quinta-feira, 11 de abril de 2013

“Overgrown”, o novo disco de James Blake

Overgrown é o novo de James Blake
Overgrown é um título perfeito para o álbum de James Blake lançado dia 8, segunda-feira. A música de Blake é feita de camadas de sons e vozes interpostas trabalhadas eletronicamente.

Blake havia chamado a atenção do DJ Gilles Peterson da BBC Radio 1. Gravou alguns EPs, dentre os quais CMYK, bem recebido pela crítica, Klavierwerke e The Bells Sketch. Com muito uso de sons eletrônicos, as músicas são um tanto impessoais e frias. Quando lançou o primeiro álbum, não deixou de usar samplers, sequenciadores, laptops, drum machines e teclados eletrônicos, mas a presença maior das vozes deu nova cara ao seu som. Ficou mais “quente”, entre haspas porque, na verdade, uma das características marcantes de Blake é o clima melancólico e invernal, triste até. A sacada de James é a de fazer com que sua voz, muito boa, por sinal e que lembra vagamente a de Antony Hegarty, do Antony and The Johnsons (sou fã desse cara; leia http://bit.ly/OCkQyK, http://bit.ly/10Utk8t), passe pelos efeitos da eletrônica, por meio de loopings, distorções, ecos e cortes inesperados. Dessa forma, “humaniza” a eletrônica, ou “desumamaniza” o humano – a voz.

Blake é filho de James Litherland, que foi guitarrista da banda de rock progressivo Colosseum. Difícil conjecturar se o som viajante da banda do pai possa tê-lo influenciado.

O caso do veterano Brian Eno é outro. O inglês é um dos pilares da música eletrônica. Logo depois que saiu do Roxy Music (nem chegou a esquentar a cadeira), gravou discos com Robert Fripp, líder do King Crimson, muito interessantes e já revela o interesse dele por engenhocas eletrônicas. Usando gravadores de rolo Revox (era o máximo da tecnologia e da modernidade na década de 1970), colava as extremidades das fitas para produzir sons em repetição infinita (loopings). Eno, fora seus projetos pessoais produziu vários álbuns, inclusive, alguns do U2. No disco recém lançado de Blake é produtor de uma das faixas: Digital Lion.

Ouça Digital Lion, do novo disco.




O primeiro CD, simplesmente chamado James Blake (2011), traz em sua capa uma imagem embaçada em “motion blur” de tom azulado. Às vezes, capas podem dizer muito: é o rosto dele distorcido, numa espécie de camuflamento como é a sua voz na maioria das faixas. Blake nunca se mostra “ao natural”. A voz passa por efeitos, como disse antes, eletrônicos. Tanto as vozes como as notas musicais se distorcem e sofrem interrupções abruptas, desdobram-se, interpõem-se. As músicas que ficaram mais conhecidas são The Wilhelm Scream e Limit Your Love, original da canadense Feist.

Veja Blake em programa da BBC interpretando Limit to Your Love.




Veja Blake cantando The Wilhelm Scream no programa de Jools Holand.




Se o primeiro era bom e original, Overgrown é melhor ainda. A NME deu nota 8. Merece 10. Tem tudo para ser um dos melhores de 2013. É melancolia misturada com batidas eletrônicas, algo que lembra um pouco o trip hop do Massive Attack ds bons tempos. Compre sem medo. Segundo o crítico Al Horner da New Music Express (NME) o disco “é tão íntimo que você sentirá cada milímetro daquela solidão.”

Ouça e, se você quiser copiá-la no seu tocador de mp3, é só clicar em share e fazer o download da faixa título Overgrown.




Ouça uma amostragem do novo disco de Blake aqui.




Veja uma apresentação de Blake cantando Retrograde, uma das melhores do disco. Como a música dele é feita de muita eletrônica, o ao vivo é um pouco diferente da que consta no álbum. Mas vale por ser possível vê-lo “em ação”.


terça-feira, 9 de abril de 2013

A “brasileira” Anat Cohen

Anat Cohen com seu clarinete
Clarinete combina bem com música brasileira, principalmente no choro. Copinha, Abel Ferreira, Paulo Moura, Proveta e muitos outros são a prova. Craques no clarinete, polivalentes, mandam bem na flauta e no saxofone. Mestre Copinha é o grande na flauta, mais do que Altamiro Carrilho, e no clarinete, ah, basta ouvi-lo em Chorando, no álbum com o mesmo nome, de Paulinho da Viola.

O surpreendente é uma instrumentista israelense se sentir tão à vontade nos ritmos latinos, e brasileiros, especialmente. Anat Cohen, uma moça de 34 anos, tem se destacado na cena novaiorquina. Nos últimos anos não tem ninguém para Anat. Em um universo que tem Don Byron, Eddie Daniels, Paquito D’Rivera, Ken Peplowski, o italiano Gianluigi Trovesi e o veterano Buddy DeFranco, reina com majestade. É a querida da crítica. E como os brasileiros citados, se vira bem em outro instrumento: o saxofone tenor. Na última votação da Downbeat, na categoria “Rising Star”, neste instrumento, desbanca Mark Turner, Eric Alexander e Marcus Strickland.

Anat é de uma família musical. Com os irmãos Yuval (sax soprano) e Avishai (trumpete; não deve ser confundido com o seu xará, mais velho, o baixista) formam o 3 Cohens.

Ela possui um estilo que deve agradar aos brasileiros: é quente e tem um tremendo balanço. E não à toa, aprendeu até a falar português e, com frequência, toca com seus amigos brasileiros radicados na América. No recentíssimo álbum do baixista Nilson Matta – Nilson Matta’s Black Orpheus – participa de três faixas: Samba de Orfeu, Frevo de Orfeu e Um Nome de Mulher. Parece até que é brasileira. Anat toca saxofone e clarineta em Samba Jazz - Jazz Samba (2012), de Duduka Fonseca. Outra participação é com o Choro Ensemble, de Pedro Ramos, Gustavo Dantas, Carlos Almeida e Zé Maurício. Lançaram, em 2007 o álbum Nosso Tempo. Além de originais dela e dos membros da “ensemble”, gravaram Jacob do Bandolim, Radamés Gnatalli e Pixinguinha.

Nos seus álbuns solo, em Noir (2007) interpreta Bebê, de Hermeto Pascoal, e Ingênuo, do mestre Pixinguinha. No mais recente Claroscuro (2012), gravou Tudo Que Você Podia Ser (Lô Borges e Márcio Borges), As Rosas Não Falam (Cartola), Olha Maria (A.C. Jobim) e Um a Zero (Pixinguinha).

Anat toca Um a Zero, de Pixinguinha.




Ouça Kick Off. Aqui divide as clarinetas com o “quase brasileiro” Paquito D’Rivera. A abertura é na clarineta baixo.




As Rosas Não Falam, de Cartola.