quinta-feira, 6 de setembro de 2018
Katia e Marielle Labèque e suas raízes
Bascos notáveis
Maurice Ravel nasceu em Ciboure, bem perto de Biarritz, em março de 1875. Basco por parte da mãe, Marie Delouart, cresceu em Paris, entretanto, parafraseando uma frase conhecida, “saiu de lá, mas os Países Bascos não saíram dele.”
Katia e Marielle Labèque, nascidas em Bayonne, como Ravel, começaram seus estudos de piano com a mãe Ada Cecchi, que tinha sido aluna de Marguerite Long e, posteriormente, fizeram o Conservatório de Paris. Ficaram conhecidas, inicialmente, executando compositores contemporâneos, com György Ligeti, Luciano Berio e Olivier Messiaen. É desse autor “Visões do Amém”, que gravaram na primeira incursão fonográfica.
Belas e talentosas, atraíram a atenção das gravadoras. A Philips chegou na frente, com elas executando “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin, em versão para dois pianos. Venderam um milhão de cópias, fenômeno, em se tratando de música erudita.
O prestígio das irmãs não foi apenas pelas vendas. Compositores contemporâneos, a exemplo de Berio, Michael Nyman, Philip Glass e Osvaldo Golijov, compuseram especialmente para as Labèque tocarem em estreia mundial.
Depois de lançarem discos pelos melhores selos de música erudita, criaram o KML Recordings, focado em um repertório mais abrangente e heterodoxo, incluindo o rock experimental e a música mais tradicional, como a que gravaram com a espanhola Mayte Martin (“De Fuego y de Agua”, 2008).
Os álbuns mais recentes são demonstrativos do distanciamento do repertório mainstream. “Moondog” aborda a música de Thomas Hardin, cujo nome artístico intitula o disco. É algo muito diferente, algo impossível de ser rotulado.
No mais recente, “Amoria”, as irmãs Labèque fazem uma viagem pela música basca, do século 16 até nossos dias. É um tributo às suas origens, com um resultado que não decepciona. Seu início é animador. “Con amores, la mi madre”, de Joanes Antxieta, em arranjo para dois pianos e o contratenor Carlos Mena, é um grande início. As seguintes são também de autores pouco conhecidos, fora Pablo Sarasate, basco de Pamplona, e Maurice Ravel.
O amor de Ravel por seu país
Acho que não há ser humano no planeta que não conheça “Bolero”, popularmente chamada de “Bolero de Ravel”. Apesar de possuir uma obra de respeito, que não se resume ao tema que virou “carne de vaca” depois de ter feito parte da trilha sonora de “Retratos da Vida”, filme de Claude Lelouch. Ser basco foi um dado importante não apenas na música, como é possível perceber-se nessa afirmação, contida no encarte: “É sobre meu coração seco. Isso está errado. Mas sou basco e os bascos não se entregam aos poucos. Você pode não acreditar com o desgosto que eu deixei St. Jean de Luz. Eu realmente senti essa impressão nostálgica somente quando vi o oceano desaparecer primeiro, depois os Pirineus. Realmente, meu país é um dos mais belos e bonitos, eu diria. O mar está cheio de acácias. E essas suaves colinas verdes, de cima a baixo, caem das pequenas bolas de carvalho esculpidas no basco. E, acima de tudo isso, os Pirineus, a malva de terra das fadas. E então, há luz. Não é o sol implacável do outro meio-dia. Aqui, é um brilho excelente. As pessoas sentem isso; ele é ágil, elegante, e sua alegria não é vulgar. As danças são leves, de voluptuosidade, sem excesso. A religião em si, embora altamente observada, é mesclada de um grão de ceticismo.”
Bela declaração de amor, não? Por meio dele, amigos como Arthur Rubinstein, Alfred Cortot, Igor Stravinsky, Claude Debussy, Serge Prokofiev e Marguerite Long, conheceram esse belo país.
Destaques
Além de “Kaddisch”, das “Mélodies hébraïques”, e “Bolero”, executada por dois pianos e percussão com o grupo Hegiak, destacam-se a “Sarabanda”, de Bernardo Zala Gakdeano (séc. 17), “Agota”, deBalere Artxu (séc. 18). Como curiosidades, belas e singelas são “Haika mutil” e “Elurra iruñan”, compostas neste século.
Ouça o álbum no Soptify.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
As transcrições para o violão de obras dos impressionistas por Diogo Carvalho
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| Diogo Carvalho (ph Divulgação) |
A música erudita sempre teve um público cativo; pequeno e fiel, coisa de elite branca, como se refere a ela o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva a essa classe que ele pode estar confundindo com sua, a dos enriqueceram financeiramente sem ampliar seus horizontes culturais. Essa sim talvez seja a tal da elite branca mal educada, e em um país como o Brasil, em que as possibilidades de mobilidade são grandes, principalmente para os desonestos, é uma classe cada vez mais numerosa.
Um público com certo refinamento cultural – o que não significa que são endinheirados –, sem desmerecer os incultos, sustentava o pequeno mercado da música erudita, aqui, praticamente dominado por um grupo responsável pelos lançamentos da Philips e da Deutsche Grammophon. Seu concorrente maior era dona dos selos EMI, Odeon, Decca e Angel. A CBS, apesar de possuir um bom acervo clássico, para a nossa infelicidade, tinha Roberto Carlos entre seus contratados. Moral da história: nem precisava de Bob Dylan para ganhar dinheiro. Já naquela época seus discos anuais, invariavelmente, lançados perto do Natal, vendiam como água.
Uma loja de São Paulo, a Bruno Blois, resolveu lançar alguns títulos exclusivos do selo. Na primeira leva incluíram A Sagração da Primavera, de Stravinsky, La Mer, Jeux e L’après-midi dun faune, de Debussy, e outro de Ravel com, se não me engano, Le Tombeau de Couperin, Ma mère l’oye e Pavane pour une enfant défunte. Os selos tradicionais preferiam lançar Vivaldi, Bach e pouco ousavam em territórios contemporâneos. Era uma boa novidade: música do século XX. E todos os registros eram regidos por um maestro incensado pela crítica: Pierre Boulez.
Muito tempo depois, e coloque-se tempo, outros compositores entraram na minha lista de preferidos. Ravel e Debussy continuaram nela. Minha diversão é comparar diferentes interpretações sobre um mesmo compositor. E gosto de transcrições, peças concebidas de uma forma e “refeitas” por outrém.
Em posts passados comentei sobre algumas transcrições. Duas foram sobre releituras do acordeonista francês Richard Galliano sobre obras de Johann Sebastian Bach e Vivaldi, e também das “recomposições” de Max Richter das Quatro Estações, de Antonio Vivaldi. Por coincidência, Matias José Ribeiro enviou-me o CD Calavento, de Diogo Carvalho e Leonardo Padovani. Dentre as músicas, constavam composições de Debussy, Fauré, Satie, Tchaikovsky e Vittorio Monti. Gostei tanto que fiquei interessado pelo CD com obras dos impressionistas que fiquei sabendo que Diogo havia lançado.
Lançado em 2009 pelo selo Azul Music, Impressionism encontra-se esgotado. Para a minha sorte, sem sequer conhecê-lo pessoalmente, recebo o CD pelo correio. O disco é o resultado da defesa de seu mestrado na ECA-USP. Das quatorze faixas, a metade são de composições de Claude Debussy, em sua maioria, de Children’s Corner, cinco de Maurice Ravel, e duas de Erik Satie. Golliwogg's Cake Walk serve como brilhante abertura.
Veja Diogo interpretando-a.
O resto?… o resto é muito bom, tudo muito bom. Além de curtir música tocada com maestria, a diversão – ou o prazer – é ficar analisando as transcrições, puxando pela memória os originais. Veja por você alguns “Debussy” de Diogo.
La plus que lente.
La petit negre.
Diogo brilha também com Ravel. Um dos temas mais conhecidos dele é a Pavane pour une infante défunte. O título é curioso pela sonoridade das sílabas finais: “ane”, ”ante”, “funte”. A transcrição de Carvalho não é a primeira. Outros violonistas, como Larry Coryell, gravaram-na. O do americano está no LP Restful Mind (Vanguard, 1974). Aliás, Coryell é outro que fez transcrições de obras para o violão.
As duas transcrições de obras de Satie vão pelo óbvio (Gymnopédie no.1 e Gnossiène no.1), o que não significa que não sejam brilhantes. Como prova, ouça a primeira.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
As transcrições na música erudita para o violão
Mesmo caso com Martha Argerich ou Lang Lang. Não fazem covers de Chopin ou Beethoven. Como Sinatra, interpretam. Mas será que essa diferenciação não segue apenas uma lógica elitizante? O que é erudito e o que é popular?
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| Ravel, autor da transcrição de Quadros de Uma Exposição |
Há aqueles que preferem as consagradas Gymnopédie, de Erik Satie, orquestradas. Alguns devem desconhecer que essas peças, assim como as Gnossienne, foram compostas para o piano. As transcrições são de Debussy e Poulenc, respectivamente. Em ambos os casos são peças minimalistas/impressionistas, mas os dois fizeram com que novas cores aflorassem.
Ouça a Gymnopédie 1, com transcrição de Claude Debussy. Esta é da Orchestre du Capitole de Toulouse, regência de Michel Plasson.
Transcrições para o violão Aproveitando o gancho dos comentários sobre o CD de Diogo Carvalho e Leonardo Padovani e as transcrições (ou recomposições) de Max Richter de As Quatro Estações e a releitura de Richard Galliano sobre a mesma obra, vou me resumir ao piano e, quem sabe, comento sobre outras transcrições.
Como foi dito, não são muitas as obras compostas especificamente para o violão. No Brasil temos, no campo erudito, como exemplos Villa-Lobos e Isaías Savio. Como é um instrumento com alta penetração popular, temos grandes virtuoses que transitam em um meio termo, para ser mais exato, no que a crítica gosta de chamar de “crossover”. Mais conhecidos fora do Brasil do que aqui são os irmãos Assad e Carlos Barbosa-Lima, além de virtuoses, autores de boas transcrições. Diogo Carvalho em sua tese de mestrado realizou um trabalho primoroso de transcrições de compositores impressionistas. O resultado está em Impressionism.
Ouça a mesma Gymnopédie, executada e transcrita por Diogo Carvalho.
Há pouco tempo, apresentou-se no Brasil o japonês Kazuhito Yamashita. Ele é autor de uma transcrição de Quadros de Uma Exposição para o violão. Ouça o início de Quadros aqui.
Mas o violão clássico, apesar de mais associado a intérpretes latinos como o fabuloso Andrés Segovia, Narciso Yepes, Leo Brouwer, Pepe Romero e os brasileiros, tem como grandes intépretes virtuoses de outros países, como o australiano John Williams e o inglês Julian Bream. Uma nova geração de violonistas clássicos nascidos na Europa Oriental como Zsófia Boros, que você ouviu nesse blogue, Miloš Karadaglić, natural de Montenegro, e o sueco Göran Söllscher. São músicos contratados por gravadoras de prestígio como a ECM e a Deutsche Grammophon.
Veja Göran Söllscher executando a Sarabanda da Partita BWV 997, de Johann Sebastian Bach.
Veja Miloš Karadaglić tocando Mais Que Nada, de Jorge Ben, arranjada pelo brasileiro Sergio Assad.
Ouça Canción Triste, de Francisco Calleja, com Zsófia Boros.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
O jazz se encanta com Pavane pour une infante défunte, de Maurice Ravel
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| Maurice Ravel e seu piano |
Pavane é composição da juventude; fora composta quando ainda era estudante. Como outras dezenas, fora feita originalmente para o piano e, depois, feita uma versão orquestral pelo próprio Ravel. Nesse quesito sempre foi um mestre; basta ouvir a transposição para orquestra que fizera de uma obra alheia: Quadros de Uma Exposição, de Mussorgsky.
Não deve ter havido peça mais maltratada do que a conhecida como “Ode à Alegria”, que corresponde ao último movimento da Nona Sinfonia de Beethoven, por intérpretes da música popular. Perpetraram versões “pop”, virou hino e tema de encerramento de eventos esportivos etc. Lembro de uma versão da Ode à Alegria lançada no fim da década de 1960 – ou será início dos 1970? – que atingiu sucesso estrondoso. Beethoven e Schiller mereciam um pouco mais de consideração. Perto do que foi feito, a versão “elétrica” do tecladista Walter Carlos, mais tarde, Wendy Carlos, para o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, era refresco. No entanto, Beethoven não foi a única vítima dos intérpretes da música popular: tanto Mozart como Chopin e Richard Strauss tiveram suas músicas “vulgarizadas” para o gosto da patuleia. Esse tipo de “popularização” faz com que alguns incorram em casos parecidos à de uma amiga que, ouvindo um pedaço da Ode à Alegria, no original, disse: “oh, é a música do Laranja Mecânica!”. Beethoven não estava no seu repertório de conhecimentos.
Considerando-se alguns desses casos, pode-se dizer que Ravel foi mais respeitado. Há muito está no repertório dos jazzistas. Para o piano, é natural, pois muitos desses instrumentistas tiveram aprendizado clássico e conhecem bem música erudita. Mas não é só no piano que ela tem sido interpretada. A primeira que devo ter ouvido é uma de Larry Coryell, no álbum The Restfull Mind (Vanguard, 1974). Dos discos de Coryell, esse e Spaces (Vanguard, 1969) estão entre os melhores que gravou. The Restfull Mind é quase um disco da banda Oregon, com o acréscimo de Coryell; o único ausente do Oregon é o saxofonista e clarinetista Paul McCandless (os outros são Ralph Towner, o percussionista Colin Walcott e o baixista Glen Moore). Para que tenha atingido o estado de arte, a participação de Ralph Towner foi essencial. Excelente violonista, melhor até que Coryell, tecnicamente, “inaugurou” duos de violão que fez com o belga Philip Catherine e, mais tarde, com John McLaughlin, Al DiMeola e Paco de Lucia. Sem tirar o mérito de Coryell, responsável pela totalidade das composições e arranjos sobre obras de Ravel e do, relativamente obscuro Robert De Visée, instrumentista e compositor da corte de Luís XVI, Towner é corresponsável pela qualidade de The Restfull Mind. A Pavane de Ravel é um duo de Towner e Coryell, com arranjos do último.
Dentre as interpretações que conheço, além dessa, de Coryell, há outra no CD, com o título da peça de Ravel vertida para o inglês – Pavane for a Dead Princess (Venus Records, 2006) –, pelo pianista Steve Kuhn, tendo como sidemen o baixista David Finck e o baterista Billy Drummond. O tema recebe uma interpretação jazzística mesmo, em que Kuhn não se limita às notas originais. É interessante, mas nada de excepcional.
Os que estão acostumados a ouvir a Pavane em seu desenho original, apenas ao piano, ou na sublime versão orquestral não ficarão assustados ou mortificados e, muito menos, rogarão alguma praga em Art Farmer por sua interpretação que está contida em Big Blue (CTI, 1979). Acompanhado pela guitarra bela e econômica de Jim Hall, o vibrafone (essencial para o “clima”) de Mike Manieri, Mike Moore no baixo, e Steve Gadd na bateria, apesar dos improvisos e solos de praxe das improvisações jazzísticas, mantém-se no clima algo etéreo e evocativo da composição original.
Uma quarta interpretação da Pavane por alguém ligado ao jazz é a de Branford Marsalis em Creation (CBS, 2001). Esse álbum é dedicado apenas a composições eruditas de Ravel, Debussy, Fauré, Satie, Jacques Irert e Darius Milhaud, interpretadas por Branford nos saxes e a Orpheus Chamber Orchestra. A Pavane de Marsalis é fiel à original, arranjada para sax soprano.
A ligação mais incontestável com o jazz da Pavane está representada na música The Lamp Is Low. Essa composição da década de 1930 foi composta por Peter DeRose e Bert Schaffer com letras de Mitchell Parish e é uma adaptação dessa composição. Foi cantada pela primeira vez por Mildred Bailey e, posteriormente, por Frank Sinatra, Johnny Hartman, Carmen McRae, Doris Day e Ella Fitzgerald (são as que conheço).
Ouça Pavane for a Dead Princess com Larry Coryell.
A Pavane com Branford Marsalis é com ele no sax soprano, com a Orpheus Chamber Orchestra. Ouça.
Uma interpretação da Pavane, muito boa, é a do genial e discreto pianista Steve Kuhn.
Ouça a de Art Farmer. É de uma sonoridade rica, com guitarra de Jim Hall, e vibrafone, captando toda a magia hipnótica da música de Maurice Ravel.




