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terça-feira, 5 de abril de 2016

A morte precoce de Roger Cicero

No dia 26 de março, morreu Roger Cicero, devido a um acidente vascular cerebral, com apenas 45 anos Coincidentemente, seu pai, Eugen Cicero, faleceu com a mesma moléstia. Meses antes, Cicero tinha sido diagnosticado com síndrome de fadiga crônica aguda com suspeita de miocardite. Depois de internado, não recuperou a consciência.

Imagino que seja um desconhecido para a maioria que não é alemã. Filho de pais romenos ligados às artes, pai pianista conhecido de jazz e mãe dançarina, partiu para a carreira de músico ainda adolescente. Estudou música em Amsterdam e fez carreira na Alemanha, seu país natal.

Voltado mais ao jazz, tocando com o pai Eugen, participando do Festival de Montreux, como crooner da banda Jazzkantine ou formando a Roger Cicero Quartet, em vez de fazer como a maioria de seus conterrâneos que escolheram o gênero como caminho, preferia cantar em alemão. Essa escolha, provavelmente, dificultava que se tornasse mais conhecido em outros países. De certo modo, com jeito de galã, como Michael Bublé, mais talentoso até do que o canadense, deve ter sido a opção que fez. Poderia ter virado uma astro internacional.

Roger e Julia
Como conheço Julia Hülsmann, que grava pela ACT e pela ECM, acabei “descobrindo Roger Cicero. Apesar de a maioria dos discos de Julia seguirem o formato instrumental, gravou três com cantores europeus. Conheci primeiro o com Rebekka Bakken (ACT, 2003), logo depois, Good Morning Midnight (ACT, 2006), com Cicero, e, mais recentemente, A Clear Midnight – Kurt Weill in America (ECM, 2015), com o cult, natural da Alemanha também, Theo Bleckmann, radicado em Nova York. Os três têm em comum serem cantados em inglês.

Curioso em conhecer outros discos de Roger Cicero, o primeiro que ouvi, fora o que gravara com Hülsmann, ouvi There I Go (Jazzsick Records, 2005). Como não me interessei pelos cantados em alemão, ouvi depois Cicero Sings Sinatra: Live in Hamburg (Sony/RCA 2015) e The Roger Cicero Jazz Experience (Wave Music, 2015). Os três são muito bons. Ele cantando Sinatra é um pouco menos porque lembra muito as incursões de Michael Bublé pelos standards. Passa aquela impressão de “já visto”, mesmo sendo melhor que o canadense.

Em There I Go, Roger canta vários standards, mas nem tudo é tão comum. Temos as batidas My Favorite Things, No Moon at All, mas outras como Red Top, Joy Spring e Bluesette são temas mais executados instrumentalmente e pouco cantadas, por serem mais específicas do jazz. São obras que exigem maior familiaridade dos cantores com esse gênero.


Roger mostra que é do ramo em Bluesette. Ouça.




Há um vídeo de Roger no Festival de Montreux cantando Bluesette com uma bigband, mas que não pode ser compartilhada. Se você quiser ver, vá para https://www.youtube.com/watch?v=nx4js_dNqBI

O recente The Roger Cicero Jazz Experience é o melhor testamento. O álbum é impecável. Como em There I Go, neste canta coisas do repertório moderno como Shower the People, de James Taylor, 50 Ways to Leave Your Love, de Paul Simon, From the Morning, de Nick Drake, The Long and Winding Road, de John Lennon e Paul McCartney, e Tom Traubert’s Blues, de Tom Waits. As mais antigas, como Moody’s Mood e Benny’s from Heaven, são essencialmente jazzísticas, tanto que as letras são de autoria de Eddie Jefferson que, como Jon Hendricks, notabilizou-se por colocar letras em temas bebop.

Um dos temas que pode se destacar é Keep It Loose Keep It Tight. A referência a essa composição é proposital, porque Roger lembra muito Amos Leee, o autor dessa composição. Confira.




Veja Cicero no Leverkusener Jazztage 2013, cantando com seu Jazz Experience. Além de standards, interpreta clássicos modernos como The Long and Winding Road, de Lennon e McCartney, e Shower the People, de James Taylor.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

Theo Bleckmann canta Kurt Weill

Theo e Julia, lado a lado
Tenho o costume de sempre dar uma olhada em um site cujo nome revela ao que veio – “musica degradata” (http://musicadegradata.blogspot.com.br) –, e outro, chamado “jazz boot experiment” (http://jazzbootexperiment.blogspot.com) – por neles encontrar gravações não lançadas em CD. Geralmente são registros tirados de transmissões radiofônicas ou gravações piratas mesmo. Na era digital, são de ótima qualidade, ao contrário dos que eram lançados antigamente, os chamados “bootlegs”, em sua maioria péssimos. O bom nesses dois sites é a chance de se ouvir encontros de músicos que só acontecem em shows.

Nessa garimpagem, achei um show de Theo Bleckmann com o quarteto da pianista e compositora Julia Hülsmann, em um festival de jazz em Bonn, que aconteceu em 28 de maio deste ano. Julia é uma jazzista alemã bem conhecida, e Theo já foi chamado de “local cult favorite” pelo New Yorker.

Pelo “cult” fica claro que Bleckmann não é aquele cantor que vai agradar a todos. “Cult” é uma expressão entojada e elitista, por natureza. Pois a própria pessoa que fez o post para o download escreveu o seguinte: “O pior cantor da redondeza. Espero que Manfred Eicher nunca lance um álbum com ele.” Pelo jeito, o dono da gravadora ECM não pensa o mesmo: meses depois foi lançado A Clear Midnight – Kurt Weill and America. E é isso mesmo: Beckmann é para poucos, seja isso um elogio elitista ou uma crítica. Como comparativo, na votação da Downbeat, ficou em terceiro como melhor vocalista masculino, segundo a crítica; na votação dos leitores, ficou em sexto, abaixo de Michael Bublé, que apenas tem o mérito de ser boa pinta e bom vendedor de discos. A crítica já o descreveu como “de outro planeta” (New York Times), “mágico, futurista” (AllAboutJazz) e “transcendente” (Village Voice).

Theo Beckmann é um cara diferente mesmo. É o caminho que escolheu. Basta observar com quem já trabalhou: Meredith Monk, Phillip Glass, Dave Douglas e Anthony Braxton, dentre outros. Seus projetos também possuem essa marca. Seu disco I Dwell in Possibilities foi inspirado no Art Povera, movimento artístico italiano dos anos 1960; Hello Earth! é uma releitura do álbum conceitual do mesmo nome de Kate Bush; e um outro chama-se Twelve Songs by Charles Ives with Kneebody. Com trabalhos assim, impossível ser apreciado por muita gente. Os álbuns que podem ser considerados mais “pop” são Schumann's Favored Bar Songs, duo com o pianista Fumio Yasuda (Winter & Winter, 2010), sua participação em Songs I Like a Lot, de John Hollenback (2013) e seus álbuns com Ben Monder, que mesclam o avant garde com standards.

A Clear Midnight

O álbum, cujo subtítulo é Kurt Weill and America, faz uma ponte do que foi composto depois que o alemão mudou-se para os EUA, fugido da guerra e de Hitler. Além de clássicos como Mack the Knife (a única exceção), Speak Low, September Song e Alabama Song, e outros menos populares, como Your Technique, Beat! Beat! Drum! e River Chanty, em parceria com letristas como Ogden Nash, Ira Gershwin, Ann Ronnell, Langston Hughes e Maxwell Anderson, o álbum tem alguns números compostos por Julia sobre poemas de Walt Whitman.

Certamente, o álbum concebido por Julia não é do gosto de todos, mas é um bom diferencial, uma ilha no meio de tantos intérpretes que pouco se aventuram.


Veja Theo com Julia em Beat! Beat! Drum!, no Festival de Jazz de Bonn.




Assista ao vídeo oficial da ECM apresentando o álbum.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Seal é jazz

Seal e a mulher Heidi Klum
No fim dos anos 1980, falava-se muito de um cara chamado Adamski. Num cenário pleno de rótulos como dance/ acidhouse/ electropop/ technopop, esse bretão circulava pelos clubes ingleses com seus instrumentos eletrônicos debaixo dos braços, aparecia com frequência na MTV, enfim, era “o” falado. Em 1990, lançou um disco do qual uma das faixas dele se chamava Killer, cantada por um certo Seal. De hoje em dia, nem se fala mais de Adamski. Seal explodiu.

Quando Seal Henry Olusegun Olumide Adeola Samuel (esse é seu nome de batismo) ficou conhecido, passou-se a falar que era filho de um brasileiro com uma inglesa de origem africana. A verdade, dita por ele próprio, é que o avô por parte de pai era brasileiro. Bom, independentemente de que tenha sangue brasileiro, Seal impressiona; pelo tipo físico – é um homenzarrão, careca, de olhar profundo, um tanto triste e sério, tem o rosto marcado por um tipo raro de lúpus que deve ter contraído ainda jovem – e, principalmente, por uma voz (muito) especial, meio-rouca, que carrega certa melancolia.

Num primeiro olhar, seria improvável se imaginar que alguma música de Seal pudesse virar tema para intérpretes ligados ao jazz. Depois de saber que duas pianistas gravaram Kiss from a Rose – música que foi tema de um dos Batman –, constatamos que belas melodias sempre serão temas ricos à exploração e improvisação instrumental.

Rachel Z (esq.), e Julia Hülsmann (dir.)
Coincidentemente, os dois registros são de mulheres. Segundo, são de duas intérpretes que não estão ligadas ao mainstream do jazz. A gravação mais antiga que conheço é a de Rachel Z, de 2004. A marca dessa pianista tem sido a de procurar novos temas do universo pop e explorá-los jazzisticamente. Além de Seal, gravou Peter Gabriel, Sade, George Harrison, Johnny Cash e Sting.

A alemã Julia Hülsmann gravou alguns discos pela Act e, atualmente grava pela ECM. Como Rachel Z, tem procurado explorar temas no pop, como as de Nick Drake, Sting e Randy Newman. Enveredando por um viés mais intelectualizado, musicou poemas de Emily Dickinson e e.e. cummings. Julia é uma intérprete a quem devemos prestar atenção.

Ouça Kiss from a Rose por Julia Hülsmann.



Ouça a de Rachel Z.



Kiss from a Rose por seu compositor, Seal.