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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Caprichoso Hamilton

A palavra Capricho vem de “capriccio”, do italiano. É uma palavra interessante pelas formas com que é usada. Uma delas é dizer que “fulana é caprichosa”, o que pode significar que faz as coisas com cuidado, esmero. Ao mesmo tempo, pode ser alguém que fica a mudar de ideia a toda hora. E, efetivamente, é o nome de uma revista cinquentenária da editora Abril, conhecida por ser uma das pioneiras em publicar fotonovelas. Antes das telenovelas faziam o maior sucesso. Provavelmente pessoas com menos de 40 anos nunca viram ou leram uma.

Antes ou depois disso, é uma nomenclatura utilizada na música. Muitos devem conhecer os 24 Caprichos de Paganini, no original italiano, “caprices”, variação de “capricci” ou “capriccio”. O termo é usado também por Rimsky-Korsakov em Capriccio Espagnol e Igor Stravinsky em Capriccio para Piano e Orquestra. Capriccio é o título da última ópera de Richard Strauss. Não deve deixar de ser citado seu uso em outras formas de arte. São célebres as 80 gravuras da série Los Caprichos, do espanhol Francisco Goya.

Quem acompanha Hamilton de Holanda no Facebook deve desconfiar que ele possui o dom da ubiquidade. Um dia está se apresentando em São Paulo, ou na Itália ou Alemanha, gravando um novo disco com não sei quem, ensaiando com Paulinho da Viola para uma apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, enfim, a impressão é a de que está em vários lugares ao mesmo tempo tal a sua hiperatividade profissional. Nessa toada, são lançados álbuns, um atrás do outro, com sua participação. Lançou dois geniais no ano passado: Mundo de Pixinguinha e Que Será, este em parceria com Stefano Bolani. No terceiro, chamado Trio, que não conheço, fazem parte alguns “caprichos”: Capricho de Raphael, de Espanha, do Sul, do Carmo e de Santa Cecília.

Outros caprichos vieram e juntam-se aos citados anteriormente e transformaram-se em um álbum duplo. Como os “caprichos” de Paganini, os de Hamilton totalizam 24. Quer conhecê-los? Fácil. Ele disponibilizou na internet “de grátis”. É só digitar http://hamiltondeholanda.com/caprichos/#musicas.

Veja Hamilton tocando Capricho do Sul, composta




Veja-o em Capricho do Carmo.




Capricho do Raphael.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O mundo de Pixinguinha segundo Hamilton de Holanda

Um disco com um instrumentista acompanhado de diferentes músicos em cada faixa é como um panaché de sobremesas. Experimenta-se o doce, o levemente amargo, o ácido, o exótico, etc. É o caso de Mundo de Pixinguinha, de Hamilton de Holanda. O outro álbum lançado quase ao mesmo tempo, O Que Será, comentado na semana passada (http://bit.ly/17xkvIv), é só ele e Stefano Bollani. Este, além do italiano, que participa de duas faixas (Canção da Odalisca e Seu Lourenço no Vinho), conta com o português Mário Laginha e de mais três pianistas: Chucho Valdés, Omar Sosa e André Mehmari.

Holanda pensou no projeto por achar que “a música de Pixinguinha é agregadora por natureza” (o que está entre aspas são da matéria “Hamilton com Wynton”, de Roberto Nascimento em O Estado de S.Paulo, set. 2013). O melhor foi que agregou músicos de diferentes lugares. A referência ao panaché de sobremesas (tem um ótimo no restaurante do hotel Unique, SP) não é casual, pois o que ele nos proporciona são sabores diversos como a ginga cubana de Valdés e Sosa, temperos mediterrâneos do francês Richard Galliano e Bollani, ibéricos de Laginha, jazzísticos de Wynton Marsalis, sem faltar a brasilidade de Mehmari, Carlos Malta e da francesa/brasileira Odette Ernest Dias. O universo da música se circunscreve no “mundo Pixinguinha”. Muito boa a ideia dele: uní-los em volta de um dos maiores compositores do mundo.

O bandolinista está, com esse disco, semeando a obra de Pixinguinha. “Você precisa ver como o Chucho Valdés ficou. Toquei a primeira parte e, quando modulou para a segunda, ele disse: ‘Meu deus do céu. Que gênio!’”, conta. O cubano participa de duas faixas: Benguelê e Lamentos. Belíssima. Pixinguinha foi pioneiro ao apresentar-se com seus Batutas, em 1922, fora do Brasil. Os Oito Batutas ou, como diziam os franceses, o “Les Batutás, apresentaram-se por quase seis meses nos palcos do Sheherazade, Chez Duque e La Reserve Saint-Cloud. Não foi o sucesso que previam, apresentados como um conjunto exótico de negros (lembre-se do sucesso de Josephine Baker), nem o fracasso como desejaram seus detratores. Pixinguinha já era internacional, quem sabe, sua bela música se torne também, até a partir do trabalho de Hamilton de Holanda.


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Lamentos é a que vem depois de Naquele Tempo. Esta é um solo de Holanda. Richard Galliano participa de Ingênuo e da pouco conhecida Agradecendo. Pouco conhecida também é Canção da Odalisca, executada com Stefano Bollani. A outra colaboração é em Seu Lourenço no Vinho. Os outros pianistas são Omar Sosa, em Yaô, e Mário Laginha com grande solo em Rosa.


Veja Hamilton e Sosa tocando Dos Caminos. Não está no disco e não é de Pixinguinha.





Wynton e Hamilton tocam Pixinguinha
Hamilton e Wynton

Uma interpretação a se destacar é a de Wynton Marsalis em Um a Zero. Segundo Hamilton, o único que não conhecia Pixinguinha, nem de ouvir falar, era ele. "A música que gravamos é fantástica, solidifica as harmonias e a maneira que se toca a melodia, como no ragtime. É uma das mais difíceis para o trompete que já toquei”, disse o trompetista sobre a música de Pixinguinha e comparou-o a Scott Joplin. E sobre Hamilton, afirma: "Ele é a personificação de tudo que queremos num grande músico. Tem bons reflexos, tem uma maneira natural de tocar, tem profundidade de alma e sentimento. Ele é um tesouro nacional".
Caprichos de Pixinguinha, com André Mehmari, e Carinhoso são as únicas em que toca com brasileiros. Aqui, Hamilton toca com Carlos Malta e Odette Ernest Dias. Nada como terminar com a música considerada a melhor de todos os tempos, segundo pesquisa de O Estado de S.Paulo, de uns quatro anos atrás.

Ouça Um a Zero com Hamilton e Wynton.


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Alguém ouviu o CD Samba do Avião, de Hamilton de Holanda?

Como tantos outros discos de música instrumental, Samba do Avião, lançado em 2008, encontra-se esgotado. Descobri casualmente pesquisando a discografia de Richard Galliano. É possível baixá-lo pela iTune Store por US$ 9.99. Foi o que fiz. Só não entendi por que paguei um dólar a menos por Mundo de Pixinguinha, que é mais recente. O CD físico pode ser comprado na loja da Amazon americana.

No disco, Hamilton toca desacompanhado na maioria das faixas, ou melhor, em algumas toca com ele mesmo, usando o recurso de overdubs. Apenas nas três últimas – Chorinho Pra Ele, Sertão e Sanfona –, toca com o acordeonista Richard Galliano. Impressionante como os dois instrumentos se combinam ou, pelo menos, impressionante a simbiose entre Hamilton e o francês. Confira em Chorinho Pra Ele, de Hermeto Pascoal.


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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Os duos de Hamilton de Holanda e André Mehmari

André e Hamilton em transe
Depois de O Que Será, lançado pela ECM, as portas para um reconhecimento internacional estão abertas para o bandolinista Hamilton de Holanda. Não apenas por esse disco, mas também por outro a ser lançado: O Mundo de Pixinguinha. O álbum contém colaborações internacionais de peso, como a do trompetista Wynton Marsalis, o acordeonista Richard Galliano, os pianistas Mario Laginha (Portugal), Stefano Bollani (Itália) e os cubanos Chucho Valdés e Omar Sosa. Nada mal para os ouvidos do mundo. Antes, em 2006, Holanda tinha gravado Samba do Avião, com participação de Richard Galliano, lançado em 2008, com “zero” de divulgação. Encontra-se esgotado e é encontrado apenas na iTunes americana. A loja brasileira nem sabe que existe esse álbum.

Tempos atrás – põe tempo aí – em um show de cantoras no Sesc-Pompeia, fiquei impressionado com o pianista e passei anos até descobrir seu nome. Se não me engano, acompanhara Jussara Freire – ou foi a Ná Ozzetti?, não sei. Em outra apresentação, reconheci seu piano e soube que se chamava André Mehmari.

Muitos discos depois e alguns shows, vi um CD do pianista com Hamilton de Holanda na Livraria Cultura. Com a diminuição dos ímpetos de consumo, comprar CDs se tornou coisa rara. Se eram de três a quatro por semana, hoje se restringe a uma média de um por mês. É muito mais fácil comprar em arquivos não físicos pela iTunes Store. Ruim é a falta de encartes e maiores informações sobre as gravações. Imaginei que um disco com os dois valeria o gasto. Contínua Amizade vale cada centavo despendido.

Ensaiaram pela primeira vez em  2004, mas gravaram o disco em dois dias de 2007. A faixa de abertura, Rosa, de Pixinguinha, tem um ritmo de valsa e não poderia ser melhor começo. A música instrumental é improviso, um diálogo entre instrumentos, algo como pergunta e resposta. Essa característica se exacerba em duos e pode virar uma “conversa” para a qual não fomos convidados e ficamos a boiar. É o risco e é o que acontece de vez em quando, não apenas nos “diálogos” de Hamilton com Mehmari, mas com Stefano Bollani também (sobre o álbum do italiano com o brasileiro, leia http://bit.ly/17xkvIv). Foi a sensação que tive em parte de Notícia, de Nelson Cavaquinho, Alcides Caminha e Norival Bahia, a segunda. Nem tudo é assim, entretanto.

Choro da Contínua Amizade é uma das composições de Mehmari. A outra é Vivo Entre Valsas. Hamilton comparece com O Sonho e Enchendo o Latão. Uma agitada e outra, não, para contrabalançar. As mais lentas, como Acontece (Cartola), Choro Negro (Paulinho da Viola), e Tema de Amor de Cinema Paradiso, são mais interessantes. Das mais “agitadas”, Baião Malandro, de Egberto Gismonti, é o destaque. Confira.


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Di Menor, de Guinga, é uma das canções de Contínua Amizade.



Grande Choro Negro, de Paulinho da Viola.


Em 2010, a contínua amizade os uniu para gravarem um álbum em que homenageiam Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal: gismontipascoal. Três temas são de autoria de Hamilton e Mehmari, naturalmente, homenageando os nomes mais prestigiados da música instrumental no cenário internacional.

A melhor do álbum é Bebê, de Hermeto Paschoal. Grande música. No conjunto, as de Egberto são as melhores: as mais conhecidas – Palhaço, Frevo e Lôro –, Memória e Fado (belíssima) e Fala da Paixão.

Ouça Bebê.


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Veja André e Hamilton em Chorinho pra Eles, composição do pianista em homenagem a Paschoal e Gismonti.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

Olha o Hamilton de Holanda na ECM

O barbudo é Bollani, ao lado de Hamilton
Guarda Che Luna começa com um solo de bandolim que é um deslumbre. No primeiro minuto entra um piano, timidamente, e começa a dialogar com as cordas em ritmo que vai se acelerando aos poucos. No terceiro minuto, o bandolim passa a marcar o ritmo para o solo do piano. Há algo de brasileiro, mas a composição é de dois italianos: Gualtiero Malgoni e Bruno Pallesi. No diálogo incessante, ora é a vez de um, ora do outro. Faltando menos de dois minutos para o seu final, o pianista começa a balbuciar de modo estranho. É um anti-climax. Passado o susto, é possível compreender a intervenção bem humorada do italiano.

Luiza é a próxima. Ah, Luiza, aquela do Tom Jobim? Bandolim rima com Jobim. Tem brasileiro na parada! Ah, é Hamilton de Holanda, um quase brasiliense, pois natural de Niterói, cresceu na Capital Federal. E do pianista Stefano Bollani pode se dizer que é um brasiliano. De tanto vir ao Brasil, deveriam conceder-lhe passaporte brasileiro. É só vê-lo cantando Trem das Onze para confirmar.




Bollani é um rapaz diferente. Nem tem cara de italiano com aquele “cabelo ruim”, como se dizia em tempos menos corretos. É expansivo, como muitos de seus compatriotas, e parece levar a alegria por onde passa e é instrumentista versátil. É jazz interpretando Cheek to Cheek ou It’s Only a Papermoon (I’m in the Mood for Love, 2006), italiano, em Volare e In cerca de ti, italiano operístico na ária E lucevan le stelle, de Puccini (Volare, 2002), e brasileiro em Ao Romper da Aurora, A Voz do Morro (Carioca, 2008), Canção do Amor Demais e Pois É (Falando de Amor, 2003).


A capa do CD O Que Será
O Brasil é um país pródigo em revelar bons instrumentistas nas cordas. Hamilton é considerado o melhor bandolinista atual, de uma linhagem em que se destacam Jacob do Bandolim, Déo Rian e Joel Nascimento. Em pouco mais de dez anos de carreira, gravou cerca de 20 discos, inclusive no mesmo formato bandolim–piano de O Que Será: Contínua Amizade e Gismontipascoal, com o jovem mestre André Mehmari.

O Que Será acaba de ser lançado pela ECM Records. Para Hamilton, é ótimo: é uma boa forma de ficar reconhecido internacionalmente. Dos brasileiros, apenas Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos tiveram a honra de terem seus nomes estampados na capa de algum disco dessa gravadora. Existe um terceiro brasileiro: Ricardo Villalobos, residente em Berlim, mas é um caso atípico, pois é DJ e a praia dele é a da música eletrônica.

Dos temas que ficaram registrados, além de O Que Será, temos Beatriz, Luíza, Apanhei-te Cavaquinho, Rosa, Canto de Ossanha e Caprichos de Espanha, sendo a última, composição do bandolinista. Il Barbone di Seviglia – deve ser uma brincadeira com o nome da ópera O Barbeiro de Sevilha, e será autorreferência, já que agora, além do cabelão, cultiva uma barba? –, é de Bollani. As duas restantes são Guarda Che Luna e Oblivion, de Astor Piazzolla.

Veja Bollani ao piano e Holanda no seu bandolim de dez cordas a tocar Oblivion.




Ouça o álbum dos dois.




Veja os dois em Canto de Ossanha.




Um a Zero, de Pixinguinha. Esta não está no disco.



Outra que não está no disco: Estate.




Chorinho pra Ele, de Hermeto Paschoal.