansiva do que na interpretação consagrada de Peggy Lee, a de Milman é um exemplo de bom gosto e demonstração de seu domínio no canto. Pode não ser excepcional e nada tão acima da média, mas é agradabilíssimo ouvi-la. Seu It Might As Well Be Spring é contagiante. Duas canções – Reste (Cameron Wallis/Sara Latendresse), cantada em francês, e Undun (Randy Bachman) – são cantadas em ritmo meio bossa nova e são muito boas também. Rocket Love, de Stevie Wonder, é outro ponto alto, junto de Eli, Eli (a Walk to Caesarea), de Hannah Senesh, esta, um referência à origem judaica.

Veja Milman cantando Fever.



Cantando It Might As Well Be Spring.