quinta-feira, 11 de abril de 2019

A bateria única de Thomas Strønen

Dentre as atrações da edição de 2018 do Sesc Jazz, um dos destaques foi Thomas Strønen. Como sempre, generoso na diversidade, trouxe músicos veteranos (Archie Shepp e Charles Tolliver), atrações de bom apelo comercial (a espanhola Buika e Omar Sosa), estabelecidos (Renee Rosnes), o razoavelmente jovem e bem conhecido no Brasil, Stefano Bolani, avant garde (Henry Threadgill e James Blood Ulmer), rising stars (Melissa Aldana e Lourenço Rebetz, autor do excepcional “Corpo de Dentro”), e Vijay Iyer, considerado pela crítica, o melhor pianista da atualidade. Foram muitos atrações e acabei não citando Fred Frith, Mike Moreno e Itiberê Zwarg. Por preguiça, vi poucos, mas Strønen foi um deles, em razão de ter gostado muito de “Lucus”, seu álbum mais recente pela alemã ECM.

Ele se apresenta com um arsenal percussivo. Não é um baterista ao estilo de Art Blakey ou Max Roach. Mais no estilo ECM, privilegia-se o melódico em vez do ritmo. Influencia para o som original da banda a inclusão de um trio de cordas: Håkon Aase ao violino, Leo Svensson no violoncelo, no lugar de Lucy Railton, e Ole Morten Vågan no contrabaixo, e a excelente Ayumi Tanaka, que extrai belos sons ao piano, em prefeita consonância com a proposta de Strønen. É praticamente um conjunto de câmera, o que o aproxima da música erudita.

Os que acompanham as carreiras dos músicos nórdicos, percebem que existe uma linguagem muito característica. Há uma associação, não sei se real, de que, por viverem em regiões muito frias, o som que, fazem também é. Há uma lógica, imagino, como quentes são os ritmos caribenhos ou africanos.

Não é a primeira vez de Strønen no Brasil. É mais um que vem ao Brasil que, por falta de divulgação, nem ficamos sabendo. O baterista/percussionista interage com o público, sempre fazendo uma introdução explicativa de cada música. Assim, ficamos sabendo que o título de seu álbum anterior – “Time Is a Blind Guide” – foi tirado de uma frase de um romancista canadense, que agora não lembro seu nome. Tem algo a ver com a sonoridade da banda. O tempo é uma “blind guide”. É uma forma poética de dizer que somos guiados pelo acaso, e nos leva a um mundo desconhecido, por uma lógica chamada destino.

Destaco os dois últimos álbuns por apresentarem perspectivas semelhantes. Em “Time Is a Blind Guide” (ECM, 2015), o trio de cordas é composto por Håkon Aase (violino), Lucy Railton (violoncelo) e Morten Vågan (contrabaixo), acrescido do piano de Kit Downes, e a participação de Øyunn Kjenstad e Steiner Mossige na percussão, em algumas faixas. Nesse álbum, a última faixa se chama “Simples”. É uma palavra em português. Imagino que a ideia do nome tenha surgido depois de ter conhecido o Brasil. É um chute, ou, uma hipótese.

Em “Lucus”, lançado em 2018, participam os mesmos três nas cordas, com a pianista Ayumi Tanaka, claro, além de Strønen. Na minha opinião, é melhor que o anterior, em razão de os músicos, fora Tanaka, estarem a tocar juntos há mais tempo. Afinal, o tempo é um bom guia.


Assista à banda, em “Lucus”, um dos destaques do útimo álbum.




Fiz uma playlist no Spotify com algumas das minhas preferidas. Começa com a bela “Pipa”.


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