terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Grachan Moncur III, o Thelonious Monk do trombone

Grachan Moncur III. Com um nome desses tinha que tornar-se alguém na vida. Foi fácil quando virou músico profissional. Nem precisou esquentar a cabeça para inventar um nome artístico, como Paul David Hewson, que virou Bono Vox. Alguns poderiam ter mantido seus nomes originais, como Declan Patrick MacManus, certo que um tanto pomposo, mas preferiu Elvis Costello para homenagear seus ídolos. Meu amigo Zeca Leal gostava de Phineas Newborn, Jr. Costumava dizer que alguém com um nome desses tinha de ser bom.

Várias coisas poderiam fazer pensar que Grachan Moncur III estava destinado a ser uma estrela à altura de outro trombonista: J.J. Johnson. Mas, hoje, poucos o conhecem e não sabem o que perdem.

O pai de Grachan era baixista profissional e o primo, o saxofonista Al Cooper, foi membro do Savoy Sultans. Quando criança, em Newark, eram frequentadores da casa Dizzy Gillespie, Babs Gonzalez e James Moody. Sarah Vaughan, amiga de sua mãe, quando aparecia por lá, exercitava seus dotes culinários. Estudou piano e violoncelo antes de experimentar o trombone. Nem tinha dez anos.

Em Newark, lugar de pobres e negros, perto de Nova York, o ambiente musical fervilhava. Moncur foi tocar na orquestra da Associação Cristã de Moços. Um que tocava lá era Wayne Shorter. Sua mãe, temendo que o filho se envolvesse com drogas, uma praga em Newark, preferiu que ele fosse fazer o colégio na Carolina do Norte. Formado e de volta às origens, entrou na banda do pianista Nat Philips. Mais uma vez, cruzou com Wayne Shorter. Depois, cada um foi para o seu canto.

Estudou na Manhattan School of Music e na Julliard. Montou seu grupo. Fizeram uma audição em um clube e o dono topou que tocassem lá… sem ele. Mas Deus estava do seu lado. Pouco tempo depois, foi convidado para tocar na orquestra de Ray Charles, uma estrela já naquela época. Ficou um ano e meio viajando com o cantor. O trombone de Moncur chamou a atenção de Art Farmer e Benny Golson.

Ser membro do Jazztet, do trompetista e do saxofonista, foi o grande passo. Farmer disse-lhe que, pela criatividade dos solos, poderia compor. Sonny’s Back foi a primeira, feita em homenagem ao seu ídolo Sonny Rollins. Mostrou-a a Golson, autor de clássicos como Killer Joe e Moanin’. Gostou tanto que virou o tema de encerramento das apresentações da banda.


Ouça Sonny’s Back.




Moncur disse que, em apenas meia hora, com Art Farmer ensinando-lhe como fazer notações musicais, sentado ao piano, valeu mais que todo o aprendizado nas escolas. Deu tão certo como compositor que, até em álbuns em que era sideman, como em alguns gravados com Jackie McLean, a maioria dos temas era dele.

Um dos trombonistas mais conhecidos na história do jazz é J.J. Johnson. Ficou famoso pela rapidez com que tocava. As maiores influências de Moncur foram Frank Rosolino, Trummy Young e Bennie Green, mais do que J.J. Ele não moldou seu estilo calcado na velocidade. Ficou conhecido pelas frases curtas e sincopadas. Era um modo muito original, que lembrava o de Thelonious Monk ao piano.

Apesar de ter participado de muitos álbuns pela Blue Note, tem poucos lançados como líder. Mas o selo ficou conhecido por gravar com vários líderes diferentes mas com os mesmos músicos. Em um disco de Wayne Shorter, o pianista era Herbie Hancock, e no dele como líder, o saxofonista poderia ser Shorter. Por essa razão, percebe-se uma semelhança entre discos de autores diferentes. Pode-se dizer que existia um “som Blue Note”.

No caso de Moncur, sua presença em títulos de Jackie McLean é marcante, inclusive por várias composições de sua autoria incluídas. São quatro os álbuns que contam com a participação do trombonista: Destination… Out! (Blue Note, 1963), One Step Beyond (1963), ’Bout Soul (1967), e Hipignosis (1974). Um traço interessante de alguns desses discos é a formação diferenciada, contando com a adição do vibrafone de Bobby Hutcherson.

Um bom exemplo é Love and Hate, composição de Moncur, que está em Destination… out! Belíssima.




Neste mesmo ano, lançou seu primeiro como líder: Evolution. Tinha muitas semelhanças com os discos de Jackie McLean. Isso acontecia muito por Moncur, autor de várias composições e também um dos instrumentistas. Os mesmos McLean e o vibrafonista Bobby Hutcherson estão no disco de estreia. Em vez de Roy Haynes, o baterista era Tony Williams. Sua batida vigorosa é incomparável. É um dos maiores da história.

Ouça a excepcional música título.




Tudo parecia correr como um grande rio. Em 1965, lançou Some Other Stuff, melhor ainda. Além de Williams, conta com Cecil McBee no contrabaixo, Herbie Hancock ao piano, e lá estava novamente, seu companheiro de Newark: Wayne Shorter.

Ouça Nomadic. Preste atenção na combinação do trombone de Grachan e no sax de Wayne e na bateria de Tony.



As semelhanças com as composições de Thelonious Monk ficam evidentes em Thandiwa.



Ouça também Gnostic.




A vida de Moncur depois dos anos 1960
Alguma coisa saiu do fluxo do rio. Não que Grachan tenha se perdido no meio do caminho. A música dele nunca poderia concorrer com as de Mick Jagger e Keith Richards e John Lennon e Paul McCartney. Não era popular como Help! ou As Tears Go By. Suas músicas eram cerebrais, diferentes. O passo natural era ser mais vanguarda ainda. Foi tocar com músicos ligados ao avant-garde como Marion Brown, Roswell Rudd, Dave Burrell, Andrew Cyrille, Archie Shepp e Roscoe Mitchell. Não havia meios de ficar tão popular quanto J.J Johnson, indo por essa seara.

E assim foi. Quase não se fala de Grachan Moncur III. É uma pena. É um grande músico e autor de composições originalíssimas. Um dos maiores produtores da história, Michael Cuscuna diz que as músicas do trombonista “são únicas, como as de Monk, e associadas aos títulos, criam uma imagem vívida. […] Suas composições, mesmo próximas às convenções musicais, são também abertas e líricas e obedecem a uma lógica intrínseca.”


Durante estada em Paris, em 1969, Grachan gravou New Africa e Aco Dei de Madrugada. Compôs sob encomenda Echoes of Prayer, em 1974, para ser executada pelo Jazz Composer’s Orchestra, e em 2004, lançou Exploration pela Capri Records.

Ouça um trecho de New Africa.



Ouça também Exploration.

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