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| Piazzolla, segundo Hermenegildo Sábat |
Muitos dos que nasceram a partir de meados do século passado e que pouco contato que tiveram com o tango, sabendo quem foi Carlos Gardel, no máximo, menos aferrados à tradição, perceberam a genialidade de Piazzolla. Com aquela cara de mal humorado, foi grande, como instrumentista, inclusive. A propósito, já contei essa história de que poucos lembram. Quando veio para um dos primeiros – acho até que foi o primeiro – Free Jazz Festival, em São Paulo, era a atração seguinte à Benny Carter. Este, simpaticamente, apresentou-o. “E agora, Astor Pizzaiolo”, mais ou menos assim. Aí entra um circunspecto Astor. Não era de muitos sorrisos, assim como a sua música, densa e dramática.
Grandes instrumentistas como o violinista Gidon Kremer, o Kronos Quartet, Yo-Yo Ma, Daniel Barenboim, Patrick Gallois, Göran Söllscher, o Duo Lechner, Ophelie Gaillard, Sergio e Odair Assad, e músicos de outros gêneros, como Egberto Gismonti, Al DiMeola, Gary Burton, Michel Portal, Richard Galliano, Pablo Ziegler, Rodolfo Mederos e Gerry Mulligan gravaram a obra de Piazzolla.
Pelos outros
O argentino de origem judaica, Daniel Barenboim, iniciou a carreira como prodígio ao piano e, mais tarde, passou a reger também. Carismático e envolvido em causas, criou a West-Eastern Divan Orchestra, formada por jovens palestinos e israelenses, com o pensador Edward Said, adotando uma posição crítica quanto à ocupação israelense dos terrenos de seus vizinhos e donos originais. Barenboim levantou-se contra um tabu vigente em Israel de não se tocar em suas terras a obra de Richard Wagner. Posição semelhante tinha sido adotada anteriormente pelo também maestro Zubin Mehta, judeu, como ele, mas de origem indiana.
Seus pais se mudaram para Israel quando tinha dez anos, em 1952. Estudou piano com Igor Markevitch, em Salzburgo, e depois, com Nadia Boulanger. O lendário maestro Wilhelm Furtwängler, quando o conheceu, impressionado com o menino, convidou-o para ser o solista do “Primeiro Concerto para Piano”, de Beethoven, com a Berlin Philhamoniker. Em meados dos anos 1950, a memória da morte de milhões de judeus exterminados pelos alemães ainda estava viva e seus pais não acharam que seria conveniente Barenboim apresentar-se em um país de tão tristes lembranças.
Consagrado, não virou as costas para a sua Buenos Aires. Lançou “Mi Buenos Aires Querido” (Telarc, 1996), com uma coleção impecável de tangos, abrangendo registros mais antigos, como a música título, conhecida na voz de Carlos Gardel, até Piazzolla, com “Inverno Porteño”, “Verano Porteño, Otoño Porteño, Primavera Porteña, Contrabajeando, Tzigane Tango e Adiós Nonino. É um álbum excepcional.
Ouça “Otoño Porteño’.
Além do disco, existem dois DVDs: “Tangos Among Friends” e “Tango Argentina”.
Veja Barenboim executando “Adiós Nonino”.
Outro intérprete consagrado na música erudita aventurou-se pelo repertório de Piazzolla. O violinista Gidon Kremer gravou quatro CDs muito interessantes pelo selo Nonesuch: “Homage à Piazzolla” (1996), “ El Tango” (1997), “Tracing Astor” (2001) e “Eight Seasons” (2011) – são oito, pois quatro são as de Vivaldi e as outras quatro, as estações potenhas.. São muito interessantes, pois o letão estica a corda do conceito do crossover, misturando culturas e gêneros. Para se ter uma ideia, quem toca o bandoneon é o norueguês Per Arne Glorvigen, e há participações dos violonistas brasileiros Odair e Sergio Assad, de Caetano Veloso (narrador do poema de Jorge Luis Borges, em “El Tango”), de MIchel Portal na clarineta, e da italiana Milva, cantando um emocionante “Preludio para el año 3001 (Rinasceró)”, tão bom ou melhor do que na interpretação de Amelita Baltar.
Ouça “Primavera Porteña”.
Os irmãos Assad, que participaram do CD de Gidon Kremer, pela mesma Nonesuch, lançaram “Sérgio & Odair Assad Play Piazzolla” (2001). São os dois ao violão, Marcelo Nisinmann no bandoneon, e Nadja Salerno-Sonnenberg e Fernando Suarez nos violinos.
Outro CD interessante é do pianista clássico Emanuel Ax e Pablo Ziegler, pianista do conjunto de Piazzolla e um dos nomes mais importantes do “nuevo tango”, na Argentina. “Los Tangueros” (CBS 1996) é um belíssimo álbum, em um formato pouco comum nesse tipo de repertório.
No próximo post, continuo com Piazzolla e sua amizade com o violinista Salvatore Accardo.
Ouça “Primavera Porteña”.
Os irmãos Assad, que participaram do CD de Gidon Kremer, pela mesma Nonesuch, lançaram “Sérgio & Odair Assad Play Piazzolla” (2001). São os dois ao violão, Marcelo Nisinmann no bandoneon, e Nadja Salerno-Sonnenberg e Fernando Suarez nos violinos.
Os irmão Assad tocam “Escualo”.
Outro CD interessante é do pianista clássico Emanuel Ax e Pablo Ziegler, pianista do conjunto de Piazzolla e um dos nomes mais importantes do “nuevo tango”, na Argentina. “Los Tangueros” (CBS 1996) é um belíssimo álbum, em um formato pouco comum nesse tipo de repertório.
“Adiós Nonino”, com Ax e Ziegler.
No próximo post, continuo com Piazzolla e sua amizade com o violinista Salvatore Accardo.
