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| Maria Farantouri e Charles Lloyd no concerto em Atenas |
O jazz se realimentava da música pop absorvendo novos ritmos. O selo Blue Note tinha Herbie Hancock, Grant Green, John Patton em seu plantel: era um som mais funkeado, mais “moderno”, absorvendo elementos do soul, do rhythm’ blues e do blues. Eram jovens que reescreviam o gênero com um som mais balançado e menos agressivo que o hardbop ou o “free jazz” de Ornette Coleman e Cecil Taylor. Miles Davis, sensível às mudanças, absorveu as lições de Hendrix, adicionou guitarras e instrumentos eletrônicos e chegou a participar de grandes festivais do rock como o da Ilha de Wight, e radicalizou com o LP duplo Bitches Brew. Charles Lloyd foi tocar com o grupo californiano Beach Boys e com o Grateful Dead, participou de discos do Canned Heat, de Roger McGuinn e The Doors. Deixara o jazz, aparentemente. Reapareceu em grande estilo com os discos da ECM. Entre os fins de 1960 e fim dos 90 continuou ativo, mas pouco aparecendo. Na década de 1980, Lloyd gravou alguns álbuns como líder mas quase sempre tiradas de apresentações ao vivo, como é o caso de Montreux ’82, com Michel Petrucciani, Palle Danielsson e Son Ship Theus.
Pode-se dizer que Lloyd renasceu e foi surfar, não com Brian Wilson, dos Beach Boys, mas numa nova grande vaga, que representou seu segundo apogeu. Vinte e dois anos depois de Fish Out of Water, Lloyd continua a surpreender; e olhe que está com 74 anos.
Agora, no ano passado, lançou Athens Concert, gravação ao vivo na capital grega. Além do trio que o acompanha – Jason Moran ao piano, Reuben Rogers no baixo e Eric Harland na bateria –, nessa apresentação teve como convidados especiais a cantora Maria Farantouri, Socratis Sinopoulos na lira (grega, imagino; não tem nada var com um harpa e é tocado com arco) e Takis Farazis no piano. Numa primeira audição, soa um tanto estranho. Não estamos acostumados a ouvir música cantada em grego. Na entrevista dada a O Estado de S. Paulo, Lloyd a compara a Billie Holiday. Farantouri cantou, quando tinha 16 anos, com Mikis Teodorakis e participou, mais recentemente, de gravações da pianista Elena Karaindrou, compositora de várias trilhas sonoras dos filmes do diretor Theo Angelopoulos.
Depois do choque inicial, constatamos que Charles Lloyd ainda é capaz de nos surpreender. Tanto no sax tenor, seu instrumento primeiro, na flauta ou no tárogató, de origem turca (segundo a Wikipedia, mas parece que foi criado na Hungria, mais ou menos à época em que surgiu o saxofone), que parece uma clarineta, seu sopro é de uma beleza meio etérea e sempre emocionante. Ele faz música para ser ouvida numa situação próxima ao estado de graça. Lembra, em muitos momentos, o John Coltrane de Meditations e A Love Supreme. A voz de Maria é quente e sombria, expressiva e melancólica ao mesmo tempo, algo difícil de descrever.
Athens Concert coincide com a atual situação de crise econômica e política da Grécia. Desde sua criação e independência como um país, no século XIX, períodos difíceis foram frequentes em razão de questões territoriais com seus vizinhos. Mais recentemente, nos anos 1960, passou por um período de uma ditadura militar.
Antes de ser uma intérprete, Maria Farantouri é uma das pessoas que ficaram conhecidas pelo ativismo contra a ditadura. De 1989 a 1993, foi eleita para uma cadeira no Parlamento grego pelo Pasok, partido de tendência socialista. Por essa e outras razões o mais recente disco de Charles Lloyd é emblemático.
Assista a um trecho de Greek Suite, em performance deles na Alemanha.
Há um excerto belíssimo do concerto, que corresponde ao início da apresentação de Athens Concert. Assista.

