A instrumentação é parcimoniosa. Uma batida de bateria bem definida. Acompanhada por algum instrumento eletrônico que reforça os sons da bateria, Grid é uma música muito simples. E é só: ritmo e a voz de Mike Hadreas.
Perfume Genius é o nome sob o qual Hadreas se esconde – ou se mostra. Logo na primeira audição, vem a lembrança de Antony Hegarty, do Antony and The Johnsons. A semelhança não é apenas por ambos serem homossexuais. Isso os aproxima pela temática de suas letras, talvez. Sobre Antony a questão do gênero é mais dúbia ainda, porque se refere bastante em algo seria melhor nomeado como transgênero ou até, pansexualismo. Em Mike, isso, sobre gêneros, parece mais claro. É gay e sua referência e inspiração para a sua música é esse universo.
No terreno das excentricidades, é um tanto difícil suplantar Antony. É um cara diferente, até no Antony sem “H”, como a Bahia de um tal Denis Brean (era o pseudônimo do autor de Bahia com H). Alguém disse que é meio um Boy George gordinho. Pelas imagens disponíveis na internet, Mike parece ser bem normal. Gosta de usar batom, mas não é nada tão anormal, como homens fazerem as unhas dos pés ou raspar os pelos do peito e das pernas. Sem ser genial como Antony, suas composições são quase sempre “torch songs”, como são as de seu conterrâneo americano.
Ao escolher como nome artístico Perfume Genius, Mike Hadreas foi ambicioso – ou pretensioso, dependendo do ponto de vista. Mas como não chamar atenção com um nome diferente desses? Se você é ambicioso, é bom mostrar ao que veio. Caso contrário, é bem provável tornar-se motivo de gozação. Bem, Perfume Genius até que é original. Vai pela seara que o diferencia da maioria do que está por aí atualmente.
Antecede Too Bright, lançado neste ano, Put Your Back N 2 It. Neste provocou um pequeno escândalo com o clipe disponibilizado no YouTube. Chegou a ser banido do site, mas está de volta.
Assista.
Fora o “escândalo” – quem se escandaliza com alguma coisa? Melhor escandalizar-se com violências físicas ou corrupção, não? – Put Your Back N 2 It pode ser considerado um álbum bem médio.
O mais recente Too Bright é bem melhor. Traz canções “torchy” de qualidade, originais e interessantes. Um dos bons destaques, como foi dito logo no primeiro parágrafo, é Grid. Tem uma batida eletrônica muito boa, vibrante.
Veja o clipe.
A música título Too Bright é a melhor, junto com No Good. Faz o estilo “corta pulso”, maravilhosa.
Veja Mike, em Berlin, cantando No Good.
Veja também o vídeo oficial de Fool.
Perfume Genius canta Queen no program de David Letterman.
Lisa Gerrard e Brendan Perry, criadores do Dead Can Dance
É injusto rotular a música de Lisa Gerrard como New Age pelo que esse rótulo representa no mercado fonográfico. Se se ampliar o que pode ser classificado como tal, inclui-se então a música minimalista de Philip Glass, Steve Reich, a ambient music de Brian Eno, as incursões pelo terreno erudito de Richard Reed Parry, do Arcade Fire, Bryce Dessner, da banda americana The National, e de Johnny Greenwood, guitarrista do Radiohead e autor das trilhas sonoras de Sangue Negro (There Will Be Blood) e O Mestre (The Master), ambos filmes de Thomas Paul Anderson. Há algo em comum entre os citados. Não são autores de sons áridos como os de Pierre Boulez, Xenakis e outros considerados de vanguarda.
Lisa possui uma das mais belas vozes da música popular. Tornou-se conhecida como uma das partes da banda Dead Can Dance; a outra é Brendan Perry. Lisa é australiana e Perry, apesar de inglês, formaram a banda na Austrália. Desde o primeiro álbum chamaram a atenção da crítica e formou uma legião de admiradores incondicionais desde então. Dead Can Dance é parte de uma leva que se revelou na lendária gravadora 4AD. Fizeram parte de um cast que incluía, dentre outros, Cocteau Twins, This Mortal Coil, Wolfgang Press, Bauhaus, Clan of Xymox, The Breeders e Pixies. A 4AD ficou muito conhecida também pelas primorosas capas de autoria do designer gráfico Vaughan Oliver.
Criada em 1981, a banda durou até os últimos anos do século passado. Como nos casamentos, chegou uma hora em que um se cansou do outro e partiram para carreiras solos e continuaram a fazer música de alta qualidade. Reúnem-se como Dead Can Dance ocasionalmente. Como nos casamentos, sobrou alguma coisa e não se tornaram inimigos.
É difícil classificar a música deles. Soundscapes? Talvez. São paisagens sonoras com certos ingredientes da música da Idade Média e Renascentista. Para isso contribuem os instrumentos exóticos e pouco comuns no pop. A banda carrega seu ouvinte para paisagens idílicas, misteriosas e “viajantes”. Por essas características, às vezes, são classificados como “new age”. É uma injustiça. Não podem ser assim rotulados. New age é aquela música pobrezinha cheia de clichês produzidos por sintetizadores, uma flauta pan e qualquer outra coisa a mais. Dizem que é “música para relaxar”. O amigo Alberico Cilento diz que é um som que, em vez de relaxá-lo, deixa-o tenso.
Ouvir Dead Can Dance é uma experiência ímpar. Ao vivo, é mágico. Muitos vídeos estão disponíveis no YouTube. Vale a pena dar uma olhada. Veja-os em Toward the Within. Quem não conhece a banda vai se deparar com instrumentos diferentes como o hurdy gurdy ou a clarineta turca e, principalmente, com parte das letras cantadas em alguma língua indecifrável.
O Dead Can Dance, de tempos em tempos, reúnem-se. Há uma apresentação deles em 2013, em Amsterdam. É o show na íntegra. Para quem não os conhece, é uma boa oportunidade.
Lisa. Nem os trabalhos solos de Brendan, nem de Lisa são superiores ao Dead Can Dance. Mas o mundo não para e continuam no negócio da música. Sozinha, Lisa lançou faz pouco tempo Twilight Kingdom. Sua música combina bem com trilhas sonoras de cinema e tem participado de várias. A última, salvo engano, é o que fez com Hans Zimmer, este sim, um especialista em trilhas. Ele é autor em filmes como Rei Leão, Batman, o Rei das Trevas e Gladiador. A trilha do seriado para a TV, The Bible (2013), feita por ambos, é grandiosa, climática e chata. Twilight Kingdom não é um grande disco, mas não decepciona os milhares de fãs de carteirinha de Lisa Gerrard.
O som da banda Bauhaus não possuía alguma relação com a lendária escola de artes, design e arquitetura que existiu na Alemanha pré-nazista. O clima soturno e a voz cavernosa de seu líder Peter Murphy chamava mais para uma personagem nascida na Transilvânia. Se houvesse alguma ligação com a escola alemã, a música, quem sabe, pudesse ser rotulada de construtiva, minimalista, qualquer coisa assim, e nunca gótica, como ficou conhecida. Pois, em um filme que virou cult – Fome de Viver (The Hunger), de Tony Scott – a abertura era com Bela Lugosi Is Dead, uma das mais conhecidas da breve carreira da Bauhaus (sobre o filme, veja http://bit.ly/Vbaw6j). Tudo a ver: a música com a história de alguém que precisava de sangue humano para continuar imortal. A banda teve vida breve e Peter Murphy seguiu carreira solo com relativo sucesso.
Na mesma época, surgira outra banda que marcou e ganhou ardorosos fãs, o Japan. Mais pelo estilo afetado de se vestirem que pelo som, foram associados ao movimento New Romantic. O mais conhecidos dessa vertente foram Duran Duran e Culture Club, de Boy George. Em termos sonoros, privilegiavam bastante os sons sintetizados. Surgiram na esteira do Roxy Music e de David Bowie. O mago dos sintetizadores do Japan era o tecladista Richard Barbieri. O resto da banda era composto pelo genial David Sylvian, o baterista Steve Jansen e o baixista Mick Karn. A banda acabou em 1981. Gravaram ainda Rain Tree Crow, mas não mais como Japan.
Sylvian, seguiu carreira solo com grandes discos e gravou com Ryuichi Sakamoto e Robert Fripp. A conhecida Forbidden Colours (ouça em http://bit.ly/18c5L3w) usada como tema para o filme Merry Christmas, Mr. Lawrence, de Nagisa Oshima, é de Sakamoto e a letra é de Sylvian. Mick Karn partiu para a carreira solo e gravou alguns álbuns com David Torn, Bill Nelson e com seus ex-companheiros Jansen e Barbieri.
Em 1984, Peter Murphy e Mick Karn, com Paul Vincent Lawford, montaram o Dalis Car. O nome foi tirado de uma canção de um disco de Captain Beefheart. Murphy e Karn pouco se encontraram e ficaram um e outro trocando e enviando fitas de gravação. Mesmo assim, o álbum The Waking Hour ficou bem interessante, muito em razão da boa combinação que resultou da voz de Peter Murphy com o baixo fretless de Mick Karn. Fora que a capa é um primor: usaram uma imagem do pintor Maxfield Parrish.
Muito, mas muito tempo depois, resolveram gravar um segundo álbum sob o nome Dalis Car. Em 2010, Murphy anunciou a (re)união no Twitter. Por uma fatalidade, apenas algumas músicas foram gravadas. Mick Karn foi diagnosticado com um câncer em estágio avançado e morreu em 4 de janeiro de 2011. As cinco faixas resultaram no EP InGladAloness. Além dos dois, participam Steve Jansen na bateria, Jakko M Jakszyk nas guitarras, Gu Zheng e Theo Travis no saxofone e flauta, Gill Morley, no violino, Ellen Blair, violino e viola, e Pete Lockett e Paul Lawford nas percussões.
InGladAloness, até por Artemis Rise, que é uma variação de Artemis, quarta faixa do primeiro álbum, é quase que uma continuação. Li uma crítica na internet destruindo o disco, ridicularizando a voz de Murphy. Não se por ser fã dele e do estilo do fretless de Karn e por gostar muito de The Waking Hour, gostei bastante desse segundo. E mais uma vez, a capa é um primor: é de Jaroslaw Kukowski.
O EP inteiro está no youtube.
Faixa 1: King Cloud.
Faixa 2: Sound Cloud.
Faixa 3: Artemis Rise.
Faixa 4: Subhanallah. O vocal é de Sengul. O disco foi mixado em Istambul, Turquia.
Faixa 5: If You Go Away. Despertou o Jacques Brel de dentro de Peter Murphy.
Está lá: dia 25 de fevereiro, Amok, álbum da banda Atoms for Peace, será lançado. Por enquanto é possível ouvi-lo no site oficial da banda: http://amok.atomsforpeace.info
Atoms for Peace faz parte de projeto paralelo de Thom Yorke com o produtor Nigel Godrich, Flea, do Red Hot Chilli Peppers e o percussionista brasileiro Mauro Refosco. Quem espera algo normal de Yorke? É um som muito em cima de batidas eletrônicas criadas em sintetizadores, laptops, percussões analógicas e marcações de baixo de Flea. No último Radiohead se percebe coisa semelhante.
Atoms for Peace é o nome da sexta faixa de The Eraser, solo de Thom Yorke, em 2006. Parece que a inspiração do nome veio de um discurso de Dwight Eisenhower, em 1953, general herói da 2ª Guerra Mundial, que sucedeu Harry Truman. O novo álbum poderia ser outro solo de Thom, mas este preferiu não. No fundo é uma “continuação” de The Eraser, a começar pelo tipo de som, pela participação nos dois discos do produtor Nigel Godrich, que se incumbe dos teclados, guitarras e sintetizadores; e até pela capa em preto e branco, provavelmente, criada pelo mesmo designer, Stanley Donwood (não é certeza, pois não tenho a ficha técnica do novo álbum).
A palavra “amok” significa louco, fora do normal. Ao mesmo tempo, se separamos – “am” e “ok” –, é o caso de se pensar em “I’m ok”. Será esse o estado natural da humanidade? Amok?
Entre no site oficial, que é possível conhecer todas as faixas (http://amok.atomsforpeace.info). Se você está com preguiça, clique no player e ouça, pelo menos, uma delas – Ingenue.
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Default.
Uma joia. Atoms for Peace interpreta Love Will Tear Us Apart, do Joy Division.
No release distribuído à imprensa para anunciar seu novo disco, o texto, para não deixar de ser um Nick Cave, teria de ser estranho e um tanto enigmático: “Se fosse usar aquela metáfora banal de discos gerados como crianças, Push the Sky Away é o bebê-fantasma na incubadora e os loops de Warren [Ellis] são as suas pequenas e trêmulas pulsações do coração.” Entendeu?
Desde 2008, o australiano não lançava nada. Dig, Lazarus, Dig!!! (título ótimo) é interessante, mas não o considero bom. Push the Sky Away, que tem seu lançamento oficial marcado para 18 de fevereiro, é. Apesar de abordar temas (muito) estranhos e lúgubres e, com suas “más sementes”, produzir sons “cavernosos” (a expressão caiu em desuso, mas servia muito bem à época em que ele ficou conhecido), antes de mais nada, suas canções são melódicas e palatáveis aos tímpanos. São densas e as letras também. Giram em torno de algumas de suas obsessões: morte, religião, violência e amor. Push the Sky Away não foge à regra. Segundo Cave, as músicas foram compostas a partir de “curiosidades tiradas a partir de buscas no Google e Wikipedia, “fossem verdadeiras ou não”.
A indústria fonográfica vive a reclamar do declínio das vendas e é real a mudança de modelo de como o público consome música. A Tower Records, a HMV deixaram de existir. As estratégias são diferentes. No caso do álbum mais recente de Cave, são oferecidos em vários formatos. Estão em “pre-order” uma versão de luxo contendo o CD, um LP de vinil de 180g, um DVD, dois vinis de 7” contendo faixas extras, uma réplica do caderno de Cave com as anotações com 120 páginas, encadernadas manualmente, e um certificado de autenticidade para os 300 primeiros pedidos. Nem quis ver quanto custa, mas se está à venda é porque tem quem compre. A outra opção é um DVD/CD em embalagem de capa dura forrada com linho, com um booklet de 32 páginas. A terceira opção, a mais barata, evidentemente, é o CD apenas. Mais barata ainda é ir atrás dos downloads disponíveis na rede e ter o privilégio de ouvir esse bom disco antes de todo mundo. Você escolhe.
Ouça We No Who U R, a primeira faixa.
Ouça Push the Sky Away, música título e última do CD.
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A considerar-se a estatística de Álvaro Pereira Júnior em sua coluna na Folha de S.Paulo (sáb. 19/1/2013), sou um dos 0,0001% dos que conhece e ouve Vini Reilly. Deixando esse “exagero” de lado, não são tão poucos os que já ouviram — ou ouviram falar — da banda Durutti Column. Na verdade, é uma banda de um homem só: Reilly. É certo que o percussionista Bruce Mitchell toca com ele há muito tempo. Não participou do primeiro — The Return of The Durutti Column (1979) —, apenas. O som básico da banda é a guitarra e a percussão, com o acréscimo eventual de teclados (tocados por Reilly), violinos e violas, trumpetes e alguns vocais femininos.
A inspiração para o nome foi Durruti Buenaventura, anarquista e nome importante da Guerra Civil Espanhola. Há uma diferença na grafia do nome do revolucionário: em vez do “r” dobrado, dobrou-se o “t”. Desconheço se o erro foi proposital; e também é impossível relacionar sua música extremamente melancólica com a atuação “guerreira” da Coluna Durruti.
Uma boa definição das características da música do Durutti Column está contida em um parágrafo do texto de APJ: “O som de Vini Reilly, primordialmente um guitarrista, costuma ser chamado de pós-punk. Mas essa é só uma definição cronológica. Musicalmente, ele não tem nada a ver com as outras bandas desse período. Durutti Column incorpora os violões do flamenco, alguns climas de jazz e de música ambiente. É um esforço e tanto chamá-lo de rock.”
A banda de Reilly surgiu na onda de várias que surgiram no bojo da Factory. Esta e a 4AD foram as gravadoras que mudaram o cenário da música britânica no fim da década de 1970 e nos anos 1980. Além do som diferente, as concepções gráficas revolucionárias das capas de Peter Saville e Vaughan Oliver, foram marcantes e inovadoras. A Factory lançou o Joy Division, o New Order, Happy Mondays e A Certain Ratio. A 4AD teve em seu plantel a Bauhaus, This Mortal Coil, Dead Can Dance e o Cocteau Twins.
O “não se sinta ignorante se não conhecer – 99,9999% da humanidade estão no mesmo barco”, a APJ, ao se referir a Reilly, é mais uma “licença jornalística”. Cem por cento dos ouvintes da rádio Eldorado já ouviram Tomorrow, uma das mais belas canções do Durutti Column. Nas ocasiões em que era obrigado a utilizar algum carro que não fosse meu — nos dias de rodízio ou quando estava na oficina — por não poder ouvir os meus CDs preferidos, sintonizava nessa emissora e, não sei se era coincidência: tocavam com frequência Tomorrow e Island, do King Crimson, duas músicas incomuns em uma programação de rádio. Alguém lá era fanático pelo Durutti Column. Havia um programa, se não me engano, em que a vinheta era um trecho de alguma música da banda.
Ouça Tomorrow. Na letra diz que “tudo o que queria era o seu tempo, e o tudo o que você me deu foi amanhã […] e amanhã nunca chega.” É uma síntese do que é o som de Reilly. Triste, muito triste, não é aconselhável ouvi-lo num domingo melancólico. É um risco para os suicidas.
A fragilidade de Vini não está contida apenas na sua música. Ele é a personifiçação da fragilidade. Anoréxico, apresentava-se pouco ao vivo, pois ficava esgotado. Escrevo no passado porque não ouvia mais falar dele. Só agora, por meio da coluna de Álvaro Pereira Júnior, fico sabendo de um post do The Guardian relatando que um sobrinho de Reilly escreveu no site oficial da banda pedindo doações para ajudá-lo pois não tinha dinheiro nem para comer e pagar o aluguel. Na matéria intitulada “The Durutti Column's Vini Reilly is struggling? Music owes him help” é dito que nos últimos tempos Reilly sofreu três colapsos, sem especificar de qual tipo. É uma pena. Seria para qualquer ser humano, ainda mais para um gênio musical como Vini.
Quando “descobri” o Durutti Column, por meio dos amigos Renato Mello e o Fábio Golfetti, esses discos eram difíceis de serem encontrados. Graças a Deus existia uma loja chamada Bossa Nova, lá no centro da cidade, em uma galeria da rua Sete de Abril, São Paulo. Era o ponto de parada quase diária do editor Luiz Schwarz — antes de se tornar expert em música erudita, era seu “ponto de parada” na hora do almoço — e de Kid Vinil. O Pardal, atendente da loja, sempre dava ótimas dicas. Era o melhor lugar para se encontrar discos da 4AD e da Factory. Lá comprei o meu primeiro Durutti — Another Setting (1983) —, o primeiro Cocteau Twins, o primeiro A Certain Ratio e o primeiro Dead Can Dance. As capas eram primorosas, como disse. Possuir aqueles LPs era uma dádiva. Eram trabalhos de arte que poderiam ser enquadrados e pendurados na parede.
Depois do primeiro, queria ter todos. Comprei os anteriores The Return of Durutti Column, LC e Without Mercy. O amigo Renato tinha conseguido comprar um chamado Amigos em Portugal (1983), lançado pela Fundação Atlântica, em Portugal. Que inveja tive dele! Nos anos posteriores, nas viagens ao exterior, fui garimpando (não eram fáceis de achar) seus títulos em CD. O primeiros que encontrei — Domo Arigatô e Valuable Passages (este, uma coletânea) —, foi em Tóquio. Os treze CDs do Durutti Column que possuo foram comprados em viagens para fora. Ainda no tempo dos LPs, alguns álbuns da Factory — Joy Division, New Order, por exemplo – foram lançados no Brasil. Veja você: nem só de porcarias vivíamos.
Veja Vini Reilly e Bruce Mitchell em Jacqueline.
Veja e ouça a belíssima The Room.
The Missing Boy.
Sketch for Summer é a primeira faixa de The Return of the Durutti Column. Esta e a anterior fazem parte do show Domo Arigatô.
Eu já. Por módicos US$ 9 é possível se fazer o download de The King of Limbs. É só entrar em http://www.thekingoflimbs.com/DIUSD.htm. Sou a favor de ajudar os criadores: precisam de dinheiro, como nós. E não é muito. Agora, se você quiser, já vi que tem “de grátis” por aí.
Estou ouvindo ainda. Por enquanto, estou achando o penúltimo In Rainbows bem superior. Está disponível um vídeo também. Quer ver? Está aqui.
Mark Lanegan é um quarentão quase cinquentão e fez parte do Screaming Trees, grupo de Seattle, cidade onde nasceu Jimi Hendrix e palco do movimento grunge. É só lembar de Nirvana, Alice in Chains e o mais longevo Pearl Jam. A revolução foi diluída no tempo. Da fase da voga, ficaram alguns clássicos definitivos de Kurt Cobain – Smells Like Teen Spirit e Come As You Are.
Mark juntou-se a Isobel Campbell, que fez parte do Belle & Sebastian até 2006. Gravaram Ballad of the Broken Sea em 2006 e em 2008 fizeram um outro: Sunday at Devil Dirt, e agora, há pouco, lançaram Hawk. Quem aparece mesmo é Mark com sua voz áspera e soturna. A voz de Isobel funciona mais como um backing vocals. As composições, entretanto, na maioria, são dela; talvez por isso, seu nome apareça em primeiro lugar nos discos; ou, quem sabe, por cavalheirismo de Mark.
Quando decidiu pela carreira musical, Leonard Cohen tinha quase 30 anos. Antes, tinha publicado três livros de poemas e um romance no país natal, Canadá. Mudou-se para os EUA e conseguiu ter duas músicas – Suzanne e Dress Rehearsal Rag – gravadas pela cantora folk Judy Collins. Serviu como passaporte para sua entrada no mundo musical norte-americano. Em 1967, ano seguinte, participou do Newport Folk Festival e chamou a atenção do produtor John Hammond. Resultado: foi contratado pela CBS, a mesma gravadora de Bob Dylan.
Songs of Leonard Cohen, o primeiro, era composto de canções “lamentosas”, apropriadas para o tom melancólico de sua voz. Mas nessa época, não era tão grave como é atualmente. Décadas de consumo de cigarros e de outros aditivos tiraram o viço da juventude de sua voz, que foi ficando bem grave: de barítono virou baixo E é esse o Cohen de grande sucesso popular, provavelmente maior do que o que tinha em fins dos anos 1960.
Ao se ouvir Mark Lanegan cantando é inevitável lembrar-se do bardo canadense. Alguns outros, também. Por que não Tom Waits? Mais que todos, é o paradigma do cantor de voz grave, “rasgada”. Ninguém melhor que ele, talvez. Ou a do australiano Nick Cave? Há algo de grave no que cantam, literalmente.
No quesito “aspereza da voz”, Tom Waits é hors concours, sem dúvida. Closing Time, o disco de estreia, é de 1973, pela gravadora Asylum. Ou, quem sabe, Joe Cocker? Em 1969, no Festival de Woodstock, fez uma apresentação arrasadora cantando With a Little Help from My Friends. Diziam que a razão da voz “rascante” de Cocker era por conta do excesso do álcool e da canabis. Coincidência ou não, a carreira do inglês naufragou devido a esses excessos. Ressurgiu cantando You Are So Beautiful, em homenagem à princesa Diana: triste fim.
Antes de todos os citados, existiu Louis Armstrong. Mas não há como compará-lo. Apesar da voz áspera, não era soturna como a Waits, Cohen ou Lanegan.
Ouvindo mais vezes e esquecendo um pouco de Cohen (é que, por um momento, quando ouvi Seafaring Song, a canção que abre o álbum Sunday at Devil Dirt, pensei que era um clone do canadense), passo a gostar mais da combinação de sua voz grave com a de Isobel, que me lembra, de vez em quando, uma cantora da década de 1990, Mazzy Star, de quem nunca mais ouvi falar.
“Hugh Everett III (11 de novembro, 1930 – 19 de julho, 1982) foi um físico estadunidense que propôs a interpretação de muitos mundos (IMM) da Física Quântica, que ele chamou formulação do ‘estado relativo’.” Isso está no Wikipedia. Esse cientista, quando jovem, andou trocando correspondência com Albert Einstein debatendo se o que “mantinha o universo coeso era algo aleatório ou unificador”.
O pai de Hugh era um militar americano e a mãe – poeta “atormentada” –, Katharine Kennedy. Hugh casou-se com Nancy e teve dois filhos: Elizabeth Ann e Mark Oliver. Mark não mostrou nenhuma aptidão para a Matemática e nem para a Física, mas interessou-se pelos discos que a irmã Elizabeth ouvia. Ela ouvia After the Gold Rush, de Neil Young, todos os dias. É o que consta na biografia do jovem chamado pelos amigos de “M.E.”. Com seis anos, descobriu numa garagem da vizinhança uma kit de bateria de criança posto à venda. Conseguiu comprá-lo com a bondosa ajuda dos pais. Para a desgraça deles, tiveram de suportá-lo “batendo” aquela bateria por dez anos seguidos.
Quando tinha 19 anos, encontrou seu pai morto. Sua irmã “densa” cometeu o suicído em 1996. Com esse histórico familiar tinha a chance de tornar-se um rapaz problemático ou poderia canalizar esse “histórico” para alguma coisa criativa, como ser escritor. Mas seguiu uma outra via.
Estava “escrito” que Mark se tornaria músico quando crescesse e não um cientista, como o pai. Quando tinha vinte anos registrava incessantemente as composições que escrevia num gravador de segunda mão de quatro canais. Aos 24, pegou o carro, viajou quase cinco mil quilômetros até Los Angeles. Não conhecia ninguém. Depois de tanto compor e gravar na solidão dos lugares que habitou, evoluiu e, afinal, tinha um bom material em mãos. Conseguiu um contrato com a Polydor Records, diminuiu o “M.E.” para “E”, simplesmente. Gravou solo e depois formou a banda Eels.
Dois tempos de E: em 2000 e 2010
Uma banda com um nome de apenas quatro letras e um líder chamado E; não seria nada surpreendente de que se esperasse um som diferente. Não era rock, não era pop, era, simplesmente um som “eels”. Com seu piano Wurlitzer, a guitara e voz melancólica, suas composições, para quem pouco o conhece, podem ser ouvidas em Shrek 1 (My Beloved Monster), Shrek 2 (I Need Some Sleep). Souljacker part I (que faz parte do álbum Souljacker, 2002) teve um clipe dirigido por Wim Wenders e foi realizado numa prisão de Berlin (veja abaixo).
Depois de terem lançado Beautiful Freak (1996), Electro-Shock Blues (1998), Daisies of the Galaxy (2000) e Souljacker (2002), gravaram mais alguns discos que não ouvi. Como não foram lançados no Brasil, meio que esqueci deles. O “reencontro” acontece com Tomorrow Morning, que saiu em setembro agora. Belo CD, bom como sempre. Ele faz parte de uma trilogia – Hombre Lobo (2009) e End Times (janeiro de 2010) são os anteriores. Levemente estranho, o Eels ainda surpreende.
Tem um monte de gente esperando o dia 9 chegar. É o dia da chegada do último CD do Arcade Fire. Enquanto isso ouço Funeral, na minha opinião, melhor que Neon Bible. Tem uma música aí no tocador: Neighborhood #3 (Power out). Bom fim de semana.