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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Collin Walcott, o meu percussionista preferido

Collin Walcott e seu arsenal percussionístico
O Carlos Conde, comandante de um dos melhores programas voltados ao jazz na rádio Cultura, por mais de duas décadas, adorava uma bateria e odiava outros instrumentos de percussão, especialmente timbales, congas ou outro associado à música caribenha. Dizia que a bateria era essencial e a percussão, dispensável.

Tinha paixão por trios piano-baixo-bateria, mas não gostava de piano solo. Disse-me outro amigo, o Alberico Cilento, que em uma ocasião em que estavam em Washington, foram assistir a uma apresentação de Keith Jarrett, e como os ingressos estavam esgotados, disponibilizaram lugares a quem se dispusesse a ficar nas laterais do palco. Jarrett fazia um daqueles solos e, em um momento de silêncio, Alberico percebeu que o Conde estava dormindo. Acho que foi um dos poucos a puxar um cochilo ao som do pianista. Em outra ocasião, dessa vez comigo, no auditório Ibirapuera, uma das atrações era Brad Mehldau, também em solo piano. Não sei se dormiu, mas passou parte com os olhos fechados. Terminada a apresentação, o comentário foi mais ou menos assim: “Esse rapaz deve ter muitos problemas. Ele é muito triste.” Faltaram o contrabaixo e a bateria.

Menos idiossincrático e rigoroso que o Conde, também nunca fui muito amigo de congas e timbales.
Sem a rigidez dele, quando ouço aquelas percussões frenéticas, uma luz amarela se acende em meu cérebro. Gosto, no entanto de outros tipos de percussão, especialmente, o da música indiana, igualmente frenética, mas que em mim tem um efeito hipnótico, assim como gosto dos brasileiros Naná Vasconcelos e Cyro Baptista, que fogem do estereótipo do samba e do ritmista “pra turista ver”.

Outra percussão
Classificado como percussionista e também na categoria “miscellanious instruments”, Collin Walcott esteve sempre entre os melhores segundo a crítica. Quem gosta ou gostava do Oregon, banda formada originariamente por Ralph Towner, Glen Moore, Paul McCandless e ele, o conhece muito bem. Todos, mestres em seus instrumentos, foram protagonistas de um estilo que confundiram os que tentaram classificá-los em alguma categoria. Era algo que poderia ser classificado como jazz, pois era música de improviso, world em razão da instrumentação e do conteúdo melódico, ou erudita. Todos tinham formação em conservatórios: Towner no violão clássico, Moore no contrabaixo e McCandless na clarineta e no oboé. O primeiro toca também piano e trompete, o segundo, violino e piano, e o terceiro, saxofone e corne inglês. Os três tocam. O quarto componente é o único que tocava. Morreu em um acidente banal quando a banda excursionava pela antiga Alemanha Oriental. O ônibus deles colidiu e Walcott dormia no primeiro assento. Bateu com a cabeça, falecendo com apenas 38 anos.

A formação de Collin Walcott foi a da percussão. Estudou violino também. O interesse pela música indiana o levou a aprender a tocar tabla e cítara com Alla Rakkha e Ravi Shankar, respectivamente. Como seus outros companheiros, tocou no Paul Winter Consort, que é a origem da mescla da música ocidental com a oriental que irá consagrar o grupo Oregon.

Mesmo com a participação de todos na construção do som do Oregon, com certa predominância de Towner como compositor, a percussão e a cítara de Walcott foi um grande responsável pela singularidade que os diferenciou no meio musical. Isso fica evidente depois de sua morte. Com o indiano Trilok Gurtu em seu lugar, o Oregon mudou, perdendo muito o vigor criativo que saía das mãos de Walcott.

Os solos
Devido ao enorme talento da banda, todos os seus membros gravaram álbuns sob o próprio nome. Os de Walcoot foram lançados pela ECM. Foram dois: “Cloud Dance” (1976) e “Grazing Dreams” (1977), nenhum dos dois lançados no Brasil.  Este último, lembro até hoje, numa época em que não existia internet e comércio eletrônico e a importação era demorada e cara, tive a sorte de encontrá-lo na Modern Sound, em uma viagem ao Rio de Janeiro. Está na lista dos meus “desert island discs”.

Com Don Cherry no trumpete, flauta de madeira e doussn’ gouni (uma espécie de berimbau, só que africano), John Abercrombie na guitarra, Palle Danielsson no baixo e Do Um Romão na percussão, “Grazing Dreams” é uma obra prima.

Ouça “Song of the Morrow”, a primeira do álbum.



Só depois de conhecer o segundo, fui conhecer o de estreia. “Cloud Dance” é também excepcional. Os músicos são todos de primeira: John Abercrombie na guitarra, Dave Holland no contrabaixo e Jack DeJohnette na bateria. Várias faixas são em duos. “Prancing” é genial, com Walcott na tabla e Holland no contrabaixo; “Scimitar” e ele na tabla novamente, e Abercrombie na guitarra; “Eastern Song” é com Holland no baixo e Collin na cítara; a guitarra atmosférica e climática tão característica combina à perfeição em “Padma”.


Ouça “Margueritte”.




Além dos dois álbuns, Collin foi um dos membros de um trio absolutamente genial, o Codona, nome que corresponde às duas letras iniciais de cada componente: Don Cherry e Naná Vasconcelos. Os três se desdobram em instrumentos percussivos, a cítara, trompete e vozes. Lançaram três álbuns. Se você quiser saber mais, leia em O mundo “world” de Naná Vasconcelos.

PS. Lembrei de Collin Walcott quando escrevi sobre o grande guitarrista Steve Eliovson. Se você não leu, leia em O misterioso desaparecimento de Steve Eliovson.

terça-feira, 15 de março de 2016

O mundo “world” de Naná Vasconcelos

Naná, Don Cherry e Collin Walcott
Quase sempre o mundo te leva mas é preciso que você queira ser levado e, principalmente, ter o impulso para ele te levar. Juvenal de Holanda de Vasconcelos, que odiava ser chamado de Juvenal, segundo Matias José Ribeiro, era conhecido como Naná, que era como a avó o chamava.

Certo dia, Naná saiu do Recife e foi direto para o Rio de Janeiro, com passagem de ônibus custeada por Capiba. Encontrou-se com Milton Nascimento, como conta o cantor:

"Um dos momentos mais bonitos da minha vida foi quando Naná Vasconcelos chegou sem avisar na casa onde eu morava, na zona sul do Rio. Isso aconteceu nos idos de 1968. Ainda na porta, mal nos cumprimentamos e ele foi logo dizendo:

— Vim de Recife pra tocar com você.

Mesmo desconfiado, o deixei entrar. Naná foi direto pra cozinha, catou tudo que viu pela frente e começou a fazer um som incrível com panelas, frigideiras, garrafas e copos. Nessa época, eu estava gravando um disco pela Odeon, e assim que acabou a primeira música com ele tocando as panelas, perguntei:

— Naná, o que você vai fazer amanhã?

No dia seguinte, levei Naná para o estúdio comigo.”


Li uma vez: “A vida é um sutiã. Tem que meter os peito”. Tosco, não? Mas é verdede. Naná foi com a cara e a coragem e na outra semana estava gravando com Milton Nascimento. Daí, Naná foi sendo levado pela vida e os acasos.

O argentino Gato Barbieri estava no Brasil e viu Naná tocando com Milton. Impressionado, convidou-o a participar da gravação de uma trilha sonora. Saiu em excursão com o saxofonista e, a partir daí, ganhou o mundo.

Dança das Cabeças foi o primeiro álbum de Egberto Gismonti na ECM. O disco recebeu críticas entusiasmadas e ganhou cinco estrelas pela revista especializada em jazz Downbeat. Foi a abertura para o mercado internacional de Gismonti e Naná. O Brasil já os conhecia muito bem. Não foi novidade para nós o reconhecimento de seus talentos. Naná, antes, tinha gravado Africadeus (1972) e Amazonas (1973).

Gismonti firmou-se rapidamente lançando um disco atrás do outro tocando com Charlie Haden, Jan Garbarek e Ralph Towner. Teve inteira liberdade de desenvolver projetos pessoais e, inclusive, disponibilizar discos de sua gravadora Carmo, ligada à EMI-Odeon no Brasil, no mercado internacional. Se você quisesse comprar Nó Caipira, por exemplo, era necessário comprá-lo fora do Brasil, o que é bem incongruente.

Naná teve também seu quinhão. Participou de vários álbuns da ECM, tocando com Pat Metheny, Jan Garbarek e Pierre Favre, e em inúmeros projetos de outros que não eram desse selo. Pela ECM, lançou Saudades (1980), bom disco, mas inferior a Amazonas.

O novo som
A introdução de instrumentos como maracas, bongôs e timbales foram introduzidos na música americana com latinos que foram para os EUA, como Xavier Cugat, Perez Prado e Desi Arnaz. As orquestras que tocavam ritmos como a rumba e a salsa eram populares nas décadas de 1940 e 50. No jazz, Dizzy Gillespie foi um dos entusiastas e promotor de ritmos latinos. Quando se pensava em percussão, era automática a associação com essa música.

Em meados dos 1960, Airto Moreira, que fazia parte do Quarteto Novo, mudou-se para a América com sua mulher, a cantora Flora Purim. Com instrumentos desconhecidos dos americanos, como a queixada, surpreendeu-os. Foi tão importante que a Downbeat criou uma categoria nova, a percussão. Foi considerado o melhor por vinte vezes.

O reinado que parecia definitivo, deixou de ser quando ouviram Naná. Ele ampliou o universo da percussão. Era um mestre no berimbau, usava o corpo como instrumento, além de usar da voz, produzindo sons originalíssimos. Usando efeitos de eco e overdubs, sua voz se multiplicava com efeitos de pura magia. Naná era o feiticeiro dos sons que evocavam sons da floresta amazônica, de arbustos movidos pelo vento, cantos e revoadas de pássaros e grasnares. Foi oito vezes o melhor pela Downbeat.

Outro percussionista frequentava as listas dos melhores na categoria “miscellaneous instruments” e na percussão. Era tão original quanto Naná. Collin Walcott, que iniciara tocando com Paul Winter, com Ralph Towner, Glen Moore e Paul McCandless, que depois formariam a genial banda Oregon, era um ser diferenciado. Interessado pela música oriental, era um craque na cítara e na tabla. Como líder é autor de Cloud Dance (1977) e Grazing Dreams (1979), ambos pela ECM, dois discos especiais.

Don Cherry, que iniciara sua carreira tocando com Ornette Coleman, trumpetista e percussionista, era um apaixonado pelos ritmos africanos. Com Collin Walcott e Naná formou uma das melhores bandas que podem se classificadas como “world music”, o Codona, nome criado a partir das duas letras iniciais de cada um dos três. Sob esse nome lançaram três álbuns absolutamente excepcionais pela ECM.

Nos três discos, a predominância é de temas compostos por Collin Walcott. Os mais jovens, possivelmente, nem sabem quem ele é. Um acidente um tanto inusitado o matou quando tinha 38 anos, em 1984. Quem tem 30 anos hoje, nem tinha nascido. É bastante tempo. Em uma excursão que sua banda Oregon fazia pela Alemanha, o veículo que os transportava colidiu de frente com um automóvel. Walcott dormia no banco da frente sem o cinto de segurança.

O foco de Walcott era a música indiana. Foi estudar tabla na índia e teve aulas de cítara com Ravi Shankar. Os orientalismos de Collin foram capitais para o desenho do som do Oregon, em sua fusão da música indiana, a genialidade compositiva de Ralph Towner e a formação erudita de todos. Depois de sua morte, Trilok Gurtu entrou em seu lugar. Era bom, mas algo da essência do Oregon se foi com a morte de Walcott.

Depois do início avant garde com Ornette Coleman, Cherry passou a interessar-se pela música indiana e pela africana. A reunião de Naná, Walcott e Cherry aconteceu naturalmente, pois todos faziam parte do plantel da ECM.

O termo “world” é um tanto redutor do som deles. É genérico demais. Uma afirmação de Don Cherry é perfeita para o tipo de música que fizeram: “Quando as pessoas acreditam em fronteiras, elas tornam-se parte delas.” É assim que devemos pensar no som do Codona.

Melhor dizer que é inclassificável. Like the Sky, de Walcott, a primeira do primeiro Codona é um bom exemplo. Começa com uma flauta de Cherry com os sons da cítara de Walcott. Cherry alterna a flauta com seu pocket trumpet, O clima é melancólico, algo típico de Collin. Ao fundo, bem discretamente, ouve-se a voz de Naná, em registro bem grave. O andamento vai se modificando lentamente e sob o som da flauta, ouvimos Naná no triângulo e Walcott na tabla.

Sons como os da kalimba, do dúlcimer, o doussn' gouni, um tipo de harpa de origem africana, com cinco cordas, tocada por Cherry, a cuíca, o berimbau, a tabla, a cítara, as vozes, resultam em um som que não é brasileiro, americano, indiano ou africano. É uma música totalmente original e cosmopolita.

Dos três álbuns, acho o segundo o melhor. Em 2, a primeira é Que Faser, com “s” mesmo. Inclassificável. Godumaduma é um solo de Walcott na cítara. Malinye é uma composição de Cherry, um dos destaques desse álbum. Poética, é evocativa, com os sons da melódica e depois, o do trumpete.

Ouça Que Faser.




Ouça Malinye.



Dois dos melhores números estão em Codona 3: Lullaby e Inner Organs.

Ouça Lullaby.



Ouça Inner Organs.




Veja um trecho do Codona tocando. O instrumento que Don Cherry toca chama-se doussn’gouni.





Ouça Amazonas, de Naná Vasconcelos, na íntegra.



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Fabiano Araújo e seu Rheomusi: coisa boa

Arild Andersen e Fabiano Araújo, em Portugal
Um nome como Fabiano Araújo é comum e quando se busca nos googles da vida, vemos que ele é cantor sertanejo, fotógrafo e designer, dono de uma empresa de entretenimento e promotor de festas infantis, dentista, lutador de jiu-jitsu, engenheiro formado pela UnB… e músico.

O Fabiano Araújo, de quem falo aqui, fez engenharia, largou o curso no meio e foi estudar música, sua verdadeira vocação, na Unicamp. Do pouco que se sabe, é que depois passou a morar em Vitória e lançou Aleph, em 2008, inspirado em Jorge Luis Borges, com certeza. Elogiado pelo jornal O Globo, o disco foi considerado um dos melhores do ano. Atualmente, está na Universidade Federal do Espírito Santo, no Departamento de Teoria da Arte e da Música. Buscando-se no YouTube, descubro mais uma coisa: foi elogiado por Hermeto Pascoal e estão disponíveis alguns vídeos com apresentações suas.

Em 2011, foi lançado Rheomusi, distribuído aqui pela Tratore. O que me chamou a atenção foram os músicos que tocam com Fabiano: Naná Vasconcelos e Arild Andersen. Este último é considerado um dos melhores contrabaixistas da Europa. Gravou cerca de 70 álbuns como líder e sideman. Naná conhece bem o norueguês. Os dois tocaram juntos em vários álbuns da ECM. Não faço a mínima ideia de como foi feita a costura para a gravação de Rheomusi. Sei apenas que deu certíssimo.

Em Rheomusi, todas as composições são de Fabiano, com exceção de Hyperborean, de Andersen.
Ouça.




Linda música, não? O resto é muito bom. Fabiano toca, além do piano, acordeão. O álbum lembra o que se convencionou chamar-se “ECM sound”. Percebe-se o gosto dele pelo jazz europeu, climático, meio frio, mas de belíssimo gosto.

Uma das mais belas composições de Araújo é Norte. Ouça.



Veja Fabiano Araújo em apresentação em 1996.




Veja Arild Andersen no contrabaixo em apresentação de 2011, com Fabiano Araújo e Naná Vasconcelos, no aniversário da cidade de São Paulo.




Fabiano toca Hermeto Pascoal.




quinta-feira, 30 de maio de 2013

A viagem de Naná Vasconcelos

Da esquerda para a direita, Naná, Don Cherry e Colin Walcott
Na matéria publicada na “Ilustríssima”, da Folha de S.Paulo (12/5/2013), assinada por Carlos Bozzo Junior, Naná Vasconcelos conta sobre suas experiências com o LSD: “Foi bom tomar. Nunca tomei sozinho, mas em companhia de meus instrumentos. […] Quando a reação vinha, a primeira coisa que eu queria era tocar. Minha sensibilidade aflorava e eu ficava concentrado só na música.”

Antes dessas viagens fizera outras. No Recife ainda, conhecera um bailarino brasileiro radicado em Portugal. Com outros músicos montou o Quarteto Yansã e partiram, meio na louca, para Lisboa. Não encontraram o tal bailarino que prometera ajudá-los. Casualmente, encontrou Agostinho dos Santos, que também andava “perdido” por lá. Eles se conheciam por canta de ter participado de programas de televisão. Cantava em um navio. Com o pretexto de que precisava comprar alguns dólares, pediu ao comandante que lhe desse o passaporte e deu no pé. Andaram fazendo alguns shows. Agostinho, nessa época, já tinha participado da trilha sonora de Orfeu Negro, de Tom Jobim e Luiz Bonfá, cantando A Felicidade.

Voltou para o Recife, mas já tinha pegado o gosto pela estrada. Foi para o Rio de Janeiro. Fez um “arranjo” com mestre Capiba, convencendo-o a representar Pernambuco no Festival “O Brasil Canta no Rio”, que pagou-lhe uma passagem de ida e volta. Sem muito dinheiro, no Rio, marotamente misturou-se aos integrantes do grupo Titulares do Ritmo e conseguiu hospedagem. Detalhe: os Titulares era um conjunto vocal liderado por Chico Nepomuceno de Oliveira e eram todos cegos.

O maracatu de mestre Capiba não ganhou. Conheceu o também pernambucano Geraldo Azevedo e foi parar em uma festa na casa de Milton Nascimento. Depois disso, o resto é história. Participou de grupos como A Sagrada Família, de Luiz Eça, e do Som Imaginário. Conheceu o saxofonista Gato Barbieri, autor da trilha de O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, e lá foi Naná para outra viagem.

Ficou por cerca de um ano em Nova York. Em turnê com Gato na Europa, resoveu estabelecer-se em Paris. Gravou Africadeus, seu primeiro disco como líder. Dois anos depois, em 1973, lançou pela Philips, Amazonas. Esse é antológico. Naná nem pode ser classificado como percussionista. Naná inventa sons, não apenas com o berimbau, com seu modo único de executá-lo, mas com vozes e consegue até fazer uma música que é feita apenas de risadas, como é Um Minuto, a faixa que fecha o LP.

Ouça Cara com Cara, do álbum Amazonas.




Além dos álbuns como líder, participou de gravações antológicas com Milton Nascimento. Seu trabalho em Milagre dos Peixes é algo que foge de qualquer classificação. Um álbum que abriu-lhe efetivamente as portas para o mercado internacional foi Dança das Cabeças, com Egberto Gismonti, para a gravadora ECM. Caindo nas graças de Manfred Eicher, gravou Saudades (1979) e participou de inúmeros trabalhos com Jan Garbarek, Pierre Favre e Pat Metheny.

O melhor de Naná, na minha opinião, está contido em três álbuns lançados pela ECM, Da reunião de três grandes músicos, resultou um grupo chamado Codona. Correspondem às duas letras iniciais de cada um deles. “CO”, de Colin Walcott, excepcional percussionista e citarista, membro da melhor formação do Oregon (ele, Ralph Towner, Glenn Moore e Paul McCandless), morto precocemente em um acidente besta (estava dormindo no ônibus e na colisão bateu a cabeça); “DO”, de Don Cherry; e “NA”, de Naná.

Como o mundo é constituído por infinitos círculos e por isso, pequeno, Gato Barbieri havia participado de algumas formações com Cherry. Gato tinha levado Naná consigo para os EUA e Europa. É provável que tenham se conhecido assim; ou por outras vias. Dança das Cabeças, de Gismonti e ele, foi gravado em novembro de 1976; Don Cherry participou da formação do Old and New Dreams, com Charlie Haden, Dewey Redman e Ed Blackwell; os quatro se conheciam há muito tempo: todos tocaram com Ornette Coleman. O quarteto lançou o primeiro disco pela italiana Black Saint, o segundo, em 1979, na ECM. No mesmo ano, por esta gravadora saiu o primeiro Codona. Os outros dois sairam em 1981 e em 1983.

Dos milhões de rótulos que surgem, esteve em voga o termo “world music”. Mais genérico impossível: pode ser música japonesa, árabe, africana, paquistanesa, indiana? O cantor e compositor fundador da banda de rock progressivo Genesis criou um selo chamado Real World e gravou músicos africanos, latinos, árabes e até da Oceania. Muitas vezes, o tipo de música produzida pelo Codona ficou assim rotulado. Esqueça. Considere apenas que é música de primeira, tocada e composta por três artistas geniais. Quando se mescla o pocket trumpet, flautas, doussn’gouni (o som lembra o da kalimba) e melodica de Cherry, tablas e cítaras de Colin Walcott, berimbaus, cuícas e vozes de Nana, realmente, fica difícil de classificar o som resultante.


Veja os três em apresentação em Nova York.




Ouça Que Faser (foi grafado com “s” mesmo), de Naná Vasconcelos.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A percussão abstrata de Naná Vasconcelos

Naná Vasconcelos, autor do clássico Amazonas
No mês de agosto, foi aberta a exposição de Cildo Meireles no Itaú Cultural, em São Paulo. É um dos brasileiros mais bem posicionados no mercado de arte. Depois de participar de uma exposição em Londres e de individual no MoMA, em 1990, passou a fazer parte do circuito internacional, muito antes do “auê” que se faz em torno do trabalho de Beatriz Milhazes.

Pela matéria publicada no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo (perdi a data de quando saiu), A exposição é resultado de uma ideia de mais de 30 anos. Na matéria, Silas Martí diz que Cildo, “num LP, […] decidiu gravar de um lado o som dos maiores rios brasileiros, Amazonas, São Francisco e Paraná. Do outro, orquestrou uma composição de gargalhadas.” Nas palavras de Cildo, “acabou virando um contraponto dessa tragédia que é a morte dos rios. Fica entre essa coisa solene, grande dos rios e a distensão que os rios têm.”

Isso lembra alguma coisa? Pois minha memória remota trouxe à baila um LP lançado pelo percussionista Naná Vasconcelos, em 1973 portanto, alguns anos antes da ideia ter surgido na cabeça de Meireles. Veja a coincidência: o disco se chama Amazonas, e a última faixa, chamada Um Minuto, é… um minuto de gargalhadas. E assim termina.

Por uns bons anos, antes de Naná ficar conhecido fora do Brasil, Airto Moreira reinou absoluto nos polls das revistas especializadas em jazz: ganhava disparado, anualmente, o título de melhor percussionista. Em terras locais, Moreira fez parte do Quarteto Novo, com Heraldo do Monte, Théo de Barros e Hermeto Pascoal. Lançaram um disco em 1967 pela gravadora EMI-Odeon. Depois de mudar para os EUA, o destino deu uma mão ao catarinense: foi tocar com Miles Davis. O outro que chamou atenção do americano foi Hermeto, que teve até música surrupiada. Participou das primeiras formações das bandas elétricas de Chick Corea, gravou discos pela CTI – de Creed Taylor – e tocou com outra estrela brasileira, Eumir Deodato, que ficou conhecido pelo “estrago” que fez com Also Sprach Zarathustra. O genial, cordato nazista e notório pão-duro Richard Strauss deve ter pulado do túmulo: depois que o inglês Stanley Kubrick utilizou a abertura dessa peça em 2001, Uma Odisseia no Espaço, o mundo descobriu que havia um outro Strauss além de Johann, o das valsas.

Na década de 1970, Naná excursionou com o argentino Gato Barbieri (é o autor da trilha de Último Tango em Paris), lançou Africadeus, em 1972, de volta ao Brasil, gravou Amazonas, pela Philips. Dentre as participações nos discos de Milton Nascimento, o ponto alto acontece em Milagre do Peixes (1973). Sua participação é um diferencial. Devido a alguns problemas com a censura do governo militar, a maioria das letras – algumas em parceria com o cineasta Ruy Guerra – foi proibida. Resultado: quase que inteiramente instrumental, o que sobressaem são os vocalises de Milton e os efeitos vocais de Naná. O disco começa com Os Escravos de Jó, com as vozes de Milton, Clementina de Jesus e Naná. É uma “entrada” impactante. Em Carlos, Lúcia, Chico e Tiago, novamente, destacam-se a percussão e os sons que Vasconcelos faz com a voz. A Chamada é o ponto alto: a conjunção dos vocais “desolados” de Milton e a parte percussiva é perfeita.

Quando Naná gravou A Dança das Cabeças (1976) com Egberto Gismonti era artista pronto. Além desse, ambos fizeram o Duas Vozes (1984). Participou de vários do cast da ECM; como líder, lançou Saudades, em 1979.

O ponto alto da carreira de Vasconcelos são os do Codona, lançados pela gravadora alemã. Foram três os discos e três eram os componentes, que formaram essa banda cujo nome vem das duas letras iniciais de cada um: “Co”, de Colin Walcott, “Do”, de Don Cherry, e “na”, de Naná. Walcott era percussionista e citarista; foi um dos componentes, com Ralph Towner, Glen Moore e Paul McCandless, do Oregon. Don Cherry foi um dos expoentes da avant-garde; no início da carreira, tocou com Ornette Coleman e John Coltrane.

Em 1973, época em que foi lançado Amazonas, não comprei. Como todo disco instrumental – imagino que foram prensados poucos – sumiu rapidamente das lojas. Consegui fazer uma cópia em fita-cassete. Ouvi muito, mas fitas magnéticas degradam, e chegou uma hora em que não pude mais ouvir Amazonas. Há pouco tempo, arrumei uma cópia em mp3. Semanas depois, leio a matéria sobre a exposição de Cildo Meireles. É boa ocasião para ouvirmos Naná novamente.

Ouça Um Minuto, faixa final de Amazonas.



O fantástico berimbau cósmico de Naná em seu primeiro disco, Africadeus. É de uma apresentação em Roma, em 1983.



Milton Nascimento canta San Vicente, com Naná.


Gismonti e Naná.