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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O talento de Tenório Jr. e a morte absurda

Na madrugada de 18 de março de 1976, Francisco Tenório Júnior, cujo nome artístico era Tenório Jr., e chamado por alguns amigos de Tenorinho, saiu para comer um sanduíche e comprar um remédio. Deixara um bilhete na portaria do hotel Normandie, na avenida Corrientes, em Buenos Aires. Estava na Argentina como membro da banda que acompanhava Toquinho e Vinícius de Moraes, em temporada de shows no teatro Gran Rex. Nunca mais foi visto. Em outra versão, diz-se que saiu para comprar cigarros. Tinha, na época, cabelos e barba longos. Os óculos de aros negros e capote igualmente negro o fizeram suspeito de ser um comunista ou algo do gênero. foi abordado por uma patrulha militar. O ocorrido foi cinco dias antes da derrubada de Isabelita Perón e instauração da ditadura militar, presidida pelo general Jorge Videla. Cerca de 30 mil pessoas “desapareceram” nesse período.

Segundo Vinícius, os empresários alertaram de que sempre andassem com seus documentos, devido a instabilidade política. Mesmo com o passaporte no bolso, Tenório Jr. foi detido, depois torturado e morto nas dependências da Marinha Argentina.

De manhã, percebendo o seu desaparecimento, os músicos saíram à procura em hospitais e delegacias. Vinícius, ex-diplomata, procurou o embaixador Rodolfo Souza Dantas, amigo e ex-marido de sua filha Suzana. Concluíram que era possível que tivesse sido detido pelos militares da repressão argentina. Em “A onda que se ergueu no mar”, Ruy Castro afirma que Souza Dantas impetrou um habeas corpus que, possivelmente, ficou na “gaveta do ministro-conselheiro Marcos Torres, filho de general e ligado à linha-dura no Brasil.” Ainda, segundo ele, “pelo que se depreende do relato de [Cesar] Vallejos [ex-soldado do serviço de inteligência da Marinha argentina, que participou da tortura], foi monstruoso: os funcionários brasileiros que deveriam procurar Tenório para protegê-lo fizeram o contrário. Eles o acharam, mas juntaram-se aos algozes.”

Em 1976, no governo de Ernesto Geisel, o ministro do Exército era Silvio Frota, tremendo linha-dura, que pleiteava ser o novo presidente. O SNI, o serviço de inteligência nacional, mantinha estreitas relações com outros exércitos direitistas como os do Chile, Uruguai e Argentina. Essas ligações, desconhecidas então, foram posteriormente reveladas. e ficou-se sabendo que tinham até um nome: “Operação Condor”,

Tenório Jr. foi torturado e, depois de a polícia da Marinha ter percebido o engano, segundo Ruy Castro, poderia interessar aos brasileiros. Foi interrogado pelo major Souza Batista e pelo capitão Visconti, do SNI, em Buenos Aires. Depois de ser torturado por nove dias e provado que era apenas um músico, pouco interessado em política, não tinha mais condições de ser solto e nem de ser mandado a um hospital. “Com a autorização dos brasileiros, o argentino Astiz [Alfredo Astiz, capitão de fragata da Marinha] cobriu Tenório com um capuz e deu-lhe um tiro na cabeça. O corpo foi enterrado numa cova rasa no cemitério de La Chacarita.” Parece que a embaixada brasileira foi avisada de que o corpo de Tenório encontrava-se à disposição no necrotério. Nada foi feito. Terminou assim a carreira de um dos pianistas mais talentosos que o Brasil tinha.

O corpo de Tenório nunca foi devolvido e nem localizado depois. O músico era casado e tinha quatro filhos com outro a caminho. Em 1992, Carmen, sua mulher, foi a Buenos Aires com o pessoal da TV Globo à procura de notícias do marido. Descobriram que não há um único documento sobre o que aconteceu.

O embalo de Tenório Jr.
Com apenas 23 anos, Tenório lançou “Embalo”, pelo selo RGE. Gravado em fevereiro e março de 1964, mesmo sendo seu primeiro disco como líder, teve total autonomia para escolher os músicos, a começar pela “cozinha”. Participaram do álbum Zezinho Alves e Sergio Barroso Neto no contrabaixo, e Milton Banana e Ronie Mesquita na bateria. Nos “reeds”, o time era de primeira: JT Meirelles, Paulo Moura, Hector Costita, Pedro Paulo e Maurílio Santos, e Edson “Maluco” Maciel. Das onze composições, cinco eram dele.

A partir de meados dos anos 1950 e anos 1960, a música essencialmente instrumental estava em voga. Uma geração de músicos de primeira despontou, muitos formados na escola da vida, tocando em pequenas boates do Rio como o Beco e o Bottles. Pianistas (Luis Eça, Sérgio Mendes, Luiz Carlos Vinhas, Dom Salvador), saxofonistas e flautistas (J. T. Meirelles, Paulo Moura, Cipó, Juarez Araújo), trombonistas (Raul de Souza, Edson Maciel), violonistas (Baden Powell, Durval Ferreira, Rosinha de Valença, Roberto Menescal), baixistas (Tião Neto, Octavio Bailly Jr., Bebeto, Zezinho Alves), bateristas (Edison Machado, Milton Banana, Dom Um Romão, Chico Batera, Wilson das Neves, Airto Moreira), que tocavam na noite, foram responsáveis pelo que ficou conhecido como samba-jazz, uma invenção genuinamente brasileira.

Até gravadoras grandes como a Philips, encamparam a música instrumental brasileira. Não foi por muito tempo. Vários álbuns lançados, além de “Embalo”, são considerados clássicos: “Você Não Ouviu Nada” (Sergio Mendes),  “Coisas” (Moacir Santos), “Tempo Feliz” (Baden Powell e Mauricio Einhorn), À Vontade Mesmo” (Raul de Souza) e outros. O Tamba Trio, de Luiz Eça, João Donato e Luiz Carlos Vinhas também lançaram seus discos como líderes. Um dos grandes clássicos do gênero foi “É Samba novo”, de Edison Machado. Neste, o pianista é Tenório. Outro destaque, que tem sua participação, é “O LP”, de Os Cobras, em que o baterista é outro craque: Milton Banana.

Apesar da relativa popularidade da música instrumental no Brasil, o destino natural era o aeroporto do Galeão. Baden Powell mudou-se para a França. A maioria foi para os Estados Unidos: Sérgio Mendes, Dom Salvador, Rosinha de Valença, Moacir Santos, Eumir Deodato, Dom Um Romão, Raul de Souza, Luiz Eça, Tião Neto, Airto Moreira e Juarez Araújo, dentre outros. Teve quem ficou por lá em definitivo, como Sergio Mendes, Moacir Santos e Dom Salvador. Outros, voltaram. Os que não saíram, continuaram a tocar na noite ou foram acompanhar cantores e cantoras, como Tenório Jr.

Ouça “Embalo”, seu álbum solo. Das 11 faixas, cinco são de sua autoria.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

O olhar moderno de Nicola Conte

Mistura de DJ, produtor, músico, arranjador, Nicola Conte é um pesquisador sagaz, e seu talento está em conseguir fazer uma boa sopa com ingredientes bem diferentes entre si. Em sua sede de descobrir, conhece a música brasileira muito mais que nós, moradores dessa terra, e também de muitos especialistas no assunto. Na saga em conhecer ritmos sul americanos, lançou cinco álbuns, até agora (pode ser mais), com o título “Nicola Conte Presents Viagem” (1, 2, 3 etc.). Inclui nomes da música brasileira como Edith Veiga, Luis Carlos Vinhas… esses você conhece, sem dúvida mas, e esses? Zumba 5, Papudinho, Myrzo Barroso, Kazinho, Marcio Diniz? São 84 canções, com vários de quem poucos de nós ouviram dizer. A tônica, ou o gosto dele,  é o samba jazz, por meio de luminares do gênero, como Tenório Jr, JT Meirelles, Brazilian Octopus, César Camargo Mariano, Som Três e outros mais.

Em um post, programado há muito e até agora irrealizado, escreverei sobre as “viagens” de Conte. Tenho até o título: “O Brasil que o Brasil não conhece”. Mas vamos ao tema de hoje, o álbum duplo “The Modern Sound of Nicola Conte: Versions in Jazz-Dub”, de 2011. A razão de ter citado a série “Viagem” é porque os ritmos brasileiros são a fonte das remixagens de Conte.

“The Modern Sound” é um mélange de dois gêneros: o jazz e o que já é uma mistura, o samba jazz, que foi a forma brasileira de apimentar o gênero originário do hemisfério norte. Aliás, o que Nicola faz não é bem jazz: é o tal do “jazz-dub”, que sub-intitula esse álbum.

Os temas considerados standards são “Stolen Moments”, “All or Nothing at All”, “Charade”, “Take Five”, “When You Wish Upon a Star”, famoso tema de “Pinocchio”, filme de Walt Disney, e “Mood Indigo”. “Flamenco Sketches” (Miles Davis), “Shape of Jazz to Come” (Ornette Coleman) e “Quiet Nights” (Antônio Carlos Jobim), apesar dos títulos conhecidos, não possuem alguma semelhança com os originais. JT Meirelles, Marcos Valle e Sérgio Mendes são os compositores brasileiros presentes no álbum.

A qualidade de Conte é a de juntar bons músicos vindos de várias searas e de criar uma sonoridade original. Dentre os que dão a base sonora estão nomes de conterrâneos da primeira linha do jazz italiano, como Lorenzo Tucci (bateria), Nicola Stilo (flauta), Gianluca Petrella (trombone), Rosario Giuliani (sax alto), Fabricio Bosso (trompete e fluguel), Flavio Boltro (trompete), dentre outros, e convidados como Till Brönner, Lisa Bassenge, Sabrina Malheiros, Sheila Landis e José James.

Dentre as reinterpretações de standards, duas faixas são os destaques: “Stolen Moments”, em que usa a voz de Mark Murphy e o arranjo original de Oliver Nelson, autor da canção, e “All or Nothing at All”, na voz de José James.

Ouça “Stolen Moments”.



Ouça “All or Nothing at All”.



Um destaque, fora dos standards, é “Elevated States”, interpretado pelo Thunderbird, formado por Rob Myers, Steve Raskin e Sid Barcelona.



Outra boa é o remix que Conte faz de “Yellow Daisies”, do Fertile Ground, muito mais interessante que a original.

terça-feira, 19 de maio de 2015

O samba jazz de Duduka da Fonseca


Um dos nomes mais conhecidos dentre os músicos brasileiros emigrados nos EUA é o de Duduka da Fonseca. Desde 1975 morando lá é um quase americano, mas muito brasileiro. É como aquela frase (preconceituosa?): o nordestino sai do nordeste, mas o nordeste não sai dele. Pois o Brasil não sai de Duduka.

No mais recente, Jive Samba (Zoho Records, 2015), as gravações aconteceram no Rio de Janeiro, com David Feldman (piano) e Guto Wirtti (contrabaixo). O saxofonista Paulo Levi, atualmente, morando também nos EUA, participa da quarta faixa.

A graça desse álbum é a de Duduka tocar apenas composições de americanos apenas com brasileiros atualmente aqui radicados, com exceção de Levi. É para provar que John Scofield, McCoy Tyner, Joe Henderson, Clare Fischer (este, um apaixonado pelo Brasil), Keith Jarrett, Nat Adderley, Kenny Barron (outro apaixonado pelo Brasil), Wayne Shorter e Chick Corea podem ser samba, ou melhor, samba jazz, de que ele é especialista.

Sendo a bateria um instrumento de “cozinha”, sempre me pareceram estranhos discos tendo-os como líder. Acho que muitos acham um porre longos solos desse instrumento. É então irônico que, apesar de terem seus nomes em destaque na capa, quem aparece são os outros. É assim com o melhor baterista do mundo, seja ele Elvin Jones, Art Blakey, Jack DeJohnette, Max Roach, Brian Blade, Tony Williams ou Paul Motian. Pois a sapiência do baterista como líder está em dar a direção, ou o tom. É o que Duduka faz bem em Jive Samba. Sendo uma gravação no formato trio (com exceção da que Paulo Levi participa tocando saxofone), quem brilha é David Feldman. Este é um pianista em quem se deve prestar atenção. Depois de formar-se na New School of Jazz and Contemporary Music, em Nova York, voltou ao Brasil e tem dois bons álbuns gravados: O Som do Beco das Garrafas (Tratore, 2005) e Solo (Tratore, 2014).

Duduka abre com a música que o intitula: Jive Samba, de Nat Adderley. A temperatura sobe com Lucky Southern, de Keith Jarrett. A terceira é um dos destaques: Sco’s Bossa, composição de primeira do irregular e barulhento John Scofield. O baterista deve gostar da música. É a segunda vez que grava. A primeira foi em Samba Jazz Fantasia (2002).

Ouça.




Recordame, de Joe Henderson, é a única que entra um quarto instrumento: o saxofone tenor de Paulo Levi. É a faixa com um longo solo do baterista no minuto e meio inicial. Peresina é outro destaque. Feldman abre com um piano bem à la McCoy Tyner, autor do tema. Clouds, de Kenny Baron, é poética, evocativa. Seguem-na Pensativa, do “brasilianista” Clare Fischer, Speak Like a Child, de Wayne Shorter, em andamento bem bossa, El Gaucho, do mesmo autor, e fecha com chave de ouro com uma das grandes composições do início da carreira de Chick Corea: Samba Yantra.

Ouça