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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A primeira vez de Miroslav Vitous com John Surman

Em um dos posts anteriores comentei sobre o impacto da criação do selo ECM, por Manfred Eicher. Foi tão significativo que, se não me engano, a PolyGram, apressou-se em lançar alguns títulos no Brasil. Assim, pudemos conhecer músicos hoje consagrados, como Pat Metheny, Gary Burton, John Surman, Jan Garbarek, Carla Bley, Steve Swallow e muitos outros.

Um dos músicos virou um caso de amor, de minha parte; dele, com certeza, não. Depois de décadas, alimentado por essa paixão, pude vê-lo ao vivo em uma noite fria de São Paulo, no Teatro Sesi-SP, eu mais uns gatos pingados, 50 ou 60 espectadores. Era um dia chuvoso, além de gélido, fora que o show foi pouco divulgado. John Surman veio para divulgar “Invisible Threads” (ECM, 2028), com o brasileiro Nelson Ayres e o vibrafonista americano, radicado em Oslo, Noruega, Rob Waring. Dei uma de tiete, puxei um papo envergonhado depois do show e ainda aproveitei para tirar uma foto com ele.

Foram dois os LPs com participação de Surman lançados no Brasil: “Upon Reflection” (1980), solo dele em overdubs nos sopros e teclados, e “First Meeting” (ECM 1980), de Miroslav Vitous, com ele, o pianista Kenny Kirkland e Jack DeJohnette na bateria. “Miroslav Vitous Group” (1981) foi o segundo, com a mesma formação, e ainda um terceiro: “Jounrey’s End” (1983)). Neste, John Taylor substitui Kirkland.

John Surman, na minha opinião, é o melhor no sax barítono e na clarineta baixo de todos os tempos. Menos presente na cena musical, hoje, morando em Oslo, perdeu o posto de melhor saxofonista barítono, que manteve por décadas, pela revista Downbeat. O terceiro instrumento no qual se destaca é o sax soprano, além da competência em criar climas sonoros nos teclados eletrônicos. Seu estilo é inconfundível. Por essa razão, logo identifiquei onde o tinha ouvido antes: em “Extrapolation” (Polydor, 1969), de John McLaughlin. Comentei isso com ele na noite em que apresentou-se em São Paulo. Disse que muitos de seus fãs falam o mesmo. Sua presença é marcante neste álbum. No ano em que saiu “Extrapolation” já tinha lançado na Grã Bretanha seu primeiro disco como líder.

First meeting. É a primeira reunião de Miroslav Vitous e John Surman. Ao piano, o talentoso Kenny Kirkland — quem conhece a obra de Sting sabe que foi membro de sua banda, junto com outro músico do jazz, Branford Marsalis — e Jack DeJohnette na bateria. Todas as composições são de Vitous, com exceção da música-título, uma criação coletiva.

Pelo começo, iniciada com o piano de Kenny Kirkland, “Silver Lake” é uma preparação ao que ouviremos. É um número com um colorido excepcional, e solos bem distribuídos: o piano discreto mas essencial, solos dramáticos de Vitous com o arco, Surman no saxofone soprano e a bateria politonal do grande DeJohnette. O breve solo de Kirkland no final da faixa é uma preciosidade. Pena que tenha morrido tão cedo, em consequência do consumo de drogas ilícitas.

“Beautiful Place to”, bem melancólica, sem a bateria, é inteira com solo de Surman no soprano e Vitous tocando com arco em uníssono em vários trechos, sobre acordes discretos de Kirkland. A próxima, “Trees”, não entra na minha seleção das preferidas. 

“Cycle” é a primeira em que Surman toca clarineta baixo. O início é com ele e o, mais uma vez, o belíssimo piano de Kirkland. Vitous e DeJohnette entram logo depois. O tcheco é um mestre no arco. Tem um estilo único, inconfundível. DeJohnette também tem um estilo original. Por tocar piano também — e bem — sua capacidade de criar sonoridades na bateria o diferencia da maioria dos bateristas. Outros que têm essa capacidade de produzir sons polifônicos por meio de suas baquetas são Paul Motian e Thomas Strønen.

A seguir vem a música título. Destaca-se aqui o sax soprano de Surman nos solos. A seguinte, sem dúvida, é um dos destaques. “Concerto in Three Parts” é um solo de Vitous. É, com certeza, um dos que melhor tira partido do arco no contrabaixo. “You Make Me So Happy” é uma boa conclusão para esse primeiro encontro desses grandes músicos.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Quando dá tudo certo para Larry Coryell

O jovem Larry Coryell
Quase um mês após a morte de Larry Coryell, depois de ouvir alguns discos com mais de uma centena – imagino – de lançamentos, uma confirmação: atirou para todos os lados e nem sempre acertou. O mérito vai por alguns álbuns marcantes, e são esses que vou destacar.

Pelas notícias, matérias e obituários, Larry será lembrado como um dos pioneiros do jazz progressivo, por meio de sua música na banda Eleventh House. Confesso nunca ter gostado dele nessa fase. Comprei o primeiro – Introducing The Eleventh House (Vanguard, 1974) –, e não gostei. Não me agradou o som de sua guitarra elétrica e nem o som da banda.

O interesse foi por ter gostado bastante de Spaces, lançado em 1970. Contava com John McLaughlin, Chick Corea, Miroslav Vitous e Billy Cobham. Cada um deles eram ou seriam depois parte de bandas importantes do jazz elétrico. McLaughlin tinha gravado o espetacular Extrapolation, participara da banda de Tony Williams e de Miles Davis, e estava montando a Mahavishnu Orchestra, Corea, depois de um auspicioso início acústico, tocava com Miles e gestava a Return to Forever, Vitous era um dos fundadores do Weather Report, e Cobham foi o baterista da banda criada por McLaughlin. Era um grupo estelar, deveras.

Ouça Spaces (Infinity), a primeira faixa. Tudo é genial a partir da abertura do contrabaixo de Vitous no arco, as notas acordes esparsos de McLaughlin para os solos de Coryell.



The Eleventh House, diferentemente, ao contar com Randy Brecker, Mike Mandel, Danny Triffan e Alphonso Mouzon, sinalizava para o brilho único de Larry. Não deu muito certo. Nem chegava aos pés do Return to Forever, Weather Report e Mahavishnu Orchestra.

The Restful Mind, na minha opinião, é o melhor disco de Coryell. São possíveis duas conclusões: sua melhor sonoridade é com o violão, e não com a guitarra elétrica; a outra é a de que abre-se aqui um veio para o seu trabalho posterior, que é a releitura de compositores da música erudita. Em várias faixas, Larry toca composições de Robert De Visée. Pode-se terceira uma terceira conclusão, no entanto, está evidente em Spaces: ele brilha quando acompanhado de bons músicos. É o que acontece com o LP que saiu em 1974. Os músicos são Ralph Towner, Colin Walcott e Glen Moore. Na verdade, até por serem contratados da mesma gravadora, a Vanguard, esse disco é praticamente o Oregon, sem Paul McCandless, com Larry. O som, evidentemente, remete à banda de Towner, mas os dois violões funcionam em perfeita harmonia.

Ouça Robert de Visée’s Menuet II. A guitarra de Coryell, o violão de Ralph Towner, a tabla de Collin Walcott e a marcação do contrabaixo de Glen Moore, tudo é perfeito.




Posso estar enganado, pois sua discografia é muito grande, mas o primeiro disco que Coryell lançou tocando com outro guitarrista é Two for the Road, com Steve Khan. Se for, é uma brilhante primeira vez com outro guitarrista/violonista.

Deixando de lado a preocupação cronológica, Larry gravou vários álbuns em dupla ou em trio com outros guitarristas: Philip Catherine, Emily Remler, Joe Beck, John McLaughlin, Paco De Lucia, John Abercrombie, John Scofield, Kazuhito Yamashita, Badi Assad, dentre outros. Aparentemente, quando tem concorrência, toca melhor.

Um dos melhores shows da primeira versão do Free Jazz Festival, foi a apresentação de Larry Coryell, em dupla com o belga Philip Catherine. Acho que foi em 1978 ou 1979. O repertório era do recém lançado Twin-House. Foi uma bela surpresa para os brasileiros, um tanto por fora da cena mundial do jazz. Foi tanta que originou o surgimento do Grupo D’Alma, um trio de violonistas que fez bastante sucesso. De repente, todo violonista queria ter um Ovation, que era a marca que ambos usaram nas apresentações. Na minha escala Richter, esse álbum fica em terceiro lugar.

Ouça Home Comings, composição de Philip Catherine.



Depois de Twin-House, os dois lançaram Splendid, nem tão bom quanto o primeiro, apesar da sugestão do título. Ainda no formato duo, Larry gravou dois bons álbuns com a boa guitarrista Emily Remler que, infelizmente, morreu cedo. Sobre ela, leia: Por que pouco se falou de Emily Remler?.

Os encontros de violonistas renderam um bocado, assim como os dos tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Placido Domingo. Em formações que variaram, Larry tocou com o espanhol Paco Di Lucia, Al DiMeola e John McLaughlin. Prevaleceu essa formação, mas ele chegou a participar de algumas apresentações, se não me engano, no lugar de DiMeola.

Veja Coryell com McLaughlin e De Lucia em Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá.

 

Releitura de clássicos
A música erudita estava presente no repertório desde The Restful Mind, com temas de Robert De Visée e Maurice Ravel (tinha esquecido dele na primeira parte), com uma estupenda interpretação da Pavane pour une enfant défunte. Posteriormente, foram agregadas outras obras de Ravel, como o Bolero, Vivaldi, Stravinsky, Manuel De Falla, Pablo de Sarasate, George Gershwin e Rimsky Korsakov. Em The Four Seasons (1984), com o violonista clássico Kazuhito Yamashita.

Ouça Pavane pour enfant défunte.



Os outros que conheço, que seguem a vertente erudita são: Boléro (Ravel, De Falla e Sarasate), Scheherazade (Rimsky-Korsakov), L’Oiseaux de feu/Petrouchka (Stravinsky) e Visions in Blue (Ravel e Gershwin), mas nenhum é tão bom quanto As Quatro Estações.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O violão flamenco de Al DiMeola e os Beatles

Uma foto clássica de Al DiMeola
Fala sério! Um cara que faz um disco cujo título é Kiss My Axe merece algum crédito? E ainda mais aparece na capa segurando o violão e uma “maja desnuda” em segundo plano com as duas mãos apoiadas em seu ombro?

Alguma razão obscura me fez sempre ter algumas reservas quanto a Al DiMeola. Vem desde os tempos em que se revelou tocando com Chick Corea no Return to Forever. Acho que era aquela barba aparadinha, aquele jeito mauricinho – atualmente, seria rotulado de “coxinha” –, sempre sério, com aquele olhar – sempre o mesmo, preste atenção – de plástico, por trás dos óculos. Essa é a parte visual. Fiquei impressionado com a “velocidade” da guitarra de Al. Em Romantic Warriors, do Return to Forever, algumas passagens de guitarra são estupendas, deve-se reconhecer. Mas como nem tudo é rapidez – vide roqueiros como Steve Morse e alguns outros de bandas como o ACDC ou Van Halen –, nunca caí de amores por ele. Concordava com o amigo Hilton Raw que dizia ser guitarra estilo Berklee, querendo dizer que todos tocam parecidos: são ágeis e sem alma. O Hilton tinha certa bronca da Berklee School of Music, que chegou a cursar, No meu caso, talvez fosse por gostar mais do estilo de Bill Connors, seu antecessor na banda de Chick Corea.

Certos juízos mudam com o passar do tempo. Dispus-me a “rever meus conceitos” sobre o guitarrista quando ouvi Mediterranean Sundance, com Al, Paco De Lucia e John McLaughlin. O tema é muito bom, e há de se concordar que seus parceiros são excepcionais instrumentistas. Permitiu-me descobrir qual era a de Di Meola. A praia dele era a música cigana e flamenca. Qualquer tema, seja tango, bolero ou uma canção da dupla Lennon/McCartney, tudo vira flamenco. Pelo menos, alguns discos como Diabolic Inventions and Seduction (2007) e All Your Life (2013) me levam a essa conclusão.

Capa de All Your Life (2013)
Onde cabe uma nota, Al toca cinco. É uma overdose. Dedilha com extrema agilidade nas notas médias e agudas e faz a linha do baixo nas cordas graves. O fato de executar os solos de forma sempre parecida, deve deixar seus fãs extasiados. Quem não é vai achar “over”.

Nos últimos tempos tem preferido o violão, em razão, decerto, pela aproximação com o flamenco. Além do excesso de notas dedilhadas, Al faz overdubs nas gravações em estúdio. Como isso é impossível, a não ser recorrendo-se a bases pré-gravadas, ao vivo, muitas vezes apresenta-se com outros violonistas.

No CD dedicado à música dos Beatles – All Your Life (2013) –, algumas interpretações são muito boas, mas ouví-lo inteiro é um tanto cansativo, ou enjoativo, dependendo do ponto de vista, que nesse caso, é meu. Sob o de Jeff Tamarkin, da prestigiada JazzTimes, o álbum é ótimo.

Ouça Because, com belo trabalho de violões e cajón, o instrumento de percussão mais comum no flamenco.



Ouça Eleanor Rigby, a única com orquestra, que, na verdade, é a mesma base da original lançada pelos Beatles.




Sem dúvida, Mediterranean Sundance é uma das grandes composições de Al Di Meola. Confira.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Energia pura com Carlos Santana e John McLaughlin

Santana e McLaughlin na fase mística
Um fato que poucos devem saber ou lembrar-se é que o grupo de Carlos Santana apresentou-se no Festival Internacional da Canção de 1971, no Maracanãzinho, RJ. Diferentemente dos dias de hoje, era raríssimo a presença de artistas de renome em terras brasileiras. Esse festival foi criado pela Rede Globo, quando a emissora não era a potência que é hoje. Maiores que ela, eram a TV Record, a TV Excelsior e a extinta Tupi. O evento surgiu na esteira dos festivais da Record, que revelaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e outros.

Alavancados pelo sucesso estrondoso da apresentação no Festival de Woodstock, a banda de Santana fez uma excursão pela América Latina. Depois do Brasil, iam se apresentar no Peru. Foram deportados (ou expulsos, não sei) porque encontraram alguns quilos de maconha mocozados (era a expressão comum que significava “esconder”) nas caixas de som.

Nos tempos “flower power”, em que a juventude se revoltava contra a guerra do Vietnan e vivia a liberação dos costumes, a filosofia e religiões orientais encontraram seu espaço no mundo ocidental. O inglês Alan Watts foi um dos maiores divulgadores do zen budismo na América. Membros dos Beatles contribuíram para a propagação de seitas indianas e popularização dos chamados “gurus”. O deles chamava-se Maharishi Mahesh Yogi.

Não ficou esclarecido se Carlos Santana parou a consumir a “maldita” ao se converter a uma dessas seitas, ou continuou a usá-la para “elevar-se espiritualmente”, mas por um tempo arrumou também o seu guru. Ligou-se a Sri Chimmoy, passou a chamar-se Devadip Carlos Santana. Outro que abraçou a mesma seita foi John McLaughlin. O inglês tinha se mudado para os EUA em 1969 para participar da banda de Tony Williams. Daí, tocar com Miles Davis foi um passo, levado por Williams, há muito, baterista de sua banda.

Em 1970, lançou Devotion, pelo selo Douglas. Já usando o prenome Mahavishnu e vestindo uma bata clara e com a imagem do guru Sri Chimmoy no porta retrato, na capa, John McLaughlin lançou My Goals Beyond no ano seguinte. Grande disco. Criou a Mahavishnu Orchestra. Na sua formação inicial – a melhor – lançou The Inner Mounting Flame, Birds of Fire e o ao vivo Between Nothingness & Eternity. Os três são parte da melhor discografia básica do jazz elétrico, ou jazz-rock, seja lá do que é chamado.

Unidos pela “fé”, John McLaughlin e Carlos Santana lançaram Love Devotion Surrender, em 1973. Ambos estão de brancos e tentam transmitir certa sensação de paz interior. Emblematicamente, a primeira faixa é Love Supreme, de John Coltrane. A outra do saxofonista é Naima. The Life Divine e Meditation são de McLaughlin, e Let Us Go Into the House of Lord, um “traditional” completam a o disco.

Da fase “oriental” de Santana, um grande disco é o que fez com – note a parcial coincidência – Alice Coltrane, última mulher do compositor de Love Supreme. Ela foi a responsável por sua “virada mística”. Era discípula do guru Sathya Sai Baba e adotara o nome Turiyasangitananda, simplificada para fins artísticos, Turiya. O título do disco não poderia ser mais revelador: Illuminations (1974).

Em 2011, McLaughlin e Santana reeditaram a parceria em Montreux. O nome do álbum? Invitation to Illumination. Depois de 40 anos de Love Devotion Surrender, em outro contexto, Invitation é um convite à iluminação pelo espírito da música, sem gurus no meio. A energia da apresentação dos dois é pura energia. A banda é composta de três guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, um percussionista e um tecladista. Agora, imagine o som. O repertório é uma mistura só e funciona bem. Tem até Stairway to Heaven de Jimmy Page e Robert Plant no primeiro meddley, com um trecho de A Hard Rain’s a Gonna Fall, de Bob Dylan. Incluíram temas de Coltrane como A Love Supreme e Naima, que já tinham gravado em Love Devotion Surrender, e partes de temas de Miles Davis como Right Off e Black Satin.

Veja os dois em The Life Divine.





Naima.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Prato cheio pra quem gostava do Mahavishnu Orchestra

Os membros do radio.string.quartet.vienna
Quartetos de cordas estão associados à música erudita. É uma das formações mais tradicionais da música de câmara. Normalmente são dois violinos, uma viola e um violoncelo. Se a música é uma linguagem aberta, que conversa com seus múltiplos gêneros, natural que surgissem formações tocando música popular com instrumentos da seara erudita. Violinos não são tão estranhos assim. Stephane Grapelli, no jazz, foi o mais conhecido e o trompetista Ray Nance tocava violino e cantava na orquestra de Duke Ellington. Nos dias de hoje, dois violinistas se destacam: Mark Feldman e Regina Carter.

O primeiro quarteto a ficar conhecido interpretando o repertório popular foi o Turtle Island String Quartet, formado em 1985. Tocaram com músicos do jazz e “arranjaram” John Coltrane, Robert Johnson, Jimi Hendrix e Dave Brubeck, dentre outros. Continuam na ativa, mas não se ouve falar deles como antigamente..

Mais recentemente, dois quartetos de cordas se destacam: o Quatuor Ebène e o radio.string.quartet.vienna. O primeiro, formado em 1999, gravou várias obras do repertório camerístico erudito de Fauré, Brahms, Debussy e Mozart pelo selo Virgin Classics. Lançaram um CD – Fiction (2010) – contendo composições da música popular e do jazz.

O radio.string.quartet.vienna grava pelo selo alemão ACT Music. Estrearam com Celebrating The Mahavishnu Orchestra, em 2007. Foi um sucesso. Depois desse, com Klaus Paier, lançaram Radiotree. Em 2011 saiu Radiodream. Desta vez não se restringem a um compositor ou banda: várias são de autoria de Bernie Mallinger, primeiro violino do quarteto, e da violoncelista Asja Valčić, mescladas com standards como Strange Fruit, I Loves You Porgy e Moon River e temas contemporâneos, caso de Nice Dream da banda inglesa Radiohead. Agora em 2013 foi lançado Posting Joe. Celebrating Weather Report. A homenagem a Joe Zawinul é justa: nasceu em Viena.

Não tanto quanto a astro pop David Bowie, John McLaughlin é um “mutante”. Seu primeiro álbum solo foi Extrapolation (1969). Os músicos, como ele, eram todos ingleses: John Surman, Tony Oxley e Brian Odgers. Foi um início excepcional. Logo chamou a atenção do meio musical e tornou-se membro da banda Lifetime, do baterista Tony Williams. Passou a tocar com Miles Davis e participou de uma série de gravações: Jack Johnson, In a Silent Way, Get Up With It, Bitches Brew e de vários álbuns lançados posteriormente com gravações do tempo em que colaborou com o trompetista. Era, como disse uma vez, um “doidão” que vivia tropeçando em fios e cabos no palco. Ligou-se ao guru Shri Chinmoy e, não sei se parou com as drogas, mas mudou. Lançou Devotion e My Goal’s Beyond pela Douglas Records. São discos mais calmos, com toques orientais. Já bem devoto do guru, criou a Mahavishnu Orchestra e gravou também um disco com Carlos Santana, que, convertido à tal religião – ou seita – de Sri Chinmoy, acrescentou Devadip como primeiro nome. Na capa de Love Devotion Surrender vemos duas pessoas de branco com aparência serena. Não sei se Santana, que até então tinha consumido algumas toneladas de marijuana, parou momentaneamente com a droga. Não deve ter não. Seu álbum gravado com Alice Coltrane – Illuminations (1974) – é viajante. Parece uma viagem de ácido com água benta (bem sujinha) do rio Ganges.

Na onda do fusion, músicos que fizeram parte da fase elétrica de Miles Davis seguiram caminhos próprios. Chick Corea montou o Return to Forever, Herbie Hancock, os Headhunters, Joe Zawinul e Wayne Shorter o Weather Report, e McLaughlin montou a Mahavishnu Orchestra. Na primeira formação era ele nas guitarras, Jan Hammer nos teclados, Rick Laird no baixo, Jerry Goodman no violino, e Billy Cobham na bateria. Os dois primeiros álbuns são clássicos do fusion ou do jazz rock, como também era designada a música de improviso com instrumentos elétricos: The Inner Mounting Flame (Columbia, 1971), e Birds of Fire (Columbia, 1972). O terceiro, muito bom também, de uma energia tremenda, é o ao vivo Between Nothingness and Eternity, gravado no Central Park, em 1973. Foi o fim da melhor formação. O mutante John mexeu na banda dando-lhe um som mais orquestral em Apocalypse (1974), com a regência de Michael Tilson Thomas. É bom, mas sem mais a energia tensa e densa dos primeiros. John “reativou” a Mahavishnu algumas vezes em anos posteriores.

A “celebração” à música da Mahavishnu Orchestra do radio.string.quartet.vienna, sabiamente, se resumiu aos três primeiros álbuns. São leituras poderosas e captam a energia dessa banda.

Veja um registro de Meeting of the Spirits. Nessa apresentação, o trombonista Nils Landgren participa. Na gravação original é só o quarteto.




Veja apresentação da Mahavishnu Orchestra na BBC tocando Meeting of the Spirits e You Know You Know. As duas faixas são do primeiro álbum.




Veja também Dawn.




Veja o quarteto tocando Dawn em registro lançado em DVD.




Ouça Inner Mounting Flame na íntegra.




Ouça o álbum Birds of Fire.