Na escola, a professora, uma vez, perguntou com quanto tempo tínhamos sido batizados. No dia seguinte, um a um foi dizendo; cinco dias, uma semana, um mês… quando chegou a minha vez: um ano. A professora arregalou os olhos e começou a gritar comigo. Tenho trauma disso até hoje. Acho que meus pais não levavam muito a sério a coisa do batismo. Eram católicos por conveniência e não deviam achar que batizar um filho tão depois que tinha nascido fosse um problema.
Por força da tradição mineira, fiz a primeira comunhão aos sete anos. Não fui crismado. Saí de Passos antes disso. Ir à missa aos domingos, feriados e dias santos deixou de fazer parte da minha vida depois disso, apesar de ter me mudado para uma casa a menos de 50 metros de uma igreja.
Hoje penso: se tivesse morrido antes de fazer um ano teria ido para o purgatório, ou limbo, como dizem; e parece que é pior do que o inferno.
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| A bela Sophie |
Guardo os discos em várias estantes que se espalham pela sala de som e no hall. Devo dizer que sou um desorganizado com um sentido muito específico de organização: posso demorar alguns dias procurando alguma coisa pela casa, mas acabo localizando. No meio de tantas pilhas de CDs e DVDs há um trecho que chamo de “limbo”. Há anos vejo o CD de Linda Ronstadt cantando standards (é outra que não resistiu gravar Gershwin, Cole Porter Cia.), junto de outro também de vários artistas interpretando canções de Sting, da Blue Note (faz parte de uma série de coletâneas que seguem esse figurino e são, na realidade, estratégia para esse selo tradicionalíssimo de jazz faturar “unzinho”). Lembro bem desses dois pois estão há anos no mesmo lugar. No total são uns cinco CDs. Mas um dos que estavam no “limbo” tem sido objeto de audição constante nos últimos dias: Make Someone Happy, de Sophie Milman. (Desculpe, amiga, vou ser sincero: comprei-o porque estava barato e me chamou atenção a sua beleza em deslumbrante tomara que caia confeccionado em sedoso tecido – perdoe a repetição – de perfeito caimento. O fundo da capa é preto com ornamentos florais em cinza quase negro; e a imagem impactante de uma loura de olhos cinza de tom levemente azulado).
Toda vez que minha vista atingia o “limbo”, via aquela bela mulher. Resolvi que deveria ouvi-la com um pouco mais de atenção, e desde então, ando escutando algumas outras coisas dela que estão disponíveis na Internet. Estou gostando tanto que, aos descobrir que existe um DVD de Sophie – Live in Montreal –, encomendei-o pela Amazon.
Pela biografia em seu site, Sophie Milman nasceu nos Montes Urais. Saiu pequena da Rússia e, antes de fixar residência em Toronto, morou até os 16 anos em Israel. Com 21 anos gravou seu primeiro disco pela Linus Entertainment. Make Someone Happt (2007) é seu segundo álbum e foi lançado pela mesma gravadora. O CD foi agraciado como o melhor disco vocal do ano, em 2008, pelo Juno Awards, o Grammy canadense. Vende bem por lá. Não sei se acontece o mesmo nos EUA. Existem poucas referências sobre Milman na imprensa especializada em jazz. Sei de uma matéria na Downbeat assinada por Norman Provizer em uma matéria chamada “Trans-Continental Reflections”, de dezembro de 2008. Mais recentemente, com o lançamento de In the Moonlight, agora, em 2011, a imprensa especializada americana tem falado um pouco mais dela.
Apesar de o repertório de Milman estar calcado em standards, tem demonstrado bom gosto na escolha, mesclando-o com canções menos conhecidas e mais recentes. Em seu disco de estreia, mesmo cantando músicas consagradas como My Baby Just Cares for Me, The Man I Love ou My Heart Belongs to Daddy, mescla-as com Água de Beber, La Vie en Rose e Ochi chornyye (Dark Eyes), do ucraniano Yevhen Hrebinka.
People Will Say We’re in Love (Richard Rodgers/Oscar Hammerstein II), Like Someone in Love (Jimmy van Heusen/Johnny Burke) e Make Someone Happy (Betty Comden, Adolf Green e Jule Styne), a música-título, são os standards do álbum. Deixei da lado Fever (Eddie Cooley e John Davenport) e It Might As Well Be Spring (Richard Rodgers/Oscar Hammestein II) pois são destaques desse CD. Menos expansiva do que na interpretação consagrada de Peggy Lee, a de Milman é um exemplo de bom gosto e demonstração de seu domínio no canto. Pode não ser excepcional e nada tão acima da média, mas é agradabilíssimo ouvi-la. Seu It Might As Well Be Spring é contagiante. Duas canções – Reste (Cameron Wallis/Sara Latendresse), cantada em francês, e Undun (Randy Bachman) – são cantadas em ritmo meio bossa nova e são muito boas também. Rocket Love, de Stevie Wonder, é outro ponto alto, junto de Eli, Eli (a Walk to Caesarea), de Hannah Senesh, esta, um referência à origem judaica.
Toda vez que minha vista atingia o “limbo”, via aquela bela mulher. Resolvi que deveria ouvi-la com um pouco mais de atenção, e desde então, ando escutando algumas outras coisas dela que estão disponíveis na Internet. Estou gostando tanto que, aos descobrir que existe um DVD de Sophie – Live in Montreal –, encomendei-o pela Amazon.
Pela biografia em seu site, Sophie Milman nasceu nos Montes Urais. Saiu pequena da Rússia e, antes de fixar residência em Toronto, morou até os 16 anos em Israel. Com 21 anos gravou seu primeiro disco pela Linus Entertainment. Make Someone Happt (2007) é seu segundo álbum e foi lançado pela mesma gravadora. O CD foi agraciado como o melhor disco vocal do ano, em 2008, pelo Juno Awards, o Grammy canadense. Vende bem por lá. Não sei se acontece o mesmo nos EUA. Existem poucas referências sobre Milman na imprensa especializada em jazz. Sei de uma matéria na Downbeat assinada por Norman Provizer em uma matéria chamada “Trans-Continental Reflections”, de dezembro de 2008. Mais recentemente, com o lançamento de In the Moonlight, agora, em 2011, a imprensa especializada americana tem falado um pouco mais dela.
Apesar de o repertório de Milman estar calcado em standards, tem demonstrado bom gosto na escolha, mesclando-o com canções menos conhecidas e mais recentes. Em seu disco de estreia, mesmo cantando músicas consagradas como My Baby Just Cares for Me, The Man I Love ou My Heart Belongs to Daddy, mescla-as com Água de Beber, La Vie en Rose e Ochi chornyye (Dark Eyes), do ucraniano Yevhen Hrebinka.
People Will Say We’re in Love (Richard Rodgers/Oscar Hammerstein II), Like Someone in Love (Jimmy van Heusen/Johnny Burke) e Make Someone Happy (Betty Comden, Adolf Green e Jule Styne), a música-título, são os standards do álbum. Deixei da lado Fever (Eddie Cooley e John Davenport) e It Might As Well Be Spring (Richard Rodgers/Oscar Hammestein II) pois são destaques desse CD. Menos expansiva do que na interpretação consagrada de Peggy Lee, a de Milman é um exemplo de bom gosto e demonstração de seu domínio no canto. Pode não ser excepcional e nada tão acima da média, mas é agradabilíssimo ouvi-la. Seu It Might As Well Be Spring é contagiante. Duas canções – Reste (Cameron Wallis/Sara Latendresse), cantada em francês, e Undun (Randy Bachman) – são cantadas em ritmo meio bossa nova e são muito boas também. Rocket Love, de Stevie Wonder, é outro ponto alto, junto de Eli, Eli (a Walk to Caesarea), de Hannah Senesh, esta, um referência à origem judaica.
Veja Milman cantando Fever.
Cantando It Might As Well Be Spring.
Cantando It Might As Well Be Spring.

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