quinta-feira, 5 de junho de 2014

As transcrições na música erudita para o violão

Quando Thom Yorke canta The Headmaster Ritual, dos Smiths, ou Macy Gray canta Creep, do Radiohead, estão fazendo covers. É como são chamadas quando não são cantadas pelo compositor original. Há grandes covers e muitos, melhores que os originais, mesmo assim há uma conotação pejorativa na palavra “cover”. Não se diz que Frank Sinatra fez um cover de Cole Porter ou de George e Ira Gershwin. Sinatra interpreta. Ou canta. Parece que a expressão não se aplica em certos casos, talvez para aqueles que são considerados cantores, como Gal Costa ou Tony Bennett e centenas de outros.

Mesmo caso com Martha Argerich ou Lang Lang. Não fazem covers de Chopin ou Beethoven. Como Sinatra, interpretam. Mas será que essa diferenciação não segue apenas uma lógica elitizante? O que é erudito e o que é popular?

Ravel, autor da transcrição de Quadros de Uma Exposição
Nessa seara de conceitos um tanto dúbios, o termo “transcrição” é “propriedade” da música erudita. Obras compostas para determinado instrumento são adaptadas para orquestra. Um exemplo: Quadros de uma Exposição, de Modest Moussorgsky. É mais conhecida na versão para orquestra do que no original no piano. A transcrição – ou adaptação?, para ser menos elitista – é de outro compositor: Maurice Ravel. Quando Emerson, Lake & Palmer gravam Moussorgsky estão fazendo uma transcrição ou um cover? Boa pergunta.

Há aqueles que preferem as consagradas Gymnopédie, de Erik Satie, orquestradas. Alguns devem desconhecer que essas peças, assim como as Gnossienne, foram compostas para o piano. As transcrições são de Debussy e Poulenc, respectivamente. Em ambos os casos são peças minimalistas/impressionistas, mas os dois fizeram com que novas cores aflorassem.

Ouça a Gymnopedie 1, com transcrição de Claude Debussy.




Transcrições para o violão Aproveitando o gancho dos comentários sobre o CD de Diogo Carvalho e Leonardo Padovani e as transcrições (ou recomposições) de Max Richter de As Quatro Estações e a releitura de Richard Galliano sobre a mesma obra, vou me resumir ao piano e, quem sabe, comento sobre outras transcrições.

Como foi dito, não são muitas as obras compostas especificamente para o violão. No Brasil temos, no campo erudito, como exemplos Villa-Lobos e Isaías Savio. Como é um instrumento com alta penetração popular, temos grandes virtuoses que transitam em um meio termo, para ser mais exato, no que a crítica gosta de chamar de “crossover”. Mais conhecidos fora do Brasil do que aqui são os irmãos Assad e Carlos Barbosa-Lima, além de virtuoses, autores de boas transcrições. Diogo Carvalho em sua tese de mestrado realizou um trabalho primoroso de transcrições de compositores impressionistas. O resultado está em Impressionism.

Ouça a mesma Gymnopedie, executada e transcrita por Diogo Carvalho.




Há pouco tempo, apresentou-se no Brasil o japonês Kazuhito Yamashita. Ele é autor de uma transcrição de Quadros de Uma Exposição para o violão. Ouça o início de Quadros aqui.




Com Larry Coryell, violonista e guitarrista de formação clássica e mais associado ao gênero jazz, gravou As Quatro Estações, que você ouviu em posts anteriores com Max Richter e Richard Galliano, com transcrições de autoria de ambos, de Michiru Ohshima e Kazumi Watanabe. Ouça o movimento final de Primavera (allegro).




Mas o violão clássico, apesar de mais associado a intérpretes latinos como o fabuloso Andrés Segovia, Narciso Yepes, Leo Brouwer, Pepe Romero e os brasileiros, tem como grandes intépretes virtuoses de outros países, como o australiano John Williams e o inglês Julian Bream. Uma nova geração de violonistas clássicos nascidos na Europa Oriental como Zsófia Boros, que você ouviu nesse blogue, Miloš Karadaglić, natural de Montenegro, e o sueco Göran Söllscher. São músicos contratados por gravadoras de prestígio como a ECM e a Deutsche Grammophon.

Veja Göran Söllscher executando a Sarabanda da Partita BWV 997, de Johann Sebastian Bach.




Veja Miloš Karadaglić tocando Mais Que Nada, de Jorge Ben, arranjada pelo brasileiro Sergio Assad.




Ouça Canción Triste, de Francisco Calleja, com Zsófia Boros.

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