Numa pergunta de bate-pronto, o nome que está acima é de um homem? No momento seguinte, percebe-se que Zsófia é apenas a grafia de “Sofia” em alguma língua que não é o português. Outro fator que nos induziria ao erro é o fato de que são raros violonistas do sexo feminino. Mais um: com exceção de John Williams (não confunda com o compositor e maestro de trilhas sonoras) e Julian Bream, o primeiro, australiano, e o segundo, inglês, os maiores nomes do violão clássico são de origem latina, como o grande Andrés Segovia, Narciso Yepes e Pepe Romero, e boa parte do repertório, também, de compositores como Joaquim Rodrigo, Francisco Tárrega, Manuel De Falla, Albéniz e Villa-Lobos.
A húngara Zsófia Boros, com pouco mais de trinta (nasceu em 1980), tem seu primeiro disco lançado pela ECM. Nascida em um país eslavo, sem tanta tradição, é um nome a se prestar atenção, assim como a de Miloš Karadagliće, natural de Montenegro, um dos países que formava a antiga Iugoslávia e fazia limite com a Hungria. Em comum, os dois aventuram-se por um repertório menos ortodoxo, ou menos clássico.
O título é bem sugestivo: En otra parte. Tirado de um verso do poeta Roberto Jarroz (“Todo comienza en otra parte”), é boa pista para o partido de Boros na escolha das músicas. Sua referência principal é Leo Brouwer. As composições escolhidas do cubano que integram o álbum são Un dia de noviembre e An Idea. As restantes, na maioria, são de latinos, como a primeira – Canción Triste –, do espanhol Francisco Calleja (residiu parte de sua vida na Argentina e no Uruguai); Callejón de la lune, a seguinte, é de Vicente Amigo. Duas são de argentinos: Abel Fleury (Te vas milonga) e Quique Sinesi (Cielo abierto). Um terceiro é meio argentino: nasceu em Buenos Aires e cresceu na Grã-Bretanha. É Dominic Miller (Eclipse). A América do Sul está presente mais uma vez com Se Ela Perguntar, do brasileiro Dilermando Reis (sobre ele, leia em http://bit.ly/1hRhN5N).
O nome de Szófia associada à gravadora ECM traz à lembrança, talvez por alguma influência no seu estilo de tocar, o americano Ralph Towner. Aliás, é o autor de Green and Golden, a sétima faixa do CD. Ele e Martin Reiter, austríaco, são os únicos fora do eixo latino.
Sem piroctenias, Boros prefere os sons calmos, reflexivos em que cada nota é percebida com clareza. Sua área é a do intimismo. Para quem, como eu, que gosta de estar a ouvir boa música, lendo, pensando em vão e até sem fazer nada sua música é tudo, preenchendo vazios com sua técnica precisa. Quer uma prova? Se Ela Perguntar, do paulista de Guaratinguetá, Guará para os íntimos.
Ouça Un dia de noviembre, do mestre Leo Brouwer.
Ouça Te vas milonga.
Veja o vídeo promocional do CD En Otra Parte, de Abel Fleury.
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quinta-feira, 13 de março de 2014
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Dilermando Reis: no tempo em que se escrevia “majestade”com “G”
Dilermando nasceu em Guaratinguetá (Guará, como os nascidos lá gostam de dizer), interior de São Paulo, que fica mais ou menos na metade do caminho, na Via Dutra, para o Rio. Entre uma cidade e outra, preferiu ir para a capital; não a de seu estado natal, mas para a capital do Brasil.
O amigo Armênio Guedes deu-me um presente valoroso: o Dicionário Houaiss de Música Popular Brasileira, organizado por Ricardo Cravo Albin. É a quem recorro para saber que nasceu em 1916 e faleceu no segundo dia do ano de 1977. A curiosidade é a de que foi professor de violão do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Curiosidade mesmo. Sabe-se que o criador de Brasília era um pé de valsa (meu pai, fotógrafo por profissão, sediado à época em Passos, MG, tirou uma foto de Juscelino dançando com uma moça, em São Sebastião do Paraíso), e tornou, pelo menos, uma música famosa: a canção folclórica Peixe Vivo. O JK brasileiro, pelo que parece, antecipou o JK americano em alguns anos quanto ao interesse “exacerbado” por pessoas do sexo feminino.
Voltando ao Dilermando, nesse momento ouço o disco Sua Magestade o Violão, isso mesmo, com “G”; era o nome de seu programa na Rádio Nacional do Rio, que passou a ser transmitido em 1956 e durou mais de dez anos. Era um virtuose. Mereceu uma homenagem em 1994 por outro não menos virtuose, o genial Raphael Rabello, em Relendo Dilermando Reis.
Em Sua Magestade o Violão (1957), Reis mescla peças eruditas compostas para o piano (e arranjadas para o violão) como o Noturno nº 2 (Chopin) e Clair de lune (Debussy), peças originais para o violão (Pavana, de Francisco Tárrega), Malagueña (Ernesto Lecuona), Índia (J. Asunción Flores e M. Ortiz Guerrero), e algumas composições brasileiras, sendo duas de sua autoria (Araguaia e Se Ela Perguntar). Se fosse escolher alguma desse disco, ficaria com a bela guarânia. Ouça:
Dilermando e JK
A história de que deu aulas de violão ao ex-presidente é bem conhecida. Quando procurava alguns dados, deparei-me com um texto ótimo de Nelson Rodrigues sobre um “acontecido” à época em que governava o Brasil. Transcrevo aqui.
Descalço com Kim Novak
Ninguém mais antipresidencial. Ele trouxe a gargalhada para a Presidência. Nenhum outro chefe de estado, no Brasil, teve essa capacidade de rir – e nos momentos mais inoportunos, menos indicados. Dir-se-ia que ele tinha sempre um riso no bolso, riso que ele puxava, escandalosamente, nas cerimônias mais enfáticas. Os outros presidentes têm sempre a rigidez de quem ouve o Hino Nacional. Cada qual se comporta como se fosse a estátua de si mesmo. Não Juscelino. Quando ele tirou os sapatos para Kim Novak (que achado genial! que piada miguelangesca!), ele foi o antipresidente, uma espécie de cafajeste dionisíaco. Eu diria que jamais alguém foi tão brasileiro. O novo Brasil é justamente isso: – um presidente que tira os sapatos para uma beleza mundial. (Nelson Rodrigues no jornal Brasil em Marcha, 10/2/1961)
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| Dilermando e o violão |
Voltando ao Dilermando, nesse momento ouço o disco Sua Magestade o Violão, isso mesmo, com “G”; era o nome de seu programa na Rádio Nacional do Rio, que passou a ser transmitido em 1956 e durou mais de dez anos. Era um virtuose. Mereceu uma homenagem em 1994 por outro não menos virtuose, o genial Raphael Rabello, em Relendo Dilermando Reis.
Em Sua Magestade o Violão (1957), Reis mescla peças eruditas compostas para o piano (e arranjadas para o violão) como o Noturno nº 2 (Chopin) e Clair de lune (Debussy), peças originais para o violão (Pavana, de Francisco Tárrega), Malagueña (Ernesto Lecuona), Índia (J. Asunción Flores e M. Ortiz Guerrero), e algumas composições brasileiras, sendo duas de sua autoria (Araguaia e Se Ela Perguntar). Se fosse escolher alguma desse disco, ficaria com a bela guarânia. Ouça:
Dilermando e JK
A história de que deu aulas de violão ao ex-presidente é bem conhecida. Quando procurava alguns dados, deparei-me com um texto ótimo de Nelson Rodrigues sobre um “acontecido” à época em que governava o Brasil. Transcrevo aqui.
Descalço com Kim Novak
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| Kim Novak e JK: descalços |
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