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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A batida de Dom Um Romão

Foto da capa de Hotmosphere (Pablo, 1976)
Quando entrou no Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, Dom Um Romão, no fim de 1971, era um veterano. Estava com 46 anos. Todo frequentador das noites cariocas o conhecia. Começou participando de orquestras de rádio ainda nos anos 1940, com o Copa Trio, em que era o baterista, tocou em muitas noites do Beco das Garrafas e na boate Vogue. Participou do álbum Canção do Amor Demais, de Elizete Cardoso (1958), tocou com Sergio Mendes e, como um dos membros de seu sexteto, o Bossa Rio, participou do lendário show no Carnegie Hall que apresentou a bossa nova aos americanos. O mesmo sexteto toca com Cannonball Adderley em seu disco “brasileiro” Cannonball’s Bossa Nova.

Dom Um fazia o diabo na bateria, misturando samba, bossa nova e jazz. Para Armando Pittigliani, influenciou todos os bateristas surgidos depois dele. Diz que “não há realmente um baterista jovem que não tenha um pouco de Dom Um no seu ‘jogo de pratos’, na sua acentuação do grande bombo, na marcação do contratempo no prato-de-pé e sobretudo naquele contra ritmo, com a baqueta esquerda cruzada sobre a caixa, que é, diga-se de passagem, um dos fortes do fabuloso drummer.” Alguns o chamavam de “Mefistófeles da Bateria”, pelo que fazia no instrumento e também pelas características faciais.

Em 1964, Romão gravou seu primeiro álbum, chamado Dom Um, como líder. Com arranjos de Waltel Blanco, com participações de JT Meirelles, Kaximbinho, Cipó, Jorginho e Paulo Moura, é uma aula .

Tendo participado de Flora Purim é MPB (RCA, 1965), Dom Um foi convidado pelo produtor e dono da Pablo Records a mudar-se para os EUA. Tocou com Stan Getz, Astrud Gilberto, participou também do famoso álbum de Tom Jobim com Frank Sinatra, excursionou pela Europa e fez parte do Brazil ’66, de Sérgio Mendes.

Acompanhando Flora Purim, Airto Moreira, pouco depois de ter mudado para os EUA, teve a sorte de ser apresentado a Miles Davis. Foi tão sortudo que é um dos que participa de Bitches Brew, , considerado o marco do jazz fusion. Dois outros membros regulares da banda, Joe Zawinul e Wayne Shorter, criaram o Weather Report e levaram Airto.

Airto participou do disco de estreia do Weather, mas tinha assumido cumprir uma agenda de shows com Miles Davis e preferiu sair. Dom Um Romão entrou na banda por sua recomendação. Ficou até meados de 1974.

Por conta de estar em uma banda tão importante, Romão chamou a atenção da gravadora Muse e lá gravou dois álbuns: Do Um Romão (1972) e Spirit of the Times (1973). Os dois têm mais ou menos as mesmas formações instrumentais e mesclam composições próprias, algumas de Dom Salvador, com quem tocara no início dos 1960, no Brasil, e de autores brasileiros como Edu Lobo, Milton Nascimento e Sivuca. São bons discos.


Ouça Ponteio, que está em Spirit of the Times.




Depois
Dom Um entrou para a superbanda Blood, Sweat & Tears, mudou-se para a Europa e montou a Dom Um Romão Quintet. Depois disso, não soube mais dele. Sei que morreu em 2005. Noutro dia, “descobri” um álbum chamado Rhythm Traveller, de 1998, produzido por Arnaldo DeSouteiro, gravado com músicos brasileiros. Interessante. Ainda ouço o seu primeiro solo, de 1964, para admirar o seu jeito único de tocar.

De Rhythm Traveller, muito boa é a versão para o clássico Mysterious Traveller. Como eu gostava dessa composição de Wayne Shorter! Acho que foi o último do Weather em que participou.

Ouça.



Ouca o seu primeiro, de 1964, com vários clássicos brasileiros. A batida em Telefone, de Menescal, é irresistível.




Ouça o primeiro álbum lançado pela Muse, de 1972.




Ouca Spirits of the Time na íntegra.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Algum Jaco Pastorius menos conhecido

A banda Weather Report já era bem conhecida e adorada antes da entrada de Jaco Pastorius. Em sua primeira formação, contava com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Miroslav Vitous, Airto Moreira e participações de Do Um Romão. Vitous saiu e em seu lugar entrou o Alphonso Johnson. Apenas no sexto disco (Black Market, 1976), ainda com Johnson na maioria das faixas, Pastorius participa de duas e é autor de Barbary Coast. É em Heavy Weather (1977) que, efetivamente, torna-se membro da banda. Permanece nela por mais três álbuns de estúdio e é o baixista da turnê mundial que resultou no duplo 8:30. O Brasil fez parte dessa excursão. Tive a felicidade de vê-los no Rio de Janeiro.

Com Heavy Weather, a banda ficou realmente popular, muito por conta de Jaco. Era um baixista diferenciado com seu Fender fretless. Fez escola. O história do baixo elétrico pode ser dividida em antes e depois dele. Surgiu uma legião de imitadores. Suas apresentações eram marcantes. Uma camada de talco era jogada no chão para que ele fizesse a sua coreografia. Sua figura magra, com uma bandana prendendo os longos cabelos ou toucas multicoloraidas, chamava a atenção mesmo.

Como onde tem muito cacique a coisa desanda, Jaco saiu. Victor Bailey o sucedeu. Era bom baixista, mas foi alertado por Zawinul para que não ousasse ser um novo Pastorius. Sua passagem deve ter traumatizado um pouco Zawinul e Shorter, apesar da popularidade adquirida com a sua entrada.

Pastorius é natural da Florida. Bem conhecido no estado, ele toca em algumas faixas do álbum Ira Sullivan. O veterano multinstrumentista – tocava flauta, saxofone e trompete –, natural de Washington D.C., fugiu do frio e mudou-se no início dos anos 1960 para Miami. Era presença constante da cena local, sempre tocando em clubes e bares de jazz. Foi assim que Ira conheceu os iniciantes Pat Metheny e Pastorius.


Ouça Portrait of Sal LaRosa, do álbum Ira Sullivan (Horizon, 1976).




Pat Metheny, quando gravou seu primeiro álbum solo, pela ECM, chamou o seu conterrâneo. Bright Size Life tornou-se um clássico. Pat já estava pronto desde o começo. Participara da banda de Gary Burton e logo chamou a atenção de Manfred Eicher. O disco é uma obra perfeita. .

Ouça a música-título.




Outra boa participação dele é com Paul Bley, Pat Metheny e Bruce Ditmas no álbum registrado em 1974. É a sua primeira gravação profissional, e foi lançado anos depois pela Improvising Artists com o título Jaco, aproveitando da fama ascendente do baixista.

Ouça Vashkar, a faixa de abertura.





Boa particpação de Jaco, no início da carreira, é no álbum Trilogue, do trombonista Albert Mangelsdorff. Veja-os em Trio Song.





Veja a íntegra do show, de onde o disco se origina. É um inusitado power trio, tendo Mangelsdorff como líder. O trombonista arrasa, como sempre. Foreign Fun é um dos destaques. É a terceira faixa.





Pastorius era um gênio, mas tinha um gênio do capeta, e tocava o diabo. Depois de sair do Weather Report, continuou a se apresentar em pequenos clubes e sua carreira entrou em declínio em razão do temperamento instável. Acabou entrando em uma briga e foi morto na porta de um clube. Tinha 35 anos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sweetnighter, o disco funky do Weather Report

A imagem da contracapa de Sweetnighter
Quando Wayne Shorter e Joe Zawinul resolveram montar o Weather Report, já eram músicos respeitados e conhecidos. Tinham uma coisa em comum: participaram das formações de Miles Davis em épocas diferentes.

Zawinul estudou no Conservatório de Viena antes de emigrar para os EUA, em 1959, e entrar na Berklee School of Music de Boston. Apesar do aprendizado clássico, pelo jeito, seu interesse era pelo jazz. No início da carreira tocou com o trompetista Maynard Ferguson, acompanhou Dinah Washington, foi da banda de Cannonball Adderley e gravou um belo álbum com Ben Webster (Soulmates, Riverside, 1963) antes de entrar na banda de Miles Davis.

Shorter nasceu em Newark, região pobre de maioria negra, e formou-se na New York University. Tocou com Maynard Ferguson, também. Depois, entrou na banda de Art Blakey e rapidamente passou a desempenhar o papel de diretor musical. Entrou para a nova banda que Miles formou, com ele no saxofone, Herbie Hancock no piano, Ron Carter no contrabaixo e Tony Williams na bateria. Esse quinteto foi um dos mais perfeitos da história do jazz. Tudo o que gravaram são obras-primas. Paralelamente, Wayne Shorter lançou vários discos como líder pela Blue Note. Hancock fez o mesmo. Ambos, bons compositores, são autores de vários standards que estão registrados nesses discos.

Depois da dissolução do quinteto, com Miles partindo para as suas aventuras eletrônicas, é a vez de Joe Zawinul entrar na vida do trompetista. É de sua autoria uma das composições que representam essa passagem de Miles: In a Silent Way. É o compositor também de Pharaoh's Dance, faixa de abertura de Bitches Brew, álbum divisor de águas do jazz.

Miles é o responsável – ou o “irresponsável” por desvirtuar o gênero – da nova vertente do jazz, que ficou conhecida por vários nomes: jazz fusion, jazz-rock, jazz progressivo. É sempre difícil classificar novas linguagens; é como essa história de pós-moderno ser depois do contemporâneo. Zawinul, um apaixonado por eletrônica, não ficou muito tempo com Miles. Tinha luz própria e não podia ficar ficar eclipsado pela sombra do mestre.

Joe e Wayne haviam se encontrado em outras oportunidades e não foi quando estiveram com Miles. Foi lá no início, com outro trompetista: Maynard Ferguson. Joe gostava de explorar as sonoridades dos teclados eletrônicos. Wayne nunca abriu mão do som acústico do saxofone tenor e do soprano. Mas a combinação revelou-se perfeita. Formaram o Weather Report, que viria a se tornar a grande banda do jazz fusion.

Se Miles empreendia uma grande revolução com Bitches Brew, a dupla análogo-eletrônica representou um avanço na exploração do jazz eletrônico. Na primeira formação, contaram com o baixista Miroslav Vitous, Airto Moreira e o baterista Alphonso Mouzon.

I Sing the Body Electric, título tirado de poema de Walt Whitman e do conto de ficção científica de Ray Bradbury, é o segundo álbum. Airto e Mouzon saíram e entraram outro brasileiro – Do Um Romão – e Eric Gravatt. Das sete faixas, as três últimas são registros ao vivo de uma apresentação em Tóquio. Algumas participações especiais são… especiais. A melhor é a de Ralph Towner, um dos grandes virtuoses do violão clássico no jazz, em The Moors, composição de Wayne Shorter.

Os dois primeiros discos, bem experimentais. eram de uma riqueza sonora muito original. Tinha algo das experimentações de Miles em In a Silent Way, pelas ambiências criadas por Zawinul, agora, não submetidas ao crivo do trompetista. Já eram admirados, mas não conhecidos como quando agregaram Jaco Pastorius à banda.

À primeira vista, Sweetnighter (Columbia, 1973) parecia descaradamente comercial. Passado o susto, ficava despudoradamente bom. Os temas eram melódicos, menos abstratos e experimentais. Era um prenúncio do som que ficou como marca mais característica do Weather Report a partir de Black Market. O álbum entre Sweetnighter e este – Mysterious Traveller – ainda tema muito a ver com os dois primeiros.

O início de Sweetnighter é matador. Em Boogie Woogie Waltz, além do contrabaixo de Vitous, há o baixo elétrico de Andrew White. A percussão é de Do Um Romão e Muruga, e a bateria, de Hershell Dwellingham.

Ouça Boogie Woogie Waltz.





Manolete, a segunda, é uma composição de Shorter. Os solos do sax são acompanhados por belas linhas de baixo. Ouça.




Adiós, de Zawinul, tem um pouco da atmosfera de suas outras composições.




Em 125th Street Congress, de Zawinul também, retomam os elementos funkies de Boogie Woogie Waltz, novamente com dois baixos, um elétrico e outro, acústico, e percussão de Do Um Romão e Muruga.




Will, a única composição de Miroslav Vitous, é um belo tema com ele no baixo elétrico, com Andrew White no corne inglês. É outro bom momento; menos funky e mais melódico.




A última é Non-Stop Home. Ouça. Com dois bateristas (Eric Gravatt e Herschell Dwellingham), apenas o baixo elétrico de Andrew White, sintetizadores pilotados por Zawinul, é um típica composição de Shorter, com ele no soprano.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Grachan Moncur III, o Thelonious Monk do trombone

Grachan Moncur III. Com um nome desses tinha que tornar-se alguém na vida. Foi fácil quando virou músico profissional. Nem precisou esquentar a cabeça para inventar um nome artístico, como Paul David Hewson, que virou Bono Vox. Alguns poderiam ter mantido seus nomes originais, como Declan Patrick MacManus, certo que um tanto pomposo, mas preferiu Elvis Costello para homenagear seus ídolos. Meu amigo Zeca Leal gostava de Phineas Newborn, Jr. Costumava dizer que alguém com um nome desses tinha de ser bom.

Várias coisas poderiam fazer pensar que Grachan Moncur III estava destinado a ser uma estrela à altura de outro trombonista: J.J. Johnson. Mas, hoje, poucos o conhecem e não sabem o que perdem.

O pai de Grachan era baixista profissional e o primo, o saxofonista Al Cooper, foi membro do Savoy Sultans. Quando criança, em Newark, eram frequentadores da casa Dizzy Gillespie, Babs Gonzalez e James Moody. Sarah Vaughan, amiga de sua mãe, quando aparecia por lá, exercitava seus dotes culinários. Estudou piano e violoncelo antes de experimentar o trombone. Nem tinha dez anos.

Em Newark, lugar de pobres e negros, perto de Nova York, o ambiente musical fervilhava. Moncur foi tocar na orquestra da Associação Cristã de Moços. Um que tocava lá era Wayne Shorter. Sua mãe, temendo que o filho se envolvesse com drogas, uma praga em Newark, preferiu que ele fosse fazer o colégio na Carolina do Norte. Formado e de volta às origens, entrou na banda do pianista Nat Philips. Mais uma vez, cruzou com Wayne Shorter. Depois, cada um foi para o seu canto.

Estudou na Manhattan School of Music e na Julliard. Montou seu grupo. Fizeram uma audição em um clube e o dono topou que tocassem lá… sem ele. Mas Deus estava do seu lado. Pouco tempo depois, foi convidado para tocar na orquestra de Ray Charles, uma estrela já naquela época. Ficou um ano e meio viajando com o cantor. O trombone de Moncur chamou a atenção de Art Farmer e Benny Golson.

Ser membro do Jazztet, do trompetista e do saxofonista, foi o grande passo. Farmer disse-lhe que, pela criatividade dos solos, poderia compor. Sonny’s Back foi a primeira, feita em homenagem ao seu ídolo Sonny Rollins. Mostrou-a a Golson, autor de clássicos como Killer Joe e Moanin’. Gostou tanto que virou o tema de encerramento das apresentações da banda.


Ouça Sonny’s Back.




Moncur disse que, em apenas meia hora, com Art Farmer ensinando-lhe como fazer notações musicais, sentado ao piano, valeu mais que todo o aprendizado nas escolas. Deu tão certo como compositor que, até em álbuns em que era sideman, como em alguns gravados com Jackie McLean, a maioria dos temas era dele.

Um dos trombonistas mais conhecidos na história do jazz é J.J. Johnson. Ficou famoso pela rapidez com que tocava. As maiores influências de Moncur foram Frank Rosolino, Trummy Young e Bennie Green, mais do que J.J. Ele não moldou seu estilo calcado na velocidade. Ficou conhecido pelas frases curtas e sincopadas. Era um modo muito original, que lembrava o de Thelonious Monk ao piano.

Apesar de ter participado de muitos álbuns pela Blue Note, tem poucos lançados como líder. Mas o selo ficou conhecido por gravar com vários líderes diferentes mas com os mesmos músicos. Em um disco de Wayne Shorter, o pianista era Herbie Hancock, e no dele como líder, o saxofonista poderia ser Shorter. Por essa razão, percebe-se uma semelhança entre discos de autores diferentes. Pode-se dizer que existia um “som Blue Note”.

No caso de Moncur, sua presença em títulos de Jackie McLean é marcante, inclusive por várias composições de sua autoria incluídas. São quatro os álbuns que contam com a participação do trombonista: Destination… Out! (Blue Note, 1963), One Step Beyond (1963), ’Bout Soul (1967), e Hipignosis (1974). Um traço interessante de alguns desses discos é a formação diferenciada, contando com a adição do vibrafone de Bobby Hutcherson.

Um bom exemplo é Love and Hate, composição de Moncur, que está em Destination… out! Belíssima.




Neste mesmo ano, lançou seu primeiro como líder: Evolution. Tinha muitas semelhanças com os discos de Jackie McLean. Isso acontecia muito por Moncur, autor de várias composições e também um dos instrumentistas. Os mesmos McLean e o vibrafonista Bobby Hutcherson estão no disco de estreia. Em vez de Roy Haynes, o baterista era Tony Williams. Sua batida vigorosa é incomparável. É um dos maiores da história.

Ouça a excepcional música título.




Tudo parecia correr como um grande rio. Em 1965, lançou Some Other Stuff, melhor ainda. Além de Williams, conta com Cecil McBee no contrabaixo, Herbie Hancock ao piano, e lá estava novamente, seu companheiro de Newark: Wayne Shorter.

Ouça Nomadic. Preste atenção na combinação do trombone de Grachan e no sax de Wayne e na bateria de Tony.



As semelhanças com as composições de Thelonious Monk ficam evidentes em Thandiwa.



Ouça também Gnostic.




A vida de Moncur depois dos anos 1960
Alguma coisa saiu do fluxo do rio. Não que Grachan tenha se perdido no meio do caminho. A música dele nunca poderia concorrer com as de Mick Jagger e Keith Richards e John Lennon e Paul McCartney. Não era popular como Help! ou As Tears Go By. Suas músicas eram cerebrais, diferentes. O passo natural era ser mais vanguarda ainda. Foi tocar com músicos ligados ao avant-garde como Marion Brown, Roswell Rudd, Dave Burrell, Andrew Cyrille, Archie Shepp e Roscoe Mitchell. Não havia meios de ficar tão popular quanto J.J Johnson, indo por essa seara.

E assim foi. Quase não se fala de Grachan Moncur III. É uma pena. É um grande músico e autor de composições originalíssimas. Um dos maiores produtores da história, Michael Cuscuna diz que as músicas do trombonista “são únicas, como as de Monk, e associadas aos títulos, criam uma imagem vívida. […] Suas composições, mesmo próximas às convenções musicais, são também abertas e líricas e obedecem a uma lógica intrínseca.”


Durante estada em Paris, em 1969, Grachan gravou New Africa e Aco Dei de Madrugada. Compôs sob encomenda Echoes of Prayer, em 1974, para ser executada pelo Jazz Composer’s Orchestra, e em 2004, lançou Exploration pela Capri Records.

Ouça um trecho de New Africa.



Ouça também Exploration.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Uma relação de amor e ódio com o sax soprano

Joe Farrell no sax soprano
Qual é o seu tipo de saxofone preferido? O seu não sei, mas o meu é o tenor. Por ordem de preferência, vem o barítono, o soprano, e, por último, o alto, apesar de Charlie Parker. Acho que poucos instrumentos expressam o sentimento de quem o toca. O som de Coleman Hawkins é diferente do de Ben Webster, assim como o de Lester Young é do de Dexter Gordon. Com as exceções de Parker, Lee Konitz, Phil Woods, e mais alguns poucos, tendo a achar o som do alto um tanto chato, quem sabe, por culpa da minha aversão por músicos como Dave Sanborn e seus imitadores.

Meu gosto pelo barítono está quase pareado com o tenor. Acho fenomenal o som de John Surman (meu primeiro na lista), Gerry Mulligan, Pepper Adams, James Carter e Ronnie Cuber. Quanto ao soprano, que gostava tanto, com o passar do tempo, deixou de estar entre os preferidos. O Carlos Conde odiava e eu não via a razão. Mas, quem sabe, com a idade, é isso o que acontece. Uma certa estridência do soprano passa a incomodar mais. E hoje, nem tão fã de Wayne Shorter sou mais. Mas, para relembrar do tempo em que gostava muito, disponibilizo alguns números que me deram muito prazer.

Devo ter passado a gostar do saxofone soprano quando ouvi Wayne Shorter tocando no Weather Report. Como filho de uma geração que cresceu no período em que King Crimson, Yes, Van der Graaf Generator, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer eram as bandas da moda, meu gosto tendia a uma música pretensamente menos “burra” que o rock’n’roll. Não que não gostasse da música dos Beatles ou dos Rolling Stones, mas na típica arrogância de adolescente, o tal do rock progressivo era mais “intelectualizado”, mais elaborado e incorporava alguma coisa da música erudita. Vendo-se hoje, fica claro que era uma ideia tremendamente idiota. As letras das canções de Keith Emerson e Greg Lake estavam no mesmo nível dos “I love you”, “I miss my babe” de tantas bandas de rock ou dos lamentos dos cantores de blues.

Dentro desse processo “evolutivo”, fui “melhorando”, um pouco graças a nova amiga, que conheci no cursinho. A Lu, melhor de grana do que eu, podia viajar para fora e trazer LPs importados, algo impensável para um rapaz da classe média bem média, talvez um pouco melhor do que a tal classe média que o Partido dos Trabalhadores tanto apregoa ter criado. Não sei se ela foi com a minha cara, mas o certo é que ela passou a emprestar-me discos do Soft Machine, uma banda inglesa que tinha dentre seus membros um sujeito chamado Robert Wyatt, cara intelectualizado, cuja família era amiga do poeta Robert Graves, e de uma banda chamada Weather Report. Esses LPs, realmente, fizeram coisas na minha cabeça. Por meio destes, passei a interessar-me pela música instrumental, rotulada então como jazz rock ou jazz progressivo.

O primeiro do Weather Report que ouvi foi Mysterious Traveller. Perdi a conta do número de vezes que ouvi esse LP, mas posso assegurar que passou de uma centena. A canção que mais me chamou a atenção foi Blackthorne Rose. Não que fosse a melhor, mas pelo saxofone soprano de Shorter.

Ouça Blackthorn Rose.




As coisas se encadeiam de um modo natural. De Wayne Shorter e Joe Zawinul a Miles Davis, de Miles a Chick Corea, de Chick a Herbie Hancock, de Miles a John Coltrane, de Coltrane a Duke Ellington – por meio do belíssimo Duke Ellington & John Coltrane (Impulse, 1963) – meu gosto pela música foi andando “para trás”, e sem que me desse conta, tinha virado fã de Ben Webster, Coleman Hawkins, Charlie Parker, Duke Ellington e Charles Mingus.

Depois de conhecer o álbum de Ellington e Coltrane, a mais bela canção do mundo, na minha opinião, passou a ser In a Sentimental Mood. Passei, obsessivamente, a comprar LPs dos dois. Em Live at the Village Vanguard (Impulse, 1963), a única faixa do lado B é Chasin’ the Trane. Coltrane toca os 16 minutos e pouco, sem interrupção, seu saxofone tenor. Fiquei fã de carteirinha. Fui comprando tudo o que encontrava de Coltrane. Descobri o sax soprano de Coltrane em My Favorite Things (Atlantic, 1961).

Ouça a música em apresentação do quarteto, na Bélgica, em 1965.




Nesse meio tempo, em minhas expedições musicais, conheci Jan Garbarek, inicialmente, por algum disco com Keith Jarrett, provavelmente, Belonging (ECM 1974). Fiquei fã do norueguês. Tocava um sax soprano curvo. Depois, enjoei. Peguei bronca. Passei a achar seu sopro um tanto estridente.

Ouça The Wind Up, do álbum Belonging.





Mas quando eu penso no solo mais bonito de sax soprano que eu conheço, acho que é o de Joe Farrell, em Crystal Silence. O mesmo acho para o piano elétrico. É um dos mais belos, com Chick Corea. Confira. Farrell sumiu, mas era bom n soprano, tenor e na flauta.



terça-feira, 6 de agosto de 2013

Os melhores álbuns de 2012/13, segundo a Downbeat

A votação dos melhores da crítica, na revista Downbeat, sai no meio do ano. no número de agosto. Por conseguinte, os lançados até o fim do ano anterior devem ter sido ouvidos. Vou listar os dez melhores álbuns melhores colocados neste primeiro post. No seguinte, escrevo sobre alguns intérpretes que se destacaram.

Without a Net, de Wayne Shorter é o melhor do ano

1. Wayne Shorter Quartet, Without a Net (Blue Note)
2. Wadada Leo Smith, Ten Freedom Summers (Cuneiform)
3. Sam Rivers/ Dave Holland/ Barry Altschull, Reunion: Live in New York (PI)
4. Joe Lovano, Cross Culture (Blue Note)
5. Charles Lloyd & Jason Moran, Hagar’s Song (ECM)
6. Ryan Tuesdell, Centennial: Newly Discovered Works of Gil Evans (ArtistShare)
7. Branford Marsalis Quartet, Four MFs Playin’ Tunes
8. Kurt Rosenwinkel, Star of Jupiter (WomMusic)
9. Christian Scott, Christian aTunde Adjuah (Concord)
10. Neneh Cherry/ The Thing, The Cherry Thing (Smalltown Supersound)

Dos 30 listados, alguns destaques:
Anat Cohen, Chiaroscuro (Anzic)
Fred Hersch Trio, Alive at the Village Vanguard
Pat Metheny, Unity Band (Nonesuch)
Lee Konitz, Bill Frisell, Gary Peacock, Joey Baron, Enfant Terribles (Half Note)
Chick Corea, Gary Burton, Hot House (Concord)
Chris Potter, The Sirens (ECM)
Return to Forever, The Mothership Returns (Egle Rock)
Theo Bleckmann, Hello Earth (The Music of Kate Bush) (Winter & Winter)

Without a Net é o primeiro álbum do retorno de Wayne Shorter à gravadora que o revelou, a Blue Note. É um registro ao vivo em que tem como parceiros Danilo Perez no piano, John Patitucci no baixo e Brian Blade na bateria. Shorter gravou o primeiro solo em 1959 e passou por fases importantes do jazz. Fez parte do lendário quinteto de Miles Davis, que tinha Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. Criou, com Joe Zawinul, uma das melhores bandas de jazz fusion da história. Depois do fim do Weather Report, como líder, gravou alguns álbuns pela Verve, mas nenhum é de fato marcante. O penúltimo, lançado em 2005, Beyond the Sound Barrier, é um disco meio estranho, apesar da crítica tê-lo recebido bem. Without a Net é meio parecido, no entanto, é mais coeso. Uma coisa é ser considerado o melhor do ano e outra é ser um dos melhores. No show, a plateia não sabe a hora que pode aplaudir, enquanto os músicos soltam “ais” e interjeições demonstrando prazer em tocar. Blade é um baterista diferenciado: menos percussivo é o baterista das sutilezas, de toques abstratos. Perez e Pattitucci são bons e com bastante estrada e Wayne, desse nem se fala: passou por grandes fases.

Há uma certa benevolência com músicos mais velhos que continuam na ativa. São muitos até: Charles Lloyd, Sonny Rollins, Houston Person, Phil Woods e Frank Wess (com 91 anos, atualmente, gravou seu último disco em 2009 com Hank Jones, falecido dois meses antes de completar 92), citando apenas os saxofonistas. É compreensível e, os citados acima, por exemplo, se têm menos fôlego, como Woods, são como os sábios. Esta é a razão, a meu ver, de Without a Net ter sido considerado o melhor.

Ten Freedom Summers, de Wadada Leo Smith, que ficou em segundo, é mais interessante que o disco de Shorter. É um álbum conceitual, um projeto ambicioso com mais de quatro horas de música; mesmo o que ficou em terceiro: a reunião estelar de Sam Rivers, Dave Holland e Barry Altschull, em Nova York. Mas é aquela história: lendas são lendas. Shorter ainda surpreende. Prestes a completar 80 ano, executa uma música quase free em interessantes improvisos. É difícil comparar o que faz agora com o que fez antes com tanta genialidade e criatividade. Outro muito bom, mesmo não sendo superior aos de sua banda, é Hagar’s Song, de Charles Lloyd, em duo com o pianista Jason Moran.

Do restante, até o décimo, muito bom é o do trompetista Christian Scott com seu Christian aTunde Adjuah (deve ser o novo nome dele). Tem uma instrumentação interessante, com a guitarra discreta e belos achados sonoros de Matthew Stevens e Lawrence Fields no piano, no cravo e no Fender Rhodes. Cross Culture, de Joe Lovano e seu US Five é bom, mas não tanto quanto o anterior Bird Songs. O mesmo se aplica a Four MFs Playin’ Tunes, do quarteto de Branford Marsalis. O de Ryan Tuesdell – Centennial: Newly Discovered Works of Gil Evans – é bom e é prato cheio para os fãs do arranjador que ficou célebre quando gravou com Miles Davis. O de Kurt Rosenwinkel – Stars of Jupiter – é meio chato, com vocalises um tanto irritantes. O guitarrista já fez coisa melhor. Finalmente, The Cherry Thing, de Neneh Cherry. O dado relevante é que Neneh tem esse sobrenome por ser enteada de Don Cherry, que se revelou na banda de Ornette Coleman. Nasceu na Suécia, e o pai biológico também era músico, natural de Serra Leoa. Tem a música no sangue. Ficou conhecida com o interessante Raw Like a Sushi. Apesar do pai e do padrasto, seguiu uma trilha mais voltada ao pop. Em The Cherry Thing, canta com músicos escandinavos. É um álbum com base jazzística – saxofone, baixo e bateria. O destaque é o saxofone barítono de Mats Gustafsson. Como o de Shorter, em primeiro, o de Cherry é o décimo, mas entre os que listei como destaques dos vinte restantes, muitos poderiam estar em colocação melhor do que o dela: Siren, de Chris Potter, e Chiaroscuro, de Anat Cohen são bem melhores.

Veja uma performance do quarteto de Wayne Shorter.



Ouça Plaza Real, composição da época do Weather Report.



Ouça Stary Night.