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quinta-feira, 4 de julho de 2019

A dor mais bela, por Adam Page

Há sempre algo a nos surpreender. E é melhor quando vem do nada, do inesperado. Melhor ainda: vem de longe, muito longe, pelo menos, geograficamente. Esse algo tem nome: Adam Page. De Adelaide, Austrália.

Sinto atração por coisas tristes e belas. Minha curiosidade, por exemplo, um tanto mórbida talvez, é despertada por um título como “The Colours of Grief”. Fico a imaginar que o luto tem apenas cores sombrias. Para o músico, pianista, saxofonista e compositor Adam Page, existem outras. É o que penso ao ver uma sucessão de linhas horizontais: vermelho, cinza, preto, violeta, laranja, marrom e verde, nessa ordem. Cada cor é um estado do luto. Estados são abstratos e, nada melhor do que a música para representá-los, como pinturas de sons.

Vermelho é a cor do sangue. Uma nota se repete, como o anúncio da imobilidade eterna, como o fim dos tempos, o tempo como uma entidade suspensa. Cinza: deixo de ser corpo físico para tornar-se imaterial. Sou espírito.O preto é a cor essência do luto. Vi várias pessoas que só se vestiam de preto depois da morte de algum ente próximo. Na minha infância, a diretora da minha escola, em Passos, MG, dona França vestia-se apenas de preto. Foi uma figura marcante, uma senhora de cabelos totalmente brancos, sempre de preto.

Por sinal, é uma das faixas mais interessantes. Começa com ostinatos, ao piano de Brenton Foster, e linhas solenes de contrabaixo e violoncelo. Termina abruptamente. O piano continua, com uma variação da faixa anterior, em “Purple”. O roxo é outra cor que associamos ao luto. É a única faixa em que Page toca piano.

Laranja. Por que laranja? A faixa é linda, com tons solenes do piano e pizzicatos no violoncelo, belo solo de Page, e sons do violoncelo, dessa vez, no arco. É um trechinho o solo, sublime. Será a morte tão bela? Ou será a lembrança do que que parte? O tom luminoso é tingido pelo marrom e o ritmo me lembra uma passacaglia, pelas notas que se repetem ao saxofone, contrabaixo e guitarra.

O verde significaria esperança, para mim, pelo menos. Como é o título da última faixa, imaginei sons que a representassem. Os instrumentos se alternam, o fim é inconcluso. Existe um fim? Ou tudo continua, como mais um capítulo de nossa existência?

Ouça “The Colors of Grief”.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

O manifesto de John Coltrane


“Essas crianças inofensivas, inocentes e lindas foram as vítimas em um dos crimes mais brutais e trágicos já praticados contra a humanidade. E, hoje, de pé, sobre os restos destas lindas e amadas garotas, parafraseio as palavras de Shakespeare: Boa noite princesas, boa noite àquelas que simbolizam um novo dia, e que o voo dos anjos as levem ao descanso eterno”, foram as palavras de Martin Luther King, Jr.

Na tarde de 15 de setembro de 1963, suprematistas brancos cometeram um atentado em uma igreja batista, em Birmingham, Alabama. Quatro membros da Klux Klux Klan colocaram ao menos 15 bastões de dinamite sob as escadas da igreja. Na explosão, quatro meninas morreram e várias ficaram feridas. Esse incidente é um dos marcos da luta pelos direitos civis.

Pelo que se sabe, John Coltrane, sujeito de poucas palavras, nunca se manifestou acerca da segregação racial, ele, que nasceu em Hamlet, Carolina do Norte, estado sulista, com uma presença significativa de negros, que trabalharam em plantações de algodão e tabaco.

Seu silêncio, porém, nunca significou que ignorasse a situação dos negros e muito menos a luta pelos direitos civis. Três meses depois do terrível atentado, na tarde de 18 de novembro entrou no Rudy Van Gelder’s Studio e gravou “Alabama”, com seu quarteto, constituído por McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones. Foram quatro tomadas e a versão final foi incluída no álbum “Live at Birdland”. A música, em andamento lento, capta a tristeza dolorosa sobre a tragédia e é também um manifesto contra a injustiça humana e a luta dos negros pelos seus direitos.

John Coltrane nunca disse algo sobre “Alabama”. Seus sentimentos sobre o triste episódio nunca foram manifestados verbalmente. Foram manifestadas em forma de notas musicais e, provavelmente, lembrou-se das palavras de Martin Luther King, Jr. ao compô-la.


Veja o quarteto de Coltrane a executar “Alabama”.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O tenor quente de Eric Alexander


Está muito certo Jack Bowers, em sua resenha de “No Regrets”, álbum lançado em 2017, de Eric Alexander. “Um dos pontos fortes de Alexander, e talvez o que o levou a ser tão subestimado, quando nos referimos aos mestres contemporâneos, é que ele faz tudo tão implausivelmente fácil. A técnica e a fluência são tais que não há literalmente nada que não possa fazer no saxofone tenor.”

Descobri Eric Alexander por meio do Carlos Conde, que tinha um dos bons programas de jazz nas rádios brasileiras. Apesar da diferença de idade – uns 20 anos –, fiquei muito amigo dele, a ponto de ser convidado com frequência para assistir aos shows em clubes como o Bourbon Street, em São Paulo. A grande vantagem é que, sendo os seus convites de cortesia, sentávamos na mesa mais próxima ao palco. Enjoei de ver John Pizzarelli.

Conde tinha suas idiossincrasias. Não era grande fã de John Coltrane, para a minha frustração. Detestava Ben Webster, um dos meus tenoristas preferidos. O que eu apreciava, o sopro volumoso, segundo ele, era ar e não música. Acho que, pelo menos, não tinha aversão por Lester Young, Coleman Hawkins e Dexter Gordon, outros dos meus ídolos.

Da geração mais nova, de quando ainda estava vivo, gostava muito de Eric Alexander. Fomos juntos, com o Alberico Cilento, vê-lo em um festival de jazz em São Paulo. Passados tanto anos, ouço ainda Alexander com certa frequência, e concordo que é um dos bons saxofonistas da atualidade. Não tem a fama de Branford Marsalis, Joe Lovano ou Charles Lloyd, mas é craque.

Minhas noites com Eric
Ouço música o tempo todo, até antes de dormir. Além de me trazer um enorme prazer, é meu sonífero. Tenho uma boa caixa Altec Lansing ao lado da cama, com um iPod de 140 GB. Uma série, intitulada “Gentle Ballads”, de Alexander, tem funcionado como uma espécie de acalanto adulto.

Não sei se foram gravados mais, no entanto, são cinco os títulos, no período de 2004 e 2011. Todos são da Venus Records, gravadora que se especializou em lançar álbuns de jazz, com músicos consagrados, como Archie Shepp, Kenny Barron, Steve Kuhn, Sir Roland Hanna e Cedar Walton, e outros mais novos, como os italianos Massimo Faraò, Stefano Bollani, a australiana Nicki Parrott, e as cantoras Alexis Cole, Simone Kopmajer e Tessa Souter. O nicho da gravadora japonesa é aquele público menos afeito às experimentações vanguardistas e à instrumentação do jazz-rock. Até Archie Shepp apresenta-se mais “domesticado” em seus álbuns por essa gravadora.

Os álbuns de Alexender pela Venus vão então por essa seara mais “gentle”, bem diferentes dos seus registros pela HighNote, mais ousados e diferentes, mas dentro do espectro do jazz contemporâneo. Em comum, o que se destaca é o que Jack Bowers ressalta: a sua maestria no tenor.

Nas “gentle ballads” estão presentes os mais belos standards do cancioneiro americano, como “Midnight Sun”, “I’m a Fool to Want You”, “My Ship”, “Stormy Weather”, “Chelsea Bridge”, “Don’t Explain”, “Summertime”, “Little Girl Blue”, “Goodbye”, “You Don’t Know What Love Is”, “Nature Boy”, “Body and Soul”, “Tenderly” e “My One and Only Love”, dentre outras, não necessariamente executados em tempos lentos. O piano é de Mike LeDonne – nos discos da HighNote é Harold Mabern –, com John Webber no contrabaixo e Joe Farnsworth na bateria.

Destaco então, o Eric das minhas noites, começando com “Mona Lisa”. Que belo saxofone!




“Left Alone”, de Billie Holiday e Mal Waldron, é um dos melhores números da série, com o sax matador

 


“Nature Boy”. Nas baladas, vem a lembrança inevitável de John Coltrane, em “Ballads” (Impulse, 1965), e o belíssimo “Johnny Hartman e John Coltrane” (Impulse, 1965)




“Tenderly”.




Veja Alexander em um número que não está nessa série. É um original de outro grande saxofonista: Dexter Gordon. A música é “Cheesecake”.